Domingo, 22 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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EDUCAçãO > As mazelas do sistema

A educação cidadã segundo Fernando Savater

Por Jorge Alberto Benitz em 03/11/2015 na edição 875

O mais famoso filósofo espanhol da atualidade, o escritor e professor Fernando Savater, esteve em Porto Alegre participando do evento Fronteiras do Pensamento durante o qual destacou a a questão nevrálgica das mazelas do sistema educacional ocidental que no geral prepara o cidadão não para ser cidadão, mas para ser uma peça da engrenagem, no sentido dado por Charlie Chaplin em Tempos Modernos, do sistema produtivo, econômico e social. Diz ele que a educação possui um projeto mais ambicioso do que apenas treinar habilidades e processos. “A educação quer formar pessoas completas, capazes de utilizar a democracia de uma maneira crítica e positiva. O cidadão democrata não é uma coisa espontânea, algo que nasce como as flores ou os animais selvagens. Ele é uma obra de arte social.”

Enfatiza ainda mais a importância do papel da educação como elemento chave da democracia ao afirmar que o destino dela “está intimamente ligado ao  da educação. Os condicionamentos sociais, as diferenças de status e outros fatores permanecem. Mas a verdadeira transformação, que não seja sangrenta ou com violência, passa pela educação. É o que faz com que o filho do pobre nem sempre tenha de ser pobre. Que o filho do ignorante nem sempre precise ser ignorante. Que os filhos dos excluídos, dos que de alguma maneira não tenham nível social, possam alcançar seu posto, seu lugar social. A educação luta contra esta fatalidade, que faz com que os filhos tenham de repetir os erros, as deficiências e as carências de seus pais”.

Surtos de barbárie

Neste particular, na conjuntura atual de crise fica claro a opção da Casa Grande brasileira pela barbárie. Valores civilizatórios são a toda hora questionados e atacados na Câmara Federal e na grande mídia impera quase uma lei da selva onde vale tudo para a defesa dos interesses e privilégios de uma elite encastelada desde sempre no topo do poder social, político e econômico. Uma elite que não quer perder nem “os anéis”. Neste cenário o que já era frágil, por força de um deseducação cívica geral, justamente, pela falta de uma educação cidadã defendida por Fernando Savater, fica mais frágil ainda. Aqui e acolá afloram surtos de barbárie que ao invés de serem combatidos pela grande mídia são acolhidos e reforçados porque atende um interesse maior, o de combater o governo federal com todas as armas republicanas e, principalmente, não republicanas.

Creio que não é propósito de Fernando Savater e de ninguém em sã consciência supor ser possível cogitar de um mundo onde todos os cidadãos sejam progressistas e democráticos. Se bem entendi, o projeto dele de ir além da educação que visa unicamente treinar habilidades e processos tem como objetivo caminhar no sentido de tornar os cidadãos “democratas, capazes de viver e de melhorar a vida democrática”. Segundo ele, “os gregos valorizavam a democracia e a pedagogia. Diferente dos seus rivais persas, que organizavam a sociedade em níveis fixos, sem educação e com lugares preestabelecidos para cada um: o filho do ferreiro seria ferreiro também; o filho do guerreiro aprenderia a andar a cavalo e usar o arco”.

O que soa como uma proposta hegeliana acanhada e superada para espíritos mais jacobinos seria, no meu entender, um avanço importantíssimo para transcender este paradigma educacional onde prepondera o cidadão ignorante que, no mais das vezes, tem formação hiper-especializada e fora dela exibe uma indigência cívica e cultural que o torna presa fácil da demagogia e dos cacoetes de classe social e, em especial, do discurso hegemônico deformador dos verdadeiros donos do poder interessados em defender mais seus interesses e privilégios do que valores civilizatórios. Por exemplo, uma declaração de que juiz é servidor publico, lida nas mídias sociais, dá conta do quanto seria avançado implementar uma educação cidadã nos moldes propostos por Fernando Savater. Este dito que pode parecer uma “obviedade ululante” não entra na cabeça de muitos servidores públicos que pensam ser seu cargo apenas um lugar para exercitar seus conceitos e preconceitos de classe social ou, quando não pertencente a elite social, econômica, ver nele apenas uma ferramenta de alpinismo social.

Ética e corrupção

Sobre a questão ética, mais precisamente, sobre a questão corrupção Fernando Savater faz uma análise destacando o pior de sua existência que é a impunidade não sem antes atentar para o fato de que, ao contrario de demagogos que jogam com a falsa ideia de ser possível extirpa-la na democracia ele entende que “É inevitável que onde haja liberdade haja pessoas que abusem dela e a utilizem mal. Mas não é inevitável que essas pessoas fiquem impunes, que as leis só castiguem os pequenos e não os grandes, que as redes da lei sejam feitas para capturar os peixes pequenos e deixar passar os grandes, ao contrário do que acontece nas redes de pesca habituais”.

Ouso dizer, assentado nas inúmeras experiências da história recente da América Latina nas histórias do Velho Continente Europeu, com destaque para o nazismo e o fascismo no século XX, que a questão de impunidade se agrava mais em regimes autoritários onde o maniqueísmo ideológico e político impera e, por consequência, silencia pela força a oposição, gerando um sistema onde, mais do que no regime de  democracia representativa, impera a premissa de “Aos amigos tudo, aos inimigos o rigor da repressão”.

Aqui no Brasil o livro de Pedro Campos “Estranhas Catedrais” citado em artigo de Fernando Rodrigues , além de mostrar que toda esta relação promíscua entre o poder político e as grandes empreiteiras iniciou durante a ditadura, revela o expediente usado na época dos generais de colocar militares poderosos e apaniguados nas diretorias e conselhos de administração das multinacionais e grandes empreiteiras para blindagem na defesa dos interesses destas.

Ressuscitar alguns conceitos, inspirados pela antiga Grécia e assimiladas pelo melhor do espírito democrático europeu, que se perderam na modernidade e pós- modernidade pode ser um bom começo, como atesta Fernando Savater.

***

  Jorge Alberto Benitz é  engenheiro e consultor

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