Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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EDIçãO BRASILEIRA DA COLUMBIA JOURNALISM REVIEW >

Em defesa da audiência

Por Esther Enkin em 15/02/2018 na edição 974

Para a presidente da Organização Mundial dos Ombudsmans, embora as redes sociais tenham mudado a relação do público com a imprensa, há espaço para a análise profissional

Por Esther Enkin

Tenho uma relação de amor e ódio com o Twitter – mas quem não tem? Num dia qualquer, eu posso saber dos detalhes das últimas notícias, encontrar pesquisas interessantes sobre jornalismo, ser ofendida e tapeada. No mundo virtual. Sou ombudsman das áreas de notícias e informação da Canadian Broadcasting Corporation (CBC). Meu trabalho é interagir com o público, defender seus interesses e garantir que a CBC mantenha o alto padrão de jornalismo. Quando as pessoas não estão felizes, elas vão para o Twitter e exigem uma solução instantânea. Minha resposta-padrão é: “Terei prazer em ajudar”. Contudo, não dá pra fazer um raciocínio elaborado em 140 caracteres.

Nós, que trabalhamos como ombudsmans, ou editores públicos, passamos muito tempo refletindo sobre nosso trabalho na era das redes sociais, das respostas instantâneas e do discurso cada vez mais polarizado. Sou presidente da Organization of News Ombudsmen and Standards Editors (ONO) e posso dizer que com certeza nunca foi tão necessário ter capacidade de resposta, responsabilidade e transparência, de acordo com os profissionais da área. Vale ressaltar que as redes sociais mudaram completamente o jeito como as pessoas se relacionam com os veículos jornalísticos. Nosso público desempenha um papel importantíssimo em nosso trabalho diário, mas para manter um padrão de qualidade, a ponderação cuidadosa, distante do bate-boca das redes sociais, ainda é essencial em todas as redações. Nesse mundo cada vez mais competitivo e rápido em que vivemos, a função do ombudsman é mais relevante do que nunca para garantir um jornalismo responsável, que tenha credibilidade.

É irônico que nos Estados Unidos, onde a confiança do público nos meios de comunicação nunca esteve tão baixa, mesmo antes da eleição de um presidente que vive em pé de guerra com a imprensa, os ombudsmans e seus colegas sejam uma espécie ameaçada. De acordo com uma pesquisa do Instituto Gallup de 2016, apenas 32% dos americanos confiam “muito” ou “razoavelmente” nos veículos de notícias. É a marca mais baixa desde que o Gallup começou a fazer essa pesquisa, em 1972. O Pew Research também chegou a resultados parecidos – somente 28% dos entrevistados acreditam que a imprensa “trata todos os lados igualmente” quando está cobrindo questões políticas ou sociais.

Você pode pensar que, em um cenário desses, os veículos de comunicação estariam fazendo tudo que pudessem para reconquistar a confiança do público, gerar debates e serem considerados mais transparentes e responsáveis. Até onde eu sei, só existem uns cinco ombudsmans em tempo integral nos Estados Unidos, três deles em órgãos públicos: na NPR (a organização nacional de emissoras públicas de rádio), na PBS (rede pública de televisão) e no grupo do qual ela faz parte, a Corporation for Public Broadcasting. No Canadá, a situação é parecida: só existem cinco no país. Quatro deles são cargos de tempo integral, sendo que dois fazem parte da Canadian Broadcasting Corporation. Os outros três estão em veículos impressos: o Globe & Mail, o Toronto Star e o Brunswick News – que tem um ombudsman em meio período.

Na década de 1980, havia cerca de 45 pessoas nessa função somente nos Estados Unidos. Os cortes iniciaram quando o modelo econômico dos principais meios de comunicação começou
a desmoronar. A função de ombudsman passou a ser considerada um luxo que os veículos jornalísticos não podiam manter. Com o crescimento das redes sociais, surgiu uma ideia de que o público poderia se organizar sozinho para fiscalizar as redações. Foi esse o discurso do publisher do New York Times, Arthur Sulzberger Jr., quando ele anunciou em maio que o New York Times estava extinguindo a função de ombudsman após 14 anos. O cargo fora criado para responder a um escândalo envolvendo o jornal em plágio e matérias forjadas. O jornal instituiu a função para reconquistar a confiança dos seus leitores. Ao acabar com ela, Sulzberger afirmou no comunicado que o Times enviou por e-mail ao Poynter Institute (que se dedica a formar e aprimorar jornalistas e leigos em campos como ética, apuração e liderança na comunicação): “Hoje, nossos seguidores nas redes sociais e nossos leitores espalhados pela internet estão juntos para atuar como fiscais modernos, mais atentos e capacitados do que uma pessoa sozinha conseguiria ser. Nossa responsabilidade é dar voz a esses fiscais e ouvi-los, em vez de direcioná-los a um departamento específico”.

