Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Sobre piratarias e piratarias

Por Sebastião Martins em 13/02/2007 na edição 420

Levante a mão aquele que está lendo este artigo num computador com sistema operacional comprado e legalizado. Ué, por que será que estou vendo tão pouca gente de braço erguido? Tem algo errado nessa história…

Aliás, tem muita coisa errada nessa história. A começar pela própria história. É, no mínimo, irônico que países como os EUA, Inglaterra e França liderem o combate à pirataria. Logo eles, piratas consagrados. A Inglaterra então, fez dessa prática uma das principais armas de sua política imperialista. Hoje, vejam só, quanta diferença.

Imperativo de justiça

E diferença é um conceito-chave nessa discussão. As campanhas publicitárias que temos visto, pelo menos aqui no Brasil, tentam mostrar que todos os tipos de pirataria são iguais – da falsificação de remédios e produtos diversos, às cópias de CDs, DVDs e softwares. O discurso jornalístico segue a mesma batida. Muita calma nessa hora. Não sou advogado, não sei e nem quero saber de detalhes do Código Penal, mas à luz de qualquer lâmpada GE fabricada na China, ou simplesmente do bom-senso, tratamos de coisas bem diversas. Remédio falso, fajuto, adulterado, é uma coisa; é falsificação e pode até matar um consumidor que foi completamente enganado. DVD ou programa pirata é outra. Ilegal e condenável, sem dúvida, mas compreensível.

Não foi à toa que o povo começou a chamar esses produtos piratas de ‘genéricos’. A analogia é simples: assim como na quebra do monopólio dos remédios surgiram os genéricos com preço mais acessível, o mesmo se espera em relação a produtos que continuam a manter monopólios e preços absurdos. É um imperativo de justiça que os protetores da propriedade industrial tentam transformar em caso de polícia.

O artista vai ao povo

Outro exemplo: existe alguma substância mais cara que a tinta de nossas impressoras? Um mililitro custa cerca de 15 reais! Como explicar algo assim? Como impedir, com esse custo, a proliferação da oferta de recargas? Onde os caras fabricam esse troço? Em Plutão? Na quinta dimensão? Não dá para defender o indefensável. Genérico neles, porque no dos outros é refresco.

Assim, acho que é preciso pensar a questão da pirataria com muito cuidado. Sou solidário a todos que estão sendo lesados em seus direitos autorais, mas é preciso que artistas e criadores em geral também repensem sua relação com os meios de produção. Há dois anos não vejo meus filhos adquirirem um CD. Adoram música, mas baixam tudo de que gostam gratuitamente da internet. Olho para eles e juro que não vejo a face de dois criminosos perigosos. Pelo contrário, já comecei a fazer como eles e até estou aproveitando para tentar convencê-los da excelência do meu gosto musical. Das duas uma: sou pai, portanto cego, e não percebi que minha família anda com papagaios no ombro e pernas-de-pau; ou então esse mundo está mudando e finalmente o lugar do artista vai ser onde o povo está. Tomara.

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Professor universitário (Facha, Rio de Janeiro), publicitário e poeta; http://tiaomartins.blogspot.com

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