Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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Redes sociais e mobilização popular

Por Regiane Santos em 08/02/2011 na edição 628

A pós-modernidade trouxe à cena uma nova forma de relacionamento mesclada à comunicação interativa que incita à mobilização popular: as redes sociais. Milhões de pessoas interagem com esta nova ferramenta digital popularizada através da cibercultura propagada pela Web 2.0, difundida, especialmente, pelo facilitado acesso em dispositivos móveis, que vão desde os ‘obsoletos’ smartphones até os ‘modernos’ iPads. Segundo números mensurados em 2009 pela empresa The Nielsen Company, 500 milhões de pessoas encontravam-se, naquele ano, interligadas pelo Facebook.

A pesquisa ainda aponta para uma surpreendente perspectiva: até o próximo ano (2012), um bilhão de internautas deve ali interagir. Com a permanente conectividade garantida pela acessível mobilidade, este universo virtual integrou-se à rotina de uma considerável parcela da sociedade. ‘A internet processa a virtualidade e a transforma em nossa realidade, constituindo a sociedade em rede, que é a sociedade em que vivemos’ (SILVA, Kátia Cristina dos Reis, 2010).

Através daquela nova ferramenta, atores sociais estabelecem diálogos virtuais alicerçados no capital social. A professora Raquel Recuero, do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Centro de Educação e Comunicação da UCPel/RS/BR, associa este conceito ao compartilhamento de princípios entre indivíduos. ‘Essa ideia foi discutida por inúmeros pesquisadores e foi, quase sempre, associada aos valores conectados com o pertencimento a um determinado grupo. Por exemplo, o fato de você jogar futebol todo o domingo com um grupo de amigos dá acesso a valores específicos. O primeiro e mais óbvio deles é a possibilidade de divertir-se com o grupo. Ora, futebol é um esporte coletivo, que só pode ser jogado se um grupo de pessoas entra em acordo e participa do jogo. Outro valor poderia ser, por exemplo, a informação a respeito dos próximos jogos, que circula dentro do grupo e que permite que você continue a jogar. As amizades que podem surgir do jogo e passar a outras esferas também são um valor. Até mesmo ser convidado para tomar uma cerveja depois do jogo com o grupo é um valor. Assim, fazer parte de um grupo dá acesso a todo um conjunto de vantagens, o que é chamado capital social’ (RECUERO, Raquel, 2009).

Os rumos da lógica do poder

Embora a insaciável sociedade do consumo, alimentada pelo desenfreado capitalismo da pós-modernidade, tenha propagado o exacerbado individualismo, as redes sociais parecem ter motivado o ressurgimento do ideal iluminista da democracia pelo mundo. Determinada a não mais aceitar as decisões tomadas pelos governantes, a sociedade pós-moderna rebela-se nas ruas através de manifestações pacíficas ou até mesmo violentas, organizadas nas redes sociais. Na Tunísia, onde um regime do presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado em dezembro passado após uma onda de protestos populares contra a falta de democracia no país. ‘A facilidade de comunicação interpessoal, por meio de dispositivos eletrônicos, leva as pessoas a compartilhar cada vez mais as suas frustrações políticas, criando condições para o surgimento de explosões de descontentamento que fogem inteiramente aos padrões políticos convencionais, o que tem deixado as autoridades desnorteadas’ (CASTILHO, Carlos, 2011). Atualmente, acompanhamos, minuto a minuto, detalhes da tumultuada crise política no Egito, intitulada pelo jornal Folha de S.Paulo como ‘Revolta árabe’.

Manuel Castells, sociólogo espanhol que dá aulas na University of Southern California, também acredita que redes sociais alteraram os rumos traçados pela lógica do poder, anteriormente ditada especialmente por políticos, mercado econômico e veículos de comunicação. ‘Já não se pode fazer política se não se levar em conta a crescente autonomia e o dinamismo da sociedade.’

Potencializar a repercussão

Esta nova dinâmica global chegou até Pedro Leopoldo, cidade com 58 mil habitantes que integra a Região Metropolitana de Belo Horizonte (Minas Gerais). O movimento ‘KDÊ PL’, iniciado no Facebook, levou mais de 150 cidadãos às ruas para protestar pacificamente contra a situação em que se encontrava a cidade. De acordo com os integrantes do ‘KDÊ PL’, Pedro Leopoldo estava, até 26 de janeiro, dia da passeata pelas vias da região central, com ruas esburacadas, sujas e sem capina, além de bueiros entupidos. Uniformizado, com camisas pretas estampadas com sua logomarca e um ponto de interrogação sob seu nome, o ‘KDÊ PL’ questionou, com megafone e nariz de palhaço, a aplicação de recursos públicos municipais em infraestrutura básica.

Gláucia Salem, uma das mobilizadoras do grupo no Facebook, tomou a iniciativa de sair do universo virtual para o real devido à sua ‘insatisfação’ diante da ‘caótica’ situação do município até aquela data. ‘Cadê a limpeza urbana? Cadê a saúde pública? Cadê a educação? Cadê os empregos?’, reivindicava junto com os demais participantes.

Na semana seguinte à manifestação pacífica, o prefeito de Pedro Leopoldo, Marcelo Jerônimo Gonçalves, reuniu-se com líderes do ‘KDÊ PL’ e imprensa local para anunciar as ações que revitalizam a cidade. Diante destes distintos exemplos de mobilização popular iniciadas nas redes sociais, pode-se concluir que ‘as redes sociais podem ser utilizadas para levar as pessoas às ruas, para mobilizar a população em torno de causas, para potencializar a repercussão de suas causas junto às mídias tradicionais, e antes mesmo disso, para formar a opinião’ (MARTINS, Luciano Medina, 2011).

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Jornalista, Pedro Leopoldo, MG

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