Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Techfugees = tecnologia + crise dos refugiados

Por Antônio Augusto Braighi em 10/10/2015 na edição 871

Lia notícias pela internet quando deparei com o neologismo tecnicista inglês techfugees, que faz alusão, de um lado, à tecnologia, e de outro a um termo que circula pelos media com frequência e tem se tornado motivo de atenção em todo mundo: refugiados.

Fui então buscar mais informações sobre a composição e descobri que a preocupação é tamanha que um grupo de experts londrinos resolveram realizar uma hackathon, uma maratona de programação que contou com especialistas em tecnologia e designer, além de representantes de ONG’s e empresários, com o intuito de desenvolver aplicativos, softwares, plataformas e outras soluções tecnológicas que atendam as principais demandas daqueles que abandonaram os seus países em função das guerras (entre outros motivos).

Assim, de acordo com os organizadores [todas as informações relatadas aqui foram obtidas a partir da nossa tradução do site http://www.techfugees.com/ e do correlato HackPad, que inclusive indicamos a leitura no original em inglês, no link encurtado https://goo.gl/TrVwGm], o desafio da ação se dividiu principalmente em três frentes: constituir canais que sejam capazes de fazer com que refugiados (re)encontrem e entrem em contato com as suas famílias (e vice-versa); criar novos e fáceis mecanismos para o registro audiovisual e transmissão de crimes de guerra não reportados pelos meios de comunicação de massa; e, mais especificamente ao povo sírio, articular formas de fazer com que argumentos e pontos de vista que não tenham espaço naquele contexto sejam propagados e ouvidos por pessoas ao redor do mundo.

Mas, ao que tudo indica, techfugees deixa de ser tão somente uma iniciativa isolada, um evento (realizado entre os dias 01 e 02 de outubro, incluindo uma conferência), para se tornar um programa, uma mobilização em torno de uma causa que pretende gerar consciência sobre o papel de cada um em torno da chamada “crise migratória”. A adesão ao propósito demonstrou ser muito grande: a atividade recebeu apoio de vários parceiros, incluindo o Facebook, e o envolvimento direto de muitos profissionais. Assim, a intenção é que novas propostas surjam e sejam a cada dia mais elaboradas para amenizar os problemas dos refugiados. Há, inclusive, outros eventos programados, que continuarão a discutir e desenvolver ações nesse sentido.

Alternativas de apoio a refugiados e imigrantes

Diante ao contexto, os projetos estão, em geral, divididos pelos articuladores em 12 grandes categorias sendo: orientações sobre viagens (mapeamento, obtenção de vistos, trajetos etc.); soluções para encontrar pessoas; gerenciamento de doações; acesso à eletricidade e wi-fi; abrigos; oportunidades de trabalho; educação; data standards; combate à violência contra as mulheres; soluções de comunicação; e, soluções a longo prazo, além iniciativas não categorizadas, que podem compor o espaço “outras”.

Exemplos de soluções, anteriores até à hackathon da techfugees, não faltam, dialogam com o conceito do evento e demonstram desde a complexidade da gestão de alguns projetos, até a aparente simplicidade de desenvolvimento e utilização de outros. Nem por isso há como questionar os resultados a que cada um se presta. Listamos abaixo apenas algumas das muitas alternativas em apoio aos refugiados e imigrantes.

A PeaceGeeks desenvolveu uma plataforma (data.unhcr.org/jordan/services-advisor) para apoiar os refugiados sírios que vivem na Jordânia para que possam obter informações sobre os serviços essenciais fornecidos pelas dezenas de organizações comunitárias que têm atuação naquele país;

Já na Turquia o principal aplicativo é o Gherbtna, desenvolvido por Mojamed Akil. A tecnologia que auxilia os sírios na busca por empregos, apresenta informações sobre a legislação turca e traz até notícias na língua árabe;

O aplicativo para smartphones Carterro (http://www.carterro.com/migrant-resources) promete ser útil para refugiados e imigrantes. Mais do que um mapa, trata-se uma ferramenta de comunicação, que permite a criação de grupos privados, traçar rotas, acompanhar trajetos realizado por pessoas, seguir por caminhos já trilhados por outros, fazer marcações diversas (como perigos pelo caminho, abrigos, dicas etc.);

