Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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Viagem pelo universo do ódio e da intolerância

Por Walter Falceta Jr. em 22/02/2005 na edição 317

Na segunda-feira, dia 14 de fevereiro, o professor negro Durval Arantes acordou angustiado. Afinal, no dia anterior, seu time do coração, o Corinthians, havia sido derrotado por 3 a 0 pelo Santos. Arantes resolveu recorrer ao Orkut, a mega-rede mundial de comunidades da internet, para desabafar e discutir as razões do insucesso. Depois de consultar algumas mensagens dos confrades alvinegros, entretanto, o professor trocou a tristeza pela decepção. Alguns torcedores faziam referências de cunho racista a Robinho, o craque santista, autor de dois gols no dia anterior. Chamavam-no, por exemplo, de ‘macaco’, repetindo um tipo de provocação que há tempos macula o bem-organizado e lucrativo futebol europeu.


Arantes protestou veementemente. Numa mensagem, disse que aquelas referências o enojavam. Segundo ele, o Corinthians, reduto cultural multiétnico, marcado historicamente pela tolerância e pela mestiçagem, jamais poderia patrocinar aquele tipo de discriminação. Instaurou-se uma viva discussão sobre o tema, com 94 comentários. A maioria apoiou o protesto. Alguns, no entanto, consideraram a reação exagerada, uma tempestade em copo d’água. Houve quem argumentasse que os termos tinham Robinho como alvo específico e não a comunidade negra. Houve quem considerasse ‘normais’ as expressões utilizadas. Um torcedor escreveu o seguinte:




‘Negros: parem de se sentir inferiorizados. Meu amigo é todo dia chamado de preto, macaco, criolo, etc… Mas ele não se ofende. Preconceito é coisa de cabeça… Só se sente discriminado quem é inseguro. Se eu fosse preto e me chamassem de macaco, eu daria risada’.


Outro teclou o seguinte:




‘Sou totalmente contra o racismo. Mas sou branquelo, já me chamaram de branquelo, lagartixa, alemão, pimentão (depois de uma hora de praia), etc. E nem por isso eu saí metendo o pau em quem disse isso’.


Um terceiro desenvolveu o assunto:




‘Você é negro? Ha ha ha ha, é mais um aproveitador como todos os outros das cotas de universidade… Sai daí cafuso!’


Não deixa de ser curioso que os fanáticos corintianos tenham posto temporariamente de lado o debate estritamente futebolístico para embrenharem-se numa discussão de fundo sobre comunicação e diversidade étnica. Pode-se imaginar que se trate de um fato corriqueiro, de mais uma ‘treta’ entre torcedores, como tantas que agitam os estádios e adjacências em dias de jogos. Mas talvez não seja.


Epidemia social


Segundo Jeremy Rifkin, autor de A era do acesso, iniciamos uma nova fase na história, marcada pela desmaterialização dos bens, pela ascendência de ativos inatingíveis e pela transformação de relacionamentos e experiências em commodities. Rifkin alerta que a própria discussão acerca da propriedade tem deslocado seu eixo, posto que a posse é cada vez menos importante que o acesso. Ricos e poderosos são os conectados. Os pobres, mais do que famintos, são os excluídos das interações instantâneas pelo meio eletrônico. Desse ponto de vista, ganhar admiração e respeito numa comunidade virtual é algo de grande valor.


A rede Orkut carrega o nome de seu criador, o turco-alemão Orkut Buyukkokten, um funcionário do Google, o maior motor de busca da internet. Nele, os usuários cadastrados expõem sua biografia, manifestam preferências, falam da família, publicam fotos e, sobretudo, exibem orgulhosamente seus amigos. O cruzamento dessas informações com outras requeridas pelo Google permite à empresa criar perfis de consumo e mapas de demanda, o que ajuda, por exemplo, a selecionar e customizar os anúncios em suas páginas.


Do ponto de vista antropológico, trata-se de uma espécie de mega-big-brother, em que o povo do planeta Terra se exibe numa casa de vidro digital. Em termos de conceito, o Orkut tem como base os pressupostos do estudo de Sistemas Não-Lineares e da Geometria Fractal, descendentes da Teoria do Caos. No âmbito das relações, o projeto descende diretamente da experiência dos Six-Degrees [toda pessoa na Terra está a no máximo seis graus de separação de qualquer outra], tema que virou livro e filme de sucesso.


