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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Sobre as contradições do jornalismo

Por Venício A. de Lima em 27/05/2008 na edição 487

No final da tarde de terça-feira (20/5) fui surpreendido com telefonema de pessoa de minha família, em Minas Gerais, preocupada em saber se eu estaria viajando ou se estava em Brasília. Estava em Brasília, por quê? ‘Acabamos de ouvir na rádio Itatiaia de Belo Horizonte que um avião de passageiros havia se chocado com um prédio nas proximidades do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, provocando grande incêndio. Como você sempre viaja, queríamos ter certeza de que não estaria entre as vítimas de mais esse acidente aéreo.’


Depois do telefonema, tomei conhecimento de que o canal GloboNews, da operadora de TV a cabo NET, havia interrompido a transmissão ao vivo de depoimentos na CPI dos cartões para ‘informar’ que um avião da empresa Pantanal acabara de cair sobre um prédio na Zona Sul de São Paulo, próximo ao aeroporto de Congonhas. Durante mais de cinco minutos, a GloboNews mostrou imagens de fumaça sobre a cidade e do incêndio que teria sido provocado pelo choque de um avião com o prédio.


Numa inversão da lógica que tem presidido a análise do fluxo das notícias, quase simultaneamente a GloboNews pautou os principais sites online – UOL, Folha OnLine, Terra, iG, Estadão – que passaram a ‘informar’, em manchete, sobre a queda do avião e sobre o incêndio. A partir daí, a ‘informação’ passou também a ser transmitida por emissoras de rádio em todo o país.


Aos poucos foram aparecendo os desmentidos: da Infraero, da Pantanal e da própria Central Globo de Comunicação que, em comunicado, informou:




‘A respeito do incêndio ocorrido hoje à tarde em São Paulo, a GloboNews, como um canal de noticias 24 horas, pôs no ar imagens do fogo assim que as captou. Como é normal em canais de notícias, apurou as informações simultaneamente à transmissão das imagens. A primeira informação sobre a causa do incêndio recebida pela Globo News foi a de que um avião teria se chocado com um prédio na região do Campo Belo, Zona Sul de São Paulo. Naquele momento bombeiros e Infraero ainda não tinham informação sobre o ocorrido. As equipes da própria Globo News constataram que não havia ocorrido queda de avião e desde então esclareceu que se tratava de um incêndio em um prédio comercial. Poucos minutos depois o Corpo de Bombeiros confirmou tratar-se de um incêndio em uma loja de colchões.’


Não havia acidente. Nenhum avião havia se chocado com qualquer prédio. Na verdade, tratava-se de um incêndio em loja de colchões no bairro paulistano de Moema.


Há vinte meses


Foi impossível não lembrar de uma outra situação envolvendo o jornalismo das Organizações Globo. Esta última ocorrida em 29 de setembro de 2006, quando um jato Legacy derrubou o Boeing que fazia o vôo Gol 1907, de Manaus para Brasília, matando mais de 150 pessoas.


Naquela época, ao contrário de outras emissoras de TV e sites na internet, a TV Globo demorou a noticiar o acidente que ocorreu antes do Jornal Nacional. Como estávamos às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, houve uma grande polêmica em torno do assunto. A Globo sempre alegou que não poderia ter dado a notícia sem primeiro checar os fatos. A emissora temia as eventuais repercussões que uma notícia dessas – não confirmada – poderia causar na vida de milhares de pessoas.


Agora a GloboNews deu a ‘informação’ falsa sobre o ‘acidente’. Sites e emissoras de rádio reproduziram a ‘informação’ e só depois se deram ao trabalho de checar para ver se era verdadeira. Não era.


Deixo a meu eventual leitor as devidas conclusões sobre a qualidade e a responsabilidade do jornalismo que continua a ser praticado no Brasil.

