Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Reflexões sobre o jornalismo na sociedade contemporânea

Por Felipe Tessarolo em 28/04/2015 na edição 848

Fala-se muito hoje das tecnologias da informação e da comunicação, também conhecidas pela sigla TIC. Vivemos numa sociedade altamente informatizada, a utilização de aparatos tecnológicos no nosso cotidiano é constante. Os carros estão conectados à internet, as instituições, as faculdades, praças públicas e até mesmo as pessoas.

Diversos teóricos adiantaram algumas das características presentes na nossa organização social. Dentre eles podemos destacar o sociólogo espanhol Manuel Castells e o filósofo francês Pierre Lévy, cuja obra mais conhecida é o livro Cyberculture.

No Brasil, um acadêmico que tem desenvolvido trabalhos na linha de Lévy é o professor André Lemos, cujo artigo sobre a Ciber-Cultura-Remix vou utilizar como base para essa postagem. No texto, Lemos caracteriza a cibercultura em três leis “fundadoras”:

>> A liberação do polo de emissão;

>> O princípio da conexão em rede;

>> E a reconfiguração de formatos midiáticos e práticas sociais.

Resumidamente, esses conceitos abordam as possibilidades que os indivíduos possuem hoje para criar, recriar e transmitir uma informação, nas palavras do autor: “A nova dinâmica técnico-social da cibercultura instaura assim, não uma novidade, mas uma radicalidade: uma estrutura midiática ímpar na história da humanidade onde, pela primeira vez, qualquer indivíduo pode, a priori, emitir e receber informação em tempo real, sob diversos formatos e modulações, para qualquer lugar do planeta e alterar, adicionar e colaborar com pedaços de informação criados por outros.”

Com o barateamento dos aparatos tecnológicos, cada vez mais teremos “vozes” que vão se expressar na internet, sejam criando um canal no YouTube, um blog no WordPress, transmitindo um evento ao vivo (desde um jogo de videogame, pelo Twitch.tv1, ou até mesmo uma manifestação, como tem feito o Mídia Ninja) e postando fotos e comentários nas redes sociais.

Recentemente tenho lido algumas reportagens e comentários a respeito da prática do jornalismo na sociedade contemporânea. Lembrando que falamos de uma sociedade altamente conectada, boa parte dos indivíduos possuem smartphones; que lhe permitem fotografar, gravar um vídeo, editar um conteúdo e subir isso para a internet, seja pelas redes sociais ou outras plataformas interativas.

Jornalismo enquanto lista de curiosidades e postagens virais

Numa época onde todos são “potenciais” jornalistas, com poder para tirar uma foto, publicar uma informação, ou até mesmo emitir a sua opinião em alto e bom som, qual seria o papel do Jornalismo (com J maiúsculo) na nossa sociedade? Pra quem atua na área, vemos um princípio de crise (para alguns ela já está presente há muito tempo) nos principais veículos de comunicação do Brasil e do mundo. Corte de custos, redações cada vez menores, notícias que são consumidas de forma gratuita (vai me dizer que você nunca baixou uma revista pela internet e não pagou nada por isso? Pergunte então aos principais veículos impressos o que tem acontecido com as suas vendas). Até mesmo o velho hábito de ler o jornal está sendo substituído pelas notícias e “informações” que saltam na nossa frente nas redes sociais, os Facebookianos que os digam.

Dito isso, gostaria de analisar três pensamentos nesse post. A Viralização das Notícias, Que perguntas que o jornalista deve responder e Poderia a internet tomar o lugar do mau jornalismo?

Em recente artigo do El País, Daniel Verdú fala sobre a reformulação que o jornalismo vem passando para recuperar a conexão com os seus leitores. Uma reformulação é a maneira de falar com o leitor, pois hoje compartilhar uma notícia é mais importante do que consumi-la.