A refugeewiki.org, como o endereço já mostra, é uma “coleção de documentos em hipertexto”, iniciado em setembro de 2015, para auxiliar na coordenação de esforços em prol dos refugiados na Europa. O portal contava já no início de outubro com 98 textos, que podem ser produzidos por qualquer pessoa e em qualquer idioma;

Também lançado em setembro de 2015, o RefugeeMaps.Org é um projeto independente que usa o conhecimento geoespacial e outras perspectivas técnicas para auxiliar a rede humanitária. Segundo os desenvolvedores, que trabalham em conjunto com vários grupos de ativistas, a intenção é permitir que as pessoas possam direcionar, de forma confiável e eficaz, as suas doações em razão das demandas em cada região da Europa;

O finlandês Funzi (http://funzi.fi/) oferece, via celular e em inglês, informações sobre o processo de imigração. O serviço disponibiliza ainda cursos ligados à inserção mercadológica e empreendedorismo, de modo a ajudar os usuários a utilizar as suas habilidades de acordo com a(s) cultura(s) local(is) e diante de disponibilidades e ofertas de trabalho;

O site RefugeesWork.com é ainda mais direto. “Os recém-chegados podem te ajudar de alguma forma?”, logo na capa questionam. Assim, dois botões simples estão disponíveis, um para o cadastro de oportunidades e outro para ver as vagas disponíveis.

Os ajustes da ferramenta

Há outras iniciativas não lançadas, como o ousado aplicativo Refugge Aid na busca de recursos via crowdfunding – www.refugeeaidapp.com), que pretende por sua vez ser um definitivo ponto de referência para refugiados, ONGs, instituições de primeiro e segundo setor e interessados compartilharem demandas e recursos, a partir de localizações espaciais.

No entanto, os fomentadores das techfugees fazem algumas ressalvas aos desenvolvedores, conforme se apresenta no site da ação:

Antes de pensar em ajudar um grupo de refugiados, o interessado deve conhecer a realidade deles, suas demandas reais, e principalmente as ONG’s que já atuam no setor – instituições que podem, inclusive, se favorecer mais dos aplicativos, estabelecendo o intermédio com os beneficiários finais;

Assim, os programadores não devem construir nada (efetivar protótipos), a menos que mantenham algum contato (permanente) com usuários reais, a fim, inclusive, de realizar pré-testes;

Os desenvolvedores devem ter em mente sempre a questão: “se estou construindo algo para refugiados, como eles vão saber desta tecnologia?”, indicando tanto a necessidade de um empenho de divulgação, quanto as formas de acesso e utilização para um público-alvo muito específico;

E, acima de tudo, devem se lembrar que os aplicativos podem significar um risco a vida dos refugiados. Assim, a preocupação com o anonimato e/ou a privacidade dos mesmos deve ser uma tônica.

Outra preocupação é que não haja mais do mesmo; plataformas e softwares com princípio igual às já existentes, e tão somente com uma roupagem diferente, não são desejáveis. É possível ver no HackPad da ação, inclusive, uma discussão nesse sentido. No entanto, é cabível ter um aplicativo com a mesma característica do Whatsapp, por exemplo. É fundamental, no entanto, que um novo programa como este, para refugiados, agregue funcionalidades que permitam, como ideia, salvaguardar a identidade dos grupos e usuários e que facilite, ao mesmo tempo, o encontro de pessoas que nem se conhecem, mas têm os mesmos ensejos e estão em igual condição, a fim de compartilhar informações que são pertinentes a questão cerne – o que muda consideravelmente os ajustes da ferramenta.

Relatos de vida e demandas de indivíduos

As iniciativas, contudo, ainda são pontuais (talvez pelo caráter sem fins lucrativos que devem ter, ou mesmo pela ausência de estímulos) e muitas vezes esbarram na limitação de acesso dos refugiados aos dispositivos e/ou de sinal de internet, onde quer que estejam. Muitos destes empreendimentos, exatamente por serem acessíveis, também se permitem ser monitorados pelas autoridades (tanto dos países europeus, quanto daqueles que veem seus cidadãos tentando sair), o que reforça a preocupação dos desenvolvedores de sua relação com ferramentas que, a depender de seus propósitos, podem ser vistas como ilegais ou insurgentes.

