Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ELEIçõES 2018 >

Haddad feliz outra vez

Por Norma Couri em 18/09/2018 na edição 1005

Dois dias depois de sair do sufocado armário de vice, Fernando Haddad convocou a imprensa estrangeira. Foi o primeiro candidato a fazer isso, valorizando a imagem que os jornalistas farão dele no exterior. Apostou certo, lá a campanha do “Lula Livre” é mais forte do que aqui e foi a decisão — não acatada pelo STF — da Comissão de Direitos Humanos da ONU que “legalizou” o direito ao ex-presidente de participar das eleições.

Haddad, herdeiro assumido dos votos de Lula, garantiu por enquanto a herança da onda benéfica no exterior. Quando a agência espanhola EFE sugeriu que ele se unisse ao PDT de Ciro para alargar a preferência nas pesquisas, rebateu: “Se com dois dias de campanha já estou em segundo lugar, imagine o que acontecerá no resto dos 20 dias que faltam.”.

Estava certo, agora Haddad rivaliza os 13% de aceitação no mesmo patamar de Ciro, sugando votos de Marina.

E se no meio disso Lula sair da prisão?, Haddad escapa de falar em indulto mas se anima, “Vai ser assim, ele e eu atuando como Messi e Suárez no campo”, disse, sem explicar quem é o argentino, quem é o uruguaio, dupla de imbatível de atacantes do Barcelona.

Na verdade Lula guia da prisão a campanha de Haddad sugerindo não rivalizar com adversários e, a despeito das perguntas, responder o que bem entender, que foi o que Lula sempre fez saindo-se bem em cima do carisma que Deus lhe deu.

Mas Haddad fez questão de deixar claro ao jornalista do The Financial Times londrino o desejo de reabilitar a economia. A cobertura financeira internacional já apresenta Haddad como conservador. A influente agência Bloomberg sentenciou “o sucessor de Lula pode não ser o bicho-papão que os investidores brasileiros temem”. Lá fora é assim, aqui, por enquanto, o bicho-papão amedronta, a instabilidade só aumenta e o dólar já é o mais alto desde o Plano Real prevendo-se chegar a R$ 4.5 no mês de outubro.

O correspondente do Asahi Shimbum aproveitou, “o sr. é branco, não tem origem popular…” e Haddad completou…“e por que não fui para o PSDB?, é isso?, porque escolhi o outro lado, dediquei minha vida a estudar e foi aumentando meu inconformismo com a desigualdade”.

Se o PT faz fogo amigo a esse “estrangeiro”?, “não,” Haddad não confirma o que a imprensa noticia e todo mundo sabe da recusa de Gleisi Hoffmann e de uma ala do partido em declarar Haddad candidato, insistiam em Lula. “O PT não pode”, saiu-se pela tangente, “ o partido sempre abrigou a intelectualidade de esquerda”, referindo-se ao seu próprio perfil de acadêmico com três diplomas e doutorado.

“O sr tem medo de sofrer um atentado, como Bolsonaro?”, perguntou a Associated Press. “Nenhum, se tivesse medo nem atravessava a rua”. E a Reuters, questionando se o fato de ter assumido ser conservador não seria um problema para ele. “Problema é o governo Temer, que impõe mais problemas ao brasileiro que já sofre tanto. Nenhum problema do Brasil é insuperável”

Não são problemas nem o anti-petismo forte, nem a sombra da economia fraudada da Dilma, que ele explica como “sabotagem” cerrada bombardeando o governo com palavras como impeachment e afastamento, “golpe” capitaneado por Temer e a elite “enfezada por ter de se sentar ao lado de um negro no avião ou nos bancos da faculdade. O insucesso dos últimos dois anos do governo Dilma contou ainda com a ajuda da coalizão de setores da imprensa”.

“São quatro famílias que detêm a imprensa no Brasil e todos passaram a promover pautas-bomba naquela época. É claro que a variável que mais sofreu foi o investimento, ninguém investe num governo sitiado—explicou a derrocada do governo Dilma.

