Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Tropa de Elite vence
festival de Berlim

Por Luiz Antonio Magalhães (seleção de textos) em 18/02/2008 na edição 472


Leia abaixo a seleção de domingo para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Domingo, 17 de fevereiro de 2008


TROPA DE ELITE PREMIADO


Silvana Arantes


‘Tropa de Elite’ supera favoritos e vence em Berlim


‘O longa brasileiro ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, venceu ontem o 58º Festival de Berlim, recebendo o Urso de Ouro como o melhor filme da competição, que contou com 21 títulos. Mal recebido pela crítica, ‘Tropa’ superou os favoritos ‘Sangue Negro’ (que concorre a oito Oscars) e ‘Happy-Go-Lucky’.


Ao anunciar o prêmio, o presidente do júri, o cineasta grego radicado na França Constantin Costa-Gavras (‘Z’), afirmou que o longa brasileiro teve ‘completa aceitação’ dos jurados, ‘que discutiram cada filme e cada detalhe dos filmes’.


Ao subir ao palco, Padilha cumprimentou um por um os seis jurados e, com o Urso de Ouro nas mãos, aproximou-se do microfone e disse: ‘Muito obrigado! Thank you! Danke! [obrigado em alemão]. Em todas as línguas, é muito difícil explicar o que estou sentindo agora. Costa-Gavras é uma espécie de herói para todos os cineastas latino-americanos’.


Crítica


A recepção da crítica internacional a ‘Tropa de Elite’ em Berlim havia sido enfaticamente desfavorável. Publicações como a revista norte-americana ‘Variety’ e o diário francês ‘Le Monde’ entenderam o filme, cujo protagonista é um capitão do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) da PM do Rio de Janeiro, como uma apologia da tortura.


A sessão para a imprensa de ‘Tropa de Elite’ no festival, que ocorreu no último dia 10, foi caótica, devido ao sumiço da cópia com legendas em inglês.


A versão exibida aos repórteres e críticos tinha legendas em alemão, e os jornalistas que não dominavam nem esse idioma nem o português tiveram de usar fones de ouvido com tradução simultânea.


Ainda em seu agradecimento, Padilha citou o ator Wagner Moura, que veio a Berlim para a estréia do filme no festival, mas ontem não estava na premiação, porque já havia voltado ao Brasil; a atriz Maria Ribeiro, que permaneceu em Berlim e o ouvia na platéia; o fotógrafo Lula Carvalho, os produtores e patrocinadores do filme.


Sócio de Padilha e produtor do filme, Marcos Prado também agradeceu o prêmio, dizendo que Padilha fez ‘o melhor filme do mundo sobre a corrupção da polícia’.


Prado citou o sucesso que ‘Tropa de Elite’ obteve no Brasil -foi o líder de bilheteria nacional de 2007, com 2,4 milhões de espectadores- e disse que o filme representa ‘uma realidade para os brasileiros’.


O Festival de Berlim premiou como melhor diretor o norte-americano Paul Thomas Anderson, por ‘Sangue Negro’, que recebeu ainda um prêmio pela trilha sonora, de Jonny Greenwood.


O Prêmio Especial do Júri foi para o documentário ‘Standard Operating Procedure’ (operação padrão), de Errol Morris, sobre os abusos aos direitos humanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque; o melhor ator foi o iraniano Reza Najie, por ‘Avaze Gonjeshk-ha’ (o canto dos pardais); a melhor atriz, a britânica Sally Hawkins (‘Happy-Go-Lucky’); o melhor roteiro foi para o chinês Wang Xiaoshuai, por ‘Zuo You’ (acreditamos no amor), que ele também dirige.


O mexicano Fernando Eimbcke recebeu o prêmio Alfred Bauer, para produções que inovam a linguagem cinematográfica, por seu ‘Lake Tahoe’.


Esta foi a segunda vez que um filme brasileiro recebeu o Urso de Ouro. O primeiro longa a conseguir esse prêmio foi ‘Central do Brasil’, de Walter Salles, em 1998.’


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Filme foi mal compreendido pela crítica, diz Padilha


‘O diretor José Padilha afirmou que o Urso de Ouro que ‘Tropa de Elite’ ganhou ontem ‘é uma vitória da força e da luta que é fazer um filme no Brasil e de um certo estilo de filmar’.


‘Tropa de Elite’ é o primeiro longa de ficção de Padilha, multipremiado com o documentário ‘Ônibus 174’.


Padilha comentou a recepção crítica negativa do filme (acusado de fazer apologia da tortura) afirmando que muitos não o compreenderam, embora não seja difícil entender o longa.


‘Não acho que o filme seja hermético e difícil de entender. O que acontece é que tentamos fazer um filme que olhasse para um problema social sem partir de idéias marxistas e sem partir de idéias neoliberais. Usamos outra maneira de pensar, baseada na teoria dos jogos, para montar esse roteiro. Perguntamos quais são as regras do jogo da vida desse personagem [o capitão Nascimento]’.


Corrupção


O cineasta citou ‘Ônibus 174’, como um filme ‘que mostra como garotos de rua no Brasil são levados à violência’ e ‘Tropa de Elite’ como ‘um filme que mostra como o Estado transforma pessoas que entram para a polícia em seres humanos corruptos ou violentos’.


Depois de contar o episódio do roubo de uma versão preliminar do filme que se tornou sucesso no mercado pirata antes da estréia nos cinemas brasileiros, citando a estimativa de que 11 milhões de pessoas o tenham visto, Padilha disse:


‘Acho que a maioria dos brasileiros entende esse filme. A população brasileira gostou e ele agora ganhou um prêmio de um júri presidido pelo [cineasta grego Constantin] Costa -Gavras. Eu não poderia estar mais feliz’. Costa-Gavras é considerado no universo do cinema como um mestre no gênero do thriller político.


Questionado se havia ficado decepcionado com o fato de ‘Tropa de Elite’ não ter sido escolhido pelo Brasil para representá-lo na corrida ao Oscar 2008 de melhor filme estrangeiro, o diretor disse que não e elogiou ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’, de Cao Hamburger, que o Brasil tentou sem sucesso emplacar no Oscar. ‘É um grande filme’.


Quando a pergunta foi se, junto com ‘Cidade de Deus’, de Fernando Meirelles, ‘Tropa de Elite’ inaugurava a escola de cinema-de-favela, Padilha respondeu: ‘Não se inaugura uma escola de cinema com esses dois filmes. Seria muito pretensioso da minha parte dizer que esse filme cria uma escola. Quero aproveitar para dizer que o Brasil não faz só filmes sobre favela.’ E citou como exemplo ‘Mutum’, de Sandra Kogut, que foi apresentado na mostra GenerationK deste Festival de Berlim e recebeu menção especial do júri. ‘Há uma grande produção de filmes no Brasil que não lidam com violência urbana’.’


MÍDIA & POLÍTICA


Vinicius Torres Freire


Miudezas e enormidades


‘‘MACARTHISMO das miudezas’ foi como Marcelo Coelho, colunista desta Folha, definiu de modo preciso a indignação conturbada, muitas vezes ignara e farisaica, com os vexames criminosos no uso dos cartões de crédito do governo federal.


Muito dessa fofoca animada não tem diferido da indignidade daquilo que pretende criticar. O tema do controle e da publicidade dos atos oficiais provoca interesse mais geral por suscitar o assanhamento da bisbilhotice. Ou por confirmar os preconceitos mais mesquinhos do sentimento comum sobre a política. A atitude ante a ‘farra dos cartões’ se assemelha à de adeptos de coisas como o Big Brother Brasil ou às de cenas caricatas de filmes sobre a Revolução Francesa, com o povo a jogar móveis e calçolas de Maria Antonieta pelas janelas dos palácios.


Seria um insulto desconsiderar a indignação dos brasileiros comuns, quase todos, que vivem com orçamentos estourados, quando não em pobreza ou miséria mesmo. Mas também é ultrajante a atitude de gente em tese mais informada (ou que deveria sê-lo), dos que têm voz no debate público e da turma política. Nesses casos, trata-se de hipocrisia ou de gente com cérebro de pudim, que se interessa por questões públicas só quando o debate desce ao nível de contas de padaria.


Para quem acha que tal queixa é esnobismo em relação à revolta dos farrapos e de lúmpens mentais, que se divirta com a cretinização contínua do debate e a cortina de fumaça diante do que mais interessa.


Para começar, a execução da despesa federal não é pública. É preciso mendigar com um parlamentar o acesso às contas do meio trilhão de reais do gasto da União (a conta dos cartões, bandalheiras e gastos corretos foi de R$ 78 milhões, ou 0,015% do gasto total). Quem liga?


Na semana em que se barganhava essa CPI mandrake, já lambuzada pelo acordão tácito entre tucanos e petistas, o Congresso terminou sua proposta para o Orçamento da União para 2008. Quem ligou?


