Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ELEIçõES 2018 > Ponto de vista

Mais diálogo e menos espetáculo, por favor

Por Juliana Freire Bezerra em 02/10/2018 na edição 1007

Publicado originalmente pelo objETHOS.

As entrevistas do Jornal Nacional com os presidenciáveis Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), no final de agosto, bem como com Fernando Haddad (PT), no último dia 14, causaram inquietação e muito burburinho nas rodas de conversas da população, especialmente nas dos jornalistas. Tal debate social teve como uma das pautas centrais a maneira como as entrevistas foram conduzidas, ao invés dos argumentos dos entrevistados.

É que o Jornal Nacional tem assumido, desde a eleição anterior, um caráter de inquisição nas entrevistas, em que o entrevistado passa a maior parte do tempo tentando se defender de acusações relacionadas a si e/ou seus aliados. Interrompendo constantemente as falas dos candidatos e conduzindo-os a ficar em maus lençóis, sem oferecer-lhes tempo de esclarecer seus argumentos, parece que os entrevistadores William Bonner e Renata Vasconcellos estiveram, mais enfaticamente nestas eleições, interessados em tomarem para si o protagonismo do palco político do que em auxiliar os cidadãos a terem acesso a informações. Neste contexto, de acordo com levantamento realizado pela Revista Fórum, Haddad sofreu 62 interrupções dos entrevistadores, Bolsonaro, 36, Ciro, 34, Marina, 20 e Alckmin, 17; o que revela que todos os candidatos foram submetidos a este tom inquisidor nas entrevistas, embora uns mais do que outros.

Como que assistindo, então, a um grande espetáculo, ao público foi oferecido um duelo do bem (jornalistas) contra o mal (políticos), incitando na população o ódio ou o fanatismo pelos candidatos e contribuindo para a polarização extrema que vivemos no país. Sobre essa posição de superioridade hierárquica em relação ao convidado em que o entrevistador sai sempre como ganhador, Nobre-Correia (2018) afirma que muitas vezes o compromisso da empresa jornalística pende para o lado da captação de audiência em detrimento da informação. Por meio, então, do apelo à emoção, o jornalismo se legitima como um justiceiro popular, “um organizador de espetáculos de luta livre em torno de temas políticos, econômicos, sociais e culturais” (p. 273).

Cabe perguntar-nos se esse papel desempenhado pelo jornalismo facilita ou atrapalha o acesso ao conhecimento sobre os candidatos e, por conseguinte, o voto consciente por parte dos eleitores. A reflexão sobre este assunto recai indubitavelmente em duas questões centrais ao jornalismo: a sua função de cão de guarda da sociedade, que o legitima em certa medida como instituição social necessária à democracia, e o seu método dialógico de construção do conhecimento sobre a realidade.

Quanto à primeira questão, não há quem duvide que o jornalismo é um serviço essencial para a democracia. É por meio da visibilidade que a profissão oferta a assuntos pertinentes à sociedade que se cria o que Donsbach (2013) chama de realidade compartilhada. Uma realidade intermediada pelo jornalismo que visa trazer ao conhecimento coletivo aquilo que é de interesse público e merece ser debatido por todos os cidadãos.

Por este entendimento, convencionou-se, então, dizer que a boa prática jornalística é consonante com a defesa dos interesses coletivos em detrimento dos particulares de poderosos, sobretudo, dos que ocupam cargos nos espaços públicos, incluindo os políticos. E certamente desvelar os segredos de pertinência coletiva que, quem ocupa cargos públicos deseja esconder da população, é a principal benesse que o jornalismo pode ofertar à sociedade.

Mas não é a isso que os entrevistadores do Jornal Nacional se prestam quando encurralam, intimidam e interrompem as falas dos candidatos. Isso porque, ao invés de contribuírem para o desvelamento da realidade, bem como dos discursos, e a aproximação com a verdade possível, parecem criar mais confusão, desinformação e, claro, espetacularização. Desta forma, os presidenciáveis que assumem também tons agressivos e encenam melhor frente às câmeras se destacam sobre aqueles que poderiam até possuir melhores argumentos ou estarem melhor preparados, mas não conseguem tempo para se expressar sem serem interrompidos ou terem suas falas distorcidas.

A título de reflexão, cabe também reconhecer na dimensão dialógica um eixo essencial a esta questão, haja vista que o jornalismo não só visa retroalimentar a conversação social por meio da realidade compartilhada que constrói, como também tem no diálogo um de seus métodos principais. Por este entendimento, pode-se perceber que é justamente a entrevista jornalística o lugar onde o diálogo na profissão atinge seu ápice.

Por conta disto, nas escolas de jornalismo é ensinado aos estudantes como proceder durante estes processos dialógicos tão caros à profissão. Saber ouvir, tentar compreender o outro, problematizar suas falas, planejar e replanejar perguntas, colocar-se em posição de igualdade em relação ao entrevistado são algumas regras básicas de como proceder durante as entrevistas. No entanto, parece que o oposto foi feito no Jornal Nacional. Tal fato nos leva a questionar se naquele espaço ocorreram realmente entrevistas jornalísticas ou outra coisa.

Por esta perspectiva, há de se convir que a defesa jornalística dos interesses coletivos (cão de guarda da sociedade) não exclui sua dimensão dialógica. Aliás, é por meio desta que se pode revelar contradições nos discursos políticos e auxiliar os cidadãos a terem um maior conhecimento sobre os candidatos. Boas perguntas e problematizações, combinadas a um saber ouvir e uma postura menos arrogante, auxiliariam muito mais o exercício democrático do que o duelo que foi encenado. Fica também a reflexão de que o jornalismo comprometido com a democracia e o interesse público deve lançar luz ao debate, aos argumentos, às informações, aos conhecimentos; e não a si, como nos permite refletir o já citado Nobre-Correia (2018). Além disto, convém realçar que a Rede Globo, a que o Jornal Nacional pertence, não é só uma empresa de comunicação que tem como compromisso exclusivo a captação da audiência. Ela é também detentora de uma concessão pública que deve honrar seu compromisso com a informação e a democracia.

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Juliana Freire Bezerra é jornalista, doutoranda no Posjor/UFSC e pesquisadora do objETHOS

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REFERÊNCIAS

DONSBACH, W. Journalism as the new knowledge profession na consequences for journalism education. Journalism, 2013.

NOBRE-CORREIA, J.M. Teoria da Informação Jornalística. Coimbra: Almedina, 2018.

 

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