Mais da metade dos orkutianos é de brasileiros, fato que até hoje é motivo de polêmicas entre pesquisadores da comunicação, sociólogos, antropólogos e psicólogos. O fenômeno, considerado uma ‘epidemia social’ pelos engenheiros do Google, revelaria cinco características dos plugadíssimos cidadãos da nova Pindorama: são ótimas matrizes conectoras, são gregários por natureza, valorizam objetivos comunitários, gostam de se exibir e adoram bisbilhotar.


Malhas inteligentes


Pode-se afirmar que o brasileiro tem apreço enorme pela vida em comunidade. Não faltam exemplos, como as escolas de samba e os milhares de times de futebol espalhados pelo país. Entretanto, os norte-americanos também se reúnem em grupos comunitários, como igrejas e escolas. Os ingleses se agregam em milhares de clubes de futebol. Onde estaria, então, a diferença?


Há quem arrisque dizer que nossa vocação orkutista surgiu na rua, ou melhor, nas calçadas. Toda noite, as avós dos conectados brasileiros de hoje botavam as cadeiras nas calçadas e se punham em informal assembléia com as vizinhas. Cravavam os olhos investigativos em quem passava. Elogiavam, cogitavam perdões, levantavam suspeitas, lançavam farpas, exerciam a sadia prática da fofoca. As informações flutuavam de grupinho em grupinho, até que a versão dos fatos fosse conhecida de todo o bairro ou de toda a cidade.


A revolução digital promoveu uma rápida metamorfose formal nas relações humanas. No jogo cego dos chats, homens e mulheres apostam suas fichas em novas aventuras amorosas. Alguns dão com os burros n’água, outros terminam felizes no altar. Pela internet, os clãs reúnem cultivadores de cravos vermelhos, fãs da banda de trip-hop Morcheeba, colecionadores de fuscas e leitores de Saramago. Há grupos de góticos, de ambientalistas e de evangélicos. Cada vez mais, as relações pessoais são forjadas na especificidade.


Esses processos de aglutinação, de alteração nos ritos relacionais, verifica-se, sobretudo, no âmbito das comunidades urbanas, responsáveis pela criação de uma cultura cada vez menos geográfica e cada vez mais temática. De acordo com o antropólogo Clifford Geertz, as culturas são ‘redes de significados’. Dessa forma, imagens, textos, palavra falada e músicas transformam os sistemas multimediados em verdadeiras malhas inteligentes. Outro antropólogo, Edward T. Hall, afirma que a comunicação ‘constitui o centro da cultura e, de fato, da vida em si’. Seu colega Edmund Leach sintetiza essa visão: ‘A cultura comunica’.


Rompendo o isolacionismo


Do ponto de vista antropológico, portanto, a comunicação gera significados sociais por meios da transmissão de mensagens inteligíveis, sejam elas explícitas numa imagem ou encapsuladas num texto. Assim, toda comunicação é tributária de uma cultura e de seus contextos sociais específicos.


Desde a época em que os homens primitivos resolveram ‘decorar’ as paredes das cavernas de Lascaux, cada grupo comunica o que sabe, o que sente e, principalmente, o que lhe interessa. Por vezes, o destinatário da mensagem é apenas uma divindade. Noutras ocasiões, todo o povo. Esses pacotes organizados de significantes e significados foram fundamentais na difusão de crenças e no fortalecimento das grandes religiões. Se a televisão não uniformizou o mundo, pode-se dizer que plantou e difundiu novos padrões de comportamento. Talhadas tanto para a segmentação do conhecimento quanto para uma compreensão holística da experiência humana, as mídias digitais semeiam agora o saudável gosto pela perscrutação das ‘variedades fundamentais de cada semiose possível’, conforme o sonho de Charles Sanders Pierce.


Este gigantesco leque de variedades certamente abrange a raridade das beatitudes e das maldades excepcionais. Até recentemente, por exemplo, os neonazistas divulgavam suas teorias em ambiente restrito. Isolados, sem acesso às grandes redes convencionais de comunicação, viam-se frustrados em seus projetos de doutrinação. Nos últimos 10 anos, no entanto, essas brigadas radicais vêm rompendo as cercas eletrificadas do isolacionismo.


Discurso da ameaça


A internet permite o restabelecimento das comunicações entre esses grupos, facultando intercâmbios internacionais, a divulgação de doutrinas e o recrutamento de novos membros. A dispersão de fontes emissoras coloca em risco a própria noção de soberania das nações, posto que o governo do Chile, por exemplo, dificilmente será capaz de impedir que os jovens de Santiago recebam mensagens de um austríaco que prega a superioridade da ‘raça branca’.