Sim, o Orçamento é meio fictício e, na prática, definido por vinculações ou pelo que o governo decide ou não gastar no dia-a-dia. O Congresso quase se limita a fazer malabarismos de modo a liberar mais dinheiro para emendas parlamentares, montante sobre o qual vai se dar o toma lá, dá cá, durante o ano.


A comissão de Orçamento previu que a receita líquida crescerá uns 10%, mesmo sem CPMF (em 2007, cresceu 13%), com o PIB subindo a por ora inflados 5%, com juros caindo, com receita inflada por um pouco mais de inflação. A conta vai fechar? Quase ninguém quer saber.


Não se sabe o tamanho real do aumento do salário mínimo, pois não se chegou a um acordo sério sobre a política de reajuste. Nem se sabe do aumento de salários e contratações de servidores, outro assunto à espera de voto no Congresso e que dará tanta quizumba política como o mínimo. Nem se sabe se o aumento de IOF e de CSLL, se não cair na Justiça, dará mesmo R$ 20 bilhões. Não se sabe se o governo gastará mais em PPI e exigirá mais superávit das estatais. Não se sabe se vão cortar na saúde. Ou se o governo poderia cortar um bilhãozinho aqui e ali, sendo mais eficaz e menos sujeito a ladroagem mais grossa. Quem liga?’


ARGENTINA


Sylvia Colombo


Criador do irreverente ‘Página 12’ funda novo jornal diário


‘Para Jorge Lanata, 47, um dos mais importantes jornalistas veteranos da Argentina, a televisão de seu país vive hoje ‘a mesma pobreza criativa geral que afeta o jornalismo’.


Fundador do irreverente e provocador ‘Página 12’ -lançado em 1987 e dirigido por ele até 1994-, Lanata considera que, desde a crise de 2001, ‘a agenda das televisões refugiou-se no noticiário policial e nos programas de ficção’, disse à Folha, por e-mail.


Isso porque as denúncias políticas e o jornalismo investigativo teriam se tornado cada vez mais raros. ‘O governo Kirchner cooptou os meios de comunicação, multiplicando a publicidade oficial e gerando um ambiente de autocensura.’


Lanata não vê no badalado ‘Caiga Quien Caiga’ um programa jornalístico, e sim cômico. ‘Uma pergunta insólita em uma entrevista feita no susto não significa jornalismo. Além disso, o ‘Caiga’ é um dos poucos programas com os quais o ex-presidente Kirchner falava. Isso porque sabia que não significava nenhum risco. São uns meninos engraçados, só isso.’


Novo jornal


Gorducho, histriônico e exibicionista -suspensórios são sua marca registrada-, Lanata lança no dia 2 de março um novo diário: ‘Crítica de la Argentina’ (www.criticadigital.com) sai com uma tiragem inicial de 60 mil exemplares.


No ambiente midiático, há certa inquietação. Haveria público para um novo jornal diário na Argentina? Há ainda os que questionam de onde estaria vindo o dinheiro para esse tão ambicioso novo projeto.


Lanata diz que reeditar o ‘Página 12’ dos velhos tempos hoje seria impossível. ‘Fundei-o quando tinha 26 anos. Achava que era adulto, e isso me permitiu chutar as portas em vez de bater e pedir para entrar. Hoje, sinto mais pressão. Todos exigem que eu volte a ‘renovar o jornalismo’, como se alguma vez eu me houvesse proposto a isso. Essas coisas acontecem, não se propõem’, afirmou.


O ‘Página 12’ caracterizava-se pelo projeto gráfico ousado, uso de grandes fotos, títulos sensacionalistas -assemelhados ao tom da chamada ‘imprensa marrom’-, o bom humor e a crítica ao governo.


‘Mostramos que a variedade na forma de se mostrar uma notícia é infinita e não altera o seu conteúdo. Na época, podíamos comunicar a queda de um ministro só com uma fotomontagem, por exemplo.’


Lanata dirigiu o ‘Página 12’ por quase oito anos, até que este foi vendido ao concorrente ‘Clarín’. O jornal deixou de ser combativo politicamente e entrou em decadência.


Depois dessa experiência, Lanata teve programas televisivos, lançou um documentário sobre dívida e corrupção (‘Deuda’) e o best-seller ‘Argentinos’, em dois volumes.


No ano passado, voltou aos holofotes quando, em sua coluna no semanário ‘Perfil’, revelou o que ficou conhecido como ‘banheirogate’ -a história da mala com US$ 60 mil em espécie escondidos no banheiro da ministra da Economia, Felisa Miceli. O escândalo causou a demissão da ministra, mas não teve impacto na corrida eleitoral que levaria Cristina Kirchner ao cargo do marido.


‘A denúncia teve importância na opinião pública, mas não na população em geral. Comprovou-se que a situação econômica segue sendo o único elemento que os argentinos valorizam hoje na hora de votar.’’


MÍDIA & MEIO AMBIENTE


Arnaldo Antunes


Uma piada de mau gosto


‘É DE derrubar o queixo o artigo de Nelson Ascher de 4 de fevereiro, nesta Ilustrada, em que declara que ‘o lobby mais poderoso e articulado é, sem dúvida, o dos verdes ou ecologistas’, que estaria impondo ao mundo inúmeras restrições, baseado em ‘males imaginários’.


Tendo em conta as enormes dificuldades para conseguir reduzir minimamente os efeitos de uma situação planetária que vem se revelando muito mais alarmante do que até então todos supúnhamos, tal afirmação do colunista parece uma piada de mau gosto.


A urgência em se tratar da questão ambiental vem sendo comprovada por inúmeras pesquisas científicas e evidências incontestáveis, a despeito das já reportadas pressões que o governo americano vem exercendo sobre seus cientistas para atenuarem, retardarem, alterarem ou excluírem suas conclusões sobre o meio ambiente dos relatórios oficiais.


Nelson Ascher repete aqui a ladainha do ‘não é bem assim’, que vem sendo usada com freqüência pelos representantes dos interesses das indústrias poluentes para tapar o sol com a peneira e não alterar suas condutas em relação ao meio ambiente. Faz isso desde o título de seu texto (‘Quente ou frio?’), pondo em dúvida, não só o aquecimento global, como também a responsabilidade humana sobre ele.


É claro que medidas ecológicas implicam diretamente reduções drásticas nos lucros imediatos de determinados grupos empresariais, diante dos quais as reivindicações dos ambientalistas (como reduções nas emissões de CO2, tratamento adequado do lixo, descontaminação das águas, restrição ao desmatamento das florestas) ainda engatinham, contra muita resistência e pouca consciência.


Metáforas medonhas


Ao mesmo tempo, não é de espantar a postura de Nelson Ascher, para quem já vem acompanhando, em doses semanais, sua campanha a favor da desastrosa política externa da administração Bush e de seus métodos para combater o terrorismo internacional.


Nos primeiros momentos da invasão norte-americana no Iraque, Ascher comemorou com entusiasmo a suposta vitória (com metáforas medonhas como as de bombas caindo como pizzas ‘delivery’), sem perceber o quanto não se tratava de um termo, e sim do início de um conflito armado que se estende até hoje, sem uma solução à vista.


Dessa visada, seu artigo parece fazer sentido, pois serve bem ao que almeja a nova ordem americana (marcada pela intolerância nas relações exteriores, assim como pela recusa em aceitar as restrições internacionais para controle do aquecimento global), contra o que já chamou, em outros artigos, de ‘velha Europa’.


Ainda, para Nelson Ascher, os defensores do meio ambiente seriam responsáveis por uma série de ‘proibições’ que, ‘poucas décadas atrás, teriam parecido ridículas’: ‘baniram os bifes’, ‘eliminaram os transgênicos’, ‘proscreveram os vôos internacionais’, ‘tornaram proibitivo o uso de automóveis’, ‘plastificaram as genitálias alheias para limitar a produção de bebês’, ‘criminalizaram a obesidade, o fumo etc.’.


Um mínimo de sensatez basta para duvidar da maioria dessas colocações. O culto à forma física e a proibição ao fumo têm origem mais ligada a questões de saúde pública e conservadorismo moral do que à defesa do meio ambiente.


Por sua vez, o uso de preservativos -apesar de atualmente ter mais relação direta com a ameaça da Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis do que com causas ecológicas, como o controle de natalidade- apresenta uma alternativa libertária e necessária, contra a qual o puritanismo das forças neoconservadoras (as mesmas que tentam substituir Darwin por Adão e Eva no ensino primário) investe com a defesa das relações monogâmicas e do sexo apenas com fins de procriação. Quanto às outras restrições, parecem ilusórias ante a constatação da realidade cotidiana.


