Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Vinte anos da web

Por The Economist em 24/03/2009 na edição 530

‘Gerência de informação: uma proposta.’ Foi esse o título despretensioso de um documento escrito em março de 1989 por um pouco conhecido – na época – cientista de computação chamado Tim Berners-Lee que trabalhava na Cern, o laboratório de física de partículas da Europa, perto de Genebra. Berners-Lee é agora, evidentemente, Sir Timothy, e sua proposta foi modestamente traduzida para rede mundial da internet e preencheu as conseqüências de seu nome muito além dos sonhos fantasiosos de qualquer pessoa então envolvida no projeto.

Na realidade, a web (world wide web) foi inventada para tratar de um problema específico. No final da década de 1980, a Cern planejava desenvolver um dos mais ambiciosos projetos científicos até então imaginado, o Large Hadron Collider [um grande raio produtor de partículas, numa tradução livre], o LHC. Tal como constava das primeiras linhas da proposta original, ‘muitas das discussões sobre o futuro da Cern e da era LHC terminavam com a pergunta `Sim, mas como iremos armazenar os dados de um projeto tão grande?´. Esta proposta fornece uma resposta a essas perguntas’.

Atualmente, Sir Timothy encontra-se no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, onde dirige o World Wide Web Consortium, que estabelece padrões para a tecnologia da web. No dia 13 de março, se tudo correr bem [como correu], ele irá encontrar-se com seus antigos colegas da Cern para comemorar o vigésimo aniversário da internet.

A rede da vida

Como todo mundo sabe, a web encontrou utilidades muito além daquela, original, de vincular documentos eletrônicos sobre a física das partículas em laboratórios pelo mundo afora. Mas entre todas as transformações que moldou, de redes sociais de relacionamento pessoal a campanhas políticas e à pornografia, também transformou, como seu inventor esperava que fizesse, uma forma de produzir ciência.

Além de proporcionar os previsíveis benefícios de permitir que os jornais sejam publicados online, com links de um jornal para outro, também permitiu, por exemplo, que cientistas profissionais recrutassem milhares de amadores para ajudá-los. Um desses projetos, chamado Galaxy Zoo, utilizou esse trabalho voluntário para classificar um milhão de imagens de galáxias em vários tipos (espiral, elíptica e irregular). Esse trabalho, que pretendia ajudar os astrônomos a compreenderem a evolução das galáxias, teve tamanho sucesso que já tem agora um sucessor, para classificar de forma mais pormenorizada as 250 mil galáxias mais brilhantes.

Mais modestamente, as pessoas envolvidas no projeto Herbari@home examinam e decifram imagens escaneadas, escritas a mão, de recortes sobre plantas armazenados em museus britânicos. Isso irá permitir descobrir e localizar mudanças na distribuição das espécies como resposta, por exemplo, às mudanças climáticas.

Uma outra nova função da aplicação científica da web é como laboratório experimental. Vem permitindo que cientistas sociais, em especial, façam coisas que antes teriam sido impossíveis.

As leis da navegação online

Recentemente, divulgamos dois desses projetos. Um deles consiste de um site para empréstimos em dinheiro entre iguais ou pessoas com características semelhantes – para mostrar que a fisionomia é um fator que prediz com confiança a credibilidade (ver aqui). O outro projeto, conduzido por solicitação do Economist, confirmou as observações de antropólogos sobre as dimensões das redes de relacionamento pessoal utilizando informações do site Facebook (ver aqui). Uma segunda investigação sobre a natureza dessas redes, que chegou a conclusões semelhantes, foi produzida por Bernardo Huberman, da HP Labs – o braço de pesquisa da Hewlett-Packard em Palo Alto, na Califórnia. Huberman e seus colegas examinaram o Twitter, um site de relacionamento que permite às pessoas enviarem mensagens curtas a longas listas de amigos.

Aparentemente, as redes pareciam enormes – os 300 mil usuários do Twitter tinham, em média, 80 amigos cada um (no caso do Facebook, tinham 120), mas alguns deles listavam até mil amigos. Entretanto, uma inspeção estatística mais aprofundada revelou que muitas das mensagens eram enviadas a uns poucos amigos específicos, indicando – assim como no caso do Facebook –, que a rede social ativa de relacionamento de uma pessoa é bem menor que o seu ‘clã’.

Huberman também ajudou expor várias leis da navegação pela internet, inclusive o número de vezes que uma pessoa comum vai de uma página para outra na web, antes de desistir, assim como os detalhes do fenômeno ‘tudo ao vencedor’, pelo qual uns poucos sites sobre um determinado assunto ganham a visita da maioria, e os restantes quase nada.

Falta de incentivo

Portanto, os cientistas demonstraram desembaraço ao usar a web para aprofundar suas pesquisas. No entanto, mostraram uma tendência a diminuir o ritmo quando se tratava de empregar as mais recentes ferramentas das redes de relacionamento social para ampliar o discurso científico e incentivar uma colaboração mais eficaz.

Atualmente, os jornalistas já estão habituados a ver seu artigo comentado por dúzias de leitores. Na verdade, muitos blogueiros desenvolvem e aprimoram seus ensaios com base nessas sugestões. Entretanto, apesar de várias tentativas no sentido de incentivar um sistema aberto para revistas de pesquisa científica com características semelhantes divulgadas na internet, a maioria dos pesquisadores ainda limita essas revistas a uns poucos especialistas anônimos. Quando Nature, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo, fez a experiência com o sistema aberto, em 2006, os resultados foram desanimadores. Apenas 5% dos autores que procurou concordaram em ter seus artigos divulgado pela internet – e seu instinto demonstrou ser o correto, pois quase a metade dos trabalhos publicados na internet não provocou comentário algum.

Michael Nielsen, um especialista em computadores da teoria dos quanta que faz parte de uma nova onda de cientistas blogueiros que quer mudar a situação, acha que o motivo para essa reticência não é vergonha nem medo de represálias, e sim uma falta de incentivo fundamental.

O cientista não-social

Em parte, os cientistas publicam porque suas carreiras dependem disso. Cuidadosamente, acompanham quantos de seus trabalhos foram aceitos, a reputação das publicações que os editam e quantas vezes cada um de seus artigos é citado por seus pares, como medidas de impacto de sua pesquisa. Esses números podem facilmente ser inseridos num curriculum vitae para impressionar os outros.

Por outro lado, ninguém ainda sabe como medir o impacto de um texto num blog ou de uma boa idéia compartilhada com outro pesquisador num espaço de trabalho colaborativo na web. Nielsen pensa que se mensurações semelhantes pudessem ser estabelecidas para avaliar o impacto de comentários abertos e de colaboração aberta na internet, esses comentários e colaborações prosperariam e a ciência, como um todo, seria beneficiada. Fundamentalmente, isto implica estabelecer um mercado para grandes idéias, tal como o site eBay faz para objetos desejados.

Como fazê-lo, no momento, é um mistério. A credibilidade intelectual obedece a regras diferentes daquelas do tipo financeiro. Mas se algum pesquisador entusiástico tiver uma idéia sobre como fazê-lo, ‘Gerência de informação: uma proposta’ também poderia ser um título pertinente para o primeiro esboço. E, quem sabe, poderia até vir com uma condecoração…

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