Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Watchblogs, a nova patrulha da imprensa

Por Carlos Castilho em 24/02/2004 na edição 265

As eleições presidenciais de novembro nos Estados Unidos provavelmente serão um processo político para lá de aborrecido, mas têm tudo para se transformarem num marco na história do jornalismo mundial.

É que a imprensa do Tio Sam está mergulhada num apaixonado debate sobre as vantagens e desvantagens do monitoramento de reportagens e comentários sobre a campanha eleitoral. Mais do que ganhos e perdas, o que parece estar em jogo é como os jornalistas responderão ao crescente patrulhamento do seu trabalho pelo público e por seus colegas de profissão, via Internet.

O fenômeno dos ‘watchblogs‘, weblogs que vasculham tudo o que sai publicado na imprensa sobre a campanha eleitoral, está alterando os hábitos dos grandes nomes do jornalismo norte-americano, que até agora se consideravam uma elite profissional acima de qualquer suspeita.

Sem nenhum comando centralizado, centenas de blogueiros norte-americanos e alguns até de outras plagas, passaram a checar fatos, declarações, estatísticas, pesquisas e currículos publicados por jornalistas dos grandes jornais, revistas, emissoras de televisão e sites da Internet.

Entre os watchbloggers há jornalistas, ativistas, intelectuais e curiosos. É uma marcação ‘homem a homem’, onde os blogueiros escolhem um profissional, conferem tudo o que ele diz ou publica em matérias vinculadas às eleições de novembro próximo e publicam a avaliação em weblogs individuais. Alguns mais irônicos chegaram apelidaram o movimento de ‘adote um jornalista’.

Os novos patrulheiros da imprensa provocaram uma enorme polêmica entre os jornalistas e políticos norte-americanos, com argumentos pró e contra que vão desde acusações de perseguição ideológica até projeções de que o fenômeno antecipa o jornalismo do futuro.

Como era de esperar há watchbloggers pró e contra George W. Bush. Os jornalistas mais conservadores receberam o apelido de Media Whores (Prostitutas da Imprensa) por parte dos autores do blog Media Whores Online. O site é uma espécie de portal dos blogs que patrulham 32 profissionais ultra conhecidos da grande imprensa norte americana.

Mas não são apenas os blogueiros individuais de aderiram ao monitoramento sistemático dos formadores de opinião na temporada pré-eleitoral norte-americana. Também influentes revistas especializadas na cobertura da imprensa não deixam mais passar em brancas nuvens pecadilhos e escorregões dos profissionais da comunicação. Elas conferem estatísticas, datas, citações, dados e interpretações, práticas antes exclusivas das revistas e sites de crítica da imprensa (media criticism).

A Columbia Journalism Review lançou uma página chamada CampaignDesk onde esmiuça em detalhes a cobertura da campanha eleitoral 2004 pela imprensa norte-americana. Outra publicação especializada em jornalismo, o também norte-americano MediaChannel tem o seu projeto Media for Democracy 2004, no qual, além do monitoramento do material publicado pela grande imprensa do Tio Sam, serve de canal para leitores expressarem suas angustias e frustrações com os candidatos à Casa Branca.

A polêmica contaminou inclusive as universidades. Mark Glaser, um dos editores da revista acadêmica Online Journalism Review, da Universidade do Sul da Califórnia, publicou uma análise mais profunda do tema dando inclusive os endereços de alguns watchbloggers ou patrulheiros cibernéticos.

Steve Outing, do Poynter Institute e colunista da revista Editor & Publisher, preferiu investigar o que acontece com os jornalistas quando eles decidem criar o seu próprio blog para criticar e serem criticados. E Jay Rosen, chefe do Departamento de Jornalismo da Universidade de Nova York criou o blog PressThink para escrever sobre o fenômeno do watchblogging.

Fenômeno passageiro ou permanente

No centro das discussões está a dúvida se a marcação individual dos jornalistas é um fenômeno passageiro, tipicamente eleitoral, ou algo mais permanente. Os que defendem a segunda hipótese citam o caso da dona de casa Robin Stolly, que nunca entrou numa redação e que ‘adotou’ os jornalistas Calvin Woodward, da Associated Press, e Elizabeth Burniller, do New York Times, no seu blog Fact Esque. É o patrulhamento saindo das redações para chegar à sala de jantar. Para muitos isto pode ser o embrião de um novo jornalismo.

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jornalista, consultor de comunicação e estudante de mídia eletrônica

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