Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

EDIçãO BRASILEIRA DA COLUMBIA JOURNALISM REVIEW > Coletânea de artigos sobre a indústria de notícias falsas

Da pós-verdade ao risco da pós-imprensa

Por Carlos Eduardo Lins da Silva, Nelson da Sá, Marcelo Rech, Flavia Sekles, Jeff Israely e Nausicaa Renner em 15/08/2017 na edição 954

A Revista de Jornalismo ESPM reuniu um time de primeira para apresentar alguns pontos de vista não apenas sobre a palavra do ano de 2016, segundo o Dicionário Oxford — pós-verdade —, mas principalmente sobre os caminhos para superarmos essa encalacrada.

São quatro artigos assinados por autores nacionais que ajudam a compreender o cenário um tanto sombrio e de perda de credibilidade dos órgãos de imprensa e buscam levantar iniciativas para detectar e impedir a disseminação de fake news.

A mentira digital, já disseram, tem mil disfarces e cauda longa. Pode causar estragos e desastres — é só perguntar a eleitores americanos e ingleses —, ainda mais se ganhar uma mãozinha dos algoritmos do Google e do Facebook. Dá pra fazer alguma coisa contra isso? O quê?

Os textos aqui publicados lançam luz a essas questões para ajudar o leitor a percorrer o rastro da matéria e não perder o lastro da verdade factual.


Morte e vida da imprensa
Por Carlos Eduardo Lins da Silva

O antídoto para a crise de credibilidade é seguir à risca os códigos de conduta e de ética da profissão e ajudar a sociedade a separar o que é fato do que não é

Em 1966, numa célebre capa, a revista Time perguntava se Deus estava morto. Em abril deste ano, a mesma revista – já não tão influente como há cinco décadas – publicou uma capa que remetia àquela de meio século atrás para indagar se a verdade está morta.

Escolhida como a palavra do ano de 2016 pelos Oxford Dictionaries, o termo pós-verdade, carregado de grande carga simbólica, talvez não seja o mais adequado para explicar o fenômeno que enfrentamos.

Verdade é uma palavra grandiosa demais, com enorme poder ideológico e metafísico, que há séculos desafia a compreensão humana. No capítulo 18, versículo 38, do Evangelho segundo São João, Pilatos pergunta a Jesus Cristo: “O que é a verdade?”, sem haver registro de resposta. Se Jesus não ousou enfrentar o conceito, talvez jornalistas não devam lidar com ele.

Pós-fato possivelmente dê conta melhor do problema. Pode ser apenas uma nuance, mas é menos pretensioso e mais simples tentar distinguir entre fato e ficção do que diferenciar verdade de mentira. É mais possível constatar e comprovar fatos do que verdades.

A expressão pós-fato foi criada pelo sociólogo e jornalista Farhad Manjoo, no livro True Enough: Learning to Live in a Post-Fact Society (Suficientemente Verdadeiro: Como Viver numa Sociedade Pós-Fato, em tradução livre) de 2008, em que ele falava sobre aprender a viver em uma sociedade pós-factual.

O hábito vem de longe

A existência de não fatos é coisa muito antiga. O historiador Robert Darnton mostra exemplos desde o século 6 a.C., quando o historiador Procópio espalhava notícias falsas em Roma sobre o imperador Justiniano e as juntou secretamente num volume chamado Anedocta, que só permitiu ser conhecido após a sua morte.

Em 1522, o escritor Pietro Aretino tentou manipular a eleição do papa que sucederia Leão X. Não cumpriu seu objetivo, já que o escolhido foi Adriano VI, e não Giulio de Medici, para quem Aretino trabalhava. Aretino colava suas informações falsas sob o busto de um personagem conhecido como Pasquino na Praça Navona, daí derivando pasquim como veículo com informações falsas ou sensacionalistas.

Depois vieram os canards na França, os tabloides na Inglaterra e os jornais sensacionalistas em todos os países, inclusive no Brasil. Ou seja, o que temos atualmente não é nada de novo.

O que diferencia o que existe hoje do que houve no passado? A velocidade, a simplicidade e o baixo custo para produzir e disseminar falsidades com capacidade de proliferação muito rápida e abrangência geográfica imensa. Mais importante: o não fato é agora divulgado sem nenhum tipo de constrangimento até por pessoas que ocupam altos postos na hierarquia de poder, a começar por chefes de governo e de Estado.

Não que líderes no passado não tivessem mentido. Ao contrário. Provavelmente todo líder político sempre mentiu, quase por definição. Faz parte da política mentir, ocultar fatos, exagerar. A política sempre foi assim e sempre será. É impossível fazer política sendo absolutamente fiel aos fatos. A diferença é que antes isso se fazia dissimuladamente e quem mentia negava mentir. Agora, é despudorado.

É preciso considerar também que a falsidade se tornou uma fonte de renda lucrativa. Existe a industrialização da notícia falsa, com o objetivo de fazer dinheiro com anúncios que são alocados por instrumentos regidos por algoritmos que premiam sites com maior visibilidade, acesso, compartilhamento. As mídias sociais, ao contemplarem com localização de anúncios as histórias mais compartilhadas, remuneram quem consegue esse resultado.

Mas jornalistas não podem se colocar como simples vítimas. A pós-verdade vem no esteio do descrédito generalizado em relação à imprensa. Não há dúvida de que no mundo inteiro a profissão sofre um processo gradativo de perda de credibilidade, e os jornalistas têm parcela de responsabilidade por isso. E não foi só o jornalismo que perdeu credibilidade com o ambiente da internet. Várias outras instituições seculares também têm sido colocadas em xeque: sindicatos, igrejas, escolas, universidades, empresas, Legislativo, bancos, hotéis, Justiça, publicidade, institutos de pesquisa, a medicina.