Jovens do mundo inteiro têm acesso, por exemplo, a sites de movimentos como o White Arian Resistance (WAR) e às listas de discussão dos skinheads. Nesses grupos, o jogo discursivo é meticulosamente preparado para a conversão. A metáfora dominante é a da guerra. O estilo paranóico dos textos estabelece ligações artificiais entre eventos isolados. A manipulação tem por objetivo fazer crer que os interlocutores são vítimas de uma grande conspiração, articulada por minorias tirânicas e cruéis. Desperta-se, dessa forma, um sentimento de indignação no grupo. Logo, cria-se uma poderosa coesão defensiva.


O discurso da ameaça é recorrente. Os homossexuais, por exemplo, são identificados como terrível perigo. Para os propagandistas das células ultraconservadoras, gays e lésbicas constituem-se em agentes do mal, empenhados em degradar a sociedade. Seguindo a retórica do terror, panfletos digitais consideram que os homossexuais perseguem dois objetivos básicos: fechar as igrejas e acabar com a família.


Cultura do ‘eu odeio’


A rede Orkut, capaz de patrocinar notáveis encontros entre voluntários em trabalhos de prevenção à Aids, também reúne impressionante número de comunidades radicais. Os administradores do sistema freqüentemente banem grupos que pregam o ódio racial ou que difundem doutrinas baseadas no preconceito. Entretanto, tão logo um grupo é fechado, outro semelhante é aberto, muitas vezes com outra denominação e moderador. Os diferentes idiomas utilizados no sistema, por exemplo, dificultam a identificação dos grupos. Alguns permanecem meses incólumes, em ativa propaganda para difundir a violência, o ódio e a intolerância.


A retórica da discórdia e do enfrentamento é semeada em terreno fértil. Na data de redação deste artigo, havia nada menos que 27.630 comunidades em português destinadas a reunir pessoas que odeiam alguém ou algo. Nessa cultura infantil de reclamação e recusa, há gente que apenas odeia acordar cedo, mas são muitos os pequenos exércitos empenhados em combater negros, pobres, defensores dos direitos humanos e outros ‘diferentes’, sempre responsabilizados pelas mazelas do mundo.


Sargentão sensual


Vamos, então, empreender uma pequena viagem ao mundo dos que odeiam. Saltamos diretamente ao terreno minado da comunidade ‘Eu odeio o MST’. Na data desta pesquisa, o grupo irmanava 8.274 orkutianos. Em sua página de abertura, a meta do grupo é apresentada.




Comunidade para quem não gosta, odeia, ou simplesmente almeja o fim de uma baderna denominada Movimento dos Sem Terra.


A comunidade tem uma feroz concorrente, a ‘Anti-MST’, com 5.929 membros, cuja apresentação é a seguinte:




Se você acha esse movimento ridículo. Acha que esses baderneiros desocupados devem ir para bem longe… Ou quem sabe a 7 palmos abaixo da terra que ‘tanto querem’… Juntem-se a nós.


A comunidade orkutiana dos que simpatizam com os sem-terra é bem menor. Tem 5.804 membros.


Pode-se imaginar que o idealizador e dono da comunidade Anti-MST, por exemplo, seja um fazendeirão carrancudo ou um sargentão da Gestapo. Nada disso. Desde que acreditemos na ficha apresentada pelo Orkut, o grupo é ‘controlado’ pela sensual Nice, uma loirinha aparentemente inofensiva, de 21 anos, que vive em Carazinho, no Paraná, e que afirma adorar seus animais de estimação. Vale ressaltar que não se pode ter certeza de que o grupo é, de fato, moderado pela moça. Também é possível que Nice seja apenas uma personagem fictícia, criada para ocultar a verdadeira identidade do responsável pela comunidade. Essa regra de desconfiança vale para todos os outros personagens virtuais citados nesta reportagem.


Mulheres radicais


Integrado por indivíduos identificados por seus próprios nomes ou não, o grupo delicia-se em celebrar eventos em que os sem-terra foram espancados ou assassinados. Um ‘ativista’ afirma que os policiais deveriam usar balas de verdade nas invasões de assentamentos. Outro sugere que atirem nos olhos dos agricultores. Entre as comunidades coligadas, destaca-se ‘Morte ao Lula’, com 1.485 membros, cujo símbolo é uma montagem fotográfica em que o presidente da República aparece prestes a ser decapitado numa guilhotina.


