Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Território livre, internet vira campo de batalha

Por Marcelo Villas-Bôas em 01/08/2006 na edição 392

Não foi à toa que dois candidatos presidenciais acabaram demitindo assessores que usaram e-mails de seus gabinetes no Senado para divulgar suas respectivas campanhas. E que, tampouco, o PT tenha lançado como palavra de ordem para seus militantes o combate à ‘guerra suja’ na rede. Numa campanha com inúmeras restrições legais à propaganda – das placas em postes aos outdoors – a internet virou verdadeiro território livre para políticos, partidos e candidatos. Mas, muito mais, para cidadãos, organizações civis e entidades, que praticam livremente seu direito de opinar e divulgar atos e fatos – nem sempre rigorosamente verdadeiros.

Quantos, entre os 32,1 milhões de usuários da rede no Brasil, terão recebido um e-mail que, sobre uma foto do presidente Lula, traça um perfil que leva a acreditar tratar-se do velho operário do ABC paulista, para, no final, revelar ser o perfil de Adolf Hitler? ‘A trajetória de um grande líder’ é apenas uma das dezenas de críticas ao presidente da República.

Segundo o PNAD 2004 (IBGE), 12,2% dos domicílios brasileiros tinham um computador com acesso à internet em 2004. O percentual correspondia a um total de 6,3 milhões de domicílios ou 21,6 milhões de pessoas. O Brasil tinha 22 milhões de usuários de internet em 2004, de acordo com a UIT – União Internacional de Telecomunicações. Segundo pesquisa do Ibope, cerca de 13,5 milhões de pessoas acessaram a internet de suas residências entre julho e setembro de 2005. O total de pessoas com acesso à internet de qualquer local foi estimado em 32,1 milhões.

Boom dos blogs

A senadora Heloísa Helena, candidata presidencial do PSOL, e o senador Cristovam Buarque, candidato do PDT, vinham tendo suas agendas divulgadas através de e-mails de seus gabinetes no Senado. Heloísa e Cristovam demitiram seus assessores e proibiram o uso de equipamento oficial na campanha. Esta é uma das poucas restrições legais à campanha na internet. Fora o uso de meios oficiais, como sites ou caixas de e-mails, a legislação impede a veiculação de propaganda paga em provedores e determina que os candidatos registrem seus sites com a terminação ‘can.br’. Num período em que nem cartazes podem exceder determinadas dimensões, é a saída que resta para divulgar, pedir votos e emitir opiniões.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, um candidato lota diariamente caixas de e-mail com sua propaganda a deputado federal. Se suas mensagens que chegam a milhares de destinatários, sem qualquer custo, irão ajudá-lo a se eleger é uma questão à parte. Mas isso mostra como o fenômeno vem sendo explorado, muitas vezes de forma incômoda e indesejável.

Contra a campanha anti-Lula, a direção do PT resolveu apostar mais uma vez nos seus militantes para responder aos ataques. O jornalista Reinaldo Azevedo, cujo site Primeira Leitura acabou encerrando suas atividades por pressões econômicas, ataca agora entrincheirado em seu blog e relata estar recebendo cerca de 200 comentários diários com ameaças de processos judiciais da ‘patrulha petista’. É dele a interessante observação sobre a importância da internet na política:

‘Na rede, o PT e as esquerdas sempre foram minoria. Aqui e no mundo. Basta ver a importância que os blogueiros tiveram nas duas eleições de George W. Bush nos EUA: desfizeram mitos, apontaram mentiras, desmoralizaram sólidas reputações politicamente corretas. Assim como a esquerda é hegemônica na mídia impressa, o pensamento que ‘eles’ chamam ‘conservador’ ou de ‘direita’ é hegemônico na rede. E só uma palavra explica isso: LIBERDADE’.

A revista Época, que circula esta semana (edição nº 428, de 31/7/2006), traz na capa ampla reportagem (‘Os novos campeões de audiência’) sobre o boom dos blogs no Brasil. E compara a internet, no século 21, com o fenômeno do rádio e da televisão no século passado:

‘O século passado pode ser, sem exagero, chamado de Era do Rádio e da TV. E o século 21? Muitos dizem que será a Era da Internet. Em vez de um meio de comunicação de massa, com um transmissor central para milhões de ouvintes ou telespectadores, a rede mundial promete ser um meio de que todos possam participar, onde todos possam publicar e gerar conteúdo. Promete ser um meio de comunicação não apenas de massa, mas construído pela massa – os internautas’.

Argumentos ‘clínicos’

Sites ou blogs, a verdadeira onda da internet não deixa ninguém de fora. O prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, comunica-se diariamente com mais de 10 mil pessoas através de seu ‘ex-blog’, que assim denominou após ter sido atacado por hackers. Com textos, fotos e imagens, César Maia analisa, diariamente, fatos da política brasileira, e manda seus recados e impressões aos candidatos a presidente, governador ou deputado. Na mensagem de sábado (29/7), ele abre a edição com sarcasmo:

‘AGRADECIMENTO! – Antes do caso dos hackers este ex- blog tinha quase 10 mil assinantes. Ontem (sexta-feira) atingiu a 10.914. Muito obrigado. Este ex-blog promete muitas novidades durante o processo eleitoral. Quem ficar verá!’

Outro caso marcante envolve o site oficial do governo de Rondônia, que, desde a tarde de terça-feira (25/7), foi invadido por piratas. O bem-sucedido ataque tinha como finalidade a divulgação da foto de um guerrilheiro armado com um fuzil, com uma bandeira estrelada ao fundo. O site governamental, até a tarde de domingo (30/7), continuava inoperante, o que demonstra a fragilidade da equipe de informática do governo do tucano Ivo Cassol (PSDB) e a inexistência de qualquer política de segurança pública voltada para essa importante área da vida da cidadania. Será que os responsáveis foram pescar tambaquis no rio Guaporé, antes mesmo do fim da semana?

Mas não apenas de críticas vivem os internautas e blogueiros. A Med-Rio Check Up, empresa especializada em saúde preventiva, do Rio de Janeiro, descreve bem a rotina de candidatos para depois ordenar: ‘Ao check-up, candidatos’. No boletim mensal distribuído pela rede, ela lança o desafio:

‘Os candidatos à Presidência que quiserem realmente manter a transparência durante a campanha eleitoral devem se submeter ao check-up médico e mostrar à população suas condições físicas e de saúde para enfrentar a estressante corrida presidencial’.

Os argumentos ‘clínicos’ são absolutamente lógicos:

‘O desgaste provocado durante a campanha pode comprometer o bem-estar dos candidatos sem que eles mesmos percebam o fato. São noites e noites mal-dormidas, viagens aéreas não muito prazerosas, comícios, gravações de programas políticos, inaugurações, compromissos sociais etc. Isso sem contar as coxinhas, sanduíches e comidas típicas que nem sempre fazem bem ao estômago. Mas, de que forma saber como anda a saúde dos candidatos? Em países da Europa e dos EUA o check-up médico faz parte da rotina dos políticos que pretendem assumir cargos executivos e/ou legislativos. Eles prestam contas de sua saúde aos eleitores, que já esperam pelo diagnóstico para também definir seus votos’.

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Jornalista

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