As ofertas para consumo de carne aumentaram em quantidade e variedade nas últimas décadas, e não parece preciso lembrar aqui que parte da floresta amazônica vem sendo devastada para se tornar pasto. Os preços das passagens para vôos internacionais caíram consideravelmente. As facilidades de compra parcelada de automóveis também aumentaram, ao ponto de o número de veículos nas ruas levar a uma situação indomável, da qual nenhuma espécie de rodízio parece dar conta.


Enfim, por mais que nos queira fazer crer no contrário o colunista, o fato é que venceu a cultura do excesso, do desperdício e da irresponsabilidade em relação a um futuro que não seja imediato.


É por isso que, a cada dia mais, temos que conviver com insanidades como, para ficar em pequenos exemplos, guardanapos de papel embrulhados um a um em embalagens plásticas, canudos de plástico revestidos um a um em embalagens de papel, sachês de material plástico embalando pequenas porções de mostarda, ketchup, azeite, maionese etc., que, numa estúpida assepsia (que há poucas décadas, sim, pareceria ridícula), vêm, gota a gota, degradando o planeta.


Era Bush


E, é claro, esse estado de coisas combina bem com a conjunção de intransigências que marca a era Bush, apoiada principalmente pelos lobbies das indústrias petrolífera e armamentista, não só imensamente mais poderosas do que as que lutam pela preservação do meio ambiente, como também com interesses antagônicos a elas.


Muito mais graves do que as ‘proibições’ atribuídas por Ascher aos ecologistas são as restrições à liberdade individual levadas a cabo pelo governo americano em sua campanha antiterrorista -correspondências violadas, prisões sem mandados ou advogados, perseguições a pessoas que se oponham à guerra, cerceamento de manifestações de rua, restrições crescentes para concessões de vistos a imigrantes.


Mas o que é mais inaceitável é a afirmação de que ‘a preocupação exacerbada com o clima e o meio ambiente, coisas cujo funcionamento se conhece pouco e mal, já resultaria em problemas imediatos, pois, para a parcela miserável da humanidade, dificulta cada vez mais a superação de seu estado’, ante a evidência de que os mais desfavorecidos economicamente são também os que mais sofrem as conseqüências das contaminações tóxicas e dos desvios naturais decorrentes delas.


Além disso, Ascher ignora os inúmeros projetos de inclusão social relacionados à coleta seletiva de lixo e reciclagem, por exemplo, entre outras iniciativas ecológicas.


Quanto ao Protocolo de Kyoto (que os EUA não assinaram, apesar de serem os maiores contaminantes), cujas metas parecem hoje insuficientes diante dos mais recentes relatórios sobre a situação ambiental, o articulista afirma ‘sabermos que era praticamente inútil, que as nações mais vocalmente empenhadas em seu sucesso têm sido as que mais longe ficaram das metas propostas’, como se uma lei devesse deixar de existir apenas pelo fato dela não estar sendo devidamente cumprida.


Há pessoas que defendem esse estado de coisas dizendo: ‘poderia ser pior’, como no caso da ordem mundial ser tomada pelo fundamentalismo islâmico, em que todos os considerados ‘infiéis’ poderiam sofrer violência desmedida.


Eu acho que deveríamos pensar: ‘poderia ser melhor’, se os Estados Unidos e os países que os seguem assumissem seus compromissos com o controle de abusos ambientais; se houvesse maior liberdade de trânsito entre as fronteiras; se a intolerância desse lugar ao diálogo; se todos pensassem não só nos seus filhos e netos, mas também nos tataranetos dos seus tataranetos.


ARNALDO ANTUNES é poeta, compositor e cantor’


***


Ascher atacou ‘manias de minoria’


‘Arnaldo Antunes se refere à coluna de Nelson Ascher publicada na Ilustrada de 4/2, em que ele criticava os ecologistas por fazer lobby com os governos ‘para que estes imponham à sociedade as manias desta ou daquela minoria obsessiva’. Segundo Ascher, os ativistas verdes se convenceram, ‘devido a algumas variações de frações de graus nos últimos cem anos’, de que ‘o planeta está prestes a se derreter’ e de ‘que nós […] é que somos a causa do suposto desastre’.’


TELEVISÃO


Daniel Castro


Novela da mulher de Silvio Santos terá ‘crítica política’


‘‘A Revelação’, novela que a socialite Íris Abravanel escreve para o SBT, será um dramalhão com todos os clichês. Mas promete, em sua sinopse (obtida pela Folha), apresentar ‘componentes da crítica política’, usando ‘a linguagem da sátira como recurso de denúncia’.


A história criada pela mulher de Silvio Santos será ambientada na ‘bucólica’ Tirânia. ‘Na verdade, Tirânia funciona como um microcosmo de qualquer país latino-americano, com seus contrastes e paradoxos, servindo como caixa de ressonância de mazelas tão comuns em todo o continente e estabelecendo uma ponte entre a ficção e a realidade dos nossos dias’, define a sinopse.


A novela começa a ser gravada no próximo final de semana em Portugal. Estréia em maio. Os protagonistas serão Sérgio Abreu e Tainá Müller.


Na história, Lucas (Abreu) e Victória (Tainá) se apaixonam em Lisboa. Ele volta ao Brasil sem saber que ela está grávida. Em Tirânia, recebe fotos forjadas que mostram a amada com outro. Ele passa a desprezá-la e se casa com a filha do prefeito.


A novela terá ainda um misterioso personagem, o Oculto, manipulador dos demais -a ‘revelação’ de sua identidade e objetivos, no final, justificam o título. Tirânia ainda esconde um ‘tesouro’, que atrai um traficante internacional, e sofre com ‘a explosão do consumo de drogas’ na periferia, onde mulheres como Íris Abravanel farão ‘ação social’.


FUTURO INCERTO


É delicada a situação do ‘Fantasia’. O programa do SBT tem perdido no Ibope para o evangélico ‘Fala que Eu Te Escuto’ (Record). Estima-se em poucas semanas seu tempo de ‘vida’.


ZERO HORA


O ‘imortal’ Jack Bauer já não é mais o mesmo. Exibido atualmente pela Globo, o seriado estrelado por Kiefer Sutherland perdeu um terço de sua audiência em apenas dois anos. Em 2006, ‘24 Horas’ teve 12 pontos no Ibope. No ano passado, se manteve em 11,5. Neste ano, está com apenas oito pontos.


ELA É ELE


Uma das estréias de amanhã na Globo, a minissérie ‘Queridos Amigos’ terá um travesti. Cíntia (na foto, cantando ‘Ne Me Quittes Pas’) marcará a estréia na TV do mineiro Odilon Esteves, 29. Na história, Cíntia será usado por Benny (Guilherme Weber), um gay tão cáustico que chega a agredir até com uma observação básica sobre alguém (e que prefere garotos), para chocar o protagonista Léo (Dan Stulbach). Antes de dar vida a Cíntia, Esteves teve aulas de canto e etiqueta, para se comportar com feminilidade, evitando a caricatura.


O NÚMERO DA IVETE


Ex-bancário e triatleta amador, Guilherme Arruda (foto), 31, há um ano apresenta o ‘Band Esporte Clube’, na Band. Mas só virou celebridade mesmo no último Carnaval, quando foi ‘beijado’, em cima de um trio elétrico, em Salvador, por Ivete Sangalo. ‘No primeiro dia de Carnaval, a Ivete falou pra mim: ‘Eu vou em você. Você é o meu número’, lembra. Na terça-feira, ela foi. Guilherme jura que não rolou beijo de verdade: ‘Ela colocou a mão na frente’.


Frase


O assédio aumentou muito [depois do ‘beijo’ de Ivete Sangalo]. Deu uma exposição enorme. Onde a Ivete toca vira notícia’


GUILHERME ARRUDA


BRASÍLIA AMARELA


No ar no final de março, o primeiro ‘Por Toda a Minha Vida’ (Globo) de 2008 retratará a curta e intensa trajetória da banda Mamonas Assassinas, cujos integrantes morreram em um acidente aéreo em 1996. Para interpretar os músicos, o diretor José Luiz Villamarim selecionou atores desconhecidos de diferentes regiões do país, priorizando a semelhança física. Já a atriz Fernanda Freitas, conhecida como a ‘sósia’ de Déborah Secco, viverá a modelo Valéria Zoppelo, a outrora famosa ‘viúva do vocalista Dinho’.


Pergunta indiscreta


FOLHA – Você não leva sustos quando se vê em ‘Caminhos do Coração’ (Record)?


PRETA GIL (a assustada Helga) – Lógico que levo. Sou supercrítica com meu trabalho, levo sustos quando ouço meus discos. Até hoje não consigo assistir à novela com gente do meu lado. Na novela não tem como não ficar over. Minha personagem já foi assombrada por lobisomem e vampiro. Você se desespera.’