Descrédito generalizado

O conhecimento institucionalizado como um todo sofreu esse processo. Tom Nichols, em The Death of Expertise (A Morte da Expertise, em tradução livre), trata do fenômeno. Rejeitar o conhecimento de um expert é afirmar a autonomia da pessoa. Isso também se aplica ao jornalismo: cada indivíduo agora pode se julgar repórter ou editor.

A eleição de Donald Trump no ano passado é de uma significância sem precedentes. É bem verdade que ele perdeu no voto popular, mas ganhou a eleição dentro das regras dos Estados Unidos e contra todas as instituições. Nenhuma delas o apoiou. Dois ou três jornais no país todo o endossaram. Ele quase não fez anúncio de TV. Contou com a oposição dos sindicatos, de Wall Street, das universidades, da intelectualidade, das celebridades da música e do cinema. Os institutos de pesquisa previram que ele ia perder. Venceu só na base do Twitter, das mídias sociais e das falsidades. E a imprensa americana não foi capaz de perceber o que acontecia.

Ela deixou de cobrir e prestar atenção no que acontecia num grupo demográfico importante no país, que são os brancos pobres. Ignorou-os, não falou dos seus problemas. E foi com eles e entre eles que Trump conseguiu a sua vitória.

Isso acontece em parte por causa das bolhas de informação em que as mídias sociais são absolutamente exponenciais, mas que a imprensa repete. As bolhas de informação em que você só ouve o que você quer ouvir e só fala com quem concorda com você também se reproduz na imprensa. Muitos dos nossos veículos só falam para bolhas e só dizem o que os membros da bolha querem ouvir, ignoram problemas de quem está fora da bolha e depois se surpreendem com resultados que estão fora de suas previsões.

Portanto, o nosso desafio é muito grande, e não contamos ainda com muitos estudos acadêmicos que ajudem a nos guiar. Eles apenas começam a ser feitos, mas os primeiros resultados sugerem que sua disseminação é muito grande nas mídias sociais e que um grande contingente de pessoas é incapaz de (ou não está disposto a) discerni-las das verdadeiras.

Pesquisas apontam para uma porcentagem em torno de 25% das pessoas nos Estados Unidos que não percebem a falsidade da notícia ou mesmo que a percebam e ainda assim ajudam a disseminá-la.

Outra tentação é procurar abrigo em novas leis que punam quem faz o “mal”. No Brasil há um projeto de lei, o PL 6812/2017, de Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), que estabelece pena de detenção de 2 a 8 meses e pagamento de 1,5 mil a 4 mil dias-multa (valor unitário a ser pago pelo réu a cada dia de multa determinado pelos magistrados), por divulgação ou compartilhamento de notícia falsa ou “prejudicialmente incompleta” na internet.

Esse tipo de lei é um perigo, porque ninguém sabe quem vai definir notícia falsa. Para Trump, tudo que o New York Times e a CNN veiculam é notícia falsa. Se uma lei dessas é aprovada nos Estados Unidos, Times e a CNN poderiam ser punidos por publicarem diariamente fake news na opinião do presidente ou do juiz que for tratar do caso.

Fenômeno social e cultural

O jornal O Estado de S.Paulo está censurado há anos por causa de uma ação em favor do ex-presidente José Sarney. O caso envolve uma notícia absolutamente correta do ponto de vista factual, mas o presidente Sarney, com a ajuda de juízes, mantém o jornal sob censura. Não pode divulgar até hoje detalhes do caso em que o presidente Sarney e seus filhos estão envolvidos.

Não é conveniente procurar abrigo no governo ou na Justiça. Não é esse o caminho. Mesmo com as melhores intenções, definir notícia falsa é complicado. A biblioteca da Harvard University fez uma lista de produtores de notícias falsas nos Estados Unidos. Incluiu The Onion, que é um jornal satírico e publica manchetes que são evidentemente não verdadeiras, mas para fazer graça. Harvard também colocou no rol a revista National Review, fundada por William Buckley Jr., revista seriíssim, de opinião, que defende pontos de vista de direita.

As leis que existem no Brasil sobre os abusos da liberdade de expressão por infâmia, injúria, calúnia e difamação são suficientes. Servem para qualquer pessoa e qualquer jornalista também. Não precisamos criar novas leis para punir um fenômeno que é social e cultural e que tem que ser resolvido socialmente e culturalmente.

A nós cabe cada vez mais ser fiéis aos cânones do jornalismo profissional, às práticas que se solidificaram ao longo de séculos, aplicar-nos cada vez mais na checagem das informações, não nos apressar para publicar notícias para obter furo, principalmente na era da internet, em que segundos parecem fazer diferença.

Temos que amparar as checagens de informações mais do que nunca e seguir os estritos códigos de conduta e de ética de profissionalismo do jornalismo e ajudar a sociedade a aprender a distinguir entre o que é fato e o que não é fato. Não se vai acabar com o não fato: é impossível. A tendência é isso só crescer daqui para a frente, porque a disseminação das mídias sociais não vai ser estancada de uma hora para outra. O desafio é enorme, mas a nossa única saída é profissionalismo. Se nós não formos profissionais, nós não temos escapatória, não vai ser pelas mãos do governo ou por novas leis que vamos sair dessa enrascada.

Carlos Eduardo Lins da Silva é livre-docente, doutor e mestre em comunicação; foi diretor-adjunto da Folha e do Valor


Antes tarde do que nunca
Por Nelson de Sá

O duopólio Google-Facebook começa a agir para desmascarar posts e conteúdo no mínimo duvidoso que confundem usuários de plataformas digitais

Como afirmam antes de qualquer coisa os executivos do Facebook e do Google, sempre que são entrevistados, notícia falsa não é novidade. Mas dois anos atrás soaram os primeiros alarmes mais objetivos de que algo diferente estava acontecendo.

