Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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EDUCAçãO > Crise das escolas em São Paulo

Garrincha, Alckmin e a nuvem

Por Celso Vicenzi em 04/12/2015 na edição 879

Cunha, Dilma, Lula, Aécio, FHC, Renan, Lava Jato, Zelotes, delações premiadas, impeachment, corrupção, STF, Janot, Congresso (para resumir). Quem disser que sabe como tudo isso vai terminar está mentindo. O case mais recente é o do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Diz a lenda que na Copa do Mundo da Suécia, em 1958, o técnico da seleção Brasileira, Vicente Feola, chamou o craque Garrincha para uma conversa na véspera da partida contra a União Soviética – uma das melhores seleções da época. Feola teria dito: “Garrincha, você pega a bola e dribla o primeiro beque. Quando chegar o segundo, aplique outro drible. Aí vá à linha de fundo e cruze forte para Vavá completar para o gol.” Garrincha ouviu calado, pensou e respondeu: “Tudo bem, mas o senhor já combinou com os russos?”

Dizem, também, que certa vez o banqueiro e velha raposa política Magalhães Pinto teria dito que “a política é como nuvem, você olha e está de um jeito, olha novamente e já mudou”.

O governador Geraldo Alckmin é – ou será que era? – candidatíssimo à sucessão de Dilma Rousseff. Mas parece não ter combinado muito bem com os estudantes, que reagiram à política de fechamento de escolas. Sem diálogo com a comunidade escolar, o governador de São Paulo optou por tratar a educação como um caso de polícia. Desde então, tem gerado uma sucessão de atos truculentos e de uso abusivo da força que só têm fortalecido o movimento dos estudantes e aumentado a indignação da população brasileira.

A nuvem já se moveu

Assim é que, em poucas semanas, um dos favoritos para a corrida presidencial vê o seu cacife político arrebentar-se na mesma proporção da brutalidade que tem infligido aos adolescentes por meio da polícia que comanda. Tudo executado de maneira autoritária, sem nenhum diálogo com a comunidade escolar. A coleção de imagens e fotografias que são o retrato da falta de democracia do governo Alckmin é suficiente para inundar vários programas eleitorais e fazer qualquer eleitor com um mínimo de decência e bom senso recusar um candidato que manda bater em estudantes de maneira covarde.

Por mais que Alckmin esteja blindado pelos principais veículos de comunicação, centenas de blogues, portais de notícias e internautas têm difundido para o país, em fotografias e vídeos, o que acontece em dezenas de escolas de São Paulo. Cenas chocantes, muito próximas de um passado de ditadura cujo fantasma, infelizmente, teima em continuar à solta.

Como alguém pode pensar, depois de tudo que aconteceu – e o que falta ainda acontecer? – que seria viável uma candidatura à presidência?

Alckmin, que tem essa ambição, mas não combinou com os estudantes, é provável que não tenha percebido, mas a nuvem já se moveu.

***

Celso Vicenzi é jornalista

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