Laura Mattos e Cristina Fibe


Brasil se abre a programas argentinos


‘Ligue no SBT de segunda a sábado, às 20h15. Se não houver nenhuma daquelas mudanças repentinas de Silvio Santos, estará no ar a novela ‘Lalola’, sobre o mulherengo Lalo, transformado por bruxaria em Lola para pagar todos os seus pecados com a mulherada.


Mais do que uma trama engraçadinha, ‘Lalola’ -que na estréia dobrou a audiência do SBT- é um exemplo da expansão internacional da TV argentina. Mesmo as redes brasileiras, que não são das que mais importam programação, estão se abrindo aos hermanos.


Além de ‘Lalola’, que entrou no ar em janeiro, a TV brasileira deverá ter em breve mais dois programas da Argentina em horário nobre. O primeiro a estrear será a versão nacional do ‘Caiga Quien Caiga’ (‘CQC’). Comprado pela Band e rebatizado de ‘Custe o que Custar’, tem a estréia prevista para março. É apresentado por um trio de jornalistas (os brasileiros devem ser escolhidos nesta semana), que trata notícias de política, esportes e celebridades com humor irônico.


No ar há 11 anos na Argentina, ganhou versões na Itália, Espanha, França, Chile e Israel. A Band comprou também a minissérie ‘Hermanos y Detectives’, policial com ares de Agatha Christie protagonizado por Rodrigo de la Serna (intérprete do amigo de Che Guevara no filme ‘Diários de Motocicleta’). Vai exibir o original dublado, em data a ser definida.


A versão brasileira da norte-americana ‘Desperate Housewives’, exibida em 2007 pela Rede TV!, é também um exemplo do crescimento da indústria audiovisual argentina. A série, com Lucélia Santos e Sônia Braga, foi filmada em Buenos Aires, que, com mão-de-obra boa e barata, tornou-se um oásis da produção internacional.


Boom da crise


Diante de um mercado publicitário reduzido, especialmente com a crise financeira que assolou o país no início desta década, as produtoras de TV argentina, para sobreviver, passaram a focar a exportação.


É grande o número de títulos oferecidos a TVs da América Latina, Europa e o mercado hispânico dos EUA. A variedade é conseqüência da principal diferença entre a TV argentina e a brasileira. Lá, a produção deixou de ser monopólio das redes, como no Brasil, e passou para produtoras independentes. ‘A terceirização não foi imposta por nenhuma lei, foi uma necessidade de mercado. Era preciso buscar qualidade e diminuir os riscos’, conta Horácio Ferrari, diretor-executivo da Câmara Argentina de Produtoras Independentes de Televisão, que reúne as 22 principais fornecedoras de conteúdo para as redes de TV do país.


No Brasil, apesar de haver mais de mil produtoras independentes, as redes não se abrem. Por isso, a ABPI-TV, que representa o setor, defende uma lei que as obrigue a exibir produção independente.


Nesse caso, a Argentina está mesmo um passo à frente do Brasil. De cinco anos para cá, segundo Ferrari, além da produção de programas, as produtoras passaram a investir na criação de formatos para exportação. Isso quer dizer que, em vez de vender um programa argentino pronto, é oferecida a idéia e, normalmente, uma parceria para a produção local, como será o caso do ‘CQC’.


‘Isso tem a ver com a universalização dos temas. Os argentinos hoje vendem formatos de novelas que podem ser produzidas em qualquer país, independentemente das diferenças culturais. É diferente da TV inglesa, que tem bons formatos, mas com um tom mais local, difíceis de exportar’, avalia Elisabetta Zenatti, diretora de programação da Band, que co-produziu ‘Floribella’, versão da novela argentina ‘Floricienta’.


Celina Amadeo, CEO da Dori Media Central Studios, produtora de ‘Lalola’, acha que a vantagem da produção argentina é ser menos regionalista do que a brasileira. Para ela, são produzidas aqui histórias que respondem a um molde local e que, ‘culturalmente, tomam como protagonista o seu próprio universo’. ‘Na novela brasileira, o local tem muita importância.’


Já ‘Lalola’, de acordo com Amadeo, foi pensada para o mercado internacional, com linguagem mais universal. ‘A história é a protagonista, e não o local.’ Daí a estética mais próxima dos seriados americanos do que das telenovelas latinas.


Alvo


O Brasil, conhecido internacionalmente pela exportação de novelas da Globo, sempre foi um mercado almejado pelas produtoras argentinas. ‘A TV brasileira era uma aspiração para nós, assim como a mexicana. São mercados com produção local forte, difíceis de penetrar’, afirma Ricardo Kon, diretor de desenvolvimento e gestão da Cuatro Cabezas, produtora do ‘Caiga Quien Caiga’.


‘O ‘CQC’ é só o primeiro passo. Nosso objetivo é vender mais para o Brasil’, planeja.


Para Celina Amadeo, o mercado brasileiro ‘é o mais interessante da América do Sul’ e ‘Lalola’ é um bom projeto para iniciar relação duradoura’.’


Adriana Küchler


Dois produtores medem forças na TV argentina


‘O poder na TV argentina é disputado não entre dois canais, mas entre dois grandes produtores. Mario Pergolini, o criador de ‘Caiga Quien Caiga’ (ou ce-cu-ce, como é chamado por aqui), é o campeão de crítica. Seu humorístico (que já foi transmitido por três canais diferentes) é popular até entre os membros do governo. A presidente Cristina Kirchner e seu marido, Néstor, o ex-presidente, famosos pela aversão a jornalistas, aparecem com prazer no programa e, pelo menos ali, não se importam em ser motivo de chacota na TV.


O rival de Pergolini é Marcelo Tinelli, que, com sua grife ‘por un sueño’ (‘Bailando por un Sueño’, ‘Patinando por un Sueño’, na linha da ‘Dança dos Famosos’ do Faustão), foi o grande campeão de audiência em 2007.


Correndo por fora, ‘Lalola’ ganhou no fim de 2007 os troféus de melhor ficção, roteiro, atriz, ator e revelação feminina, na categoria comédia, em premiação do jornal ‘Clarín’.’


Laura Mattos


Rede Globo estréia minissérie e novela das sete amanhã


‘Uma turma que deve ter mais o que dizer do que a formada pelos confinados do ‘Big Brother’ é o centro da minissérie ‘Queridos Amigos’, de Maria Adelaide Amaral (‘A Muralha’, ‘JK’), que entra no ar amanhã, na Globo, após o reality show.


Com 25 capítulos, a obra é uma adaptação do livro ‘Aos Meus Amigos’, no qual a autora fala de intelectuais de esquerda que fazem parte de seu círculo de amizades e que teve como ponto de partida o suicídio do jornalista Décio Bar, colega de profissão e amigo de Amaral.


Na versão televisiva, ele será Leo (Dan Stulbach), que já trabalhou com literatura, cinema e publicidade. Não irá se matar, mas descobrirá que está doente e tem pouco tempo de vida. Em vez de buscar um diagnóstico preciso e procurar tratamento, ele decide reunir novamente os amigos, que formavam praticamente uma família nos anos 70, quando todos pareciam ter os mesmos ideais e sonhavam com o fim da ditadura militar.


‘Queridos Amigos’ se passa em 20 dias de novembro de 1989. Além da campanha Collor x Lula, rememora outros acontecimentos históricos, como a queda do Muro de Berlim.


Além de Stulbach, fazem parte da ‘família’, entre outros, Débora Bloch, Guilherme Weber, Denise Fraga, Matheus Nachtergaele, Drica Moraes, Bruno Garcia e Tarcísio Filho.


Beleza Pura


Também amanhã a Globo coloca no ar sua nova novela das sete, ‘Beleza Pura’. É a primeira que Andréa Maltarolli, uma das criadoras de ‘Malhação’, assina como titular. A autora terá a supervisão de Silvio de Abreu (‘Torre de Babel’, ‘Belíssima’), que tem atuado como ‘caça-talento’ de novelistas.


Na trama, Edson Celulari será Guilherme Medeiros, engenheiro badalado que desenvolve um projeto de um helicóptero. Norma Gusmão (Carolina Ferraz), colega de Guilherme, apaixonada e desprezada por ele, decide sabotá-lo. Com isso, o helicóptero cai, matando todos os tripulantes e a carreira do engenheiro. Pobre e desacreditado, ele vai atrás das famílias das vítimas e conhece Joana (Regiane Alves), a mocinha da novela.’


Bia Abramo


Os novos bezerros de três cabeças


‘O SUJEITO tem 40 anos e só come pizza e batatas fritas industrializadas. Em vez de seguir em frente com sua esquisitice ou de procurar um profissional de saúde, o sujeito vai lá e procura um programa de televisão.


A família não aguenta a cachorra que late o tempo todo, estraçalha a correspondência antes que chegue a uma mão humana, dorme na cama do casal e acorda mais vezes à noite do que um bebê com cólicas. Livraram-se da cachorra, chamaram a carrocinha? Não, apelaram para um programa de TV.


