Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Sorria, você está sendo filmado

Por Fernando Kelysson em 23/02/2010 na edição 578

Está em marcha um evolutivo e global processo de digitalização, uma avassaladora eclosão de máquinas interferindo com ímpeto nos diversos setores da produção humana. O aparelhamento tecnológico tem, no mínimo, gerado grandes inquietações. Cientistas hodiernos, numa intensa perturbação intelectual, se debruçam sobre esses fenômenos e o que encontram são incógnitas gigantescas, ainda irresolutas. A situação ganha gravidade a ponto de chegar ao ‘decifra-me ou te devoro’.

Eis dois eventos: a pulverização de câmeras de vídeo e a internet. Agora, exemplos ligeiros: uma professora de primário vai a uma boate se divertir. Lá, é filmada (por uma câmera de celular) seminua em dança erótica. Uma hora depois, o vídeo é postado na internet. Ao amanhecer, computadores do mundo inteiro têm acesso às imagens, inclusive os das crianças alunas da tal professora. Doravante, compromete-se a reputação da professora e a formação das crianças que a ela têm por exemplo.

Outro caso, este bem mais grave, envolve um governador de estado que mantém um esquema de fraude com uma empreiteira e, consequentemente, ele próprio e também deputados vão pessoalmente, às escondidas, receber dinheiro das mãos de um operador. Uma câmera escondida é posicionada em local estratégico para registrar imagens e conversas. Tudo é gravado. Em seguida, publica-se a gravação em todas as mídias. Consequências? Crise administrativa na esfera de Estado e política em proporções nacionais.

Disciplinar os ‘atos ocultos’

Eventos como esses vêm se tornando cada vez mais comuns. O número de câmeras, escondidas ou não, algumas acopladas a celulares, aumenta dia a dia. Praticando o certo ou o errado, não se assuste se de repente alguém disser que te viu na internet.

Não é de hoje que o homem busca imitar os atributos incomunicáveis de Deus – oxalá imitasse os comunicáveis. Os aviões às aves do céu, os submarinos às orcas do mar, e a ousadia prossegue, beirando os absurdos da clonagem, da mutação genética e do enriquecimento de urânio. Agora, a difusão das câmeras é a tentativa de imitar sua onipresença. Na escritura sagrada, há vaticínios acerca da multiplicação da ciência. George Orwell, em 1984, foi prognosticador; fez existir o personagem Big Brother, o ‘grande irmão’, em uma sociedade vigiada por câmeras, num paraíso de arapongas. ‘Cuidado, o grande irmão está te vigiando.’

As câmeras de vigilância, o recurso do GPS, a disseminação dos celulares com minifilmadoras são o homem tentando ser onipresente. Outro dia, em encontro com um ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro que pediu reserva do seu nome, perguntei-lhe sobre soluções para o tráfico de drogas no Rio. Ele recomendou a volta do dirigível com câmera para constranger o criminoso. Trocando em miúdos: ele disse que a câmera é a mais eficaz das armas.

Ser observado sem se dar conta é revelar-se. Somos efetivamente quem somos quando estamos sozinhos, quando cremos que ninguém nos observa. Convém agora, pois, disciplinar nossos atos ‘ocultos’, e até mesmo o pensamento. Reinando este sistema, resta-nos a transparência, sempre contemplada à onipresença de um Deus que tudo vê e à audácia de homens que ‘tudo’ filmam.

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Jornalista e comerciante, Belo Horizonte, MG

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