Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Uma linguagem em construção

Por Carlos Castilho em 11/01/2005 na edição 311

Rosental Calmon Alves é um experimentado jornalista brasileiro que participou do lançamento do primeiro jornal brasileiro na internet (Jornal do Brasil, 1995), foi correspondente do JB em Washington e, a partir de 1997, assumiu o posto de professor titular da cadeira de Jornalismo Online na Faculdade de Jornalismo da Universidade do Texas, em Austin (http://journalism.utexas.edu/faculty/alvesbio.html).

Rosental esteve no Congresso de Meios Digitais, em Santiago de Compostela, e acabou envolvido na polêmica sobre a pirâmide invertida por ter feito uma brincadeira propondo a criação do PPPI (Partido Pró-Pirâmide Invertida). Nesta entrevista ao Observatório, feita por correio eletrônico, Rosental prefere falar do lado sério no debate sobre estilos e estruturas de textos no jornalismo online.

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Você defende o uso da pirâmide para todo e qualquer texto de jornalismo online ou há exceções?

Rosental Calmon Alves – Sou um defensor da pirâmide invertida, do texto que vai direto ao ponto, que diz logo do que se trata. Mas é lógico que esta não é a única maneira de se escrever no jornalismo online, ou em qualquer outra modalidade de jornalismo. Nem quando esse estilo era amplamente adotado como verdadeiro paradigma da redação jornalística, se tratava de algo único. Durante o Congresso Ibero-americano de Jornalismo Digital, em Santiago de Compostela (http://www.novosmedios.org/congreso/), fiz uma brincadeira como ‘piramidista radical’ para descontrair o ambiente, ao me surpreender com o bombardeio de criticas a uma colega que falou em defesa da pirâmide invertida. Não imaginei que a brincadeira tivesse repercussão. Mas eu não estava brincando quando defendia a eficácia da velha pirâmide invertida como forma de redigir notícias na web, devido a certas características do novo meio.

Qual a função especifica que você vê para a pirâmide no jornalismo online?

R. C. A. – Ir direto ao ponto, numa redação de estilo conciso, só ajuda a comunicação num meio nervoso e interativo como a web, especialmente ao se tratar de hard news, das notícias de última hora que são o forte do jornalismo online na fase atual. As pesquisas mostram que o horário nobre do jornalismo online é justamente durante o expediente de trabalho e que as pessoas consultam os sites jornalísticos muitas vezes ao dia. Essas pessoas parecem buscar uma forma de se informarem de maneira rápida e direta sobre o que acaba de acontecer ou está acontecendo no mundo. Não há nenhuma surpresa ao ver que a pirâmide invertida, o estilo tradicional de redação originário da era do telégrafo, ainda encontre um lugar ao sol hoje em dia, na era digital. E o mais interessante e que não é apenas nos sites de notícias. Desde junho de 1996, Jakob Nielsen, um engenheiro que se tornou o guru da usabilidade na internet, defende o uso da pirâmide invertida como a forma mais eficiente de se redigir na web em geral, mesmo em sites não jornalísticos [veja o artigo Nielsen em (http://www.useit.com/alertbox/9606.html)]. Ele fez testes e mediu como os textos em formato jornalísticos são mais facilmente entendidos pelos internautas.

É possível conciliar o uso da pirâmide com a narrativa não-linear em textos jornalísticos para a web?

R. C. A. – Não acho que seja preciso nenhum esforço para conciliar. Uma coisa não impede a outra, nem a contradiz. A pirâmide invertida não significa uma narrativa linear. Ao contrario, ela sempre rompeu a seqüência cronológica para privilegiar a conclusão, o mais importante. Acho que mesmo quando se experimentam técnicas de desconstrução, ou de narrativa não-linear, ainda vale o princípio básico da pirâmide invertida: dizer logo de que se trata, apesar de deixar ao leitor a possibilidade de navegar pela narrativa da forma que queira, em lugar de sugerir apenas um caminho seqüencial.

A internet é o veículo de comunicação que melhor potencializa a narrativa não-linear e prova disto é o fato de a rede ser cada vez mais usada em jogos online, quando o jogador cria o seu próprio roteiro e seu próprio jogo. É possível vislumbrar uma narrativa jornalística não-linear que também explore componentes lúdicos?

