Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Robôs serão controlados por bactérias

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 24/07/2015 na edição 860

A revista mensal Wired (16/7), em sua edição inglesa, publicou um artigo informando que estão sendo feitos estudos para controlar robôs através de colônias de uma bactéria geneticamente modificada. O microorganismo é a muito conhecida E. Coli (Escherichia coli), que vive em intestino de animais e humanos e é amplamente usada na indústria de combustíveis graças a sua capacidade de recombinação. Trata-se da capacidade da E. Coli de combinar-se com  outros microorganismos para permitir a “formação de bactérias genéticamente diferentes”, explicou o site “Mundo Educação” da Rede Record de TV(sem data).

Os estudos começaram em um laboratório tecnológico da Universidade da Virginia, dirigidos pelo professor assistente de sistemas biológicos Warren Ruder. A revista Scientific Reports publicou um artigo (16/7) de sua co-autoria, sobre com usar bactérias geneticamente modificadas para ajudar a comandar autômatos. A coisa é complicada. É melhor deixar falar a equipe da revista que fez a cobertura:

“No laboratório Virginia Tech, onde aconteceu o estudo, biólogos olham para a biologia sintética para reprogramar as trilhas bioquímicas dentro das células – as mesmas trilhas usadas nos processos de tomada de decisão em nível celular. É uma minúcia de como seres biológicos operam, com cada célula viva capaz de comunicar e executar comandos. O time queria observar como o processo de tomada de decisão possa não apenas ser construído mas transplantado a um robô hospedeiro usando algo chamado biorreator microfluido.”

O artigo da Wired explica que a adaptação de uma espécie da e.coli geneticamente modificada e adaptada a um biorreator pode ser capaz de executar comandos. Robô, aqui neste artigo, é um dispositivo que executa instruções. Pode ser um pequeno objeto ou virtual (código), e nesta forma está presente na rotina de quem navega na web. Não é uma criatura cibernética como os robôs da TV, como o famoso e irreverente robô da série “Perdidos no Espaço”, ou como o robô filósofo que o Google acredita poder construir. Seus ‘parentes’ são trabalhadores reais e presentes em nossas vidas, que existem sem que quase ninguém perceba. Muitos deles não passam de instruções de comando que perdem sentido e função com o tempo.

O experimento do Dr. Ruder, testado em técnicas de modelagem laboratorial, usa “o exemplo de um robô que seria equipado com sensores e um minúsculo microscópio”, para que o autômato possa “fazer leituras das bactérias ligadas a ele”. A mudança da cor das bactérias muda entre vermelho e verde, e quando isso acontece, o “robô recebe um comando que o conduz, e diz a ele aonde ir e em qual velocidade”, ensinou o professor Ruder.

O acadêmico explicou o segredo de seu time de pesquisas: quando se dá ao autômato capacidade de responder às instruções de seu comando biocibernético (a colônia de bactérias modificadas), as bactérias mudam seu comportamento: da simples alternância entre diferentes tipos de combustível, elas adquirem a postura de aproximação, pausa e movimento em direção a ele. O professor acredita que “isto é reminiscência de algo que (ele) qualifica como um comportamento presente em “animais de ordem mais alta e mais complexa”: espreitar, pausar e atacar.

O futuro robô-bactéria

O próximo passo será adaptar o modelo de seu laboratório a uma união real robô-bactéria, que poderá ter grande uso em agricultura (observando a relação entre a bactéria da soja e os rebanhos nas fazendas) e em vazamentos de óleo nos mares e águas do planeta, explicou o pesquisador. Este prevê o lançamento de bactérias que aspiram petróleo e o isolam em vácuo por pequenos aviões não-tripulados (ou drones), em águas poluídas pelo óleo que move o mundo.

As bactérias exercem grande influência em nossas partes do cérebro ligadas ao comportamento e isto precisa ser bem estudado. O potencial que elas carregam é imenso. As bactérias no intestino das moscas das frutas, por exemplo, podem modificar o comportamento sexual destes insetos. O professor de anatomia e neurociência da Universidade de Cork John F. Cryan explicou em artigo anterior à Wired (24/4) que “bactérias no intestino podem também ter u m alto impacto em cérebros humanos”.

Bactérias geneticamente modificadas (ou reprogramadas) são inócuas ao ser humano e fazem parte do mesmo universo biótico. Isto aproxima o universo do pesquisador de seu objeto de estudo. Todos estão em um universo biológico que obedece a leis comuns. Isso torna mais fácil e produtivo o trabalho dos cientistas que trabalham com modelos matemáticos baseados em equações complexas, como o de Ruder.

Profissionais da biologia sintética esperam ver no futuro a inteligência artificial biótica a ensinar novas gerações de cientistas que estão a preparar-se para o uso da biotecnologia para criar novas formas de comportamento artificial mais próximas do ser humano e mais fáceis de entender e replicar comportamentos de espécies mais desenvolvidas, acredita o professor Ruder.

O projeto do estudioso é importante porque abre portas para o entendimento da biologia das espécies de bactérias que podem levar a biologia sintética à vanguarda da criação de autômatos comandados por sistemas naturais de controle e comportamento que podemos observar na natureza. É um trabalho que, se não tem o “glamour” do ‘Google Brain’ e suas promessas mirabolantes, por outro lado é mais realista e procura nichos de aplicação com forte impacto em nossas vidas cotidianas com uma projeção de resultados concretos previstos para um futuro muito próximo.

A idéia hollywoodiana de robôs rivais do homem contrasta com a dos autômatos conduzidos por microorganismos modificados em laboratórios. Enquanto muitos sonham com resultados espetaculares que vão beneficiar grandes corporações e seus donos, outros sérios pesquisadores já estão a dominar tecnologias de ordem biológica para comandar robôs que têm o potencial de trazer enormes benefícios para a espécie humana em áreas de saúde, nutrição, agricultura e preservação do meio-ambiente.

Não são entes antropomórficos semi-conscientes que procuram compreender questões que preocupam humanos até hoje. São instruções cibernéticas carregadas por nano-robôs que não nos ajudar na indústria, na agricultura e na saúde seres humanos e de animais para criação e abate. Não têm o brilho da imaginação imposta pela ficção científica, mas podem ajudar de forma concreta e efetiva a sustentabilidade da vida em nosso planeta.

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