Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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EDIçãO BRASILEIRA DA COLUMBIA JOURNALISM REVIEW >

Memórias de um pioneiro da abobrinha

Por Luiz Henrique Romagnoli em 06/06/2018 na edição 990

Da gravata dos jornalões à bermuda dos comunicadores bem-humorados, o rádio se reinventa mais uma vez – para se manter vivo na disputa pela atenção do público

Como os demais meios assolados pela disruptividade da internet e pela pandemia da pós-verdade nas redes sociais, o rádio dá seus pulos para tentar se manter relevante na disputa pela atenção do público. Além de enfrentar o smartphone, o tablet, o notebook, a TV e, logo, a geladeira, o aspirador de pó e todas as coisas da internet das coisas, ainda precisa resolver se vai digitalizar seu sinal – e em que formato – enquanto muitas emissoras ainda estão migrando do AM cheio de ruídos para o FM de melhor qualidade, mas alcance limitado.1

Para conseguir lugar na cabeça do público, placas tectônicas da programação radiofônica estão se movimentando. Rádios musicais estão reaprendendo a falar e buscam conteúdo com debates, fofocas de internet, ressuscitando a boa e velha leitura de cartas de amor, acrescentando esporte e colunistas. Rádios populares estão se atualizando ou morrendo, como a Globo AM, cuja histórica programação vencedora, mas deficitária, foi extinta no Rio e em São Paulo, e agora recomeça do zero. E nas jornalísticas, nas quais o rádio já era falado, a busca é pela atualização da linguagem e pauta, transitando em estágios diferentes no figurino da informação, da gravata dos jornalões à bermuda dos comunicadores bem-humorados.

Nos outros meios, a informalidade, o bom humor e pinceladas de leveza na pauta já estão em andamento há tempos. Na imprensa escrita aparece menos no noticiário corrido e mais no reino dos colunistas, com seu novo arsenal de deboches e apelidos. Na TV, transitar fora do texto exige talentos que não se ensinam na faculdade, como improviso, timing, simpatia e domínio de cena, e expõe os profissionais mais cintura-dura. Mas com certeza a comunicação já está mais natural.

Beijinho, beijinho e pau, pau

No rádio, alguns desses movimentos também têm sido registrados nos últimos anos. A Jovem Pan escalou na audiência ao mandar às favas os parâmetros reconhecidos de isenção, vestindo a camiseta canarinho e batendo panelas com a classe média irritada com o governo Dilma Rousseff, tendo como estrelas novos porta-vozes do conservadorismo, como Reinaldo Azevedo (agora na Band News FM) e Marco Antônio Villa.

A alta temperatura e a agressividade repercutem no público-alvo e podem ter se mirado no megassucesso do DJ americano Rush Limbaugh, um líder de audiência que se gaba de ter resgatado na população de seu país o orgulho de ser conservador. Em seu programa coast-to-coast, ele desanca os liberais, as feministas e não se importa de ser polêmico, como ao defender o porte de arma e a NRA – National Rifle Association –, desqualificando como “políticas” as queixas de estudantes sobreviventes do recente ataque na Flórida. Ostenta ainda a glória de “salvar” o rádio AM com sua maciça audiência, que passa dos 10 milhões de ouvintes. O que, trocando em graúdos, significa estar sempre rondando o top 10 das personalidades mais bem pagas na lista da Forbes. Em 2017, por exemplo, empatou com o Guns N’Roses e deixou para trás Justin Bieber e Lionel Messi. Entre suas fontes de renda, estão livros que entram sempre na lista do New York Times, alguns deles para o público infantil, em que faz gozações com os pioneiros pais da pátria estadunidense.