Nice é apenas parte de um enorme grupo de mulheres radicais conservadoras. Claudia Passini, de 20 aninhos, uma bela moça de Limeira (SP), é dona da animada comunidade ‘Rimpatriare’, com 51 membros. O objetivo do grupo é, em resumo, o seguinte:




Movimento para estabelecer uma nova colônia no sul do Brasil, com os descendentes de europeus. Somente um processo de re-colonizacão organizado poderá garantir o futuro da nossa raça, cultura e tradições.


O grupo se diz contra o racismo, mas seus integrantes não demonstram qualquer propensão à fraternidade e à tolerância. Claudia, por exemplo, é membro de vários grupos extremistas, como ‘Orgulho Branco’ e ‘Odeio Bichas, Viados e Gays’. Entre suas comunidades, no entanto, a mais curiosa é ‘Mulheres Brancas Orgulhosas’, cujo ideário é o seguinte:




Comunidade voltada para mulheres ORGULHOSAS de sua raça, de sua cultura e, sobretudo, seus valores!


** Não toleramos a miscigenação.


** Almejamos construir uma família BRANCA estruturada.


** Ignoramos padrões estabelecidos pela mídia.


** Abraçamos os valores tradicionais EUROPEUS.


** Não obstante, acreditamos também no papel ativo da mulher na vida político-econômica, não se restringindo à esfera familiar, porém em harmonia com esta.


** E acima de tudo, somos MULHERES BRANCAS DE VERDADE.


** Não basta ser branca de pele, temos que ser BRANCAS na alma também!


Num dos debates, Luana, uma atraente paulistana de 25 anos, que adora tênis e baladas, expõe seu ponto de vista sobre a miscigenação.




Loiras com Negros – Absurdo que Aumenta 2/16/2005 4:05 AM


Bom amigas e amigos, uma coisa que me deixa perplexa, sinceramente, é o fato de estar aumentando cada vez o número de mulheres brancas, a maioria delas loiras como eu, se unindo com negros.


Fico tentando imaginar por que isso ocorre, e não encontro explicação.


Talvez meu tópico não seja tão produtivo quanto os demais levantados pelos colegas, mas é, ao menos, um desabafo de minha parte. Gostaria de saber o que vocês acham. Beijos. Luana.


Voluntária do bem


Ora, mas o Orkut certamente não é somente reduto de mocinhas radicais de direita. Jane Silva, uma recepcionista de 22 anos, quase foi crucificada na comunidade do Corinthians, a mesma que citamos no início desta matéria, por pertencer a duas comunidades sinistras: ‘Nazismo’ e ‘Odeio Pretos’. Os moderadores do grupo, entretanto, perceberam que Jane havia se agregado a essas comunidades justamente para fazer a defesa dos preceitos de tolerância e civilidade.


Este jornalista localizou Jane, que tem um pseudônimo no Orkut, e lhe fez duas perguntas:


1) Como tem sido a experiência de se agregar a essas comunidades? É possível empreender uma luta de argumentos nesses grupos radicais?




Bom, fui expulsa de ambas. Na verdade, estava lá apenas pra ‘pagar com a mesma moeda’. Faço sem a menor intenção de ativismo. Acho que, no fundo, isso é um desejo de dizer a eles: ‘vocês têm oposição’.


Os argumentos deles são: ‘negro fede’, ‘negro rouba’, ‘negro é assassino’, ‘a culpa é do negro’ ou ‘eu sou melhor, porque sou branco, e os brancos são responsáveis pelas maiores descobertas da ciência’.


Na verdade, não adianta tentar conversar, pois são paranóicos. Acham que tudo é uma conspiração pra acabar com a raça branca. Para eles, todas as informações são manipuladas por uma mídia anti-branca.


2) De onde surgiu a idéia de fazer oposição ao preconceito? É somente brincadeira ou uma opção ética?




Comecei a entrar nessas comunidades quando um racista atacou um profile de um amigo negro. Entrei no perfil desse racista e me deparei com essas comunidades preconceituosas. Fiquei tão nervosa com os comentários dos membros que acabei respondendo aos posts e virei inimiga deles. Fui também uma das odiadas da comunidade ‘Anti-Heróis’, que acabou ‘deletada’ do Orkut por causa da reação de um garoto negro, vitima na brincadeira ‘cague no pretinho’. Essa brincadeira era para atingir a nós, aqueles que chamavam de ‘defensores de preto’.