R. C. A. – Eis aqui um dos grandes desafios do jornalismo na web durante esta infância que já dura dez anos: o desenvolvimento de uma linguagem, de uma arte de contar histórias utilizando os recursos e as características disponíveis no novo veículo de comunicação. No começo, a maioria dos sites informativos usou o jornal como metáfora e simplesmente colocava na web textos desenvolvidos para outros meios. Aos poucos, os textos começam a ser produzidos pensando primeiro na versão online, aproveitando a instantaneidade da web. Nas empresas multimídia, vamos ver cada vez mais o eixo da produção jornalística escorregar, aos poucos, para o lado da web. Ou seja, será preciso pensar primeiro na internet, ainda que ela seja, por enquanto, um meio menos lucrativo do que os tradicionais. O próximo passo será buscar a narrativa jornalística mais adequada para este meio.

Afinal, qual é a característica mais específica do texto online?

R. C. A. – Parece irônico que eu esteja aqui tendo que defender a pirâmide invertida, quando em 2004 mudei completamente o curso de jornalismo online (http://journalism.utexas.edu/onlinejournalism/mmj/), que leciono na Universidade do Texas desde 1997, e me distanciei ainda mais das formas tradicionais de narrativa jornalística. Nos últimos dois semestres, meus alunos trabalham com projetos baseados no software Flash, da Macromedia, usando recursos multimídia para contar histórias de forma não-tradicional e não-linear. Apesar de a indústria ainda estar extremamente tímida na utilização de uma narrativa multimídia, eu acho que está valendo a pena dar aos meus alunos a oportunidade e experimentar com uma forma jornalística que procura misturar texto com vídeo, animação, fotos, áudio e base de dados.

A busca de uma linguagem própria para este novo meio tem sido mais lenta do que imaginávamos há alguns anos. Mas a tardia disseminação do acesso à internet através da banda larga aqui nos Estados Unidos finalmente está abrindo portas para a criação de um jornalismo online mais criativo e dinâmico.

Quais as experiências sobre texto jornalístico online que você considera mais inovadoras atualmente nos Estados Unidos?

R. C. A. – Um dos nossos ex-alunos e editor multimídia da edição online do New York Times está produzido muitos pacotes em Flash que são muito bons. O interessante é que ele viaja pelo mundo afora com correspondente do NYTimes, fazendo uma parceria com eles para produzir esses pacotes multimídia, que utilizam animação, vídeo, áudio, texto, fotos, base de dados etc. O Naka Nathaniel, este é o nome dele, faz o que se chama por aqui de backpack journalism, ou jornalismo de mochila – ou seja, ele viaja com vários gadgets numa mochila, como câmera de vídeo, máquina fotográfica digital, microfones, laptop, gravador de áudio etc. O resultado pode ser visto em alguns trabalhos dele na página ‘Multimedia’ do NYTimes [(http://www.nytimes.com/pages/multimedia/index.html), é necessário cadastrar-se].

Vejam, por exemplo, a matéria que ele produziu com o colunista da página de opinião do NYTimes, Nicholas Kristoff, sobre o genocídio em Darfur, no Sudão. Outro bom exemplo de reportagem multimídia é a série do jornal argentino Clarin sobre os piqueteros (http://old.clarin.com/diario/especiales/piqueteros/index.html), que ganhou o premio da Fundação Novo Jornalismo Ibero-americano. Na Espanha, há excelentes especialistas em Flash, embora eles se dediquem mais à animação de infografia (gráficos animados) do que propriamente à reportagem multimídia. Os projetos de infografia desenvolvidos nos sites dos jornais El Mundo e El País são imbatíveis.

Existe alguma experiência brasileira que você destacaria?

R. C. A. – O jornalismo online brasileiro tem sido um dos mais vibrantes do mundo, sobretudo na velocidade de atualização das páginas noticiosas. Tive o prazer de dirigir, com o pioneiro Sergio Charlab, o lançamento do primeiro jornal brasileiro na web, o Jornal do Brasil, em 1995, e desde aqueles primeiros momentos introduzimos o conceito de que a web tinha que ser, hoje, o jornal impresso de amanhã. Neste ponto, estivemos muito à frente dos Estados Unidos e de outros paises, que encararam inicialmente a web como um veiculo novo para os conteúdos de produtos antigos. Depois, os grandes portais brasileiros deram um grande impulso ao vídeo na web, como se estivessem fazendo televisão na internet. Isso tem sido extraordinário e cada vez que mostro aos amigos americanos, eles se impressionam. Também tenho visto no Brasil algumas coisas de boa qualidade em matéria de infografia com animação, em Flash. Contudo, em relação a esta nova narrativa multimídia de que estamos falando não tenho visto praticamente nada no Brasil. Mas posso estar desatualizado, porque não consigo acompanhar a internet brasileira com a assiduidade que gostaria.

