Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

E-NOTíCIAS > ESTADÃO vs. BLOGS

Produtores de informação também são consumidores

Por Rogério Christofoletti em 04/09/2007 na edição 449

Só agora sistematizei minhas idéias do que li, vi e ouvi sobre o debate na TV Estadão, referente a Responsabilidade e Conteúdo Digital.

Inicialmente, me chamou muito a atenção o título da mesa-redonda: ‘Responsabilidade’… ‘Conteúdo Digital’… Ressoa as preocupações anteriores do Estadão – quando, por exemplo, lançou seu brevíssimo código de conduta online – e não trata diretamente da questão que motivou o próprio debate: Credibilidade. (É só lembrar a campanha publicitária que enaltecia o jornal em detrimento de sites e blogs…)

Não vi o debate ao vivo. E foi bom. Me permitiu pensar com calma.

Assisti depois ao vídeo deixado no YouTube, cujo arquivo não traz a totalidade da discussão, mas que dá uma boa visão geral.

De início, destaco algumas questões levantadas:

** Vivemos uma adolescência da internet no Brasil?

** Com todo o mundo sendo produtor, emissor de informação, está faltando receptor?

** Tem muito lixo na blogosfera?

** A blogosfera só tem lixo?

** Há tanto lixo na blogosfera porque falta qualidade no receptor?

Blogosfera vem crescendo

Sinceramente, não sei se estamos numa puberdade da internet no país. E nem me interessa saber disso, ou tentar classificar a coisa nesses termos. Não acredito que a mera taxonomia resolva muitas questões. Não acho que, ao menos, nos possibilite entender melhor o cenário mutante que vivemos. De qualquer forma, é muito infantil reverberar o segundo questionamento acima.

Ora bolas! Jornalistas são produtores de informação, certo? Certo. Mas também se informam, lêem livros e jornais, conversam, pesquisam, buscam dados e assistem à TV. Quer dizer: são consumidores de informação também. Trocando em miúdos: a vigência de um estado não elimina o outro. Produtores de informação também são consumidores, são receptores e emissores. Se isso já acontece com a mídia tradicional, a interpenetração das personas se agudiza mais na web, na blogosfera, facilitada pelas condições de difusão de informação e pelo acesso razoavelmente fácil a muitas outras.

Então, é uma tremenda idiotice temer que falte público porque ‘todos estão se tornando emissores, todos estão virando blogueiros’. Até porque todos NÃO estão se tornando blogueiros. Isso é uma ilusão. Basta levantar números da internet no país e no mundo, basta cotejar com dados de alfabetização e indicadores sociais, sanitários e de mobilidade. O mais próximo é dizer que a blogosfera vem crescendo muito nos últimos tempos, em tão poucos anos, o que nos dá a impressão de um dia todos terem a possibilidade de contribuir para isso.

Lixo é irremediável

Daí, já passo para as duas questões seguintes, as do lixo demasiado na web.

Toda a raiva que li e ouvi pelos blogs nas semanas de ofensiva contra a campanha do Estadão parecia ter escorrido pelo ralo. Os blogueiros na mesa-redonda eram uns lordes, autênticos aristocratas que se deleitavam em franca tertúlia. Vários chegaram a dizer que concordavam com a campanha e que havia mesmo muito lixo na blogosfera. O máximo que se falou foi um ‘merda’ e um ‘puta’, ambos vocalizados pela única moça na mesa, a Bruna Calheiros.

Quer dizer: mal andaram pelo tabuleiro e já caíram na primeira armadilha. Ao aceitar aquela pérola – afinal, onde não há lixo? Nos jornais? Na TV? Na academia? No Congresso Nacional? –, ao convir com seus interlocutores, permitiram que o debate seguisse para uma via mais moralista e higiênica do que propriamente discutisse credibilidade e padrões de confiabilidade.

O problema não é o lixo, senhores! Mas sim o que se faz com ele.

O ser humano produz lixo irremediavelmente. E esse subproduto é cada vez maior per capita no mundo. E isso é irreversível. O que se tem que pensar é o que fazer com isso, de que forma transformar o descartável em aproveitável.

