Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Software pouco competitivo

Por Silvio Meira em 04/10/2011 na edição 662
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 29/9/2011; intertítulo do OI

O mercado de software e serviços de TICs deve chegar a R$ 63 bilhões em 2011. E a taxa de crescimento anual, até 2020, deve ser o dobro da do aumento do PIB (Produto Interno Bruto). Essas boas notícias (no link bit.ly/pV0ZDQ) seriam ainda melhores se não revelassem, também, que 97,3% das 75 mil empresas do setor empregam de cinco a 19 pessoas e que só 0,5% do total tem mais de 50 colaboradores. Ah, e que as margens do setor – no país – vêm diminuindo ano a ano.

Tem mais: o Brasil não está se tornando mais competitivo no mercado internacional e, depois de 20 anos tentando, exportamos apenas 5% do que exportam os indianos (veja em bit.ly/o3Ntrm). Sem falar que boa parte disso advém dos negócios internacionais das filiais nacionais de empresas globais. As razões que levam a tal conjuntura são muitas e, como se pode imaginar, passam pelos problemas estruturais da falta de competitividade nacional em quase tudo o que não é commodity.

É aí onde entra o título do texto: a vasta maioria das empresas nacionais de software está perigosamente perto de se tornar commodity no mercado errado. Isso significa escrever linhas de código e software genérico, manter sistemas e serviços indiferenciados que, podendo estar em qualquer lugar do planeta graças à internet, irão para onde for mais barato, desde que haja um mínimo de confiança.

Como os padrões de desenvolvimento, operação e gestão de TICs são globais, vai ser difícil ver tais coisas por aqui, face à nossa já mencionada falta de competitividade. O risco, claro, é a comoditização da empresa nacional de software. O que é dito com todas as letras pelo BNDES (no link bit.ly/rksnsS), ao revelar que não falta dinheiro para financiar novos empreendimentos, mas projetos e propostas inovadoras. É preciso considerar que o tipo, a forma e a celeridade dos recursos do BNDES não são os mesmos que os do mercado internacional de capital empreendedor para software e serviços. Mas o banco tem razão: estamos sofrendo, e não é de hoje, de escassez de criatividade e inovação. E, como se não bastasse, de baixa capacidade empreendedora.

Risco de extinção

A combinação desses três deficit é quase sempre fatal para qualquer novo negócio. E quase nunca vai gerar um novo negócio inovador de crescimento empreendedor – as empresas que, depois de um tempo de gestação, têm crescimento quase exponencial de receita, seguido por outro, menos agudo, de despesas. Para ter uma ideia do que isso significa, é bom olhar (no link bit.ly/n372CN) o que acontece com a Amazon.com, que ainda está crescendo a 50% ao ano.

Quase todo negócio está no negócio de software (também) porque seus processos precisam ser codificados para serem executados e acompanhados. Isso é ainda mais verdade nas empresas distribuídas, onde o dono não vê, o tempo todo, o balcão e o caixa. A maior parte das empresas brasileiras de software está no negócio de, sob demanda, codificar outras empresas. E é daí que vem sua comoditização e diminuição de lucratividade recente. Mas essa nem é a ameaça principal.

Software está se tornando serviço, via provedores como Salesforce.com. Mais empresas e pessoas vão usar mais software, mais sofisticado e de desenvolvimento mais complexo, porque sujeito a novos parâmetros de performance, experiência de uso, segurança e resiliência. Ao mesmo tempo, tal “informaticidade” (veja no link bit.ly/aT96C1) vai padronizar processos e o próprio software, comoditizando não seu desenvolvimento, mas seu uso. E o resultado será menos empresas pequenas escrevendo repetidamente o “mesmo” software, a “mesma” folha ou contas a pagar.

Isso deve recriar a economia global de software – agora como serviço – numa nova escala global de desenvolvimento, utilização, agregação e captura de valor.

Em sua quase totalidade, as empresas brasileiras de software demoram muito a perceber a mudança dos ventos e, nessa virada, não será surpresa se, em vez de se tornarem commodity, boa parte daquelas 97,3% se torne, simplesmente, extinta.

***

[Silvio Meira é fundador do www.portodigital.org, cientista-chefe do www.cesar.org.br e escreve a cada quatro semanas nesta coluna]

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