A verdadeira piada é ser racista num país como o Brasil. Nosso país foi construído com tanta miscigenação. Por isso, pessoas que defendem o domínio da ‘raça ariana’ não podem ser levadas a sério.


Assassinos virtuais


As comunidades neonazistas são excluídas com freqüência do Orkut. No entanto, novos grupos são criados a rodo. Na data desta pesquisa, a ‘Associação Neonazista’ tinha 221 membros e seu líder apontava os cuidados necessários para evitar mais uma exclusão. Sua advertência era a seguinte:




Aki podem ser dadas opiniões, informações, descontentamentos e idéias.


Só gostaria de lembrá-los que preconceito é crime, então cuidado com o que vão escrever.


ESTA NÃO É UMA COMUNIDADE DE DISCRIMINAÇÃO ÉTNICA; O OWNER NÃO SE RESPONSABILIZA POR TÓPICOS E RÉPLICAS; QUEM PEGAR PESADO SERÁ EXPULSO!!!


O moderador do grupo ‘Eu Odeio Pretos’, entretanto, não tomava as mesmas precauções.




Essa comunidade é pra quem realmente não gosta dessa raça escrota… a raça negra.


Eles são a raça mais inútil de todas… A raça negra jamais, a não ser em contato com as outras, emergiu do barbarismo: não criaram um alfabeto, a roda, um sistema de medidas. Jamais plantaram coisa alguma nem domesticaram animais, apesar de não faltarem bichos dóceis ao seu redor; não criaram um Estado na concepção normal da palavra, aplicável as outras raças. Por dizer isto, serei provavelmente considerado ‘racista’. Entretanto tudo isso é facilmente verificável em qualquer livro de história. Então, junte-se a esse movimento white-power.


Como o ódio em território orkutiano é democrático, vale conferir as intenções do pessoal da comunidade ‘Irmãos Negros versus Porcos Brancos’, fundada em novembro do ano passado e que congrega 32 membros. Segundo o moderador, denominado Mano Zulu, o grupo deve agregar indivíduos que se enquadrem na descrição abaixo:




Para os que estão cansados dos branquelinhos pentelhos oprimindo o irmão negro. Mostrem o poder negro a eles! Black is beautiful! Black power é tudo!


Num dos debates, o integrante Henrique Teixeira, faz sua ameaça:




BRANCOS DE MERDA… 2/15/2005 8:25 PM


A VONTADE Q TENHO É DESCER O MORRO E MATAR TANTOS BRANCOS (…) TO CHEIO DE ODIO… ESSA MENSAGEM FOI ESCRITA POR UM NEGRO NA REVOLTA, CANSADO DESSE RACISMO DE MERDA… E AGORA VC´S QUEREM TREGUA… DEPOIS DE TUDO Q FIZERAM… BRANCOS DE MERDA QUALQUER DIA ESTAMOS AI…


Os inimigos dos gays são particularmente fascinados pela violência. A comunidade ‘Eu Odeio Gays’ tinha na data da pesquisa 237 membros. Em sua apresentação, trazia o seguinte texto:




Essa é a comunidade dos odiadores de gays. Se vc vê um gay na rua e quer bater nele, junte-se a nós.


Um de seus membros, Gabriel Yunkee, expressa sua fantasia macabra:




Como matar um gay? 1/1/2005 12:47 PM


Meu sonho eh espancar um gay com um taco de baseball e dps bota fogo nele!


Gabriel apresenta até um e-mail de contato para os que quiserem lhe prestar ajuda na empreitada: gabrielyunkee2@hotmail.com


Seguindo a discussão, um certo Igor Batera descreve o método que gostaria de utilizar para assassinar um homossexual:




1/1/2005 6:21 PM


Eu queria colocar um gay deitado de bruços na calçada. Aí, fazia ele abrir a boca e colocava os dentes dele bem na guia, como se tivesse mordendo ela. Aí, eu vinha por trás com meu coturno e dava um pisão bem por trás, na cabeça dele. Ia abrir igual a um coco. Hauahauahauahau.


Todo cuidado é pouco


Para tornar-se um membro da supercomunidade, basta ter uma conta de e-mail e receber um convite de ingresso emitido por um internauta já cadastrado no sistema. Essa liberalidade permite a ação de larápios de todo tipo. Veja, abaixo, as armadilhas em que os desavisados podem cair.


1) Muitos profiles são absolutamente falsos. Há gente que se apresenta como Lula, Ronaldinho Fenômeno, George Bush, Sabrina Sato ou Julia Roberts. Algumas apresentações, com fotos e dados, são tão convincentes que levam crédulos incautos a passar semanas trocando mensagens com um ídolo fake.