Num outro registro, inédito, Ricardo Boechat faz sucesso nas manhãs da Band News FM, menos pela posição ideológica – que consegue despertar críticas simultâneas de lados opostos do espectro – e mais pela tocada. Em uma hora e meia de programa, das 7h30 às 9h, que ele habitualmente estoura, mistura comentários ácidos contra o Estado incompetente, galhofas com o jogo político, discursos autodepreciativos com que se justifica por algumas opiniões rasas como uma conversa no táxi, e um lado fofo que manda abraços para ouvintes aniversariantes e atende a pedidos de beijos para crianças e idosos como num programa de comunicador de AM. Com essa fusão, Boechat tornou-se um popstar tardio do radiojornalismo.

Só se fala em all news

A chegada das all news – CBN, Eldorado/Estadão e Band News FM à frente – e os movimentos da Jovem Pan, retransmitindo o jornal e o futebol pela FM e depois com sua virada conservadora, são exemplos diferentes de como a linguagem e a abertura da pauta avançaram no rádio.

Na CBN, veterana entre as redes, a maior dificuldade foi colocar em pé uma ideia com o potencial de sucesso que se confirmou, mas amargou um longo período no vermelho. Em São Paulo, onde ficaria o comando do jornalismo e o maior foco do departamento comercial, mesmo o poderoso Sistema Globo de Rádio não conseguiu provar ao tal mercado que era possível ter uma rede de notícias 24 horas puxada por uma FM. E precisou desmontar a equipe que preparava a Rádio Globo Rural AM, que entraria no lugar da Excelsior, para colocar o sinal da CBN em rede com a FM, prefixo 90,5 khz, onde substituiu a malresolvida ex-Globo FM ou Globo 90 ou XFM. E o que era para ser provisório acabou se tornando definitivo.

Com um pé em cada canoa, seria mesmo difícil investir em inovações radicais de linguagem e abordagens. As novidades já eram bastantes para a época, com a criação da figura do “âncora”, na qual Heródoto Barbeiro, competente e notoriamente sisudo, se destacou. No quesito descontração, durante muito tempo, o máximo a que se permitia a equipe era uma troca de gozações nos dias seguintes aos jogos de futebol. Voltaremos a isso.

“Cambada de ordinários”

A Band News FM já pôde seguir a trilha aberta pela CBN e estreou como uma rede de emissoras na frequência modulada. O conceito, também trazido de rádios americanas, é de jornais rotativos de 20 minutos. A escolha do âncora do principal horário matutino recaiu sobre Carlos Nascimento, de qualidade profissional que dispensa confete, mas que não passou na fila do bom humor ao nascer. Em outra escolha pelo sorumbático, Boris Casoy apresentava o horário de fim da tarde, usando sua persona de jornalista sério e indignado e não seu jeito bem-humorado fora do ar, cheio de imitações e piadas.

O ajuste foi difícil. A equipe tentava se soltar no texto, e por estranho que pareça o estilo que mais dava cara à emissora vinha de uma profissional egressa do meio impresso, Inês de Castro. Na pauta, a seriedade acabava afunilando os assuntos. Lembro da torturante experiência de passar uma hora e meia num dos tradicionais congestionamentos das marginais de São Paulo conferindo o desempenho da então jovem rádio, em que fui exposto à cotação do dólar por oito inúteis vezes.

O tempo se encarregou de dar segurança ao time dos apresentadores coadjuvantes, que estabeleceu fio terra com o público e passou a conversar mais, fazer rádio, enfim. Os amigos Luiz Megale e Eduardo Barão levaram a apresentação para a mesa do churras do fim de semana e as “meninas” Sheila Magalhães, Tatiana Vasconcellos e depois Carla Bigatto conseguiram atravessar o muro de mau humor caiado de machismo que nega às mulheres credibilidade suficiente para representar um bastião do jornalismo, como o Grupo Bandeirantes. E, sim, ativaram a audiência jovem feminina, pois, afinal, o público do radiojornalismo há muito deixou de se encaixar no estereótipo do pai de família de terno com colete de algibeira. Que sabia o significado de “algibeira”. Para estes existe o venerando Jornal Gente, da Bandeirantes AM, que todo estudante e jovem jornalista precisa ouvir ao menos uma vez na vida, no qual José Paulo de Andrade e Salomão Ésper desenvolvem com maestria um programa vintage, com verrinas, diatribes, rabugices, estocadas de florete e espadagadas de durindana (joguem no Google, jovens).

