Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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ENTRE ASPAS > PUBLICIDADE & LIBERDADE DE EXPRESSÃO

A ética das cervejas

Por Guilherme Cardoso em 06/05/2008 na edição 484

Eis aí um crime ético de todo tamanho e que ninguém tem coragem de denunciar. Talvez até tenha, mas denunciar onde, em qual veículo, se o interesse da mídia é o mesmo? É o anúncio das empresas de publicidade em defesa da liberdade de propaganda das bebidas alcoólicas. Neste caso, a cerveja. E vem sob a chancela da Abap (Associação Brasileira das Empresas de Publicidade). Em jogo, altas verbas de anunciantes.

As peças publicitárias, divulgadas nos horários nobres das principais emissoras de televisão, dizem que não se pode tirar a liberdade de criação e divulgação de um produto, sob a alegação de que a sua mensagem esteja induzindo as pessoas a consumirem mais essa mercadoria. E que, no caso das cervejas, tenta nos convencer a Abap, não é a publicidade da bebida que faz os jovens beberem mais e tampouco não pode ser ela a responsável pelo aumento dos acidentes e mortes envolvendo motoristas embriagados. Freud pode explicar.

Que grande hipocrisia contêm essas mensagens dos publicitários… Quer dizer que a propaganda de qualquer produto não tem a finalidade de fazer com que as pessoas consumam mais? Então, de nada vale o anunciante gastar milhões de reais com a produção e veiculação de um produto se a própria entidade que reúne os publicitários anuncia que a propaganda não tem toda essa força. É o que está claro nas peças publicitárias que defendem a propaganda de cervejas em qualquer horário nas televisões.

Interesses econômicos

Pelo religioso texto que circula no horário mais caro da televisão, a propaganda de bebidas não tem culpa alguma se as pessoas bebem demais e saem rodando pela madrugada, sem noção e sem carteira, e na contramão, causando mortes, destruindo famílias. E que aquelas mulheres boazudas e quase nuas, utilizadas nos anúncios, simbolizando a loira gelada é apenas ilustração, puro subjetivismo de quem vê.

Para as agências de publicidade e, de quebra, para os veículos de comunicação, é contra a democracia qualquer tipo de limitação à publicidade de cervejas, pois o problema, na verdade, é o das famílias que não saberem educar os filhos, dos governos não construírem boas estradas e das autoridades policiais não fiscalizarem, prenderem ou punirem os infratores.

São os interesses econômicos sepultando a ética da razão.

Com a palavra, os pais, educadores, médicos, autoridades, psicólogos e psiquiatras. Estes, para dizerem se elas, as agências de publicidade, perderam a razão, ou se nós, cidadãos comuns, é que perdemos a direção e estamos embriagados. De tanta propaganda de cerveja.

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Jornalista, Belo Horizonte, MG

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