Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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ELEIçõES 2018 > Era da intolerância

#VocêsNão

Por Nathalia Dammenhain Barutti em 09/10/2018 na edição 1008

Política sempre polariza a sociedade e as eleições presidenciais deste ano são protagonizadas por candidatos extremamente populistas, o que aflora nos eleitores um radicalismo quase incontrolável.

Se de um lado o debate político entre os candidatos é de baixíssimo nível, do outro lado os eleitores se comportam como verdadeiros hooligans lutando uma batalha sangrenta em que todos já são perdedores.

Postagens carregadas de ódio inundam as redes sociais e pessoas com as mais variadas ideologias vêm simplificando as demais de um modo inacreditável:

“Se você vota em X vou te excluir das minhas redes sociais”

“Machista” “Misógino” “Homofóbico” “Preconceituoso” “Nazista” “Fascista” “Ladrão” “Burro” “Adorador de esmola” “Bolsominion” “Comunista” “Defensor de Bandido”

Há ainda aqueles que se destacam pelo fato da humanidade que demonstram ser bem diferente da que pregam: “Tem que morrer” “São fascistas e fascista bom é fascista morto”.

Ora, meus caros, sério? Então é fácil assim, quem não concorda com você é burro e/ou tem que morrer? Simples assim? I-N-C-R-Í-V-E-L.

É, isso mesmo, eu estou falando de você, você aí que esbraveja ser defensor dos direitos humanos, ser alguém dotado de compaixão e respeito, mas que simplesmente cataloga alguém que discorda de você como fascista, o ponto é: você tem alguma evidência que aquela pessoa é fascista? Você conheceu e conversou com todas as pessoas que votarão no Bolsonaro e todas pregam o fascismo? É isso? Essa pessoa é burra e mal informada? Essa pessoa não tem capacidade de pesquisar e decidir, ela é influenciável? Ela é insensível? Insensata? Todas elas são? E, só para confirmar, você quer que essa pessoa morra? Ah não, morrer alguns de vocês dirão que é demais, né?! Bastaria calar a boca e concordar com você, correto? Seria possível você permitir que um conhecido defenda a opinião dele e ainda assim permaneça na sua seleta lista de amigos do Facebook ou ai já não vai dar?

E você que tanto se diz justo e correto vai ofender e criminalizar alguém pelo simples fato de discordar de você? Jura? Do outro lado só tem bandido e sem vergonha? São todos assim? São pessoas burras que vivem de auxílio não sei o quê, são pessoas sem qualquer intelecto ou corruptos, é isso? Uma coisa ou outra e pronto. Do outro lado só tem comunista assassino que quer implementar uma ditadura? Todas as pessoas que votarão em outro candidato além do seu são isso?

Sinceramente não creio que seja por maldade que essas catalogações são feitas, não, acho que é falta de percepção de que infelizmente o mundo não é tão simples assim.

Vocês parecem ter esquecido que dentro desses dois grupos podem estar os pais que sempre fizeram tudo por vocês e, em alguns casos, até hoje sustentam vocês; pode ser que a/o sua/seu tia/o, vizinha/o, amiga/o de tantos anos e o/a colega de escola/faculdade/trabalho que sempre foi gentil com você vá votar em um candidato diferente do seu; até aquele seu/sua professor/a que te ensinou tanto e te deu aquele ponto extra no fim do ano, ele também pode ter outro candidato. E sabe aquele seu conhecido que resgata animais de rua, que faz trabalho voluntário em hospital, que doa dinheiro para instituição de caridade, que participa de sopão para moradores de rua, então, ele vai votar em um candidato diferente do seu. Já pensou nisso?

Pode ser que do outro lado esteja alguém que não é simplesmente fascista ou ladrão, pode ser que seja uma pessoa tão ou mais inteligente que você, tão boa ou até melhor que você. Aliás, isso não importa, ela, eu, você, todo mundo tem o direito de discordar. Nada é simples.

Política é muito complicada, não é resumida a opiniões, sim, nobres leitores, opiniões que vocês gostem ou não são apenas opiniões – limites acerca dessas serão tratados em outro momento, mas já adianto que a simples opinião a princípio não é crime. Política envolve economia, comércio exterior, relações internacionais, direito e tantos outros aspectos além da opinião do candidato; política é muito mais do que o estereótipo resumido que vocês andam fazendo de todos aqueles que discordam de vocês.

Pode ser que a pessoa que discorda de você realmente tenha ponderado o que o candidato dela tem de bom e ruim e ainda assim o preferiu ao seu candidato. Pode ser que enquanto você se preocupa mais com saúde a economia impacte mais a vida do outro; pode ser que enquanto um foque mais em educação o outro foque em igualdade de gênero e assim por diante.

Não há certo e errado, nenhum candidato abrange todos os tópicos e ao escolher um candidato você vai negligenciar um tópico que o outro lado defende, não tem jeito, não há perfeição, infelizmente.

Há um grupo de pessoas tão preocupado em apontar o dedo para o outro que não percebe o quão agressivo está o seu comportamento, tanta gente de todos os lados declamando discursos totalitaristas e com ares de superioridade.

Por que para validar o que você defende você precisa desqualificar quem discorda de você? Se para a sua opinião ser coerente você precisa atacar outro ser humano existe algo de muito errado no modo como você se comporta.

Defenda o que você acredita com base no que a sua ideia tem de bom, não com base no que você acha que o outro lado é. Aliás, vocês já escutaram de verdade o que o outro lado defende? Ou vocês só ouvem para responder? Tentem ouvir para entender, pode ser que as pessoas te surpreendam e você perceba a complexidade das opiniões. Conversem, dialoguem sem atacar, respeitem a opinião do outro, vocês são melhores do que isso. Parem de catalogar as pessoas sem sequer escutar o que elas dizem.

Já deixo o spoiler: Tem gente boa, inteligente e trabalhadora dos dois lados. Tem gente ruim, mesquinha e corrupta dos dois lados. Nada é fácil e simples.

Meus caros e minhas caras, se não fosse pela questão política e pela ignorância que muitos de vocês vêm mostrando vocês seriam grandes amigos. Vou mais longe ainda e digo que se separássemos as pessoas em caixas, vocês todos seriam colocados na caixinha da intolerância!

Termino sugerindo como reflexão o vídeo “All that we share”.

**

Nathalia Dammenhain Barutti é advogada, pós-graduada em direito constitucional pela PUC/São Paulo.

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