O cara dá para o seu cachorro todas as guloseimas que ele consome; ao final de um certo tempo, homem e cachorro estão inapelavelmente gordos. De novo, a solução é a mesma: vamos para a frente das câmeras, participar de um reality show cujo objetivo é emagrecer ao mesmo tempo homem e cão.


Há gosto para tudo neste mundo, inclusive para se exibir no mais alto grau da sua miséria pessoal, e a televisão está aí para isso mesmo. Todos os casos acima são de programas do GNT -’Viciados em Comer Mal’, ‘Ou Eu ou o Cachorro’ e ‘Meu Cão É Tão Gordo Quanto Eu’.


É uma fórmula matadora -combina o reality show com a exposição de aberrações. Só que, ao contrário dos bezerros de três cabeças dos circos, esse novo mundo grotesco tem laços de semelhança poderosos com a chamada normalidade.


A indulgência consigo mesmo, com cães, com crianças; a dificuldade à beira da incapacidade de adotar disciplinas de interdição e contenção diante do consumo, das paixões e da demanda desorganizada de um outro, por exemplo, são traços da cultura contemporânea. Assim, ao mesmo tempo em que os espectadores podem se distanciar quando esses traços se tornam sulcos, podem simpatizar com aqueles comportamentos, uma vez que já estiveram, muitas vezes, quase lá.


Esses reality shows ‘terapêuticos’, ou seja, aos quais as pessoas acorrem em busca de uma espécie de cura, estão se transformando num tipo à parte de espetáculo.


Incluam-se aí coisas do tipo ‘Super Nanny’, ‘Inspetores do Sexo’, ‘Você É o que Você Come’, e tem-se todo um universo de programas baseado no trinômio bizarro/tortura terapêutica/ redenção diante das câmeras.


Mais do que o exibicionismo, elemento número um de qualquer reality, nessa modalidade o que parece mover essa gente a procurar a TV -e não o médico, o padre, as drogas ou a aceitação zen-, face a sua esquisitice fora de controle, é a possibilidade de passar por uma espécie de calvário feito de vergonha e culpa, mas com final ‘normal’ -e, portanto, feliz.’


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O Estado de S. Paulo


Domingo, 17 de fevereiro de 2008


TROPA DE ELITE PREMIADO


Luiz Carlos Merten


‘Tropa de Elite’ leva o Urso de Ouro


‘Convidado a participar da cerimônia de premiação e encerramento do 58º festival de Berlim, o diretor José Padilha, de Tropa de Elite, sabia, a partir daí, que seria um dos vencedores da noite. A questão era qual prêmio lhe seria atribuído. Eles começaram a ser entregues. Favoritismos foram derrubados. Sobrou só o Urso de Ouro de melhor filme. E o Brasil chegou ao topo, mais uma vez, na Berlinale.


Dez anos depois de Central do Brasil, de Walter Salles, Tropa de Elite, outro filme brasileiro, recebido a pedradas pela crítica da revista Variety, que o chamou de fascista e comparou o personagem capitão Nascimento a Rambo, chegou lá. Padilha subiu ao palco em companhia do produtor Marcos Prado. Fez um agradecimento especial ao presidente do júri. Disse que Costa-Gavras, por seu cinema político, era um herói e uma referência para todos os cineastas da América Latina. E que receber o prêmio de um júri por ele presidido atribuía um significado especial ao que já era uma honra. ‘Obrigado, thank you, danke. Em qualquer língua, é muito difícil traduzir a emoção que estamos sentindo’, disse Padilha. Marcos Prado foi incisivo. Lembrou que, há dois anos, Padilha lhe disse que havia visto o melhor filme do mundo, o documentário Estamira, que Prado realizou. ‘Agora, posso dizer que ele fez o melhor filme do mundo, um filme que denuncia a corrupção e a violência da polícia e da sociedade brasileiras. Este prêmio é uma realidade. Vai nos permitir lutar contra esta realidade.’


No Brasil, o secretário de audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin, disse que a notícia da vitória é ‘gloriosa’ para o cinema brasileiro. ‘O prêmio vai ampliar bastante as possibilidades das produções nacionais no exterior.’


Mutum, de Sandra Koguti,baseado em livro de Guimarães Rosa, levou menção especial na mostra paralela para crianças. Café com Leite, de Daniel Ribeiro, que conta história de casal homossexual que cuida de uma criança, foi o melhor curta jovem. Tá, curta do carioca Felipe Sholl, levou o prêmio Teddy, para filmes de temática homossexual.


O júri deu o prêmio de direção e o troféu à melhor contribuição artística para Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. E ousou, premiando como melhor ator o iraniano Reza Najie, por A Song of Sparrows, de Majid Majidi. Havia toda uma campanha para premiar Happy-Go-Lucky, de Mike Leigh, mas no final o filme levou apenas o prêmio de melhor atriz para Sally Rowlins.


Padilha agradeceu a muita gente, começando por Wagner Moura, o excepcional intérprete do capitão Nascimento. Agradeceu também ao distribuidor norte-americano Harvey Weinstein, ex-Miramax. O Urso de Ouro não deixa de ter sido uma vitória do próprio Weinstein. Foi ele quem pressionou a organização a colocar o filme de Padilha em concurso, quando Tropa já havia sido selecionado para a seção Panorama.


A questão agora é saber se Weinstein, com o aval deste prêmio tão importante em Berlim, conseguirá emplacar Tropa de Elite no Oscar do ano que vem, como fez com Cidade de Deus, apadrinhando a carreira internacional de Fernando Meirelles.


APOTEOSE


A entrada de Padilha no salão de coletivas foi apoteótica. Ele foi recebido com gritos e aplausos. Padilha lembrou que fez diversos documentários e, no fundo, se considera um documentarista. Tropa de Elite é sua única ficção e ele procurou trazer muito de sua experiência anterior para a realização. Seu compromisso era retratar (e criticar) a realidade brasileira, e isso ele acha que conseguiu. Padilha não considera que o sucesso de seu filme e o de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, possa estar criando uma nova tendência do cinema brasileiro.


‘Seria muita pretensão. O cinema brasileiro é muito mais do que favela e violência. Na verdade, não faço filmes sozinho, ninguém faz. Pertenço a uma comunidade cinematográfica e entendo que esta vitória é de todos. Do Marcos Prado, meu produtor, do Lula Carvalho, um grande diretor de fotografia, do Wagner Moura, um grande ator brasileiro.’


A coletiva terminou com gritos de ‘viva’. A vitória foi um desagravo à crítica que ele recebeu da revista Variety. O carinho do público foi a melhor demonstração disso.’


Bruno Paes Manso e Deborah Bresser


Jabor diz que filme não tinha vocação para festivais


‘Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, em 1973, pelo filme Toda Nudez Será Castigada, o escritor e cineasta Arnaldo Jabor recebeu com surpresa a notícia da premiação de Tropa de Elite. ‘Ganhou?! Eu não esperava’, disse, ao saber da notícia pela reportagem. ‘É um bom filme, mas não imaginava que poderia ganhar o festival porque não me pareceu um filme com vocação para festivais.’ Jabor acredita, contudo, que a premiação é ‘excelente’ para o cinema brasileiro. ‘É uma ótima notícia.’


Também foi com surpresa que o crítico Rubens Ewald Filho reagiu. ‘Que coisa inesperada, depois das notícias que chegaram de lá. Nunca subestime os irmãos Weistein’, disse ele, ao se referir à força dos distribuidores. ‘Eles pegam um produto e lutam até dar certo’, avaliou. ‘Fico feliz, é um bom filme, de ação e polêmico. Berlim é mercado onde todo mundo busca o filme que vai funcionar em qualquer parte.’’



Kelly Lima


Roteirista que inspirou capitão Nascimento diz ter levado susto


‘O capitão Rodrigo Pimentel, autor do livro e co-autor do roteiro de Tropa de Elite, não esperava a vitória na disputa pelo urso de Ouro em Berlim. ‘Houve o problema com a tradução, uma voz feminina teve que fazer a narração. Isso certamente prejudicou muito. Além disso, tinha vários filmes bons concorrendo na Mostra. A gente estava preparado para não ganhar.’


De férias em Florianópolis, Pimentel – consultor de segurança desde que deixou o Bope em 2000 – recebeu a notícia da premiação em um telefonema de José Padilha, diretor do filme. ‘Ele estava muito emocionado e também surpreso com a premiação’, disse.


Para o ex-capitão, que inspirou o marcante capitão Nascimento, personagem vivido por Wagner Moura, o prêmio também esteve um pouco ameaçado por conta da reação do público. ‘O pessoal que viu repetiu o discurso de que o filme é engajado numa questão política fascista. Isso fez com que a gente ficasse desacreditando. Só de participar já estava bom’, disse Pimentel, que se envolveu diretamente com a preparação dos atores durante as filmagens para que o longa se aproximasse ‘o máximo possível da realidade do Bope’.


