Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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EDIçãO BRASILEIRA DA COLUMBIA JOURNALISM REVIEW >

Assédio é sobre poder; combate é coletivo

Por Eleonora de Lucena em 24/04/2018 na edição 984

A curva do calcanhar, o comprimento do vestido, as pernas roliças, o corte de cabelo. Elogios a pedaços do seu corpo começaram a chegar pelo e-mail da jovem estagiária. Eram enviados pelo chefe, que intercalava as mensagens picantes com ordens de pauta. Mais tarde viriam o convite para jantar, para ir até a casa dele, para uma conversa a dois.

O que fazer? Ignorar poderia significar retaliação e até demissão. Ficar com as piores pautas, não assinar as reportagens, perder oportunidades de viagens, de fazer entrevistas relevantes. Ser dispensada por um motivo qualquer. Ter a ascensão profissional podada.

Ceder era impensável. Ela tinha nojo daquele comportamento da chefia. O sujeito era asqueroso, bebia demais (especialmente às sextas-feiras), se achava o rei da cocada. Alardeava ser entendido em vários assuntos complicados, ter viajado para lugares exóticos, merecer prestígio total da direção geral. Um intocável.

Denunciar a deixaria marcada. Para a família, ela poderia ser vista como alguém que deu chance, que provocou um homem, uma vagabunda, simples assim. O marido (ela era casada) poderia reagir violentamente – contra o chefe. Para o mercado de trabalho, no qual ela recentemente havia conquistado um microlugar, seria carimbada como uma ovelha negra, mentirosa, despeitada, frustrada. Como alguém incompetente que prefere culpar os outros pelos seus fracassos profissionais – e ainda por cima atingir o chefe e a empresa.

Não tinha como comprovar, não guardara os e-mails. Seria a sua palavra contra a dele, o poderoso chefe. Ela não seria mais contratada por outras redações. Amargaria o desemprego e o ostracismo. Talvez tivesse que voltar para o interior, para a casa da família. Talvez a história acabasse com o seu casamento. A ira do marido, que se sentiria humilhado, traído, também poderia se voltar contra ela. Teve medo, angústia, revolta.

Uma colega passou por momentos mais dramáticos. No final de um dia, se viu encurralada na sala do chefe. Porta trancada. Chorando, ela conseguiu escapar. Traumatizada, teve que deixar o trabalho naquela redação.

Outra rejeitou o chefe e foi expelida para uma ilha de gelo profissional e humilhações. Caiu em depressão e precisou de atendimento médico. Todas elas seguem adiante, mas carregam cicatrizes amargas, um sentimento de que suas carreiras sofreram reviravoltas injustas por conta de comportamentos canalhas de suas chefias. O assédio sexual é uma questão muito mais de poder do que de sexo – é preciso dizer isso logo de início.

Sobre respeito e desrespeito

Quando fui procurada para escrever este texto não imaginava que pudesse escutar histórias assim. Trabalhei em redações de jornais por quarenta anos e não tenho episódio pessoal de assédio para relatar. Homens e mulheres foram meus chefes – na maior parte do tempo respondi a comando masculino. Tivemos diferenças, discussões, embates – normais num ambiente de trabalho em que a produção de conteúdo é fruto de interpretações, visões conflitantes de mundo, críticas e autocríticas permanentes. Fui sempre tratada com respeito – ainda que possa ter achado que sofri injustiças. É do jogo. Assédio sexual, nunca.

É certo que quase sempre atuei em grandes veículos, redações populosas, trabalho intenso. Sou parte do movimento de ascensão feminina no jornalismo, iniciado a partir dos anos 1970. Até a primeira metade do século 20, a labuta em jornal era feita basicamente por homens. Muitos eram advogados, funcionários públicos. Trabalhavam meio período, cozinhando textos vindos de fora, de agências, de governos. Nos meus primeiros empregos convivi com personagens assim, que se desdobravam em múltiplos empregos – sem falar nos policiais que faziam bicos em redações durante a ditadura militar.