Não havia – e não há até hoje – como pesquisar extensiva e independentemente os dados do Facebook, mas um estudo da Georgia Tech mostrou que um quarto do fluxo mundial no Twitter era informação sem credibilidade. O Facebook anunciou então, no início de 2015, suas primeiras e vagas ações contra os sites de notícias falsas.

Um ano depois, um levantamento do BuzzFeed, focado nas páginas de Facebook de nove sites sabidamente dedicados a criar fake news, descobriu que o engajamento com os posts havia triplicado em dois meses – dando início ao que se apelidou, a partir de então, “a era de ouro das notícias falsas”.

Mas os casos de falsificação ainda eram relativamente inofensivos, como um ridículo “apocalipse zumbi do ebola”, na África, ou uma agressão ao autor do atentado de Boston, na prisão. Ou, ainda, por aqui, o áudio fraudulento com a voz de uma jornalista da GloboNews sobre a votação do impeachment.

Procurado à época, o Facebook Brasil respondeu, sem oferecer comprovação: “Desde janeiro de 2015, temos visto um declínio no compartilhamento de notícias falsas”. Mal sabia a rede social que os problemas estavam só começando. O duopólio Google-Facebook era então inquestionável, o que também viria a mudar.

Categorias da invenção

Alan Rusbridger, editor-chefe do Guardian por 20 anos, até 2015, e hoje diretor do Reuters Institute for the Study of Journalism, classifica três categorias de notícia falsa: aquelas deliberadamente inventadas para ganhar dinheiro; as criadas em campanha com fins políticos; e as surgidas, por exemplo, num site de humor, mas compartilhadas negligentemente como notícia.

As três são estimuladas ou facilitadas tanto por Facebook quanto por diversas plataformas do Google, mas sobretudo a primeira categoria, pois o duopólio premia páginas e sites de acordo com o tráfego que geram para os anúncios.

E é cada vez mais publicidade. Em 2016, o faturamento mundial do Google alcançou 89,6 bilhões de dólares. O do Facebook, 27,6 bilhões de dólares.

Nos Estados Unidos, segundo o Interactive Advertising Bureau (IAB), 89% do crescimento anual da propaganda digital ficou com ambos. Foi o primeiro ano em que os gastos publicitários com internet somaram mais –  72,5 bilhões de dólares – do que os gastos com televisão – 71,3 bilhões de dólares.

Parte do dinheiro dos anunciantes é transferido pelo duopólio para as páginas e sites, não importando se veiculam notícias falsas ou discurso de ódio. Pelo contrário, quanto mais sensacionalista o post, maiores a audiência e o ganho com publicidade.

Os negócios de Facebook e Google seguiram crescendo sem solavancos até julho de 2016. Foi quando
aconteceu o Brexit, a aprovação do rompimento do Reino Unido com a União Europeia, após uma campanha carregada de notícias falsas.

Na busca que sobreveio, dos culpados pela desinformação, não faltou quem apontasse o dedo para os tabloides londrinos e para os veículos e meios de Rupert Murdoch. Mas aos poucos se tornou evidente que o problema estava agora em outra parte.

Efeito bolha

Emily Bell, jornalista inglesa hoje na direção do Tow Center for Digital Journalism, da Columbia University, vislumbrou no plebiscito britânico a primeira votação em que o chamado “efeito bolha” contribuiu decisivamente para o desfecho.

A expressão foi criada num livro de 2011, The Filter Bubble: What the Internet is Hiding from You (O Filtro Invisível – O Que a Internet Está Escondendo de Você, Zahar, 2012), de Eli Pariser, para descrever o que as plataformas digitais passaram a oferecer a seus usuários: “Um universo único para cada um de nós, que altera a maneira como encontramos ideias e informações”.

Os algoritmos – conjuntos de regras e operações para chegar a um resultado –, tanto das buscas no Google como do Facebook, servem conteúdo diferente, na medida, para cada um de nós. Esses resultados reforçam o que já pensamos, filtrando as notícias que poderiam nos levar a raciocinar. Facilitam a propagação de notícias falsas, se elas se mostrarem do nosso agrado.

O Brexit foi uma introdução. O choque maior veio com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, em novembro de 2016. Foi quando Google e Facebook, este depois de alguma resistência inicial, acordaram para o risco de estarem subvertendo a democracia – ou pelo menos manchando suas imagens corporativas.

No Google, o caso símbolo foram as buscas sobre a “contagem final” do pleito, que destacaram um site obscuro que afirmava que Trump havia vencido no voto popular, quando na verdade ele perdeu. No Facebook, foi a disseminação do suposto apoio do papa Francisco a Trump.

O primeiro a reagir foi o Google, anunciando uma revisão de centenas de sites, que levaria 200 deles, não identificados pela empresa, a serem banidos do AdSense – seu sistema de publicidade, que ajuda a sustentar 2 milhões de sites pelo mundo.

No Facebook, a resposta inicial de Mark Zuckerberg foi negar responsabilidade: “Acho bastante maluca a ideia de que notícias falsas no Facebook influenciaram a eleição”. Mas, dias depois, diante das críticas, a rede social atualizou a linguagem de sua política de audiência, para incluir sites de notícias falsas como alvo.

Era muito pouco, como questionaram instituições de mídia e tecnologia. Seguiram-se, então, novas ações. Em conjunto, Google e Facebook estimularam a formação de uma rede de checadores independentes e, com o tempo, passaram a registrar em suas plataformas que esta ou aquela notícia era questionada.

Ainda era pouco, como ficou claro quando entrou 2017, com a perspectiva de interferência em outras votações importantes. França e Alemanha tinham eleições programadas para o ano e ameaçaram o duopólio com mudanças de legislação e multas elevadas.

