Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Ilha de excelência no meio da pobreza

Por Rodrigo Caldas e Silva em 19/01/2016 na edição 866

Cocal dos Alves é um município piauiense localizado a 260 km de Teresina. Está entre os trinta municípios com o pior Índice de Desenvolvimento Humano do país. Em meio à pobreza e ao calor desértico de um município de pouco mais de seis mil habitantes, surge a escola Augustinho Brandão, recordista em medalhas na Olimpíada Brasileira de Matemática (Obmep) e a escola com melhor desempenho no Enem no país, entre as instituições que atendem às famílias de baixa renda.

Em Teresina, capital do estado, o Instituto Dom Barreto,

Instituto Dom Barreto / Cocal dos Alves, PI / foto 180 graus

Instituto Dom Barreto / Cocal dos Alves, PI / foto 180 graus

instituição privada criada por uma ordem religiosa que também presta serviços assistenciais, em 2006 foi a instituição número um do ranking do Enem dentre todas as escolas do Brasil, sejam públicas ou privadas. Escola reconhecida nacionalmente por sua excelência, sempre figura entre as vinte melhores do país, colecionando a segunda e terceira colocações em outros anos.

O que uniriam duas escolas tão distintas como Augustinho Brandão e Dom Barreto, localizadas em um dos estados mais pobres da federação? Não obstante a diferença de recursos entre elas, já que o Instituto Dom Barreto é uma escola privada da capital piauiense frequentada por estudantes de classe-média alta, o fato é que ambas se destacam nacionalmente pelo desempenho muito acima da média de seus estudantes.

Segundo o humorista piauiense João Cláudio, “no Piauí, com exceção do Dom Barreto, tudo está piorando”. A veia satírica do humorista aponta, entretanto, para um fato incontroverso, a pérola da educação e motivo de orgulho piauiense, o Instituto Dom Barreto é a prova de que é possível se fazer uma revolução pela educação. Essa revolução começou nos anos oitenta, quando o professor Marcílio Rangel,

Prof. Marcilio Rangel / Foto 180graus

Prof. Marcilio Rangel / Foto 180graus

natural de Campina Grande-PB, diácono da igreja católica e formado em matemática, assumiu a direção do Instituto Dom Barreto a pedido das religiosas que até então comandavam a instituição.

O professor Marcílio manteve a natureza jurídica da instituição de sociedade civil sem fins lucrativos e com finalidade filantrópica e, a par do Instituto Dom Barreto, foram criadas em 1984 a Casa Dom Barreto, voltada para o atendimento de menores carentes de até 17 anos; e, em 1993, a escola popular Madre Maria Villac e a escola popular São Francisco de Assis, para alfabetização e pós-alfabetização de crianças e adultos carentes da periferia de Teresina.

O professor Marcílio Rangel se inspirou nas escolas da Finlândia e Coreia do Sul, conhecidas mundialmente pela sua qualidade pedagógica. Dos modelos finlandês e sul-coreano, o professor Marcílio captou o espírito da revolução pela educação: valorização do professor e acompanhamento pedagógico individualizado. Mestre Marcílio Rangel sabia que o segredo estava na valorização do educador, com salários acima da média.

O moinho de vento da ignorância e mediocridade

O professor Marcílio era visto no meio empresarial como uma figura exótica, que estimulava seus professores a fazerem mestrado e doutorado e os continuava pagando enquanto se aperfeiçoavam. Os alunos tinham um acompanhamento individualizado. Conta a crônica local que ele ficava após o expediente analisando a carteira com notas de alunos, comparando o desempenho por disciplina e caso identificasse uma queda de rendimento, logo aquele aluno estava recebendo aulas especiais para recuperar o desempenho. Afora o currículo obrigatório, o Instituto Dom Barreto oferecia aulas de latim, grego e hebraico, além de aulas de xadrez para seus alunos. Marcílio Rangel foi educador, filantropo e também mecenas, adquirindo quadros e promovendo a arte e cultura com recursos próprios.

A mesma lógica permeia a escola estadual Augustinho Brandão que, sem os recursos do seu “primo rico” da capital, revolucionou a educação. Outro visionário, Antonio Amaral, está na base dessa revolução. Ele liderou um grupo de jovens e idealistas professores a mudar a realidade daquela localidade. Através do trabalho sério, eles se dedicaram a lecionar ao mesmo tempo em que procuraram se aperfeiçoar. O resultado se traduziu em alguns anos, através de atendimento especial aos alunos que eram estimulados a estudar com resoluções específicas de problemas visando à Olimpíada de Matemática. Foi assim que jovens professores capturaram a imaginação de meninos e meninas de uma municipalidade remota do Piauí.

Se uma escola com recursos próprios e que está longe do orçamento milionário do estado, como o Instituto Dom Barreto, pôde revolucionar a educação, ainda que em um raio limitado no periférico Piauí; ou uma escola pública de um município pobre conseguiu capturar e estimular o sonho pela educação de crianças humildes, por que um país que tem um dos dez maiores PIB do mundo ainda está engatinhando e tem resultados medíocres no Pisa?

O que falta no resto do Brasil é o que sobra nessas duas escolas que brandem como um Dom Quixote suas espadas da educação contra o moinho de vento da ignorância e mediocridade que contamina as instituições: é o padrão de comportamento da nossa elite econômica e política. A percepção de que o educador é o protagonista da verdadeira revolução, a revolução que vem pela educação e só com a sua valorização, a imaginação, matéria-prima da pedagogia, permitirá a uma legião de jovens brasileiros escrever o seu futuro.

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Rodrigo Caldas e Silva é escritor

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