Samuel Wainer (1910-1980), o lendário criador da Última Hora, deu início à profissionalização das redações, organizando salários e jornadas. A urbanização e a escolarização deslancharam a partir dos anos 1950, e o jornalismo acompanhou o crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho.

Depois, em 1969, a regulamentação da profissão de jornalista, exigindo diploma universitário específico (o que não vigora mais hoje), deu mais impulso à entrada feminina nas redações. As mulheres agora faziam faculdade, ganhavam qualificação e disputavam espaço; muitas militavam no combate à ditadura. Alzira Alves de Abreu e Dora Rocha relataram esse fenômeno em Elas Ocuparam as Redações (FGV Editora, 2006).

Antes disso, umas poucas pioneiras enfrentaram preconceito dentro e fora das redações. Ana Arruda Callado conta, nesse livro, como foi duro se impor a colegas no ambiente de trabalho francamente masculino entre os anos 1950 e 1960. Na reportagem, o problema era ainda maior.

Uma vez, durante uma cobertura em Belém do Pará, foi orientada a procurar o assessor de imprensa da prefeitura para buscar dados. “De noite ele ficou indignado, porque quis me agarrar à força e eu disse: ‘Que é isso?’. Ele: ‘Ah, pensa que eu engoli essa história de jornalista? Mulher viajando sozinha, eu sei bem o que é’. Coisa louca, não é? Era esse tempo”, relata Callado.

Pioneiras na profissão

Aos poucos, as mulheres foram abrindo espaço na sociedade e no jornalismo. O rompimento de barreiras e preconceitos ocorria em várias partes do mundo. Nan Robertson (1926-2009), premiada jornalista americana, recuperou a saga feminina para obter espaço no ambiente de trabalho com The Girls in the Balcony: Women, Men and The New York Times (Random House, 1992).

Até os anos 1960, por exemplo, elas não podiam compartilhar o espaço com seus colegas homens nas coletivas de imprensa do National Press Club. Ficavam restritas a um apertado balcão, de onde deveriam acompanhar os eventos. Com luta, conquistaram lugar nas ruas, nos gabinetes e nas redações. Entraram na Justiça por melhores salários e vagas. Não queriam mais cobrir decoração, jardinagem, culinária.

Quando entrei na faculdade de jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1976, essas mudanças fundamentais já estavam em curso. Minha primeira chefe, ainda nos anos 1970, já foi uma mulher. Mas as áreas de esportes, polícia e economia ainda eram refratárias ao sexo feminino.

As repórteres faziam o trabalho de cavar boas histórias na cidade. Passavam boa parte do dia fora e voltavam esbaforidas – como eu – para preencher muitas laudas até o horário de fechamento. Naquele tempo, o piso salarial que recebíamos era equivalente à remuneração de um motorista de ônibus em Porto Alegre. Os homens que ocupavam posições em áreas mais nobres do jornal recebiam mais. No final daquela década, homens e mulheres estiveram juntos em campanhas trabalhistas, manifestações, greves.

Comecei a trabalhar na Folha de S.Paulo, como freelancer, em 1983, quando estava esperando minha segunda filha. Por causa da gravidez, só fui contratada no ano seguinte, como redatora de economia. O saudoso Aloysio Biondi logo me promoveu a editora-assistente. Em 1988 assumi a editoria e, em 1992, passei a ser secretária de redação. De 2000 a 2010 fui editora-executiva. Ao todo, fiquei mais de 20 anos em cargos de chefia e não soube de casos de assédio na Folha.

Medo e submissão

Numa sociedade capitalista e machista, como a brasileira, o assédio sexual campeia em todas as áreas. Mulheres jovens, pouco experientes, ansiosas por ascender profissionalmente são alvos certos de machos inseguros, truculentos e frustrados. Eles apostam no medo de elas perderem o emprego, se aproveitam da posição de mando para impor sua vontade, submetê-las. Não aceitam negativas e, muitas vezes, partem para a retaliação quando são devidamente rejeitados.