Para ele, a premiação muda ‘completamente’ essa visão sobre Tropa de Elite. ‘O colegiado de críticos europeus foi bastante sensível ao tema, ao filme propriamente dito, e este reconhecimento com certeza tira de cena o estigma de qualquer sombra de fascismo que possa ter recaído sobre a narrativa anteriormente’, disse.


Foi de um contato entre Pimentel, que entrou para a polícia aos 18 anos, e o cineasta João Moreira Salles, que surgiu a idéia do filme. Ele estava acompanhando o depoimento de colegas para a produção de ‘Notícias de uma Guerra Particular’, quando virou personagem do documentário. Por intermédio de Moreira Salles, durante a produção do documentário Ônibus 174, sobre o seqüestro de um ônibus no Jardim Botânico, em 2000, Pimentel foi apresentado a Padilha, e comentou que tinha interesse em escrever um romance de ficção sobre a polícia do Rio, com base em relatos de amigos e na sua própria experiência no Bope. Em 2005, com o roteiro do filme já em andamento, Pimentel escreveu o livro Elite da Tropa, que, segundo ele, foi apenas seu primeiro sobre o tema.


Refeito do ‘susto’ que afirma ter tomado ao saber da premiação, Pimentel já se diz otimista com a perspectiva de um outro prêmio pela frente. Para ele, a vitória em Berlim faz com que o longa dispare na frente das apostas para o Oscar de 2009. ‘O filme volta agora para os cinemas no Brasil, vai ser distribuído lá fora e isso deve dar uma boa visibilidade para que ele chegue na disputa ao Oscar com fortes chances’, disse.’


MÍDIA & POLÍTICA


O Estado de S. Paulo


Idéias de nova imagem para os políticos de sempre


‘Especialistas ‘remodelam’ Kassab, Alckmin e Marta; para ACM Neto, sugestão é de salto alto


O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), foi aconselhado a retirar pequenas bolsas de gordura abaixo dos olhos e se submeter a aplicações de botox, além de fazer uma reconstrução dos sulcos da face e da boca, sem necessidade de licitação. Um dos nomes do PSDB para disputar a Prefeitura de São Paulo em outubro, o ex-governador Geraldo Alckmin é um bom candidato a microimplante capilar e correção de pés de galinha.


A única mulher cotada, até aqui, para a disputa na capital paulista, a ex-prefeita e atual ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), precisa renovar o botox e dar um volume generoso às bochechas.


Brincadeiras de mau gosto? Nada disso. Essas são as sóbrias recomendações do cirurgião plástico Fábio Cunha, de Brasília, médico de dezenas de deputados e senadores, políticos preocupados com a imagem. A pedido do Estado, Cunha analisou a estampa dos principais candidatos a comandar a maior cidade do País.


As sugestões de mudança no visual dos políticos não vieram apenas de um profissional de cirurgia plástica. Especialista em aparência, a professora e consultora de moda Suzy Okamoto também analisou o estilo e o comportamento dos pré-candidatos à prefeitura paulistana. ‘Os políticos, de modo geral, insistem em cortes de cabelos inapropriados’, anotou Suzy, ao analisar Kassab. Por ‘inapropriado’ se entende, segundo ela, os cortes ultrapassados, fora de época. Marta também foi alvo de críticas. ‘O cabelo com muito fixador fica fake demais.’


Não basta apenas cuidar do corpo. Entre os conselhos, a consultora de moda apontou a necessidade de a ministra renovar o guarda-roupa. ‘A prefeita é muito elegante, mas igualmente rígida. Ela ganharia mais votos se ficasse mais feminina e mais delicada.’ Suzy ainda recomendou à ex-prefeita acessórios, especialmente brincos pequenos e de pingente, que dariam ‘um certo balanço’. E mais: ‘Falta profundidade aos looks dela. Ela pode mudar as texturas para aproximar mais do olhar.’


Ao avaliar o estilo de Alckmin, Suzy sugeriu uma ida rápida a uma ótica. ‘Ele precisa mudar os óculos. Os dele parecem os do Maluf’, advertiu. ‘Óculos mais arrojados fariam a diferença, criariam foco no rosto, desviando a atenção dos parcos cabelos.’


Enganam-se, porém, os que acreditam que as dicas de estilo e as recomendações para procedimentos estéticos valem apenas para políticos com mais de 40 anos. Segundo Fábio Cunha, é muito comum homens e mulheres com apenas 30 anos recorrerem a uma dezena de métodos diferentes, incluindo o botox.


Pré-candidato à Prefeitura de Salvador, o deputado ACM Neto (DEM) tem apenas 29 anos. Passou no crivo do cirurgião plástico, mas ganhou algumas dicas de Suzy. Ela sugere que ele deixe de ser ‘um jovem com aparência de velho’. Explicou: ‘Elegância não é sinônimo de grife e tampouco parecer sisudo.’


A especialista recomendou que ACM assuma a baixa altura que tem (menos de 1,70) e utilize – ‘Por que não?’ – sapatos com salto. ‘O salto levemente alto, até para os homens, é questão de estilo. E isso é histórico.’


Suzy aconselhou ACM Neto a mudar o corte de cabelo e o dos ternos. ‘A impressão que se tem é de que usa ternos muito maiores que ele e tudo muito escuro. É possível vestir de uma forma mais jovem. Um terno bem cortado e levemente mais curto que o tradicional com uma camisa de padronagem diferente o deixaria mais jovem e faria toda a diferença’, opinou.


A preocupação com a imagem virou uma obsessão entre os políticos. Roberto Jefferson (PTB), deputado cassado que denunciou o escândalo do mensalão, estava entre os parlamentares da chamada bancada metrossexual quando circulava pelo Congresso. Outras duas figuras consideradas vaidosas entre os políticos são os senadores tucanos Arthur Virgílio (AM) e Álvaro Dias (PR).


Virgílio é adepto da procaína, anestésico que virou febre na década de 80 e é recomendado, principalmente, por médicos geriatras. Não há comprovação científica do benefício da droga, mas os adeptos asseguram que ela ‘aumenta o pique’ e dá sensação de bem-estar. Dias é considerado um dos congressistas mais estilosos, por ter sido um dos pioneiros do implante capilar em careca de político. Além disso, se preocupa com a pele do rosto e com o seu vestuário.


Quando o assunto é calvície, além de Dias, recentemente também recorreram a um microimplante capilar o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, e o ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT-SP). Foram atendidos por um especialista do Recife.


A preocupação com a imagem chegou também ao presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), tido como ‘caipira’ pelos próprios colegas de Parlamento. Antes mesmo de assumir o comando da Casa, aderiu ao Pilates e renovou o guarda-roupa.’


Patrícia Campos Mello


Marqueteiro ajuda a transformar Obama em fenômeno político


‘Por trás do sucesso da campanha do senador Barack Obama está David Axelrod, um marqueteiro político que se especializou em tornar candidatos negros atraentes para grandes fatias do eleitorado. Axelrod, com seu bigode farto e jeitão informal, é considerado o melhor estrategista político fora do eixo Washington-Nova York.


Operando a partir de Chicago, ele coordenou a campanha de Deval Patrick em 2006, primeiro governador negro de Massachusetts, atuou na campanha de reeleição de Harold Washington, primeiro prefeito negro de Chicago, e do próprio Obama, quando ele foi eleito senador, em 2004. Como prova de que não é bom apenas com políticos negros, Axelrod também já trabalhou para outros três pré-candidatos à presidência, todos brancos: Hillary Clinton e Chris Dodd, também quando concorreram ao Senado; e John Edwards, na campanha presidencial de 2004.


‘Axelrod é o que eu chamo de uma banda de um homem só – ele é bom de fazer campanhas, formular a mensagem, fazer os anúncios de TV e escrever discursos’, diz Paul Green, diretor do instituto de política da Roosevelt University e especialista em campanhas políticas. ‘Ele é um estrategista brilhante’, descreve Green, que conhece Axelrod há mais de 20 anos e foi co-autor de um livro com Obama.


Segundo um coordenador de campanha democrata, Axelrod é um sujeito de princípios, ‘mas não é madre Teresa de Calcutá’. Ele ganha, e muito bem, nas campanhas. Recebeu US$ 1 milhão da campanha de Obama até agora (o que não é muito, comparado com os US$ 4,3 milhões de Mark Penn, marqueteiro de Hillary Clinton). Ele traz consigo a ‘república de Chicago’ para o centro do marketing político americano. Dos 200 assessores de Obama, cerca de 100 são de Chicago.