Um pouco de transparência

Google e Facebook amontoaram mais medidas, da criação ou valorização de funções jornalísticas em suas hierarquias, visando aprofundar a relação com os veículos, até a adoção de programas de alfabetização de mídia,
ou seja, de esclarecimento dos usuários sobre o funcionamento da produção de notícias.

Mas o quadro só foi começar a ganhar robustez quando as medidas paliativas deram lugar a modificações no coração do duopólio: seus algoritmos de busca, no caso do Google, e de composição do feed de notícias, do Facebook.

Ao mesmo tempo, passaram a buscar alguma transparência quanto às mudanças. Foi assim que executivos,  como o vice-presidente mundial de engenharia do Google, Ben Gomes, se dispuseram a dar entrevistas para explicar o que estavam fazendo.

De família indiana de Goa, um dos muitos imigrantes do Vale do Silício ameaçados por Trump, Gomes detalhou que o Google tem 10 mil avaliadores ao redor do mundo – seres humanos – e que as alterações no algoritmo são realizadas por tentativa e erro, com base nas respostas desses avaliadores.

No Facebook, essa equipe de seres humanos é menor, mais de mil no mundo, com promessa de acrescentar alguns milhares, mas o processo não é diferente.

Por exemplo, uma mudança em andamento no algoritmo relaciona o número de usuários que clicam num link com o número daqueles que o compartilham. Se poucos dos que acessam resolverem compartilhar, é sinal de notícia questionável. Depois de testar com os avaliadores diversas alterações no algoritmo, ela é rebaixada nos feeds.

A interferência em seus algoritmos é a mudança mais sensível para o duopólio e também a mais promissora no combate a fake news. Não que se possa mensurar os resultados: os dois gigantes não dão sinal de permitir, algum dia, auditoria independente de suas ações.

O primeiro teste de vulto foi a eleição na França. Não faltou notícia falsa, mas o próprio resultado, a vitória com dois terços dos votos do candidato mais visado, Emmanuel Macron, é indicação de que Google e Facebook passaram na prova.

É sinal, para começar, de que a parceria iniciada três meses antes com organizações jornalísticas como Le Monde, Agence France-Presse e outras 35, que ganhou o nome de CrossCheck, deu certo – ou pelo menos ajudou a disseminar leitura mais crítica das informações veiculadas nas plataformas.

Mais importante, Google e, sobretudo, Facebook teriam rebaixado em seus rankings ou simplesmente tirado do ar páginas que os algoritmos identificaram como foco de notícia falsa. A rede social anunciou ter começado a fazer o mesmo com perfis britânicos, visando às eleições convocadas para junho.

Ainda assim, falta transparência. O Facebook chegou a citar um relatório que identificou a ação de agentes governamentais na França, dando a entender que seriam ligados à Rússia. Nada, porém, sobre agentes ligados aos Estados Unidos – que agiram na eleição francesa anterior, como revelou o WikiLeaks.

Nelson de Sá é jornalista e escreve sobre mídia e cultura em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo.


Uma chance para o otimismo
Por Marcelo Rech

A disseminação da falsidade causou muito estrago, mas há iniciativas para fazer a apuração profissional ganhar fôlego e conter a barbarie

Basta puxar da memória para apenas um ano atrás. As expressões pós-verdade e fake news ainda não haviam sido transplantadas de alguns poucos trabalhos acadêmicos, o mundo seguia embasbacado pelos números estonteantes de audiência de Google e Facebook e pelo glamour exalado por duas marcas que conquistaram o universo digital e da comunicação praticamente sem resistência. No lado dos ocupados, havia apenas desalento: circulações em queda, receitas migrando na ponte aérea para o duopólio dos gigantes digitais e, pior, dedos apontados para jornalistas e meios de comunicação, desterrados ao passado sob o peso da expressão “mídia tradicional”.

Passados menos de seis meses, o jornalismo profissional começa a se erguer do pântano em que fora metido. Agora, volta a andar de cabeça em pé graças a um embrionário processo de reconhecimento do papel que a história reservou à profissão: servir de mediadora entre fatos e fenômenos com o público, valendo-se dos relatos mais fidedignos possíveis e da pluralidade de visões. Ironicamente, são agora os antigos profetas do futuro que, constrangidos, se veem na condição de dar explicações, buscar justificativas e improvisar iniciativas de relações públicas para tentar demonstrar que se preocupam em agir contra a onda planetária de notícias falsas.

É uma guinada e tanto. Há apenas cinco anos, na esteira da Primavera Árabe, as redes sociais eram incensadas como os novos libertadores dos povos oprimidos. Finalmente, os sem-voz e sem acesso direto a meios de comunicação de massa tinham encontrado uma forma de transmitir sua mensagem para outros que pensavam como eles e, em última análise, para o resto do mundo. Embevecidos pelo novo instrumento que permitia emitir uma mensagem sem filtros, a custo baixíssimo e de forma instantânea, os com-voz não perceberam os primeiros sinais de que a cada ação corresponde uma reação. Quando o desejo de liberdade chegou ao Irã, o regime estava mais preparado.

A repressão identificou e prendeu os líderes da rebelião contra o poder dos aiatolás. Bastou seguir as pegadas digitais nas redes sociais e nos sistemas de trocas de mensagens. Duas revoluções começavam a morrer ali: a da liberdade no Oriente Médio e a que prometia liberdade de expressão sem limites e barreiras.

Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça. O produto de Facebook e Google é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. No caso das redes, havia outro fenômeno em formação sem que nem seus criadores se dessem conta dos efeitos tóxicos que estavam gestando.

Ao fragmentar o mundo em bolhas de opinião e interesses, o algoritmo que define o que cada um vai ver ou ler oferece ao usuário mais do mesmo, na expectativa de que ele se manifeste, compartilhe ou dê likes sobre o conteúdo, revelando assim mais e mais sobre si mesmo.
O engajamento é o negócio dos gigantes, e, quanto mais alguém interagir com o conteúdo, mais estará servindo aos propósitos de Facebook e Google.