A maioria dos jornalistas que trabalha hoje em veículos online veio dos jornais ou da televisão. Como será possível fazer a reciclagem de um profissional experiente para que ele absorva a nova cultura, os novos valores e técnicas do jornalismo online?

R. C. A. – Ainda bem que a maioria dos jornalistas vem dos meios tradicionais. É muito importante que levem para a internet os valores éticos e profissionais do jornalismo tradicional. Mas muitos jornalistas vindos dos meios tradicionais têm demonstrado uma enorme capacidade de se adaptar ao meio novo. E mais do que isso, são eles, junto com a garotada que foi criada no videogame, que estão criando essa nova linguagem para o jornalismo online. Nos anos 1990, ainda havia muitos reacionários nos meios tradicionais, que se negavam a aprender, a procurar entender a enorme revolução que estamos atravessando com a criação da sociedade da informação. Graças a Deus, vejo cada vez menos dinossauros desse tipo. O que mais vejo são jornalistas que procuram entender este fascinante fenômeno em desenvolvimento, que é a criação desse novo gênero de jornalismo.

Logo depois que comecei a dar aulas sobre jornalismo online na Universidade do Texas, participei de um debate num congresso nacional de professores de jornalismo em que se discutia a necessidade de as faculdades começarem a ensinar jornalismo online. Escutei alguns colegas dizerem que se sentiam intimidados e pouco à vontade para criar cursos sobre esse tema porque os alunos sabiam mais de internet que eles. Pedi a palavra e disse que tinha criado um curso sobre jornalismo online justamente porque os alunos entendiam mais desse tema do que eu. Estamos todos aprendendo juntos. Pobre do jornalista que não tiver a humildade de reconhecer que precisa aprender e adaptar-se a este novo mundo. Não haverá lugar para ele no jornalismo dos próximos anos, que será cada vez mais convergente, cada vez mais multimídia.

Qual o papel têm e terão as universidades na pesquisa e desenvolvimento de um estilo jornalístico para a internet?

R. C. A. – Outro dia eu estava em Los Angeles, na conferência da Online News Association (http://www.journalists.org/), e, durante uma sessão dedicada à educação, expliquei que tinha mudado meu curso, adotando Flash como eixo principal da produção dos alunos. Vários dos meus colegas, editores de alguns dos grandes sites de notícias dos Estados Unidos, me criticaram por isso. Tivemos um interessante debate, pois basicamente o que eles queriam é que as faculdades treinem os estudantes de jornalismo nos princípios básicos da profissão: saber o que é notícia, saber escrever bem e rápido, além de ter noções básicas do novo meio. Para eles, essa história de multimídia é coisa para depois, algum dia, quem sabe… Eu expliquei que a universidade já oferecia tudo o que eles estavam pedindo e que o papel de uma instituição de ensino superior, ou sua obrigação, é, sempre que possível, estar na fronteira do conhecimento, lá na frente, explorando, experimentando. No final, acho que pelo menos alguns entenderam que eu estava falando de apenas um semestre e o quão enriquecedor que era dar essa oportunidade aos alunos de explorar a criação de narrativas novas, usando recursos multimídia que estão disponíveis aqui, agora, e ainda que pouco usados.

Um bom site universitário sobre essa linguagem multimídia é The Elements of Multimedia, da Universidade de Minnesota, criado por minha colega Nora Paul (http://www.inms.umn.edu/elements/). Outro excelente site é o do Western Knight Center for Specialized Journalism (http://journalism.berkeley.edu/multimedia/), uma joint venture das escolas de jornalismo de Berkeley (Universidade da Califórnia) e Annenberg (Universidade do Sul da Califórnia). Eu uso esses dois sites no meu curso.

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