Heterogeneidade é característica

O lixo, a irrelevância, o substrato faz parte do processo de produção. Cabe aos blogueiros e aos leitores triarem, selecionarem, escolherem. Alguém aí poderá dizer: mas a quantidade de lixo polui, atrapalha a escolher. Talvez, mas ela é inerente ao sistema. O blog de qualidade precisa do ruim para se destacar. E há leitor que não está atrás do blog de qualidade, mas quer ler coisas pessoais, paranóias, piadas sem graça, coisas absurdas, sandices. Ora, que deixem o lixo!

É preciso observar em torno do lixo e ver que condições o tornaram descartável, diferentemente de outras coisas. (Neste meu blog, por exemplo, posto de tudo. Inclusive o que podem considerar lixo. Aliás, não definiram lixo no debate, mas ficaram repetindo – como papagaios – o exemplo do blog que fala do papagaio…)

Essa heterogeneidade é própria, característica do sistema. A própria mesa-redonda do Estadão poderia ilustrar o que digo. Havia blogueiros altamente articulados, se expressando com facilidade e com segurança, trazendo à tona dados e exemplos, e havia blogueiros que alimentavam a estereotipia dos escritores-de-diário-adolescentes. Assim como em uma mesa de bar, rodeada por jornalistas (situação meramente hipotética), veremos jornalistas que transmitam credibilidade em suas piadas e jornalistas totalmente sem graça.

Tema da credibilidade

Mas, voltando ao tema da credibilidade para blogs, Pedro Doria pareceu tatear no escuro e encontrar algo que pode ser ouro ou apenas uma pedra reluzente. Ele lembrou que jornalistas se preocupam com a divisão Igreja-Estado em seus meios, e que – de maneira geral ou ideal – separam conteúdos editoriais/noticiosos de publicitários/propagandísticos. Doria dá a entender que talvez os blogueiros se devam preocupar com isso também, e que não apenas se seduzam com os adsenses da vida e com a rápida monetização de seus blogs. Particularmente, gosto de pensar que a credibilidade passe por aí, mas não me convenço totalmente. (Acho que Doria também não apostaria nisso como a chave para o sucesso, mas um fator entre outros). Esses tempos, publiquei um artigo resultante de pesquisa financiada pelo UOL sobre credibilidade na blogosfera. Estou escrevendo outros dois. E as minhas conclusões apontam para um emaranhado complicadíssimo de se desatar.

Em algum momento do debate, mais para o final, Gilson Schwartz chegou a nos lembrar de que reputação era mais do que números, que era mais do que ser linkado muitas vezes e aparecer entre os primeiros resultados de uma busca no Google. Concordo, mas essa confusão não é originária das novas mídias. A própria noção de campeões de audiência na TV se apóia na quantidade medida e projetada de aparelhos receptores sintonizados num mesmo canal, num determinado horário. Isto é, o sujeito pode estar dormindo diante da TV, mas é contado como ponto no Ibope. Claro, é uma distorção. Mas ela é inerente ao sistema. Com isso, ainda confundimos audiência com satisfação, quantidade com qualidade…

Por isso, a discussão sobre credibilidade na blogosfera foi apenas arranhada no debate transmitido pela TV Estadão. A mesa-redonda também não serviu para colocar os pingos nos is na trombada entre Estadão e blogs. Talvez nem tenha sido mesmo a idéia. Talvez a estratégia tenha sido mesmo não cooptar a parte descontente, mas replicar o assunto, fermentá-lo, e com isso fazer ecoar a polêmica. Pois gera conteúdo, opiniões de réplica sobre tréplica etc. Boa parte dos blogueiros à mesa gravitou em torno do desgaste produzido pela campanha da Talent, quando, na verdade, ela é periférica, colateral. A campanha trouxe à tona um assunto para ser levado adiante. João Livi, o diretor da agência, deveria estar à mesa apenas para cumprir tabela, porque se não estivesse teria blogueiro chiando. Os participantes poderiam ter se concentrado mais no tema da credibilidade, não para satisfazer o Estadão ou quem quer que seja. Este é um assunto da maior importância e interesse, inclusive de quem produz lixo.

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Jornalista, professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univale) e coordenador do Monitor de Mídia, integrante da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi)

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