Essa fórmula era apenas uma eficiente forma para identificar o cliente mais propenso a adquirir um determinado produto até que a indústria da manipulação, motivada principalmente por interesses ideológicos e econômicos, se deu conta de que haviam encontrado uma avenida para seus propósitos. Para incentivar engajamento, o algoritmo esquadrinha o comportamento dos indivíduos e divide-os, por exemplo, entre os que frequentam o açougue e os que só põem os pés no mercado vegetariano. Um não quer saber do outro e, mesmo que quisesse, o algoritmo não pretende ajudar a construir uma ponte entre os dois universos. Ao contrário, ele reforça as crenças e valores de cada usuário, que, quanto mais se engaja com um enfoque, mais recebe sobre ele. E assim teve início a escalada de intolerância que assusta a quem acompanha as consequências do pugilato digital.

Desejo de aniquilação

Outro efeito colateral, não previsto nos primórdios das redes: para conquistar adeptos e likes, o usuário tem de postar ou compartilhar conteúdos cada vez mais espetaculares e radicais, num crescendo de virulência robustecido a todo instante pelo algoritmo. O resultado é que o frequentador do açougue ou do mercado vegetariano acabam não querendo mais apenas saber as novidades em carnes, frutas e verduras. Eles desejam é a aniquilação do outro, a imposição de seus costumes sobre as tribos adversárias. O fenômeno ficou popularizado como bolhas ou câmaras de eco, nas quais as mesmas opiniões se repetem em infinitos likes, esmagando ou expulsando visões dissidentes.

A indústria da manipulação identificou no mesmo mecanismo um campo fértil para as campanhas eleitorais. Demonstrar o valor e o projeto do candidato nas redes já não é mais o objetivo principal. A indústria se deu conta de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos espetaculosos, fofocas e temas apimentados. No Brasil, por exemplo, a “candidata lésbica” ou o “candidato traficante” ganharam muito mais compartilhamentos do que as propostas de ambos para a Previdência Social.

Para reforçar a mensagem sensacionalista, era preciso também desacreditar os meios de comunicação e o jornalismo profissional, a derradeira barreira de contenção a avalizar ou não as inverdades ou meias-verdades a zanzar pela web. Assim, veículos forjados por gerações de profissionais no esforço da credibilidade foram transformados em vilões, suspeitos de ocultar informações sob a acusação de estarem mancomunados com o adversário, fosse ele quem fosse.

Ao usuário comum, que assim imagina ter acesso a informações muito sigilosas sobre o que “a grande mídia quer esconder”, a história passa a se revestir de ares de verdade restrita a alguns escolhidos. E assim nascem e florescem as teorias da conspiração, um fenômeno que, até a difusão das redes, vivia na redoma do exotismo, como a história de que Hitler está vivo ou de que o homem nunca pisou na Lua. De uma hora para outra, teorias delirantes passaram a ganhar amplos espaços e vida próprios, transformando o que seriam antigamente eleitores bem-intencionados em crentes de que Hillary Clinton de fato mandava matar desafetos.

Sem barreiras legais ou éticas, especialistas em adulteração de informações passaram a agir nos desvãos das campanhas. Nas Filipinas, a foto de uma menina de nove anos, que teria sido morta por usuários de drogas, foi decisiva para a eleição do truculento Rodrigo Duterte em 2016, meses antes de Trump. A menina fora assassinada no Brasil em 2014, mas quem se importa com os desmentidos? Nas redes, a mentira sobe de elevador, enquanto a aborrecida correção segue, resfolegante, pelas escadas. Durante a campanha, o odor de sangue transformou os eleitores filipinos em tubarões sedentos de carne, numa escalada que só foi possível graças às redes sociais.

Identificar inimigos ocultos e gerar pavor é uma tática antiga de conquistar adeptos e converter recalcitrantes. Dos comunistas comedores de criancinhas aos horrores do nazismo contra os judeus, o século 20 foi farto em campanhas difamatórias com fins políticos. Mas as redes aceleraram dramaticamente esse processo. O medo da invasão dos imigrantes deu alento ao Brexit e a ameaça de um terrorista em cada esquina foi decisiva para a vitória de Donald Trump.

No mundo idealizado das redes, as pessoas se organizariam por autogestão, em sintonia perfeita, para compartilhar conteúdos edificantes. Há, claro, muitos conteúdos educativos, de alto nível e – por que não? – divertidos nas redes. Mas imaginar que o trânsito da megalópole poderia se autogerir sem semáforos, placas ou guardas durou apenas até o momento em que as gangues viram uma oportunidade e tomaram conta das ruas, valendo-se da ingenuidade dos motoristas bonzinhos e daqueles aparentemente sensatos que acabaram reféns dos bandidos.

Efeitos colaterais

Na virada do ano, estarrecido pela fábrica de mentiras que ajudou a eleger o presidente da maior potência do planeta, o mundo começou a acordar. Aqui e ali, loucuras originárias da web passaram a tirar pelo menos um pequeno grupo de estudiosos e formadores de opinião da letargia em relação aos efeitos colaterais do mundo em redes. Um desses efeitos tóxicos ocorreu em 24 de dezembro de 2016, quando o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, tuitou a seguinte frase, a propósito de uma suposta entrevista do ministro da Defesa de Israel na qual ameaçaria retaliar uma possível intervenção paquistanesa no conflito sírio: “Israel esquece que o Paquistão é uma potência nuclear também”.