Nesse contexto, a chegada de Ri-cardo Boechat, com um insuspeito talento de comunicador, criou um horário em que o jornalismo tradicional é tratado a bordoadas e chacota. O sessentão buenairense criado em Niterói traz para a cena com naturalidade histórias familiares envolvendo a esposa, “Doce Veruska” (a jornalista Veruska Seibel), as filhas mais novas, Valentina e Catarina, e a mãe, “Doña” Mercedes. A parceria com José Simão, decano da abobrinha jornalística, gerou uma química que faz ouvintes marcarem o início do dia produtivo para depois da coluna.

Mas mesmo a dupla de sucesso precisou pegar embocadura. A diferença do deboche paulistano para o humor carioca mais pesado (a palavra exata é “sacana”) pode ser demonstrada num dos bordões de entrada, no qual José Simão faz cócegas nos ouvintes em portunhol: “Acuerda, macacada”, e Boechat usa a borduna: “Cambada de ordinários!”.

Uma característica de Boechat, comum a boa parte dos apresentadores, é ser autodidata em rádio. Ele me contou numa entrevista que jamais abriu um livro ou uma pesquisa sobre o rádio para formar sua persona. Não que haja abundância de literatura que saia do anedótico ou do jargão acadêmico. Mas seria interessante conhecer um pouco da história do jornalismo bem-humorado no ar.

No início era o Trabuco

O radiojornalismo nasceu e seguiu durante muitos anos sem registro de relação com o humor, nem com a informalidade. Qualquer brincadeira com as notícias só era consentida – ainda assim, de acordo com os interesses do regime em vigor – nos seus devidos lugares: os programas humorísticos, onde reinaram Alvarenga e Ranchinho, Zé Fidelis, Jararaca e Ratinho, Max Nunes, Castro Barbosa, Lauro Borges e outros.

A primeira manifestação de quebra do protocolo da seriedade jornalística aparece em 1962 na Rádio Bandeirantes com o programa O Trabuco, apresentado pelo radialista e ator Vicente Leporace, no qual lia os jornais do dia e disparava seus comentários carregados de ironia. Às vezes, o apresentador era convocado pela polícia política, mas a liberdade de crítica era franqueada pelo proprietário da emissora, João Saad, genro do governador Adhemar de Barros, e, ao final dos programas, Leporace, que reinou único até sua morte, em abril de 1978, escancarava suas preferências declarando-se “corintiano e ademarista”.

Ditadura, jeans e esporte

Durante a maior parte da ditadura militar, o rádio, como os demais meios, manteve-se calado por força da censura ou de autocensura. Com a agravante de ser uma concessão do governo cujo fechamento requeria muito menos trabalho e desgaste do que recolher milhares de exemplares de jornal. Muitas emissoras foram fechadas com a presença de uma singela guarnição policial ou uma simples canetada de segundo escalão.

As manifestações de informalidade e bom humor começaram a chegar quando as condições que levaram à abertura dos anos 1980 formaram o caldo da renovação tocada pela primeira geração de jovens formados num ambiente menos opressivo e por sobreviventes bem-humorados dos anos mais pesados.

Esse contexto local se alinhava ao movimento global de abertura de espaços para o jovem como público consumidor. A sociedade de consumo absorveu a contracultura do Flower Power, os gritos das manifestações estudantis e sua rebeldia e devolveu produtos e modas para servir a esse novo cidadão que não queria a mesma roupa, cabelos e música dos seus pais.

