Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

E-NOTíCIAS > CASO BORIS CASOY

Sobre o que é vergonha

Por Kamilla Pacheco em 12/01/2010 na edição 572

Famoso por usar a bancada do telejornal como palanque para pregar seu exacerbado moralismo, o jornalista Boris Casoy virou notícia nos últimos dias. Desta vez, Casoy não criticava o governo Lula, não condenava as ações do MST ou defendia a ocupação israelense. No último dia do ano de 2009, o comentário do jornalista se dirigiu para dois trabalhadores que felicitavam os telespectadores do Jornal da Band pelo novo ano que estava chegando. O fato de os trabalhadores em questão serem lixeiros aguçou o mais profundo preconceito amalgamado no jornalista, que não segurou sua enorme língua ferina dentro da boca já tão desgastada pela prolixidade de seus jargões.

Curiosamente, Boris não olhou para as câmeras para fazer sua ‘brincadeira’. Talvez não tivesse coragem para isso. Mas foi o oportuno descuido de um operador de áudio que expôs em rede nacional a faceta lamentável deste senhor. Em tom jocoso, com um risinho a cada frase, Casoy soltou: ‘Que merda, dois lixeiros desejando felicidades… Do alto de suas vassouras. Dois lixeiros, o mais baixo da escala do trabalho.’ Sim, caro leitor, esta foi a ingrata resposta que Boris Casoy ofereceu aos garis que desejam ‘muita paz, muita saúde, muito dinheiro e muito trabalho’ aos telespectadores. Graças à internet e às redes sociais, o fato se tornou de conhecimento geral, e não só daqueles que tiveram a infeliz sorte de assistir ao Jornal da Band no dia 31 de dezembro de 2009. E também foi essa repercussão que obrigou Boris Casoy, aparentemente muito a contragosto, a se desculpar com os garis e telespectadores pela frase que ele qualificou como ‘infeliz’.

Acima de tudo, dignidade e respeito

Será que Boris não se lembra das piadinhas e do preconceito sofrido na infância, quando a poliomielite deixou sequelas em seu corpo? O sabor do preconceito oscila entre vários tipos, mas quem já provou qualquer um deles sabe como é amargo o seu gosto. É muito fácil se solidarizar com os ‘iguais’, mas basta uma brechinha, uma ilusão de superioridade para ridicularizar e diminuir aquele que supostamente está por baixo. Qual graça encontrou o jornalista, que para exercer sua profissão não precisa de diploma, assim como o lixeiro, para fazer tal comentário e se colocar num lugar mais alto na escala do trabalho? Boris Casoy envergonha a classe jornalística com esse comentário, além de involuntariamente revelar que ele, sim, ocupa a parte mais baixa da escala moral da humanidade. ‘Gafe’ é um eufemismo muito grave para descrever a atitude do jornalista, que carrega consigo o velho lixo preconceituoso do ranço escravagista contra o trabalho braçal.

O que vai acontecer agora? O pedido de desculpas será o desfecho dado ao caso? Ou os lixeiros terão direito de resposta? Quem provavelmente corre o risco de ser demitido? Boris Casoy ou o funcionário que deixou o áudio vazar? Os protestos ficarão restritos aos 140 caracteres do Twitter ou a sociedade vai se posicionar de uma forma mais concreta sobre o caso? Talvez um boicote à programação da Band fosse um bom começo para cobrar uma atitude da emissora.

Quem nos dera se os lixeiros, do alto de suas vassouras, pudessem varrer esse tipo de lixo da televisão e da sociedade brasileira… A eles, um feliz ano novo, muita paz, muita saúde, muito dinheiro, muito trabalho e, acima de tudo, dignidade e respeito.

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Jornalista, Brasília, DF

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