A ameaça acendeu o alerta laranja em Israel. A declaração do ministro israelense jamais fora feita: a entrevista que desencadeou a pesada reação paquistanesa era uma invenção do início ao fim, disseminada como notícia verdadeira pela web. Ou seja, duas potências nucleares estiveram à beira de uma crise diplomática por causa de uma entrevista falsa que enganou e indignou muita gente. A sofisticação de algumas montagens de fato torna difícil distinguir a verdade à primeira vista, mas bastaria uma checagem na fonte original para desmascarar os farsantes.

Nesse preocupante mundo novo da informação, não é suficiente, porém, ostentar uma marca de credibilidade para abrir as portas do paraíso aos jornalistas. A técnica profissional, como em qualquer outra atividade, precisa evoluir para um estágio mais avançado e profundo e produzir um conteúdo muito diferenciado, disponível até agora em poucos veículos
do planeta. Para atender à demanda por uma qualidade superior, jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões – de modo rápido e preciso – sob pressões tremendas, desviando-se
de armadilhas ocultas, sem praticamente nenhum espaço para o erro. Boa parte da pressão virá diretamente do público, ávido por descobrir o que há de verdade sobre um acontecimento ou compreender suas implicações, já não mais em uma questão de dias ou semanas, mas de horas ou minutos.

O consumidor desse jornalismo cirúrgico poderia ser comparado a alguém que, se sentindo doente, recorre ao Google e digita seus sintomas. O fato é que, no caso de algo potencialmente sério, ninguém se contenta com os conteúdos espalhados pela internet. O paciente procura um médico e, diante da complexidade, recorre a um especialista, e assim por diante.

Um processo similar vai ocorrer no campo da comunicação. Os indivíduos continuarão sendo contaminados pela radiação perversa emanada pelas notícias falsas – afinal, há e haverá mais e mais informações distorcidas cientificamente pelos charlatães que atuam na web. Mas, como informação de qualidade será um bem valioso, a tendência é que primeiro se busque o refúgio da credibilidade em um jornalismo com menor risco de contágio por interesses políticos e econômicos, ou seja, aquele produzido por alguma forma de guilda profissional que persegue princípios básicos universais, como a busca da verdade e a correção de eventuais erros.

Em jogo, a reputação

Naturalmente, como na história do diagnóstico médico, há bons e maus doutores, centros de saúde de referência e outros que mereceriam ser fechados. Achar o melhor jornalista e marca jornalística será como identificar os melhores médicos e hospitais. No futuro, com a sofisticação dos processos de seleção de informação e avaliação de fontes, a reputação será o grande divisor de águas entre curandeiros da notícia e profissionais do jornalismo de alto nível.

A indústria da informação está sendo transformada radicalmente pela tecnologia. No entanto, tecnologia, para esse jornalismo em um novo patamar, não será um fim em si mesmo, mas um instrumento para alcançar novas audiências, desencavar matérias, interagir, providenciar diferentes formas de acesso e apresentação e, assim, gerar novas experiências e níveis de engajamento.

Embora profundamente conectada à tecnologia, a imprensa não está no ramo de desenvolvimento de software. O núcleo da atividade se assentará cada vez mais sobre a confiança. Esse será o bem mais valioso do futuro – para o sistema econômico, que pode ser devastado por rumores, por governos e políticos, que têm o dever de prevenir a disseminação de informações falsas e preservar a democracia,  e, naturalmente, para os indivíduos e a sociedade civilizada.

Confiança se tornou tão indispensável porque nunca antes o apocalipse moral esteve tão próximo – não na forma de códigos nucleares, mas mimetizado como verdade em conteúdos apócrifos. Nos próximos cinco ou 20 anos, o mundo será desafiado por uma inesperada sucessão de ameaças desencadeadas pela difusão de informações falsas, seja por robôs programados para espalhar a cizânia ou por bem-intencionados cidadãos semianalfabetos em termos midiáticos e, portanto, presas fáceis do compartilhamento de sandices. Ao mesmo tempo, as redes sociais e suas bolhas deverão prosseguir em sua jornada rumo à progressiva intolerância e alienação do pensamento divergente.

Apesar de o mundo começar a se dar conta de que o antídoto para os fakebookers da vida é jornalismo profissional em um patamar superior, a sociedade ainda está longe de aceitar que esse produto não é barato. Na realidade, para desmontar versões em escala permanente e generalizada, as empresas de mídia precisarão de mais e mais recursos no momento em que já são profundamente afetadas pela drenagem de verbas canalizadas para o duopólio Google e Facebook.

A ironia é que o modelo de negócios dos gigantes digitais depende do conteúdo de qualidade, exatamente o que as melhores redações produzem. Somente quando os dois mundos se complementarem em um modelo harmônico e sustentável, capaz de manter o jornalismo vivo, vibrante e em permanente evolução, os sujeitos maus serão expulsos da cidade pelos xerifes da verdade. É bom avisar os bandidos. Os mocinhos estão ressurgindo para restabelecer a conversação pacífica e respeitosa, defender a democracia e exterminar os fatos alternativos da face da Terra. Mas, antes que seja tarde demais, precisam do apoio da cidade e de seus cidadãos de bem.

Marcelo Rech é presidente do Fórum Mundial de Editores, da Associação Nacional de Jornais e vice-presidente editorial do Grupo RBS.


Uma questão de confiança
Por Flavia Sekles

Como o Google atua em seu sistema de busca, que é baseado em relevância e credibilidade, para evitar a disseminação de notícias falsas

A busca, a do google ou de qualquer outra empresa, não é um produto pronto, e nunca será. Todos os dias, 15% das buscas que vemos no Google são novas e a web é um organismo que não para de evoluir. Evolui em tamanho: dezenas de milhares de páginas são criadas a cada segundo. Evolui também em seu caráter mais fundamental: a web é feita de conteúdo criado por grandes e pequenos publishers, jornalistas independentes, acadêmicos, blogueiros, criativos, tuiteiros e adeptos de outras mídias sociais. É um ecossistema tão diverso como qualquer outro. Nele, há atores de todos os tipos: bem-intencionados e mal-intencionados.