Ainda assim, acreditamos que as investidas não tendem a cessar e encontram fôlego no apelo da sociedade global e parte da europeia que se sensibiliza com a causa – enquanto uma outra não apenas parece se contrariar, quanto disposta a denunciar tais atividades.

Na nossa opinião, as hackathons, quando condicionadas menos para um fim comercial e mais para uma proposta socialmente responsável, demonstram ser interessantes suportes colaborativos para o desenvolvimento do trabalho crítico de sujeitos que colocam à prova suas habilidades em prol de causas sociais, estruturando soluções em torno de problemas que são previamente discutidos e estudados (e não apenas lançados à mesa – vide conferência anterior, grupo de relacionamento criado no Facebook antes do evento, lista de discussão e disponibilidade de informações em um amplo HackPad).

Inferimos, em correlação, que este esforço é inerente a uma procura da sociedade (ou parte dela) por formas de engajamento com um problema emergente e latente. Nesse sentido, as soluções tecnológicas, se de um lado tendem a facilitar de alguma forma a odisseia dos refugiados, também podem servir de estímulo à reflexão da coletividade, de uma determinada comunidade, de um sujeito qualquer que seja, que passaria a ter acesso mais direto a relatos de vida e demandas de indivíduos com os quais, impelido pelo advento de tecnologias de fácil acesso e manuseio, poderia contribuir.

Expor e problematizar a realidade destes estrangeiros

No Brasil há algumas iniciativas techfugees. Uma das que mais chamam a atenção é a de cinco alunas do quarto ano de um curso técnico em informática para internet do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). O aplicativo se chama Helping Hand e tem como função auxiliar refugiados e imigrantes com informações sobre instituições de apoio, permitindo aos usuários realizar doações. Todas as funcionalidades, segundo dados no Google Play, estão disponíveis em cinco idiomas: português, inglês, espanhol, francês e árabe.

Esta é uma necessidade que parece ser crescente no Brasil. Vale observar que, segundo relatórios mais recentes do Ministério da Justiça [vide notícia de 06 de outubro de 2015: http://goo.gl/lg5LsT (link encurtado)], temos 8.530 refugiados no país, entre os quais cerca 25% são sírios. Contudo, esse número é quase cinco vezes maior se contarmos o número de cidadãos do Haiti que entraram aqui após o terremoto de 2010 naquela nação. De acordo com informações de um documento [vide http://goo.gl/kMKTSr (link encurtado)] da agência da ONU para refugiados (Acnur), que replicou dados da Polícia Federal, mais de 39.000 haitianos [boa parte deles têm vistos de residência permanente por razões humanitárias] entraram no Brasil até setembro de 2014.

Ainda assim, são muito raras as investidas tecnológicas frente a um cenário tão desafiador e complexo. Fica o estímulo às maratonas de programação brasileiras, a serem fomentadas pelas diversas startups do país, pelos núcleos acadêmicos e, acima de tudo, pelos jovens talentosos que temos aqui.

Fugindo um tanto do tema central, vale observar que as nossas hackathons poderiam contribuir ainda, quem sabe, até para o desenvolvimento de plataformas em benefício dos movimentos sociais, de grupos sociais com pouca voz na mídia de massa, de manifestantes (quaisquer que sejam) interessados em realizar protestos, entre outras frentes, gerando tecnologias a serem aplicadas em razão de uma organização social com fins de fortalecimento e representação.

Por fim, ressaltamos que parece caber mais o tema dos refugiados na agenda dos media. Nossos veículos de comunicação de massa, se o quiserem, têm condições de não só expor como de problematizar, de forma aprofundada, a realidade destes estrangeiros no país, de modo tal que a sociedade brasileira também possa compreender, se interessar e se envolver mais frente a um cenário que aparentemente demanda muita atenção de todos.

***

Antônio Augusto Braighi é professor e pesquisador do Cefet/MG

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