Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Quem tem medo da internet?

Por Joel Felipe Guindani em 02/06/2009 na edição 540

A internet isola, aliena, leva à depressão, ao suicídio, enfim, a toda a espécie de eventos horríveis? Ou pelo contrário: a internet é um mundo fantástico de liberdades, de novas interações, novas amizades, onde todos se amam, (re)ligam-se e formam inúmeras comunidades? Certamente, sempre haverá mais questões do que respostas. Até mesmo os poucos estudos já realizados não convergem para um único caminho. Como nos alerta o professor brasileiro Dênis de Moraes, tais estudos trafegam em alguns dos extremos: ou a internet aliena, por um lado, ou liberta, por outro. Eis o tênue limite entre o medo e a esperança que tal meio proporciona.

O que de fato é indiscutível é que de alguma maneira o advento da internet trouxe consigo novas potencialidades que vão para além da esfera ou da ordem individual, de um círculo limitado de pessoas. Sendo mais preciso, a internet revela-se como espaço de socialização do conhecimento e de novas configurações para o convívio social.

Por um longo período de nossa existência, as formas de contato humano estendiam-se no espaço limitado do ‘ver’, do poder ‘tocar’ e do ‘sentir’ fisicamente. Percebe-se que o contato físico era o condicionante propulsor de nosso universo societário. As formas de interação social limitavam-se à esfera do ‘face-a-face’ ou a conexões sociais estabelecidas somente em circunstâncias de ‘co-presença’, como salienta Antony Giddens. A vida cotidiana, arraigada na co-presença, do contato ‘olho-no-olho’, foi, até certo período, a única forma de efetivação ou exercício de nossa sociabilidade.

Aditivo quase instantâneo

Com a chegada da internet, acontece uma expressiva reconfiguração nesta realidade até então mais estável, previsível e delimitada. A emergência desse meio de comunicação congregou inéditas possibilidades de interação social, até então jamais vivenciadas por qualquer época humana.

Atualmente, nossas vidas são tecidas em uma nova sociabilidade, agora também sócio-técnica, à distância, onde as fronteiras e limites impostos pela nossa condição humana abrem espaço para novos alargamentos de possibilidade infinita.

Para o professor Luiz Carlos Lopes, hoje, sobretudo via internet, vêm se construindo novos tipos de comunidades, por vezes absolutamente virtuais, isto é, sem qualquer contato físico entre as partes, ou ainda, mistas, onde o contato virtual é acompanhado pelo encontro real e concreto. Podemos inferir, desta forma, que o uso da internet alterou, igualmente, o sentido das comunidades tradicionais. Não podemos negar que a virtualização de algumas comunidades cresce no momento em que as comunidades reais e concretas estão em crise, cada vez mais profunda. Isto tem imensas implicações na formação das consciências, que não navegam mais em território sólido.

O que, por vezes, na condição face-a-face, limitava nossa curiosidade de transcender, de ir além do que prevíamos ser possível, pode ser facilmente rompido num piscar de olhos ou num ‘clicar’, como nos sugere tal tecnologia. O que até então somente poderia ser conhecido através da interação humana ganha um aditivo rápido e quase instantâneo.

Torpedos via celular ou scrap

Eis o esplendor deste meio de comunicação, que ao avanço dos tempos não se torna apenas uma tecnologia, instrumento ou extensão puramente mecânica. A tecnologia, diz Martin-Barbero, remete hoje, não a alguns aparelhos, mas, sim, a novos modos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escritas.

Para Manuel Castells (2003), referindo-se especificamente à internet, esta tecnologia é mais que uma tecnologia, dela emanam múltiplas possibilidades que instauram novas dependências, as quais vão se transmutando geneticamente em nossa forma de ser e de conduzir a vida. Basta imaginarmos o caos humano se a conexão ‘www’ (World Wide Web) fosse interrompida. Certamente, não apenas os fluxos financeiros entrariam em colapso, como também toda a sociabilidade passaria por conseqüências imprevisíveis. Mesmo aqueles que não possuem o acesso à internet estariam recebendo em seus aparelhos de rádio, TV e outras mídias, notícias nada agradáveis.

Outra reflexão muito aguçada entre os teóricos do ciberespaço diz respeito aos muitos movimentos sociais de massa que emergiram e ganharam novo fôlego a partir das potencialidades oferecidas pela internet. Em meados da década de 1990, o movimento zapatista, do México, mobilizou a imaginação popular pelo mundo todo, congregando apoio para sua causa através das redes eletrônicas. Da mesma forma, novos movimentos surgem, agregando adeptos em todos os continentes, disparando gritos de ordem através de torpedos instantâneos via celular ou scrap etc.

Espaço que nos projeta para o mundo

Se no ciberespaço surgem os militantes virtuais, descaracterizados de uma ação real, como criticam alguns estudiosos, temos que considerar por outro lado, que muitos movimentos sociais – mesmo os avessos ou descrentes das potencialidades revolucionarias da internet – expandem-se e movimentam-se hoje por um espaço até então regulado e legislado por uma minoria: o espectro televisivo e radiofônico. Como exemplo: o MST há mais de 25 anos almeja uma concessão radiofônica, mas até o momento, empilham-se pedidos indeferidos pelo Ministério das Comunicações. Por outro, perde-se a conta dos sites e blogs existentes que defendem a sua causa.

Para finalizar, ressalto a importância de que a internet é a maior potencialidade de conexão do ‘local’ com o ‘global’. A qualquer hora e de qualquer lugar podemos comunicar ao mundo sonhos e idéias que até então não cruzavam o nosso próprio quintal, bairro ou cidade. Ações locais ganham peso e maior capacidade de amplitude, fazendo, como salienta Foucault, com que o poder não se concentre em apenas um lugar ou em uma única fonte.

Vai-se, aos poucos, um tempo em que vozes eram facilmente caladas por regimes selvagens de censura. Por isso, sou otimista em crer que a internet irá se consolidando como espaço onde a liberdade de expressão também possa fluir em sua forma mais autêntica e legítima possível. O pensador italiano Gianni Vatimo reforça a tese de que a internet pode também ser um espaço para se fortificar o envolvimento e a pertença entre sujeitos. A internet deve ser, diz ele, ‘uma comunicação em que seja cada vez mais intenso o sentimento de comunidade de sujeitos que nela se encontram envolvidos’.

Neste tempo de internet, muitas dúvidas nascem da mesma forma que se multiplicam os espaços de discussão, de difusão da crítica e de mobilização contra tudo aquilo que oprime a condição humana. Certamente, ainda pouco conhecemos do muito que a internet transformou e pode transformar. Enfim, quem tem medo da internet? Vamos adiante, à frente, estudando, ocupando, produzindo e transmitindo ideais de vida através deste espaço que nos projeta para o mundo.

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Editor de jornalismo, mestrando em Comunicação na Unisinos e bolsista Capes

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