2) Muitos profiles são clonados. Imagine que você é José da Silva, um pacato cidadão que faz parte do Orkut apenas para aprender novas técnicas de jardinagem. Ora, mas você tem um inimigo oculto: o pérfido João, ex-namorado de sua atual mulher. Bem, o vingativo João, ainda doente de amores, ingressa no Orkut pelas vias normais. Secretamente, entretanto, copia suas fotos e dados. Depois, cria uma conta fantasma num e-mail gratuito, como hotmail ou yahoo. Em seguida, do Orkut, convida-se para tomar parte no sistema. Minutos depois, abre a mensagem e se inscreve com o seu nome. Usa suas fotos e dados. Poucos desconfiarão da fraude. Como João não é flor que se cheire, fará de tudo para acabar com sua reputação. Tratará, por exemplo, de usar a falsa ‘persona’ para enviar mensagens em que ‘você’, José da Silva, se confessa cleptomaníaco ou consumidor de drogas.


3) Bom, você nunca entrou no Orkut. Portanto, não corre perigo. Certo? Errado. Se você tem uma foto ou dados pessoais circulando pelas infovias, todo cuidado é pouco. Qualquer fraudador pode utilizar essas informações para ‘ser você’ nas comunidades orkutianas. Como não é necessário apresentar cartão de crédito ou qualquer documento, qualquer um pode ser qualquer um no universo das relações virtuais.


Agentes infiltrados


Existem recursos no sistema para denunciar falsos profiles e bani-los. No entanto, nem sempre é fácil detectar a veracidade das informações. Muitos inocentes são ‘presos’ (e alguns até deletados) por conta de acusações sem fundamento.


O ambiente virtual do Orkut já abriga inúmeros bandos ou gangues. Alguns se dizem a serviço da lei e da ordem, como os ‘cops’. Outros, como os ‘discordantes’, divertem-se semeando a confusão, clonando personagens ou deturpando os debates. A comunidade ‘Denúncia Orkut’, por exemplo, traz a seguinte apresentação:




** O único objetivo deles é despertar o ódio. Então simplesmente IGNORE-OS! Não responda as mensagens deles. Apague os tópicos e os expulse da comunidade se for necessário, reporte como bogus, mas jamais responda as mensagens deles. Não tem nada pior para eles do que plantar a discórdia e não colher ódio! Ignore-os e você vence!


** Denuncie Racistas e Semeadores cada um na lista específica. Confira antes se o nome ou a comunidade já não foram listados, para termos uma lista mais limpa possível.


IMPORTANTE – Quem não quiser combater, será expulso. Nada de semeadores aqui! Qualquer discórdia será apagada, assim como respostas de membros, por isso, IGNORE, NÃO RESPONDA!!!


A comunidade da organização não-governamental Webjustice também tem seus agentes infiltrados por todo o sistema. O objetivo é criar articulações para combater homofóbicos, nazistas e indivíduos que usam a internet para incentivar o ódio e a intolerância.


A equipe do site de humor Cocadaboa.com reivindica a autoria daquele que teria sido o mais assustador ataque às estruturas do sistema Orkut, ocorrido no fim de 2004 [ver remissão abaixo para o artigo ‘Os patos do Cocadaboa’, de Moises Aires da Silva]. Uma brecha na programação do sistema, mais uma falha de segurança no navegador do Internet Explorer, teriam permitido a apropriação indébita das identidades dos responsáveis por 26 das maiores comunidades, que juntas congregavam à época cerca de um milhão de pessoas. Não há provas conclusivas da responsabilidade dos humoristas, mas é certo que eventos estranhos disseminaram o caos por vários grupos.


As razões do suposto seqüestro de comunidades teriam sido: chamar atenção para as falhas de segurança do Orkut, alertar para os problemas do Internet Explorer, divulgar o browser Firefox e aumentar o número de page views do Cocadaboa. Não é certo que esses objetivos tenham sido alcançados. Muitos internautas afirmaram que a operação foi antiética e que havia meios lícitos de se chamar a atenção para os problemas técnicos dos sistemas. Ainda assim, a mal explicada história do terrorismo online instaurou um debate sobre a fragilidade dos megassistemas digitais de informação e relacionamento. Gigante e visado como o WTC, o Orkut poderia a qualquer momento sofrer novos atentados. Resta a pergunta: que risco correm os hóspedes da super-estrutura?

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