Domingo, 30 de Abril de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº941

E-NOTíCIAS > CIBERESPAÇO & GEOPOLÍTICA

Um website-demonstração de solidariedade

01/09/2009 na edição 553

Quando se fala de ciberactivismo, lembramos logo de organizações exemplares em mobilizar pelo correio, como Anistia Internacional ou Greenpeace, que desde sempre mostraram o caminho para ações sociais eficazes à distância, revalorizando o exercício da cidadania para a democracia em escala das sociedades globais.

Mas a internet é dinâmica ao extremo e promove a variabilidade ao infinito, de tal sorte que hoje em dia encontramos muitos websites voltados para agrupar os mobilizadores e os mobilizados em ações por e-mail que objetivam às diversas questões aglutinadoras de usuários em um espectro que vai das campanhas políticas aos interesses de consumo, tendo em comum a abertura para a participação nos assuntos públicos e o maior acesso aos produtos culturais e conhecimentos na internet.

Frequentemente, as mobilizações de usuários para as ciberações não ocorrem em correntes espontâneas, descentralizadas ou desprovidas de websites específicos funcionando como pólos de aglutinação. Ciberação espontânea em sentido estrito de técnica para a desobediência civil ocorreu, por exemplo, no caso dos interesses laborais em oposição à lei do contrat première embauche – CPE (janeiro de 2006), na França.

Fora das questões sociais e trabalhistas de impacto coletivo, ou para além dos casos de comoção pública, quase sempre as mobilizações para ciberações são promovidas por mobilizadores em cujos websites os participantes podem inscrever-se, registrar-se e aí destinar as cópias de seus e-mails de campanha, para fins estatísticos de comprovação da existência efetiva do protesto.

Milhares de mãos erguidas

Vê-se, desta forma, que as ciberações podem ter um caráter de oposição ativa, chegando à desobediência civil em face da legislação, como no caso laboral mencionado, ou uma oposição simplesmente defensiva, manifestação social que visa chamar atenção, resistir, fazer pressão e tentar inibir os desvios de funções, as práticas prejudiciais aos interesses legítimos e explorações nefastas ou arriscadas para o bem-estar e a defesa da ecologia.

Quer dizer, para que a reação digital a uma situação real constitua uma ciberação não é imprescindível que se transforme em uma grande ou numerosa corrente de opinião. Basta que objetive claramente a situação prejudicial a ser protestada.

Nada obstante, a ciberação promovida pelos iranianos e seus amigos ao redor do mundo para apoiar o povo iraniano em sua luta por liberdade alcançou um novo patamar de aglutinação. Ao invés de cada participante enviar seu e-mail, a ação consiste em aderir para estar juntos e permanecer unidos, em vista de demonstrar no ciberespaço o estado efetivo de solidariedade civil em oposição.

O Website bilíngüe We shall Winn – a virtual demonstration to support the Iranian people (ver aqui), ao invés de registros estatísticos, contém milhares de mãos erguidas lado a lado (quase 6.350 no instante em que estas linhas foram redigidas) correspondendo a cada participante cuja mensagem pode ali ser vista, mil por cada página do website, configurando uma corrente em fluxo contínuo. Desta forma, tem-se a imagem de uma assembléia onde as pessoas mostram as mãos erguidas para exercer o voto de adesão a uma proposta. Tal a inovação.

Direito a prosperar e à democracia

Mas não é tudo. Nesse website-demonstração de solidariedade, dá-se continuidade ao feito no dia 12 de junho 2009, quando a maioria da população do Irã participou em uma eleição presidencial. Tratou-se de uma mobilização política sem precedentes na história iraniana. Mais de 80% dos votantes qualificados participaram nas eleições. Os jovens estavam otimistas e desempenharam um papel importante na mobilização das pessoas para participar nas eleições semi-democráticas.

Como se sabe, no sistema de eleições do Iran não há nenhum precedente democrático. Em sua maior parte, os partidos estão proibidos. O Conselho dos Guardiões da Constituição é um filtro, inclusive uma porta, e rejeitou todos os candidatos sem nenhuma razão, exceto por quatro homens. Contrariamente à administração da justiça, o atual regime iraniano fez caso omisso da manipulação das eleições e usou todos os meios para reprimir os outros candidatos e os protestos legítimos de seus partidários. Depois do dia das eleições, milhares de jovens foram detidos. O atual governo iraniano devia respeitar e defender os votos dos povos.

Como sociólogo, o autor destas linhas e muitos colegas por todo o mundo estamos preocupados pelas pessoas que querem justiça e a democracia. Mais de 70% da população iraniana é jovem e tudo necessita para começar sua vida e seu futuro. As pessoas devem ter asseguradas suas opiniões e sua voz. Os iranianos desempenharam um papel importante na história da civilização e têm direito a prosperar e viver em um regime democrático desenvolvido e humanista.

Solidariedade e luta coletiva

Seja como for, lembrem-se que os direitos humanos promulgados, incluindo os direitos à liberdade, à autodeterminação, aos direitos econômicos e à seguridade social, democracia e paz, alcançaram uma percepção social mais profunda na era da globalização, quando se tornou muito contrastado e evidente o fato de que todos os seres humanos têm direitos iguais à sua própria identidade particular, personalidade, fé e cultura.

Em oposição à lógica do fazer lucros com base no auto-interesse, a lógica dos direitos humanos depende da solidariedade social, que é dizer, coletivamente trabalhando juntos para promover os direitos humanos. Se o auto-interesse pressuposto na lógica do fazer lucros é apreendido em parte no âmbito da solidariedade e da luta coletiva, torna-se esta indispensável para direcionar em favor de nossa humanidade a ambivalência introduzida por aquela lógica do fazer lucros nas sociedades democráticas com maior experiência da solidariedade e da luta coletiva.

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Sociólogo, Rio de Janeiro, RJ

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