Alguns veículos têm utilizado novas abordagens na hora de publicar (nas redes sociais) uma informação. Dentre elas o autor destaca o artigo em forma de lista (10 curiosidades sobre fulano, 15 dicas para ter uma vida mais saudável, 10 filmes de terror com zumbis e assim por diante) e um vídeo chamativo curto, pois a notícia postada no Facebook irá competir com fotos da última festa, mensagens do chefe, informações sobre o seu time etc.

Veja como exemplo a capa do BuzzFeed, um fenômeno do jornalismo contemporâneo. Repare as chamadas e as “notícias” veiculadas. Em recente artigo do The New York Times, ele analisa o êxito dos novos veículos de comunicação que baseiam suas publicações em memes e publicações sobre curiosidades. Cabe uma reflexão nesse ponto, lista sobre “gatinhos fofinhos” e “10 desabafos de Ed Motta no Facebook” estão ganhando mais audiência e repercussão do que informações sobre a economia, política e a sociedade em geral. Estamos substituindo a leitura de informações relevantes sobre a sociedade por curiosidades e listas banais.

Perguntas que o jornalismo deve responder

Em recente artigo da CartaCapital, Dal Marcondes faz uma reflexão sobre a prática e a profissão do jornalismo nos dias atuais. Uma questão complexa sobre o assunto vem da afirmação de que o direito de opinar é universal. Sendo assim, como formar opinião e tomar decisões com base em informações desencontradas e sem nenhum critério de averiguação?

As “informações” postadas nas redes sociais têm esse problema. Conforme vimos anteriormente, a priori, todo mundo pode postar qualquer coisa, sendo assim, como confiar naquilo que estamos lendo?

Nesse caso, a mediação do jornalista oferece alguma segurança em relação à informação que se está consumindo. O jornalista precisa aprender a se mover com desenvoltura nas mídias sociais. E o leitor precisa, principalmente, desenvolver um senso crítico a respeito da informação que consome. Qualquer matéria publicada é um recorte da realidade, uma visão que o jornalista tem ou conseguiu obter de um fato. Devemos ler diferentes pontos de vista para tirar a nossa conclusão.

O pensamento de Dal Marcondes confirma as ideias de Daniel Verdú. Segundo o repórter da CartaCapital: “Outro motivo para que o jornalista deva saber como se movimentar na internet é o fato de que as mídias convencionais estão em crise. E não é uma crise política, mas uma desconstrução do modelo de negócio do jornalismo. Há uma perda de espaço da informação jornalística, aquela que aborda a política, a economia e o comportamento de forma crítica e factual, por uma nova forma de comunicação que sugere ser jornalística, mas é uma construção de entretenimento travestida de jornalismo.”

Prosseguindo com informações de Dal Marcondes: “Uma frase que circula entre jornalistas explica um pouco desse dilema: ‘Existem dois tipos de jornalismo, aquele que investiga e publica as coisas que a sociedade precisa saber e aquele que publica o que a sociedade quer saber’. É muito mais fácil e cômodo trabalhar com o segundo tipo, que vai em busca da reação fácil, do riso ou das lágrimas pré-fabricadas. O difícil e muitas vezes caro, tanto em dinheiro como em impacto pessoal para o profissional de jornalismo, é desnudar os fatos que a sociedade precisa e tem o direito de saber.”

Mas, além do entretenimento travestido de jornalismo, a utilização das TICs na sociedade permitem o advento de alternativas sérias para a prática do jornalismo. Sabe-se que o jornalismo de qualidade requer grandes recursos. Você precisa enviar um repórter para um local, muitas vezes isolado, permitir que ele passe semanas procurando por provas e informações que lhe permitam escrever uma publicação com qualidade.

O Diário do Centro do Mundo (DCM) produziu ótimos documentários sobre temas que geralmente não aparecem nos grandes veículos. As matérias foram financiadas pelos leitores num modelo de crowdfunding na plataforma Catarse.

Recentemente, durante o Mobile Word Congress, a Barcelona TV fez um experimento com as novas tecnologias da informação. E emissora pública da cidade catalã transmitiu notícias e programas ao vivo apenas com a tecnologia móvel.

