Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Prostituição, jornalismo e internet

Por Alexandre Cruz Almeida em 13/04/2004 na edição 272

Na segunda semana de fevereiro, o jornal O Globo denunciou um escândalo na praia de Copacabana: agenciadores ofereciam aos turistas verdadeiros catálogos de garotas de programa à la carte. Surpresa, a sociedade reagiu: já no dia seguinte, vários agenciadores foram presos e licenças de barraqueiros suspeitos de conivência foram apreendidas.

Naturalmente, o escândalo só surpreendeu quem nunca navegou na internet, ou mesmo folheou os classificados do próprio jornal que fez a denúncia.

Classificados que vendem

O Globo publica diariamente cerca de 100 a 150 anúncios de acompanhantes e de termas. O mais simples sai por 49 reais ao dia, enquanto um anúncio de quatro colunas por custar até 500 reais.

Na quinta-feira (4/3/04), por exemplo, havia 120 anúncios simples e 24 de variados tamanhos. Estimando todos os valores por baixo, esses ¾ de página deram uma renda bruta de cerca de 11 mil reais ao jornal. Vale lembrar que aos sábados e domingos os preços são consideravelmente mais altos.

Não chega a ser rufianismo e exploração ao lenocínio, claro – crimes nos quais o agenciador da praia foi enquadrado –, mas não podemos deixar de reparar que a publicação deve lucrar muito mais com a prostituição do que os atravessadores que andam pela orla do Rio oferecendo garotas de programa aos turistas. Pior, O Globo ganha sempre; o pobre agenciador só se conseguir fechar o programa.

Dá para entender porque Miriam, de 20 anos, estava revoltada com a reportagem: ‘Essa é a empresa que mais divulga e dá cobertura à prostituição!’

Mencionamos O Globo somente porque a denúncia partiu dele. Outros grandes jornais do Rio adotam as mesmas práticas, como o Jornal do Brasil, O Dia e Extra.

Caderninhos na internet

Cheira a uma grande hipocrisia armar tamanho circo na mídia e junto à polícia por conta de caderninhos com fotos de garotas de programa, cujo conteúdo é idêntico ao de milhares de sites que existem por aí. Hoje em dia, qualquer garota de programa acima da linha de pobreza já conta com seu próprio site na web.

Kelly, de 19 anos, tem sua página há três anos, hospedada no site de uma pequena agência de modelos carioca. Ela paga 50 reais por mês à agência para manter sua página no ar, e só: de resto, Kelly trabalha por conta própria.

Por enquanto, somente 20% dos seus clientes chegam pela internet, localizando Kelly ou a agência por intermédio de mecanismos de busca. Os outros 80% encontram Kelly pelos classificados de O Globo.

O custo dos anúncios é pesado, mas Kelly não tem outra opção. Em geral, os clientes vêem seu anúncio no jornal, se interessam, vão ao site, abrem as fotos, gostam e só então ligam para marcar o programa. Não poderia haver melhor exemplo da integração entre nova mídia e mídia tradicional.

Marta, de 26 anos, também trabalhando por conta própria, poderia dar algumas boas dicas à Kelly: a página de Marta fica dentro do site da Destack, conhecida agência de modelos. Como a Destack aparece bem nos mecanismos de busca, quase todos os clientes de Marta hoje já chegam pela internet e ela está progressivamente deixando de anunciar nos classificados. Afinal, a matemática é simples: Marta paga 60 reais por mês à Destack para manter a página no ar, enquanto o anúncio mais barato sai por 49 reais ao dia.

Nem todas as meninas, entretanto, hospedam suas páginas em agências.

Fabyana de Castro, 27 anos, a única das meninas com quem falei que aceitou se identificar, tem domínio próprio e um site luxuoso e muito bem acabado. Pudera: Fabyana atende no Rio, São Paulo e Brasília, acompanha executivos ao exterior e sua hora custa 200 reais. Para ela, o site tem-se revelado um excelente negócio: ‘Fica mais fácil de o cliente te encontrar e de marcar. Ele faz tudo sozinho. E ele te vê!’ Não só o cliente pode conferir várias fotos, de várias partes do corpo de Fabyana e de vários ângulos, como pode fazer tudo isso com privacidade e sem medo de ser identificado por binas ou celulares.

O fim do atravessador

A internet permite que, com um investimento irrisório, as moças possam ser encontradas facilmente pelos clientes sem precisar de atravessadores, rufiões ou anúncios nos classificados. O próprio delegado da extinta Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas, Júlio César Mulatinho, confirma a tendência: ‘Com o lançamento de seus sites [as prostitutas] começam a fugir da figura do agenciador’.

Pesquisas recentes sobre comércio eletrônico comprovam que, mesmo quando a compra não é efetuada online, a decisão de compra é muitas vezes feita na internet. Para produtos mais sofisticados e consumidores idem, como carros de alto luxo, estima-se que quase toda compra inclui algum elemento de pesquisa ou comparação de preços e acessórios pela web.

