Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ELEIçõES 2018 > As religiões e a política

A fé dos evangélicos no messias Bolsonaro

Por Rui Martins em 16/10/2018 na edição 1009

Logo depois da publicação de meu livro sobre Paulo Maluf (Dinheiro Sujo da Corrupção), apresentei ao editor da Geração Editorial, o Luiz Fernando Emediato, um projeto de um romance tendo como espinha dorsal um plano da CIA de financiamento da implantação da versão populista do Evangelho no Brasil com o objetivo de impedir o desenvolvimento de uma consciência social no povo, a exemplo da experiência bem sucedida na América Central.

Emediato se interessou mas a falha foi minha, por ter dado prioridade à minha atividade jornalística, fonte de sobrevivência. Talvez ainda haja possibilidade de corrigir essa falha, pois a realidade política atual confirma o envolvimento e a utilização das seitas evangélicas capazes de decidir o pleito presidencial. Não é a primeira vez que os chamados protestantes preferem esquecer a afirmação de Cristo de que seu reino não é deste mundo, para influir nas decisões políticas do país.

De origem presbiteriana, líder da juventude nos anos que precederam o Golpe de 64, acompanhei a participação da direção nacional da igreja no processo de cerceamento das iniciativas e discussões relacionadas com a participação dos jovens no clima de transformações sociais previsto nas chamadas Reformas de Base. O principal órgão da juventude presbiteriana da época, o jornal Mocidade, foi submetido à censura e destituída sua direção.

Logo depois do Golpe, o Supremo Concílio presbiteriano se aliou aos militares, instaurou procedimento idênticos aos Inquéritos Policiais Militares dentro dos três seminários existentes, seguindo-se demissões de professores e de seminaristas considerados subversivos, denunciados aos órgãos de repressão da ditadura.

Um nome se destacou nessa operação de limpeza, que incluía também denúncias de membros das igrejas, o mineiro reverendo Boanerges Ribeiro, antigo pastor nas cidades de Santos e São Paulo que passou a dirigir o Supremo Concílio com a mesma visão dos fundamentalistas americanos, com os quais fizera curso de pós-graduação e doutorado em teologia nos EUA.

Faz alguns anos, a revista Isto É, numa reportagem sobre a caça aos esquerdistas nas igrejas durante a ditadura militar, revelou que a perseguição não ocorrera só entre os presbiterianos, mas igualmente entre batistas e metodistas, havendo mesmo torturadores protestantes no DOI-CODI.

Se alguma justificativa pudesse haver nessa mistura de pregação do ensinamento bíblico e cântico dos Salmos e Hinos com violência, censura, perseguição e assassinatos entre os protestantes, ela seria a de que vivíamos ainda a época da guerra fria e de que a CIA queria evitar a infiltração do marxismo nas igrejas. Não se pode também esquecer que a exportação do evangelho protestante para o Brasil foi feito por missões americanas a partir da metade do século dezenove.

Durante praticamente um século, poderíamos imaginar ter sido só a preocupação da evangelização a presença das missões no Brasil. E o resultado era mínimo. Embora houvesse escolas de prestígio, como o Mackenzie em São Paulo, criadas pela diversas denominações protestantes e mesmo houvesse deputados protestantes, a influência política era quase nula, com cerca de 3% da população no país.

Fora isso, a preocupação cultural dos protestantes decorrente do chamado livre exame das Escrituras, defendido pela Reforma, tornadas acessíveis com a criação da imprensa por Guttenberg, sempre formava uma espécie de elite dentro das igrejas, dificultando o contato com o povo católico, iletrado na grande maioria.

De onde teria vindo a preocupação do pastor Boanerges Ribeiro com os comunistas, que iria levá-lo a promover uma pequena inquisição entre os presbiterianos com seu apoio declarado aos militares golpistas de 64? Originário de uma família presbiteriana de Lavras, em Minas Gerais, teria sofrido um choque quando jovem pastor na cidade de Santos, logo depois da queda do ditador Getúlio. A cidade que, durante anos, ficou conhecida como a cidade vermelha, viu sua população portuária aderir em massa ao Partido Comunista e eleger a maioria absoluta dos vereadores da Câmara Municipal.