Era final de uma tarde de um plantão de domingo quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, um repórter veterano me contou: Antônio Marcos Pimenta Neves, diretor de redação de O Estado de S. Paulo, tinha matado a tiros a ex-namorada Sandra Gomide. Eu mal conhecia Pimenta; tinha estado com ele uma ou duas vezes em reuniões de trabalho. Ele me passava aquela ideia de “papai-sabe-tudo”; se vangloriava de seus encontros com famosos durante sua permanência nos Estados Unidos.

Não conhecia Sandra. Lembrei que poucos dias antes recebera dois recados: 1. Uma repórter chamada Sandra Gomide não deveria ser contratada, pois era incompetente; 2. Estava em curso uma campanha injusta contra uma repórter chamada Sandra Gomide, que tinha acabado o namoro com o chefe do Estadão.

Pimenta assassinou Sandra com dois tiros: o primeiro pelas costas; o segundo no ouvido esquerdo, a uma distância de 40 centímetros, quando a jornalista já estava no chão. Consumado o crime, ele fugiu. O assassinato aconteceu em 20 de agosto de 2000, em Ibiúna, São Paulo. Ela estava com 32 anos; ele, 63.

O namoro dos dois tinha durado quatro anos. Quando ela rompeu o relacionamento, ele a demitiu do Estadão. Fuçou em seu computador e espalhou que ela o enganara, que zombara de sua honra. Zombar da honra… a alegação clássica dos matadores de mulheres.

O caso mais dramático e violento de assédio sexual na imprensa brasileira se transformou também em emblema da morosidade da Justiça e dos privilégios que gozam homens ricos e influentes, capazes de contratar bons advogados. Pimenta se safou de punições mais severas, alegou estresse emocional, ficou internado em clínicas; no total, cumpriu pouco mais de cinco anos de prisão. O escritor argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2010) trabalhou magistralmente com esse crime na sua ficção O Voo da Rainha (Objetiva, 2002).

Qual é a punição?

Sem um desfecho assim terrível, alguns chefetes seguem se atribuindo poderes para assediar, importunar, retaliar, ameaçar jovens repórteres. Um rompimento, uma rejeição, um “não” abrem espaço para um mundo de dissabores, humilhações, injustiças. Quem não cede pode deixar de receber as melhores pautas. Pode ter suas sugestões de reportagem passadas para outros desenvolverem. Pode deixar de assinar textos. Pode ser prejudicada na discussão sobre folgas. Pode ser excluída de entrevistas importantes, de viagens, de reconhecimento, de promoções salariais.
O contrário também pode acontecer. Um “sim” pode abrir portas para entrevistas com os maiorais, assinaturas em textos que rendem manchetes, promoções salariais, viagens, plantões mais suaves.

\Muitas vezes os casos acontecem fora das sedes das empresas de mídia, em locais onde o poder se exerce de forma mais centralizada, com pouca contestação e fraco controle externo. Na sede de uma grande redação, a comunicação vertical pode ser fácil. Encontros informais são possíveis, se tromba com chefes nos bebedouros, no café, nos corredores. Os múltiplos olhares externos podem bloquear investidas predatórias.

Em espaços em que impera o poder mais concentrado, as vítimas de assédio não encontram meios para encaminhar queixas, denunciar abusos, comportamentos inconvenientes. Demissões, contratações, avaliações, remunerações – tudo passa por um número muito reduzido de pessoas (às vezes é uma só) que têm o condão de definir os rumos de dezenas de profissionais naquele momento. Alguém que contrarie esse chefinho local pode ser alvo de execrações públicas, de “brincadeiras” de mau gosto, de temporadas em “geladeiras”, de demissão.