Axelrod apostou em Obama quando o candidato resolveu concorrer ao Senado contra candidatos muito mais conhecidos e bem financiados. ‘Axelrod foi essencial para dar seriedade ao início da trajetória nacional de Obama’, diz Green.


SEGREDO


A combinação de mensagem certeira e organização eficiente explicam o sucesso da campanha de Obama. A capacidade de arrecadar recursos e animar voluntários para trabalharem duro pelo candidato estão no centro dessa estratégia.


Mas é a mensagem bem sintonizada que vem fazendo de Obama um fenômeno. Axelrod teve a sensibilidade de detectar o desejo de mudança versus o status quo. E Obama era o candidato ideal para personificar a inovação.


‘Mark Penn é um especialista em pesquisas eleitorais. Axelrod é um estrategista’, diz Michael Fauntroy, professor da George Mason University e especialista em questões raciais na política americana. ‘As campanhas de Hillary e Obama são um reflexo da formação de seus coordenadores.’


Axelrod, nova-iorquino de 52 anos, é um jornalista arrependido. Mudou-se para Chicago em 1972, para cursar a Universidade de Chicago. Dois dias após se formar, foi contratado pelo Chicago Tribune, onde teve ascensão meteórica – tornou-se colunista de política aos 27 anos.


Em 1984, desistiu do jornalismo e entrou na campanha do político Paul Simon ao Senado. Daí não parou mais. David Wilhelm, que trabalhou com ele na época, diz: ‘Uma das razões de Axelrod ser tão bem-sucedido é que ele acredita. Ele é um idealista que se importa com seus candidatos e suas posições.’


Segundo fontes, Axelrod não se dá com Penn, o marqueteiro de Hillary, e não deixa de dar suas alfinetadas: ‘O público dá valor à honestidade, à franqueza. As pessoas não querem alguém que consulta seu especialista em pesquisas antes de cada decisão’, disse o estrategista à revista Time.


Mas não se pode dizer que o discurso de Obama também não seja ensaiado e repetitivo – ele costuma usar teleprompter em seus comícios. O uso da mensagem de ‘esperança’ do senador é muito parecido com o que elegeu Deval Patrick. Foi Axelrod que inventou o mote Yes, we can (‘Sim, podemos’, por sinal também usado na campanha de Patrick).


Em termos de políticas, os dois pré-candidatos democratas pouco divergem. Mas é a visão do senador que está conquistando eleitores. Obama é o futuro, Hillary é o passado. Foi com essa mensagem que o marqueteiro de Obama levou seu candidato a vencer em 23 das prévias – diante de 14 de Hillary.


Enquanto isso, a campanha de Hillary mira desesperadamente nas primárias de Ohio e Texas para deter o embalo do senador. Hillary sofreu oito derrotas seguidas desde a Superterça. Apesar de a ex-primeira-dama garantir que tudo vai bem e s Estados grandes é que interessam, há sinais claros de crise em sua campanha.


Hillary trocou a cúpula da campanha – saiu a coordenadora Patti Solis Doyle e seu vice, entraram Maggie Williams e seus assessores.’


TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO


Ethevaldo Siqueira


A difícil opção entre Einstein e Tom Capri


‘Estamos todos a serviço do capital. Sim, leitor: eu, você, os maiores gênios da atualidade, toda a mídia, a ciência, a universidade, o Prêmio Nobel, o consumidor comum ou o vir obscurus (do latim, homem obscuro, medíocre, alienado). Dialeticamente, somos ao mesmo tempo agentes e vítimas do capital. Conscientes ou não, estamos colaborando com esse ‘regime de exploração do trabalho alheio, que destrói o meio ambiente e a própria vida na Terra’.


Eis aí o mote central do livro Miséria da Ciência, do jornalista Tom Capri (Everton Capri Freire), edição do autor, São Paulo, 2007. O tema aparentemente anacrônico da luta anticapitalista ressurge aqui com nova roupagem e argumentação apaixonada. Li e reli a obra, durante as férias, controlando em cada página minhas reações, ora de admiração, ora de ódio. E esperei uma semana para fazer esta avaliação de cabeça fria.


Que pretende Tom Capri? Nada menos que ‘demolir a ciência oficial que aí está a serviço do capital; desconstruir tudo que é dito e pensado hoje, todo o lixo ocidental e oriental; aplicar um duro golpe na maneira de pensar e enxergar as coisas, na visão de mundo que temos todos nós, alienados, nas convicções normalmente falhas e falsas que estão arraigadas em mim, em você, no homem moderno e em toda a mídia’.


POLÊMICA


O livro é, acima de tudo, panfletário e pretensioso. Mas tem grandes méritos. Em primeiro lugar, pelo excelente texto de Tom Capri. Ou pela riqueza de seu conteúdo polêmico que não deixa ninguém indiferente. Confesso que por diversas vezes esse conteúdo me tocou profundamente, ao focalizar problemas pungentes do mundo atual, entre os quais a violência, a poluição, a guerra e a corrupção. E, em especial, ao ler o relato dramático do calvário vivido por nosso amigo comum, o jornalista Assef Kfouri, falecido em 2006, vítima de câncer – que Tom Capri transforma em libelo contra as misérias da assistência médico-hospitalar no Brasil.


Em mais de 300 páginas, Tom Capri dispara sua metralhadora giratória contra o capital, a ciência moderna, Deus, as religiões, o Prêmio Nobel, a mídia e os jornalistas – inclusive contra mim. Sou malhado ao longo de três páginas. Não merecia tanta honra, especialmente por ter sido colocado ao lado de Arthur Clarke, Carl Sagan ou Stephen Hawking, todos, como eu, acusados de deslumbrados e entusiastas das conquistas do capital. Não é gozação, leitor. Levo puxões de orelha por ter exaltado o gênio e o talento de Steve Jobs, Steve Wozniak ou Bill Gates. Repito: não merecia estar nessa companhia. Mas adorei.


Tom Capri discorda de tudo e de todos. Não perdoa a recomendação que fiz em 2006 da leitura do livro O Mundo é Plano (Uma Breve História do Século 21), de Thomas L. Friedman. Critica o que escrevi no Estadão e na Veja sobre as novidades tecnológicas do Consumer Electronics Show, de 2007, em Las Vegas. Para ele, o Vale do Silício deveria chamar-se Vale do Suplício, pois a região é ‘o mais novo reduto de todo lixo social normalmente produzido pela vida capitalista’. E desanca outros jornalistas, que estão igualmente ‘a serviço do capital’: Daniel Piza, do Estadão; Diogo Mainardi, da Veja; Arnaldo Jabor, da Globo.


SOCIALISMO


O grande álibi de Tom Capri, entretanto, é não apontar nenhum modelo de sistema político atual ou futuro e dizer que o socialismo real não fracassou. Porque nunca existiu. Nunca foi socialismo, nem na antiga União Soviética, nem na China, nem em Cuba.


A primeira parte do livro é inteiramente dedicada às questões científicas e ao conceito de dialética, ‘que nada tem a ver com o materialismo dialético’, ensina. Nesses capítulos, sua proposta é ‘provar que a informação viaja a velocidade superior à da luz, que as teorias do Big Bang e das supercordas não se sustentam, demonstrar cientificamente que o neutrino tem massa e expor os novos conceitos de energia, vazio e antimatéria. E mais: que a ciência moderna não faz mais ciência verdadeira’.


Acho que nem Einstein aceitaria desafio dessa magnitude. Confesso que não me sinto com autoridade nem competência mínima para avaliar o conteúdo científico do livro. Como ficção, creio, seria um texto magnífico. Sempre pensei que, mais do que intuição, a demonstração de novas verdades científicas, tão demolidoras como as pretendidas pelo livro, no campo da física ou da economia, exigisse equações matemáticas e estatísticas exaustivas resultantes de experimentos bem conduzidos, em congressos internacionais.


MODÉSTIA


Num raro instante de modéstia, Tom Capri diz que ‘tudo é passível de contestação’ e reconhece seu grande risco: ‘É claro que posso ser um blefe. Mas, ainda assim, o livro é promessa de uma verdadeira hecatombe universal. E, se passar pelo crivo da ciência, deverá abalar a física’. Resta saber pelo crivo de que ciência o livro irá passar. Se da ciência verdadeira ou da miserável?


O livro Miséria da Ciência pode ser encontrado, em PDF, no site www.virobscurus.com.br, por e-mail: tom.capri@uol.com.br ou pelo telefone (011)3331-0688.’