Muita falácia

No entanto, esse raciocínio é falacioso. É verdade que as redes sociais são um veículo importante para que as pessoas expressem suas preocupações e formem opiniões. Infelizmente, porém, as redes sociais costumam servir muito mais para o linchamento do que para o debate. Michael Getler, ombudsman da PBS, escreveu em sua coluna de despedida: “Não faltam críticos de mídia hoje em dia, especialmente na internet e nas ditas organizações de checagem. Mas esses grupos costumam agir em interesse próprio ou partidário, a serviço de uma causa específica, e simplesmente dizem aos seus leitores onde reclamar sobre determinado problema”. A manutenção da figura do ombudsman em uma organização de imprensa é um compromisso público de responsabilidade por seu trabalho. Isso deveria ser uma parte fundamental da prática do jornalismo.

Mais de uma vez, ao responder reclamações, já fui desafiada a provar minha independência – já que sou paga pela mesma organização que devo monitorar. Em alguns lugares existe uma pressão para abafar as críticas, que pode ser maior ou menor dependendo de onde estamos. Porém, como membros da empresa, a verdade é que os ombudsmans podem exigir respostas das pessoas que tomam as decisões do negócio. Isso quer dizer que, como jornalistas experientes, nós também sabemos que perguntas fazer e onde procurar respostas. Como membros de uma redação, às vezes temos o papel de educar a equipe e lembrá-la dos padrões que ela deve manter.

Valor reconhecido

Nem tudo está perdido. Em muitos lugares a importância e o valor da responsabilidade e da transparência são reconhecidos. Infelizmente não existem muitos dados, mas há cerca de 30 ombudsmans na América Central e na América do Sul. No México, por exemplo, cada vez mais os órgãos públicos de comunicação estão criando cargos de ombudsman. Enquanto isso, em redações privadas a posição já está prevista até em estatutos.

Na América do Sul, existem “defensores públicos da audiência”, que têm funções semelhantes às dos ombudsmans. Em países que passaram por ditaduras, com limitações à liberdade de imprensa, a função é cada vez mais valorizada. É um reconhecimento de que a liberdade de imprensa deve estar acompanhada de responsabilidade. O cargo, não importa seu nome, é fundamental para elevar os padrões do jornalismo, ao responder às críticas do público e também ao implementar e desenvolver diretrizes éticas.

Isso fica claro em vários países do Leste Europeu, que ainda estão construindo suas instituições após o colapso do bloco comunista. Na Eslovênia e na República Tcheca, as emissoras públicas têm ombudsmans. Tarmu Tammerk, o ombudsman da emissora pública da Estônia, mantém contato com veículos que recorreram à Organization of News Ombudsmen em busca de orientação para criar seus cargos. “Já participei de discussões sobre isso em países como Moldova, Ucrânia, Letônia e Lituânia”, explica Tammerk. Veículos em vários outros países têm ombudsmans. Outros criaram o cargo de editor de qualidade, que define padrões e orienta a equipe. O princípio que está por trás desse movimento é que a criação de normas claras é necessária para a ética e a excelência da prática do jornalismo.

Em países que valorizam a liberdade de imprensa por causa da memória coletiva de repressão, há o pensamento corrente de que o ombudsman pode desempenhar um papel de agente da democracia.

A ONO tem membros em todos os continentes – com exceção da Antártida. Nos últimos anos, recebemos membros da África, da Ásia e da América do Sul. Como um sinal dos novos tempos, a conferência anual da organização este ano vai ser realizada em Chennai, na Índia. Enquanto a função perde força nos Estados Unidos e no Canadá, ela se torna mais importante em outras partes do mundo.

Confiança dos leitores

Em 2016, o Dicionário Oxford declarou “pós-verdade” a palavra do ano. A sua definição é: “Circunstâncias em que fatos objetivos são menos relevantes que o apelo emocional e convicções pessoais para a formação da opinião pública”. Quer uma prova? É só olhar para a quantidade de notícias mal apuradas e mal escritas no seu feed do Twitter. O principal papel do jornalismo é fornecer informação precisa de maneira isenta aos cidadãos, para que eles possam tomar decisões conscientes. É um elemento crítico para qualquer democracia. Conforme as redações dão as costas para uma posição que serve para garantir um padrão de qualidade, elas abrem mão de uma responsabilidade importante. Ter um ombudsman não vai restaurar a confiança do público nas notícias – existem muitas sutilezas e muitas nuances nessa questão. Mas é um sinal de compromisso com a excelência. Agora é a hora de assumirmos esse compromisso.

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Esther Enkin é presidente da Organization of News Ombudsmen and Standards Editors (ONO) e ombudsman da Canadian Broadcasting Corporation (CBC).

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