Desde 1998, quando um pequeno grupo de engenheiros começou a desenvolver o Google com o objetivo de indexar a web naquele momento nascente, trabalhamos com a consciência plena de que sempre há melhorias a serem feitas na busca para cumprir nossa missão de organizar e tornar acessível e útil toda a informação do mundo. Parece simples para alguém que faz uma dos trilhões de buscas que são feitas no Google todos os anos, que com um toque tem seus resultados em frações de segundos. Não é. Determinar o ranqueamento de cada página baseado no que entendemos ser a relevância e credibilidade de cada conteúdo é um processo tão fluido quanto qualquer manifestação na Avenida Paulista.

Desde o início, o Google lida diariamente com indivíduos ou sistemas que tentam ser mais inteligentes que o algoritmo, seja para aparecer no topo da página, seja para disseminar conteúdos enganosos, usando content farms, textos obscuros e outras práticas deceptivas que miram, além do Google, os mais de 1 bilhão de usuários que procuram informações na plataforma todos os meses.

Dentre as práticas deceptivas mais recentes, o fenômeno das notícias falsas casado à facilidade de sua disseminação na era da internet é o mais nocivo. Ainda que o real impacto das notícias falsas nas eleições de 2016 nos Estados Unidos será debatido e estudado por muitos anos, conteúdo falso favorável a Donald Trump foi compartilhado com frequência quatro vezes mais do que conteúdo favorável a Hillary Clinton. E, apesar de todas as previsões ao contrário, Trump ganhou.

Conteúdo pertinente

Para o Google, o mais importante é garantir que o conteúdo com o qual qualquer indivíduo se depara quando busca uma informação seja o resultado mais relevante, da fonte mais confiável. Somos os primeiros a reconhecer que não acertamos 100% das vezes: as informações que existem na web são produzidas por pessoas com opiniões diversas, que vivem em contextos diferentes, e com objetivos nem sempre isentos. Para alguns, mudança climática é uma certeza maior a cada estação. Para outros, é uma farsa. Neste início de ano, percebemos que 0,25% dos resultados entregues nas buscas do Google era conteúdo ofensivo ou enganoso.

E corremos atrás para corrigir o problema. Em abril, anunciamos melhorias no ranqueamento, aprimorando métodos de avaliação, com atualizações algorítmicas para divulgar conteúdo mais autoritativo. Atualizamos as diretrizes de qualidade da busca usada por avaliadores de resultados, para que eles devidamente sinalizem informações enganosas, resultados ofensivos, fraudes e teorias de conspiração, o que ajudará os algoritmos a rebaixar conteúdo de baixa qualidade ao longo do tempo.

O “autocomplete” – a ferramenta através da qual o Google tenta “adivinhar” o que o usuário quer escrever – é gerado por um algoritmo e representa aquilo que as pessoas buscam com maior frequência. Ou seja, não é uma forma de o Google sugerir, como muitos pensam, se aquele ou o outro político é corrupto, ou se o Holocausto aconteceu ou não. Mas sabemos que não é legal quando um aluno que está pesquisando pelo Holocausto pela primeira vez se depare com a sugestão de que ele não existiu. Para melhorar essas sugestões, também estamos criando novas formas para os usuários nos alertarem sobre esse tipo de problema.

A busca constante por soluções de problemas de todos os tipos é o que move o Google, e o que faz a empresa ser reconhecidamente uma das mais inovadoras do mundo. Não pretendemos ser um oráculo, mas um Google no qual as pessoas não confiassem não seria viável.

É por isso que o Google tanto preza seu relacionamento com publishers. Dentre todas as populações de criadores de conteúdo na qual investimos – youtubers, empreendedores, acadêmicos e estudiosos –, os publishers estão entre os mais importantes. Notícias – do tipo com credibilidade – são cruciais para nossa missão, especialmente a parte que diz respeito a tornar informações acessíveis e úteis para todos.

O conteúdo mais relevante sempre foi aquele que retrata o mundo à medida que ele evolui. São as informações sobre acontecimentos que impactam nossa vida, sobre tomadas de decisões que mudam nossos rumos, informações sobre como será o dia de amanhã. E, desde sempre, o Google trabalha para se estabelecer como um parceiro e colaborador desse ecossistema “produtor” de conteúdos que oferece a todos a capacidade de serem melhores cidadãos.

Na última década vimos sucessivos desafios para a criação e distribuição de jornalismo de qualidade. Modelos de negócio mudaram com a proliferação da internet e com a fragmentação do consumo da notícia. A confiança da população nas instituições em geral, inclusive na imprensa, tanto no Brasil como no resto do mundo, está decrescendo.

Enquanto isso, a polarização de opiniões cresce, e a maioria das pessoas prefere falar com aqueles que pensam como elas e ler notícias que confirmam sua visão do mundo. Moramos num mundo onde existe um presidente dos Estados Unidos que se refere às principais e mais veneráveis instituições de mídia de seu país como “fake news media”. Trabalhar para fortalecer a confiança de quem busca informações – seja ao comprar um jornal na banca, seja ao pesquisar na web – tem que ser um objetivo comum.

Parceria com a imprensa

O Google não é uma empresa de mídia, mas sim uma plataforma de buscas. O que devemos aos nossos usuários é ajudá-los a encontrar resultados da maior credibilidade possível e as ferramentas necessárias para chegar a conclusões inteligentes, formando opiniões próprias. No Google News, por exemplo, parte do nosso papel é identificar claramente o que é um artigo de opinião e quando um artigo tem verificação de fatos. Através de parcerias como o Projeto Credibilidade (Trust Project), hoje em desenvolvimento no Brasil pelo ProJor, estamos colaborando com editores para mapear todos os sinais mais relevantes da credibilidade, desde o veículo em que uma notícia foi publicada à profundidade de conhecimento sobre um tema por parte do jornalista que assina a reportagem. O objetivo do projeto é reimaginar como a notícia pode ser apresentada para o usuário para que ele entenda o que há por trás de uma reportagem com maior credibilidade.