Assédio tem a ver com poder exageradamente desigual. O lado mais fraco fica encurralado, dependente, sem voz. O lado mais forte parece incontestável, absoluto, imbatível. O ambiente recessivo, de sucessivos cortes de vagas, de mercado em permanente encolhimento, é outro fator que faz as mulheres hesitarem muito antes de tomar uma atitude de revolta. Há poucas opções de espaço para que alguém iniciante possa se projetar como um profissional competente. O relacionamento com o chefe pode ser o passaporte para tentar lugar melhor nessa hipercompetição. Contestação e repúdio, ao contrário, podem fechar portas.

Em geral, as empresas não têm mecanismos para detectar e punir casos de assédio. A tendência parece ser ignorar ou esquecer eventual suspeita de irregularidade. Com quem vai falar a jovem estagiária que pretende denunciar o chefe? Que provas ela precisa apresentar? É palavra contra palavra? Que testemunhas poderão falar? Como garantir que a vítima não se torne duplamente vítima? Ninguém com quem eu conversei quis denunciar publicamente casos concretos, nomes, tempos, locais. Vou ser espinafrada, vou perder meu emprego atual ou vou ter bloqueado futuro relacionamento com a empresa X – me disseram.

Para as empresas, a transparência pode trazer riscos, constrangimentos e – o mais importante – prejuízos econômicos. Abalos de imagem significam perdas ao longo do tempo. Empresas, especialmente as jornalísticas, dependem muito de credibilidade. Mais precisamente: credibilidade é tudo.

Hipocrisia e dissimulação

Nos Estados Unidos, o caso de Harvey Weinstein, o ex-todo-poderoso de Hollywood, detonou os bastidores da indústria do entretenimento, com severas consequências econômicas para certos grupos. O produtor usava uma máscara liberal, com uma oratória de apoio a causas identitárias, e era aliado de Hillary Clinton e de Barack Obama. É pouco falar em hipocrisia.

Se bem que nos Estados Unidos (e também no Brasil), o capitalismo financeiro, para buscar legitimação, tem incentivado causas nobres como o feminismo, o combate ao racismo e à homofobia. Com o objetivo de diluir uma pauta mais radical, captura e domestica certas lideranças, que assumem enorme projeção midiática.

Assim, a emancipação feminina, resultante de mais de um século de lutas mundo afora, é empacotada como fruto de mérito individual, nunca do coletivo em movimento. Sem a força de associações e sindicatos, as mulheres se veem isoladas e sem saída para suas mazelas: salários baixos, dupla jornada, assédios múltiplos, falta de escolas e creches, violência – no limite o feminicídio.

No Brasil, os assediadores em redações têm discursos mais toscos – algo como uma versão a facão de alguns coronéis libertários do Vale do Silício. Não escondem seu ideário machista e conservador, da direita raivosa que sai atacando, com palavrões, sindicalistas, índios, sem-terra, nordestinos, qualquer pessoa que seja de esquerda ou apenas dissonante dos acordes de sua bandinha de música.

Quando as artimanhas de Weinstein para atrair jovens atrizes vieram a público, algumas jornalistas brasileiras lembraram de histórias semelhantes vividas aqui mesmo. Podem ser exceções personificadas por chefes desequilibrados que nunca deveriam ter sido colocados em posições de comando. O fato é que fazem parte da vergonhosa realidade dos subterrâneos das redações.

Uma campanha como a #MeToo, nos Estados Unidos, ainda não surgiu por aqui, mas é possível que encoraje a reação de mulheres contra o assédio. Empresas parecem lentas em tratar internamente do tema sobre o qual falam tanto em seus produtos editoriais. Talvez embalem a ingênua ideia de que são intocáveis. Medidas para implodir feudos intramuros – lugares férteis para os abusos – são urgentes. Entidades de classe precisam ser muito mais atuantes para destravar o debate, acolher e apoiar vítimas.

Novas gerações precisam ampliar os limites de suas lutas e enfrentar a naturalização da violência contra a mulher de forma conjunta. Se assédio é sobre poder, o combate a ele também é. A guerra só será vencida coletivamente.

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Eleonora de Lucena foi editora-executiva da Folha de S.Paulo (2000-2010) e é diretora de Tutaméia.

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