Profissionais do sexo como a Fernanda e a Kelly estão descobrindo que seus clientes também tomam suas ‘decisões de compra’ online.

Pouco a pouco, à medida que os mecanismos de busca ficarem mais sofisticados, e os clientes forem aprendendo as vantagens de escolher suas acompanhantes pela internet, pode ser que os classificados dos jornalões fechem por pura falta de anunciantes.

Prostituição não é crime

Criada pela Polícia Civil em janeiro deste ano, a extinta Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas tinha como objetivo fiscalizar o funcionamento de estabelecimentos de lazer e, dentro disso, questões sobre documentação irregular, apologia às drogas, condições de segurança e faixa etária dos freqüentadores. Investigar esquemas de prostituição era somente uma das atividades da Divisão, mas não o foco principal, conforme o então delegado responsável, Júlio César Mulatinho.

Em fevereiro, a preocupação com o número de roubos a turistas fez a Divisão intensificar operações contra exploração sexual na orla da cidade.

Mulatinho informou que, de acordo com a nossa lei, a prostituição não é crime. Os artigos 227 a 230 do Código Penal estabelecem que crime é mediar, induzir, facilitar ou tirar proveito da prostituição alheia.

Infelizmente, um crime muito difícil de provar, pois depende quase que só da palavra das próprias prostitutas. Se disserem que o rufião é apenas um amigo, explicou o delegado, haverá pouco que a polícia possa fazer.

Por fim, Mulatinho confirmou a tendência atual de as meninas se organizarem em cooperativas, para não depender de mais ninguém. E fez uma ressalva: ‘Se a cooperativa tiver uma cabeça, mesmo que também prostituta, ela pode ser presa.’

A Divisão de Fiscalização de Diversões Públicas foi fechada em março, apenas três meses após ser criada, por causa de denúncias de irregularidades por parte de comerciantes.

Globalização do sexo

Soraya, 32 anos, mãe de dois filhos, começou faculdade de Astronomia, mas desistiu: ‘Muita matemática’. Exibicionista nata, ela passava suas noites em salas de bate-papo provocando os homens. Depois que comprou uma webcam, câmera que transmite imagens ao vivo pela internet, passou a provocar muito mais a platéia cativa. Um dia, desempregada, ouviu de uma amiga que poderia ganhar muito dinheiro para continuar fazendo o que já havia feito de graça tantas vezes: ‘A única diferença pra mim foi que passei a mostrar o rosto’.

Para preservar o anonimato das modelos, esses sites são, em sua maioria, vetados aos brasileiros: ‘Temos como bloquear os endereços de IP do Brasil’, explica Soraya.

Os clientes entram em salas de bate-papo e começam a conversar com as modelos disponíveis, via teclado, microfone ou webcam. As modelos fazem o que podem para excitar o cliente, o que não é muito difícil. Difícil mesmo é manter o diálogo picante em inglês fluente, ‘mas isso elas vão aprendendo no serviço’.

Devidamente excitado, o cliente precisa então comprar um show ao vivo para poder ver mais. Em média, o preço mínimo é de 30 dólares por cinco minutos. Caso o cliente seja mais pobrezinho, ele pode comprar um show pré-gravado por 1 dólar o minuto.

O show ao vivo é relativamente simples: sob as instruções do cliente ou não, a modelo lambe aqui, passa o dedo ali, enfia um objeto acolá. Vale o consenso: as modelos não são obrigadas a fazer nada que não queiram, e os clientes sabem disso.

Dependendo das regras do estúdio brasileiro, as modelos podem ganhar salário fixo, comissão ou ambos. Os turnos são de oito horas, mas como o trabalho é relativamente tranqüilo, muitas dobram. As mais diligentes faturam cerca de 4 mil reais por mês.

Os estúdios evitam contratar prostitutas, pois elas tendem a passar mais tempo tentando marcar programas do que atiçando os clientes para os shows ao vivo. Todas as modelos do estúdio que visitei tinham algum tipo de ‘amigo’ estrangeiro que conheceram através do site, dos quais recebem todo tipo de presente. No dia da entrevista, chegou pelo correio um bracelete para Soraya, de um cliente agradecido.

Ela mesma ficou pouco nessa vida. Em menos de dois meses de shows ao vivo, conheceu seu atual namorado pelo site e ele pediu para que ela passasse para trás das câmeras. Soraya transferiu-se para a parte administrativa e hoje é gerente de um próspero estúdio na Barra da Tijuca, onde trabalham 21 meninas em três turnos diários, 24 horas por dia. Ela e o namorado planejam se casar até o final do ano.

Soraya sabe que a linha entre o seu negócio e a prostituição é tênue: ‘Afinal, é sexo por dinheiro, mas 100% seguro’.

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Colunista da Tribuna da Imprensa, e mantém o blog Liberal Libertário Libertino (http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com/)

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