Mais explícito do que tratados acadêmicos, este diálogo na redação da Rádio Jovem Pan em 1979 explica o momento: num domingo à tarde, com a jornada esportiva rolando solta, o diretor de jornalismo, Fernando Vieira de Mello, recortava nos jornais matérias que pudessem ser recicladas para reforçar o jornal de segunda, dia geralmente fraco para o noticiário de rádio. Do seu aquário no meio da redação, divisou a caminho dos estúdios o radialista Milton Neves, então apenas plantonista de esporte e gritou ao seu estilo:

– Miltooon, o que é jeans?

A resposta veio sem muita elaboração, com sotaque de mineiro de Muzambinho:

– Ah, Fernando, jeans é moda.

Suficiente para receber a réplica:

– Você é ignorante, Milton. Jeans é comportamento!

Apesar da sintética riqueza da constatação, não seria na Jovem Pan AM que a linguagem acompanharia a mudança dos tempos.

O rádio traria ao jornalismo a leveza temperada com ironia por um caminho inusitado, o esporte, geralmente um espaço monocórdico bitolado no mundo do futebol. Veio de lá a narração de Osmar Santos, cheia de jovialidade com novas gírias e bordões. Com seu passe valorizado na transferência da Rádio Jovem Pan para a Rádio Globo, audiência e faturamenrto em alta, o locutor conseguiu abrir na Rádio Excelsior, do mesmo Sistema Globo de Rádio, um espaço que chegaria a duas horas, das 12h às 14h para fazer o programa Balancê, uma caótica mistura de jornalismo, esporte e cultura.

Assim era rompida a divisão rígida entre os departamentos, que nas grades tradicionais das emissoras dedicava a hora do almoço a programas separados para jornalismo e esporte. Acompanhado por Juarez Soares, o “China”, cronista esportivo de intensa atividade sindical e política, e Fausto Silva, então repórter de campo que se destacava pelo raciocínio rápido e bom humor, Osmar Santos trouxe também o humor escrachado com a dupla Nelson “Tatá” Alexandre e Carlos Roberto “Escova”, vindos do Show de Rádio, tradicional programa de humor esportivo, criado por Estevam Bourroul Sangirardi e apresentado na Jovem Pan após o futebol.

Um episódio típico pescado na internet começa com um comentário sarcástico de Osmar Santos sobre a repercussão internacional da dívida externa brasileira, colado a uma externa com Fausto Silva dando o furo da renovação do contrato do craque Sócrates, do Corinthians. A produção unia o esporte, com Paulinho Mattiussi, depois Odir Cunha, com o jornalismo via Yara Peres. Finalmente, mas não menos importante, o programa tinha o sonoplasta Johnny Black (João Antonio de Souza), que criava ilustração e “comentários” sonoros, com trechos escolhidos de músicas, que selecionava de acordo com a pauta do programa.

O garoto e a rapaziada

Se a revolução do Pasquim e as outras bossas do humor e jornalismo cariocas aconteciam nos bares da beira-mar, nada mais paulistano do que os pioneiros da linguagem mais soltinha serem encontradiços numa cantina italiana. O “polpetone” do Jardim di Napoli atraía Faustão, Osmar, Juarez, mas também o publicitário Washington Olivetto, o menino-prodígio que colocou a propaganda brasileira no mapa dos prêmios internacionais, trocando os galãs dos anúncios pelo magrelo e sem jeito Carlos Moreno e deixando a linguagem da propaganda mais coloquial e bem-humorada. Outro habitué era Serginho Leite, famoso locutor de FM.

É onde entra o meu depoimento sobre o começo da linguagem jornalística em frequência modulada, uma antepassada esquecida das rádios mais conversadas de hoje.

Em 25 de janeiro de 1980, num aniversário de São Paulo, era inaugurada a Rádio Cidade FM, do grupo Jornal do Brasil, com a missão de repetir o meteórico sucesso obtido pelo formato no Rio de Janeiro, onde foi lançada em maio de 1977 e rapidamente chegou à liderança da audiência.