Segundo a Rede de Jornalistas Internacionais, “Em cada dia da conferência, uma transmissão de 20 minutos contou com um mix de apresentadores, streaming ao vivo, matérias gravadas e até mesmo vídeo de drones. A equipe filmou e editou com smartphones e foi ao ar através de sinais sem fio de 4G. Filmagens ao vivo contaram com um número de diferentes câmeras de celulares para uma apresentação profissional dinâmica.”

Três repórteres substituíram os equipamentos de câmera de costume por um iPhone 6, microfones e carregadores. Eles utilizam alguns aplicativos que permitiram a filmagem, edição e envio do sinal para uma estação de mistura (veja os repórteres em ação aqui).

Vale destacar também o exemplo que a Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) vem dando a respeito da cobertura das manifestações e mobilizações sociais. A estrutura da rede é descentralizada, atuando em mais de 150 cidades no Brasil e eles utilizam as redes sociais, como Facebook, Twitter, Flickr, Tumblr e Instagram.

Internet x Mau Jornalismo

Percebe-se que as oportunidades para a prática do jornalismo na sociedade contemporânea são imensas. Assim também como as ferramentas para aqueles que pretendem difundir a desinformação e o ataque gratuito contra determinados setores da sociedade.

Precisamos desenvolver o nosso senso crítico e aprender a averiguar a informação que recebemos antes de entrar na modinha do compartilhamento. Falsas informações são publicadas todos os dias e nós devemos ter o maior cuidado possível quando pensamos em compartilhar uma informação. Na dúvida, não compartilhe.

Em recente entrevista para o El País, Umberto Eco, fala do seu novo romance Número Zero, uma ficção sobre jornalismo inspirada na realidade. Ele traz um olhar sobre a informação no século 21, e a internet enquanto campo de batalha das ideias, das notícias e das mentiras (te lembra alguma coisa? Que tal analisar os eventos recentes no Brasil e a maneira como esses são veiculados pela mídia?).

O autor italiano afirma que uma das batalhas dos jornais tradicionais deveria ser isso, controlar a verdade do que aparece na Rede, para que eles continuem sendo, no futuro, garantidores da democracia, da liberdade e da pluralidade. Além disso, segundo Anne Marie Smith (Um Acordo Forçado), toda empresa de comunicação defende uma ideologia de poder, isso é indissociavél, há sempre um alinhamento ideológico por trás do que ele escreve. Independente do veículo, esse alinhamento norteia grande parte daquilo que é produzido, seja por quem escreve para a CartaCapital, seja por quem escreve para a Veja. Assim, retomando as três leis fundadoras da Ciber-Cultura-Remix, podemos identificar o poder que esses princípios têm na sociedade contemporânea. Sendo que com a Liberação do Polo de Emissão, qualquer pessoa é capaz de produzir e emitir um conteúdo ou uma opinião; com o princípio da conexão em rede, não só as pessoas, mas grande parte das “coisas” que compõem a nossa organização social estão conectadas, então esse poder do emissor consegue atingir diversos setores da sociedade, e por último, reconfiguração dos formatos midiáticos e das práticas sociais fala da influência que essas transformações provocam na nossa maneira de enxergar e compreender a realidade. Sendo assim, deixamos uma dica para você. Pense nisso.

Fontes

Agências vão virar publishers

Como a Barcelona TV fez um noticiário com tecnologia móvel

Que perguntas o jornalista deve responder?

Umberto Eco: “A internet pode tomar o lugar do mau jornalismo”.

Este artigo nunca será viral

Relatório sobre inovação – The New York Times

DCM – Documentários

Rede de Jornalistas Internacionais

**  Sobre as possibilidades do Twitch.tv leia o artigo A Maior Batalha de Todos os Tempos da Semana Passada, desenvolvido por mim e pelo Guilherme Leite, apresentado no Intercom Sudeste e uma atualização no ABCiber.

***

Felipe Tessarolo é jornalista e professor de Comunicação Social

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