Agora com ajuda do governo (dele) e de reformas tributária e bancária, o clima de confiança vai retornar, o país vai voltar a crescer.A imprensa brasileira virou campo de batalha aberto onde um Ciro irado por ter de dividir os votos de Lula declara “o país não aguenta outra Dilma, ele vai fazer tudo o que seu Lula mandar”.

O Partido Novo de João Amoedo estuda pedir a impugnação da candidatura de Haddad. Alckmin inclui Haddad nos “vários tons de vermelho” que colorem os candidatos mais bem colocados abaixo de Bolsonaro. Bolsonaro fora do páreo segue conquistando pontos com as poucas respostas que dá ou não sobre seus adversários, por exemplo, “não sou psiquiatra” sobre a personalidade de Ciro que chamou seu vice, o general Mourão, de “jumento de carga” — e alerta aqueles que apoiam o PT “atenção, você é um ser humano também”. Marina chama Lula de corrupto e ataca aquele que vampirizou seus votos, “Haddad ele tem de explicar o desemprego no Nordeste”.

Haddad, o alvo, cita Lula “uma vez a cada 22 segundos”, de acordo com o Globo do dia 14, e irrita os adversários da esquerda, direita e centro. E segue aumentando pontos.

A demonização do PT de que Haddad se queixa está bem expressa nesta campanha. Todos os candidatos se protegem da proteção de Lula a Haddad, a ala esquerda e a centro — direita já que as pesquisas mostram, metade dos eleitores anti-petistas declaram voto em Bolsonaro. Alckmin adverte, “mas quem votar em Bolsonaro elege o PT” prevendo um segundo turno entre os dois. “Se ele de fato for o Lula, é um risco à democracia”, avisa o coordenador do programa econômico de Alckmim, Persio Arida.

Com o líder de preferências nas pesquisas amedrontando a todos mesmo no xilindró, o capitão campeão de votos encarcerado no hospital, o centrão mais indefinido que o Brasil já teve, um candidato que tem Jesus como garoto propaganda, e uma esquerda repartida em fatias — o cenário das eleições seria cômico, se não fosse sério. Não basta Fernando Collor entrando e desistindo da disputa e sua ex-mulher e ex-Primeira Dama entre 1990 e 1992, Rosane Collor, disputando uma cadeira de deputada estadual em Alagoas pelo PHS. Esta campanha ainda conta com um candidato de 94 anos, Geraldo Abdala, concorrendo a deputado estadual por Minas Gerais, além de candidatos-heróis, o Homem Aranha do Amapá e o Batman de São Paulo, Tiririca, o retorno. A Escola de Samba Tuiuti, que colocou um Temer vampiro na avenida este ano, engrossa o caldo com o enredo do ano que vem, “O Salvador da Pátria”, um “nordestino baixinho, barbudo, nordestino pobre…”

Foi Luis Carlos Mendonça (Valor, 17/9) quem comparou o nosso caos político ao filme de Fellini “Ensaio de Orquestra” onde os músicos num cenário barulhento, baderneiro e desafinado fazem uma quebradeira e agridem o regente.

Haddad, com um projeto na mão entra tarde, novinho e limpo numa campanha suja. Estreou semana passada fantasiando Bolsonaro como o adversário dos seus sonhos no segundo turno quando ele, é claro, vai atrair toda a fúria do voto útil, unindo esquerda e centro-direita, fazendo o Brasil feliz outra vez. Pena que esse seja o sonho — e a ilusão — de todos os outros.

Ps: o ataque a jornalistas continua, Ciro xinga, expulsa, empurra e dá um soco na barriga de um repórter (Luis Nicolas Petri, programa Saldo Positivo, TV Tropical, de Boa Vista) porque não gostou da pergunta sobre sua declaração contra os brasileiros que fizeram manifestação na fronteira com a Venezuela. “São canalhas, desumanos, grosseiros”, disse Ciro sobre os participantes do manifesto. E ao jornalista, “seu f. da p., retirem e prendam ele, ele é um provocador, do senador Romero Jucá”…

Alckmin segue afirmando que a suspeita contra seus familiares (cunhado e, sobrinho) é “jornalismo vergonhoso”.

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Norma Couri é jornalista.

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