O segredo era dar liberdade aos locutores para improvisar, desimpostar a voz, dialogar com o ouvinte, ao mesmo tempo que operavam a mesa de som, assumindo completo controle sobre a dinâmica da rádio. Misturava técnicas de DJs das rádios americanas com a carioquice dos apresentadores. Foi um sucesso entre os jovens de classe média para cima, parte importante do total de ouvintes de FM – o que se explica pela raridade dos aparelhos que captassem frequência modulada, presentes basicamente em automóveis e em grandes receivers de mesa. O walkman e seus similares só surgiriam na virada dos anos 1980.

Golpe no embalo do funk

O chefe de redação do Jornal do Brasil, João Batista Lemos, me chamou ao aquário para comunicar a transferência para a rádio, ordenando: “Tome conta daquela molecada, não deixe falar muita bobagem”. Aquela molecada? Eu tinha 22 anos!

Logo aprendi que as notinhas, cinco por hora, não deveriam seguir o figurino dos jornais impressos, o ritmo das agências de notícias nem das rádios jornalísticas como a Jovem Pan, mesmo nos seus momentos de variedades. A concorrência primária não era nem sequer entre notícias mais ou menos adequadas. Era da fala com a música. Mesmo a locução conversada dos apresentadores recebia críticas de ouvintes pelo telefone. Eles queriam gravar os sucessos favoritos em seus gravadores de fita cassete e “aquela falação” atrapalhava. Um dos procedimentos dessa nova dinâmica era falar, notícias inclusive, ocupando os tempos instrumentais do começo ou final da música.

Um episódio limite no conflito entre o novo formato e o “velho” jornalismo se deu numa tarde de abril de 1980, quando o apresentador Edmir Rabello resolveu entremear um animado funk com uma notícia sobre um golpe de Estado na Libéria. Entre cada frase que lia, descrevendo os horrores e mortes no país da África, aumentava o volume da sacolejante música. Surpreso com a minha reação e com a reunião com a coordenação que se seguiu, candidamente defendeu sua atitude em nome da manutenção do “pique” da rádio.

A fórmula com texto mais próximo do coloquial, a mistura de temas mais leves com as informações realmente relevantes do dia, foi surgindo aos poucos. Os locutores começaram a se relacionar melhor com as notícias e transmitiam com maior envolvimento e propriedade. A alquimia teve o apoio ativo do apresentador Paulo Leite, o “Velho Milk”, e do repórter da sucursal do JB, Fernando Zamith, e a cumplicidade do coordenador Carlos Townsend. As queixas contra as notícias diminuíram substancialmente.

A fórmula da abobrinha

Na nova prática, números eram arredondados. Quem queria saber dos centavos do prêmio da loteria? Manchetes retrancando os casos mais famosos eram herança dos jornalões falados. Algumas notícias que demandavam mais espaço podiam ser seccionadas e retomadas mais adiante. Também era aconselhável considerar o ambiente político, a “abertura lenta e gradual” conduzida pelo general Geisel. O final da censura prévia à imprensa era uma memória muito recente e minha presença ainda era solicitada no “aquário” para ajustes.

Além dos assuntos sérios da política, economia e internacional, a pauta também tentava se aproximar do cotidiano do ouvinte falando sobre música, diversão e arte. E, para reforçar e dar substância à relação leve e amistosa dos apresentadores com o público, abrimos espaço para a tão recriminada “abobrinha”.

A centenária senhora chinesa que revelava que seu segredo de longevidade incluía álcool, cigarros e comida gordurosa; a pesquisa científica que informava que ratos detestam queijo; o técnico de futebol daltônico que gritava para o juiz fazer gol; o primeiro voo fretado de nudistas para visitar praias brasileiras. Esses são alguns exemplos dessas “não notícias” hoje completamente incorporadas ao dia a dia dos meios de comunicação.

A proporção das “abobrinhas” não passava de um quinto ou menos do noticiário. Mas sua “visibilidade” era tanta que merecia elogios dos ouvintes, mas muitas críticas na imprensa “séria”, que pregava a pecha de alienadas, como tascou Heródoto Barbeiro num prefácio: “De um modo geral, as emissoras de FM aceitam apenas notícias engraçadas, descomprometidas, otimistas, dirigidas ao público jovem”.