Muitos dos membros da igreja presbiteriana ainda sem templo próprio (alugavam o templo da Igreja Luterana alemã, que ficara fechado durante a Segunda Guerra Mundial dos aliados, entre eles o Brasil, contra o nazismo alemão, o fascismo italiano e o Japão) não escondiam sua simpatia pelo líder Luís Carlos Prestes. Por isso, precocemente, nos meus oito anos, foi ali na igreja, sentado ao lado de meus pais ou com a cabeça no colo de minha mãe, que ouvi falar pela primeira vez em Karl Marx, Engels, Lenin, Fuerbach e comunismo. Os sermões anti-marxistas surtiram efeito porque meu pai deixou de frequentar e de me levar na célula do Partido, no Morro de São Bento, onde vivíamos, e outros membros da igreja também, mesmo porque o Partido foi proibido e a polícia fazia batidas em busca dos membros nele inscritos.

Quem teria imaginado utilizar a fé das seitas pentecostais americanas como antídoto ao socialismo e comunismo ao começarem os movimentos sociais na América Latina? Desde os primeiros povoados depois da descoberta, a religião com a consequente alienação do povo ficava a cargo da Igreja Católica. Missão muito bem cumprida durante séculos. Porém, eis que de repente alguns teólogos rompem com o passado de cumplicidade da Igreja Católica com o poder e criam a teologia da libertação!

O pastor Billy Graham tinha lotado estádios, feito multidões chorarem e pedirem perdão por seus pecados, utilizando mensagens simples dos Evangelhos com efeitos melhores que os do macartismo. O temor de Deus tem mais efeito que o temor do governo ou da polícia. E é muito mais light e barato. Quem teria imaginado uma evangelização das Américas capaz de conter e frustrar as teorias marxistas e guevaristas da revolução social? Os metodistas contam até hoje ter sido o movimento de reavivamento religioso promovido na Inglaterra que impediu, no país miserável de Charles Dickens tão pobre quanto a França de Victor Hugo, a eclosão de uma Revolução como a Revolução Francesa.

Teria sido Nixon? Não importa, o fato é foi planificado um plano amplo e completo de evangelização de massa (nada a ver com o dos antigos missionários), utilizando a mídia. E a CIA, utilizando-se de testas de ferro, passou a comprar emissoras de rádio e depois de televisão, na América Central. Deu certo, conversões em massa e recuo do catolicismo.

Chegou, então, a vez do Brasil. De 3% para quase 30% de evangélicos, é um excelente resultado. A fórmula é de se propor um cristianismo de fácil aprendizado, pouco acima das crendices que passa a substituir. A ingenuidade humana é impressionante: os pobres e com pouca instrução acreditam facilmente serem grandes pecadores que precisam ser perdoados, para terem direito a uma vida eterna no céu! Não há necessidade de dar provas, basta uma boa conversa no púlpito. Na verdade, é uma espécie de tratamento psiquiátrico semanal ao alcance da grande população.

Anestesiados e crédulos são maleáveis e facilmente manipulados.

Hoje, no Brasil, sem sequer a justificativa de uma guerra fria, as igrejas evangélicas ocupam cerca de 20% do espaço político e dizem aos seus seguidores para votarem em Bolsonaro contra o comunismo, como se o comunismo ainda fosse uma ameaça. Como um rebanho teleguiado, todos irão votar dia 28 em Bolsonaro, uma espécie de analgésico ou anestesia para suas carências sociais. Mas poderá ser também um pesadelo para todos nós. Poderá se transformar numa espécie de Fujimori peruano, um incompetente que se tornou ditador por dez anos.

E isso me lembra as igrejas protestantes alemãs diante de Hitler. Mas isso fica para a próxima semana.

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Rui Martins é jornalista.

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