Pedro Doria


Liberas que terás também


‘Marcelo Branco está com raiva. ‘Vocês não deixem que a imprensa os chame de piratas!’ À sua volta, sentados em cadeiras, grandes almofadas, ou no chão mesmo, gente que veio de todo o Brasil para a Campus Party ouve atenta. ‘Pirata vende o que não é seu, vocês não estão fazendo isso!’ Marcelo mexe as mãos enquanto fala. Gesticula. O cabelo parcialmente grisalho na altura dos ombros, ele o usa desgrenhado. Tem 46 anos e um forte sotaque gaúcho. É um homem magro que veste calça larga e camiseta em cuja estampa se lê Creative Commons. ‘Vocês são livres!’ Talvez pela figura, ou então pelo jeito que fala, ele tem um quê de profeta. Um profeta que prega a cultura da liberdade.


A Campus Party é sua festa. Como ocupa o cargo de diretor do evento, Branco está sempre em toda parte. Circula o dia inteiro. Há 3 mil inscritos ocupando o prédio da Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera. Cada um pagou R$ 200 de inscrição. São na maioria jovens e homens. Acampam em barracas que ficam no terceiro andar, mas dormem pouco. Aproveitam o tempo no segundo piso, em grandes bancadas, cada uma com 50 cabos de rede. É só pegar e ligar no computador. Pelo cabo vem a internet mais rápida que qualquer um dos presentes já experimentou. A liberdade que Marcelo prega começa no mundo digital.


‘Você vê alguém com cara de nerd aqui?’, ele pergunta enquanto anda e apresenta o espaço. Há jornalistas por toda parte com câmeras de fotografia e vídeo, gravadores. Procuram nerds sobre quem escrever. Vez por outra encontram um garoto qualquer que talvez tenha espinhas, que talvez seja pálido. Mas aí o garoto tem namorada. Engatam de volta na busca pelo nerd perfeito, sem jamais encontrá-lo. O estereótipo não se aplica. Marcelo sorri. Ele gosta de frustrar os jornalistas.


Os freqüentadores se dividem em vários grupos. O maior é o dos desenvolvedores de software livre. Os programas que fazem regulam o tráfego aéreo em aeroportos, servem para editar filmes de longa metragem, editam textos. Há programas de todo tipo e são livres. Quem quiser pode fazer uma cópia sem pagar. Pode também mexer no código do programa para que ele funcione diferente. O segundo grupo é o dos gamers e, para eles, o principal da festa é jogar em grupo. Cada um está com seu computador pessoal, mas, ligados em rede, vêem-se uns aos outros na mesma partida de futebol, servem de soldados numa mesma batalha contra alienígenas ou pilotos em carros distintos da mesma corrida. Ainda há blogueiros, astrônomos amadores, gente que constrói gabinetes diferentes para seus computadores e engenheiros de robótica.


Plantado numa das extremidades do salão, está um grande aquário, com paredes de vidro, através da qual se vêem as estantes de equipamentos, telas brilhosas, luzes piscantes e muitos cabos. É onde chega a fibra ótica com internet. Polkan García, um colombiano de 27 anos, fica lá. Seu título oficial é diretor de tecnologia. Ele monitora o tráfego da rede. Se quisesse, poderia dizer o que cada um que ligou seu computador por ali anda fazendo.


Houve o garoto, por exemplo, que tentou burlar os sistemas de segurança e derrubar a conexão da rapaziada. Um hacker amador. Polkan achou graça. Viu de qual cabo vinha a tentativa de invasão, caminhou lento e discreto, se abaixou despercebido e falou baixo ao pé do ouvido: ‘Pára de mexer com a rede’. O rapaz tomou um susto. Lívido, coitado. Fechou seu notebook, pegou a escada para baixo, largou o prédio da Bienal, jamais voltou. Não era para tanto. Polkan é ele próprio um hacker – um hacker de chapéu branco, como dizem. Do bem. Conhece as máquinas por dentro, os programas que rodam nelas com intimidade.


Aponta para a tela de computador onde está um gráfico com números: download de 452.8 Mbps e upload de 840 Mbps. Quer dizer que naquele momento a turma está baixando da internet 452.8 megabits a cada segundo. E que está enviando para a rede 840 megabits no mesmo período. Quer dizer uma coisa muito mais simples. Quem está na Campus Party põe na internet o dobro do que tira dela.


Põe na rede? A trupe que foi à Campus Party transmitiu ao vivo palestras em vídeo, levou ao YouTube coisa de 150 filmetes por dia, depositou em sites de troca de músicas livres gigabytes de arquivos de áudio digital e é impossível contar quantas fotografias tiradas na festa foram publicadas em sites de fotos, em blogs. Não são apenas os muitos jornalistas que fotografam, gravam, filmam – todos são um pouco jornalistas na era digital e, daquilo que vêem, quase tudo é publicado na internet. Colaboram, afinal, participam, contribuem – seguindo o mantra de Marcelo Branco.


De vez em quando, no meio do salão, alguém desgruda a cara do monitor, se levanta e grita alto para que todos ouçam: ‘Patxi!’ Do outro lado, de bem longe, uma penca responde: ‘Patxi!’ A palavra é um nome. Em basco, quer dizer Chico. Vem do comercial de uma companhia telefônica espanhola no qual um consumidor que não foi informado das tarifas com desconto tenta conversar com seu amigo Patxi, no outro lado da cidade, gritando seu nome pela janela. (O filme está no YouTube – é só digitar Patxi na busca.) O anúncio ficou popular na Espanha e, daí, citá-lo assim do nada virou tradição das Campus Party. Afinal, a de São Paulo não é a primeira Campus Party. Ela acontece todos os anos desde 1997 em Valência. Em 2007, reuniu 8 mil pessoas. Já houve edições em Portugal. Fora da Europa, esta brasileira é a primeira festa dos acampados com uma conexão assim fantástica para a internet.


‘Aqui no Brasil é muito diferente’ diz Jonan Basterra. Ele é basco – o único por ali que conhecia a origem da história de Patxi. Tem 37 anos e é o blogueiro oficial do site em espanhol da festa. ‘Lá na Espanha não tem tanto programador e a maioria das pessoas que vêm é de gamers. Eles querem jogar. Lá, fica todo mundo com a cara grudada no computador. Aqui, não. Vocês largam o computador na mesa toda hora e ficam circulando. Vocês trocam muito. Compartilham.’


E assim vai o mantra – compartilha, troca. Aquilo produzido com câmeras ou computadores na Campus Party é licenciado para o uso mediante um contrato especial que em todo mundo atende pelo nome Creative Commons. É por isso que a frase vai estampada na camiseta de Marcelo Branco. Quando o autor escolhe licenciar sua obra seguindo um contrato Creative Commons, ela está disponível para cópia. Basta ir lá e pegar. O que não pode é ganhar dinheiro em cima. Mas acontece que, às vezes, o que se troca e compartilha com a banda ultra-rápida não é software livre, música livre, fotografia livre ou filme livre. É software proprietário, filme de Hollywood, música dos grandes estúdios – e nada foi pago.


Não há censura na Campus Party, tampouco violência. Em seu monitor, Polkan García aponta numa lista o programa que mais consome a conexão de internet: é o BitTorrent. Não navega pela web, tampouco baixa e-mail. Serve para que usuários da rede possam trocar arquivos de todo tipo. Ninguém é capaz de dizer o que cada computador está tirando da internet. Pode ser um filme livre. Ou a temporada completa de uma série televisiva favorita. Gigabytes e gigabytes de Lost foram baixados pela trupe ali.


‘Não vigiamos o que as pessoas fazem na internet’, diz Marcelo Branco. ‘Na Europa, a empresa de telecomunicações oferece a conexão à internet mas é ilegal revelar o que cada cliente faz na rede.’


Seu discurso é mais sofisticado que isso. No mundo ideal de Marcelo, aquele que a Campus Party celebra, cada cidadão só é realmente livre quando tem conhecimento. Seu mote é um velho ditado da rede: a informação quer ser livre. Toda informação. Só com software livre, por exemplo, ele pode ter certeza de que não está sendo espionado. Como conhece cada linha do código daquele programa, sabe que não há uma grande empresa com algum acesso secreto a informações pessoais depositadas no computador.


É um tipo de liberdade que exige um mundo de hackers capazes de compreender linhas de código. ‘Ninguém que queira produzir qualquer coisa de valor com sua vida, hoje, conseguirá fazer isso sem passar por um computador.’ Marcelo acredita profundamente em cada palavra que diz – e todas são ditas com paixão. ‘A internet faz parte da vida de todos nós. Não podemos deixar que empresas controlem os programas e os formatos da rede.’


Circulando pela festa, Gilson Schwartz, professor da Cidade do Conhecimento da USP, abre um sorriso: ‘O homem comum nunca vai ser um técnico nesse nível’. Aí, pára, pensa. ‘Sabe, isso é filosofia. O Jean-Paul Sartre escreveu sobre isso. Liberdade absoluta não existe.’


Talvez. As fotografias desta reportagem foram tiradas por gente da Campus Party, que termina hoje. Foram levadas à rede pela conexão mais rápida já vista no País. São, todas, livres.’


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