Heródoto acertava no atacado: a situação piorou para o tratamento da informação porque o sucesso das FMs causou a cobiça de grupos ligados a políticos, principalmente durante o governo Sarney. Por serem concessões gratuitas de manutenção barata, com equipe reduzida em relação ao AM, muita música, bom faturamento e a vantagem de poder falar bem do dono candidato a cada dois anos, as novas rádios viraram logo moeda de troca. Nesses prefixos, a redação se resumia ao “recórter” – um estagiário munido de tesoura.

O jornal e mais 12 músicas

A fórmula da Rádio Cidade foi um sucesso também em São Paulo. A liderança chegou em menos de dez meses e, com ela, o assédio aos profissionais por outras emissoras. Em agosto de 1981, a Jovem Pan 2, o FM da rádio Panamericana, levava os apresentadores Paulo Leite, Serginho Leite, Cesar Rosa e este autor, encarregado de cuidar de jornalismo, produção e promoção.

A missão era um desafio e enfrentava muita desconfiança. Ao ser apresentado pelo filho Tutinha ao pai, “seu” Tuta, Antônio Augusto Amaral de Carvalho, antes de receber a mão para o cumprimento levei um “puxa, mas como é jovem”. Não funcionou o bigode que eu cultivava e deveria me dar mais credibilidade.

Depois de preparar o pequeno exército que recebi, meia dúzia dos mais jovens estagiários, toca enfrentar a resistência dos repórteres da AM, que reivindicavam, com razão, um extra para trabalharem também para a FM. Com uma pequena catequese sobre o formato da notícia na jovem emissora e de um ajuste da área técnica e de operação, logo estávamos pilotando uma programação com informação que não faria feio em uma emissora jornalística.

Das 7h às 9h, Serginho Leite inseria praticamente todas as notícias do Jornal da Manhã do AM compactadas nas introduções de músicas, além da meteorologia, correspondentes internacionais, trânsito e flashes ao vivo. Ainda tinha um boletim mais robusto de dois minutos nas horas cheias. Sem deixar de tocar pelo menos 12 músicas a cada 60 minutos. Em pouco tempo, a Jovem Pan 2 conquistava a liderança da audiência.

A chegada do walkman e principalmente de suas contrafações nacionais baratas abriu espaço para classes mais baixas entrarem aos borbotões no reino da música e alegria. Para atender ao novo público, vieram novos ritmos emergentes, como pagode, axé e sertanejo, e as boys bands, como os Menudos. Por essa época, Carlos Siegelman, responsável pela Rádio Manchete, me ligou pedindo um projeto para adequar a fala da sua emissora, que disparava tocando os novos sucessos de apelo popular, mas cujo jornalismo ainda informava a situação dos aeroportos, com interesse improvável para os jovens da periferia. Em alguns dias, liguei com a resposta, mas Carlinhos me dispensou alegremente: “Não precisa mais. A gente já chegou a primeiro do Ibope”. Com informações direto de Cumbica.

As emissoras que se dispunham a chegar à liderança deixaram de se preocupar com a qualidade da informação jornalística, restringindo-se às obrigações da legislação. O jornalismo ficou esparso em poucas emissoras e o rádio FM, no geral, voltou ao automático. Boas experiências como na Eldorado FM e 89-Rádio Rock não deram cria.
E cada vez que precisa soltar a linguagem, o rádio começa do zero.

**

Luiz Henrique Romagnoli é jornalista, professor e presidente da Associação das Produtoras Independentes de Rádio e Outros Conteúdos de Áudio (Apraia). Passou pelo Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Grupo Bandeirantes, Transamérica, entre outros. No governo Lula, formatou e dirigiu o programa Café com o Presidente e coordenou as mudanças na Voz do Brasil.

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