Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENSINO DO JORNALISMO > O DNA da profissão

Entre o código binário e o cidadão

Por Leandro Olegário em 16/09/2015 na edição 868

A cada semestre, costumo propor uma atividade para alunos de primeiro semestre de jornalismo: reunir no quadro cerca de dez características ou qualidades indispensáveis à atuação profissional. Os últimos anos têm demonstrado uma regularidade nas palavras trazidas pelos estudantes. São elas: ética, gostar de pessoas, domínio do português, senso crítico, criatividade, ousadia, coragem e isenção.

Cada qual com seu significado e sua carga de humanidade, mas todas alicerçadas pela ética, que é o exercício da moral e dos valores que norteiam a sociedade. Desafiado a responder às constantes inquietações de colegas do mercado, da academia, dos alunos e minhas sobre o futuro do jornalismo, percebo que os sete elementos permanecerão vigentes dentro e fora da sala de aula – hoje, amanhã e depois de amanhã.

Entendo que relacionamento é a palavra do século 21 e lidar com gente é condição sine qua non para a prática profissional e à pesquisa científica no campo da Comunicação. Sem diálogo, sem reciprocidade, sem “calçar os sapatos” do entrevistado, sem alinhar horizontes de expectativas da equipe de trabalho e do público, não há jornalismo que resista. E isso vale para a rotina em veículo de comunicação, assessoria de imprensa ou como empreendedor individual.

O domínio da linguagem é resultado de treino – leitura e escrita – brinco que é como quem malha, precisa de repetição e de foco para se alcançar clareza, coerência, harmonia e a coloquialidade na medida certa. Senso crítico é a combinação de desconfiança e curiosidade.

O porquê que move uma criança tem que estar presente no adulto jornalista. Criatividade para fugir do lugar-comum, um fazer que surpreenda quem está do outro lado. Ousadia para querer mais, para desacomodar e não se contentar com os “nãos”. Coragem porque lidamos com o inesperado e é, também, o que a vida espera da gente, como revelou o escritor de Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa. Por fim, isenção transcende a utópica paisagem da imparcialidade e reforça olhar sobre o equilíbrio dos nossos conteúdos. Essas são algumas reflexões na tentativa de mapear uma espécie de DNA do jornalismo que cada vez mais oscila entre o código binário e o cidadão.

A arte de contar histórias

Como vai ser o jornalismo da próxima década? Esse questionamento é inquietante e complexo. Não tem resposta ou um único lugar de fala. Tenho a convicção de que o jornalismo 2020 será marcado pela consolidação do jornalismo pós-industrial, carimbado pela digitalização e fragmentação dos processos. E mais: põe em xeque modelos de negócio que foram sólidos no século passado. O impresso vai se reinventar. A jornada do leitor, do ouvinte e do telespectador, cada vez mais alterada pelo fetiche da velocidade, impõe novas maneiras de consumir conteúdo, incluindo o jornalismo. E a gente precisa estar preparado para isso.

Com o declínio da transmissão de TV analógica e do rádio em Amplitude Modulada, a banda larga ganha força nos centros urbanos e avança sobremaneira ao interior do país, com maior qualidade. O que tudo isso significa? Significa que cada vez mais o jornalismo fará e dará sentido à vida das pessoas. Ele continuará sendo o guia, a orientação necessária à sociedade, desde que reforcemos seu papel social e o compromisso ético da nossa profissão – sendo ele gourmetizado, customizado. Ou não. Não interessa a plataforma, mas a preocupação com um recorte do mundo que traduza fenômenos e faça prestação de serviço. Resumindo, o pêndulo do jornalismo 2020 oscila entre o algoritmo e a massa. Entre um volume imenso de dados e a dimensão humana. Aposto: o jornalismo continuará sendo a arte de contar histórias na tentativa de mudar vidas e melhorar o mundo.

***

Leandro Olegário é jornalista e professor de Jornalismo

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