A transição ao digital oferece tantas oportunidades quanto desafios. Hoje, todos os brasileiros com um celular na mão são potenciais consumidores de notícias. Cada vez mais publishers – como o BuzzFeed, Vice, Huffington Post e, por que não, o New York Times, com seus mais de 2 milhões de assinantes digitais – estão se valendo dessa oportunidade, e no processo tornando o ambiente da notícia cada vez mais competitivo. Há novas formas de contar histórias – por escrito ou por audiovisual, em realidade virtual ou ao vivo –, novas formas de interação com populações e seus distintos interesses, novos modelos e mixes de monetização.

E, sim, o Google trabalha lado a lado de milhares de publishers no Brasil e no resto do mundo, desenvolvendo uma infraestrutura robusta e as ferramentas mais modernas possíveis necessárias para garantir que cada um deles maximize o retorno financeiro através de modelos de assinaturas, paywalls e anúncios, ajudando-os a entender e se conectar com seus leitores.

Liberdade e democracia

Em 2016, o Google repassou mais de 11 bilhões de dólares para publishers no mundo inteiro – centenas deles no Brasil – que utilizam as nossas plataformas de monetização. Essa cifra inevitavelmente crescerá à medida que mais verba publicitária migrar para as plataformas digitais, as quais têm a atenção crescente das pessoas no mundo inteiro. A busca por novos modelos que geram escala e eficiência é fundamental.

No Brasil, trabalhamos com diversos grupos de mídia – representando 15 jornais do país inteiro – na criação de uma rede de comercialização de publicidade online, de maneira conjunta, por meio da plataforma programática DoubleClick. Lançada no início de abril, a Digital Premium replica um modelo de consórcio bem-sucedido nos Estados Unidos, que gerou crescimento de 30% na receita programática dos integrantes do grupo, após a consolidação de inventário remanescente, sem alterar o esforço de venda direta que cada veículo já adota em sua estratégia comercial. Em maio, a rede será aberta para novos integrantes.

Também acreditamos que a web deve ser aberta, e que a marca de todos os publishers deve ser preservada e fortalecida fora das plataformas sociais que buscam criar “jardins fechados” na internet. Essa é a única forma de garantir que todo o ecossistema permaneça diverso e forte. Por isso o Google trabalha para que a internet aberta (open web) se fortaleça, num espaço sem fronteiras, onde cada publisher tenha liberdade de montar seu próprio modelo de conteúdo, distribuição e monetização.

Quando, junto com um grupo de publishers europeus, chegamos à conclusão de que a velocidade com a qual o conteúdo carregava em páginas cheias de anúncios estava desincentivando usuários a consumir seu produto, lançamos o projeto AMP, em 2015. O AMP, que tem código aberto, é feito para melhorar a performance da web por meio de mudanças estruturais em sua arquitetura. Hoje, mais de 2 bilhões de páginas em AMP já foram criadas, por 850 mil domínios, e 35 milhões novas páginas são indexadas todas as semanas.

No Brasil, um dos nossos mercados mais dinâmicos, no qual a aderência a todas as plataformas digitais está entre as mais fortes do mundo, temos várias parcerias com a imprensa. Além do Projeto Credibilidade do ProJor já citado, apoiamos a missão da Associação Nacional dos Jornais de preparar jornalistas para este novo mundo, já há quatro anos realizando treinamentos massivos por todo o país. O programa de 2017 será focado, apropriadamente, na checagem de fatos. Apoiamos um projeto da Abraji, o CTRL-X, que tem por objetivo monitorar uma das práticas mais nocivas à liberdade de expressão no Brasil, a supressão de informações na internet por remoções judiciais.

Em março, trouxemos para o país pela primeira vez uma edição do Newsgeist – uma “desconferência” da qual participaram cerca de 150 pessoas de toda a mídia nacional, desde os grandes publishers às mais novas startups –, para debater desafios e pensar soluções. Dentre todas as iniciativas, a que terá maior impacto é a chegada ao Brasil este ano do Google NewsLab, uma área totalmente dedicada a trabalhar com redações para garantir o treinamento de jornalistas nas novas ferramentas, jornalismo de dados, realidade virtual e outras experiências imersivas e inclusivas. A verificação de fatos e construção de credibilidade são pilares do plano de trabalho do NewsLab.

Há muito mais a ser feito, porque se temos uma certeza é que tudo vai continuar mudando, a uma velocidade cada vez maior. Quem pensa que é o Google, ou qualquer outra plataforma digital, que força essas mudanças está enganado: a força motriz desse ecossistema é – sempre – o usuário.

No Google, onde haverá outros fenômenos disruptivos, como fake news, temos a certeza absoluta de que a única coisa que vem após um desafio é outro. No espaço do último ano, vimos mudanças drásticas: onde antes existiam diferenças de opinião, hoje existem diferentes realidades. Neste mundo novo, a absoluta liberdade de expressão proporcionada àqueles com livre acesso à internet precisa conviver com um ambiente de democracia, onde a diferença de opiniões e de ideias é comum e o consenso nem sempre é possível. Com consistência, continuaremos trabalhando para cumprir nossa missão de organizar as informações e torná-las acessíveis e úteis a todos, pois ainda acreditamos que isso pode, sim, tornar o mundo melhor.

Flavia Sekles é diretora de comunicação do Google na América Latina.

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