******

Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor/organizador, entre outros, de A mídia nas eleições de 2006 (Editora Fundação Perseu Abramo, 2007)

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/05/2008 Carlos N Mendes

    Bem, se a GloboNews não é Globo, eles andam piratendo o Bom Dia Brasil, que passa no cabo uma hora depois de terminar a edição no canal aberto. O artigo expôe muito explicitamente os dois pesos e duas medidas que as Organizções Globo tem quando se trata de jornalismo. E deixou mais claro ainda o golpe midiático do JN em 29-09-2006. Deve ter herdeiro de Roberto Marinho amaldiçoando até hoje aquele transponder desligado, quase estragou um plano perfeito…

  2. Comentou em 29/05/2008 Ary Nunes

    E tem jornalista aqui que diz que:’Prefere raciocinar pela regra,e não pela exceção.’ Mas claro que eu concordo com isso,mas dentro de certos limites.O que ocorreu foi um erro grotesco e totalmente irresponsável por parte da GloboNews.Ora,um médico pode trabalhar durante um ano todo salvando vidas, mas deixar que ocorra uma perda por erros grotescos,por negligência ou dolo,nesse momento ele deixa de ser um bom médico.Além do mais,nesse caso da cobertura da GloboNews,foi de encontro a tudo que Kamel pregava quando na colisão do avião da Gol de que ‘não daria a notícia se não tivesse certeza de sua veracidade.’ O que teria feito ele mudar em 180 graus o seu modus operandi?

  3. Comentou em 28/05/2008 Luciano Prado

    Neste caso, como na maioria dos que a Globo e cia. costuma praticar, o que se constata é o padrão Ali Kamel de jornalismo. Ou seja, esperimentando hipóteses.
    Outra constatação é que o jornalismo tupiniquim praticado hoje pela ‘grande imprensa’, não tem medo de ser pior do que o de ontem. Especificamente sobre a notícia da tal queda do avião da Pantanal, a grande imprensa não teve tempo de responsabiolizar o governo Lula pela tragédia. Já é um ganho, uma evolução.
    Pobre, podre imprensa brasileira.

  4. Comentou em 28/05/2008 Leônidas Raimundo de Souza

    Eu assisti ‘ao vivo’ essa incrível ‘barriga’. Tenho uma filha jornalísta, confesso que fiquei envergonhado com a inaceitável irresponsabilida dessa empresa de comunicação.
    Se houve um engano e eles presumiram que havia sido a queda de um avião, de onde eles tiraram o nome da Empresa Pantanal? Não explicaram.
    Me pareceu que já estavam se preparando para um novo capítulo da novela ‘Caos Aéreo’.

  5. Comentou em 28/05/2008 Fernando Mathias

    Imaginei que o Observatório tivesse entre suas preocupações verificar e acompanhar a qualidade e a responsabilidade do jornalismo praticado no Brasil. A tibieza com que o OI se comporta permite a repetição ad-nauseam desse tipo de jornalismo. Fora isso onde estão as organizações que congregam jornalistas, tais como Sindicatos, ABI etc? Essa baixa qualidade e essa escancarada partidarização da mídia não são motivo de preocupação para esses profissionais? Tirando observações e comentários em blogs ditos alternativos, o fato acima e a obrigatória comparação com 2006 não foram assunto da grande mídia. Imagino onde os diretores, editores e redatores querem chegar, mas os reporteres e articulistas antes de almejarem o poder deveriam ter mais orgulho da própria profissão e não se submeter aos seus chefes sem contestação. A continuar nesse caminho as pessoas do meio serão tratadas como um corpo à parte da sociedade.

  6. Comentou em 28/05/2008 dante caleffi

    O que se pode esperar,de quem postergou notícia,aí sim, de tragédia aérea verdadeira,em benefício da fustigação política como objetivo eleitoral de seu candidato?Ansiando por renovar o combustível oposicionista,que se esgota,patrocinaram uma ‘pança’,de dimensões internacional.Faltou Galvão Bueno, e seu clichê ufanista:Brasil!!!

  7. Comentou em 27/05/2008 Marco Antônio Leite

    Já passamos da época dos DINO-SSAUROS, a rede Globo de triturar mentes despreparadas para avaliar, analisar e concluir o que é verdade e sofisma, o povo acaba engolindo barriga goela baixo.

  8. Comentou em 27/05/2008 greice souza

    estava no carro ouvindo a Sulamérica Transito (do grupo Bandeirantes) e essa rádio noticiou a ‘queda do avião’, só não noticiou a compania aérea. Mais tarde quando foi percebido o erro a rádio band news (também do grupo bandeirantes) através do apresentador Boris Casoy falou por minutos da irresponsabilidade da imprensa que noticiou incorretamente a queda do avião…

    E só uma correção: o boing da Gol vitimou 154 passageiros, bem mais que ‘quase uma centena’ do texto.

  9. Comentou em 27/05/2008 Alan Souza

    Foi um erro grave e as organizações Globo devem no mínino um pedido de desculpa aos seus telespectadores.

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