Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > MÍDIAS DOMINANTES & DIVERSIDADE

A função descarrego

Por Luís Eustáquio Soares em 05/09/2011 na edição 658

Fomos perto demais, ao limite insuportável do perto, cegos que estamos de nos ver e nos sorver, sempre a nós mesmos. Embora acreditássemos e prometíamos ir longe, através das tecnologias de comunicação, do intercâmbio econômico e cultural, expandimo-nos a nós mesmos, nossos valores, nossos saberes, nossas arrogâncias, pelo mundo afora. Fomos tão perto de nós mesmos que só enxergamos o bloqueio insuportável de nossa própria mão contra os olhos, ainda que deliremos com as linhas em M, julgando ser o M de distantes montanhas, sem querer saber que é simplesmente o M de morte: a morte de nós conosco, no incesto de sempre buscar o igual a nós mesmos.

No Ocidente liberal, pensávamos estar longe da impostura, da insegurança, da vulnerabilidade, da violência primitiva, dos instintos de morte, da ignorância, da exploração, da corrupção, mas, quanto mais avançávamos para adiante, através das muletas tecnológicas, das artimanhas do saber, da autoproteção edípica, mas retroagíamos ao chão da barbárie; mais ignorantes nos tornávamos, mais violentos; mais perto, enfim, estávamos de tudo de que fugíamos: o corpo, o mundo concreto, o trabalho real, a dor, o sofrimento, a violência, o animal que somos, a guerra, a morte.

Fugindo de nós mesmos, nos tornávamos o pesadelo de que fugíamos e, mais que avessos de nós próprios, éramos o avesso do avesso, bestas das bestas, embora tivéssemos criado todo um sistema virtual de comunicação ou de mentiras que nos fazia crer – afinal, somos crentes – que éramos livres, modernos, democratas, sensatos, alegres, multiculturais, inteligentes, belos.

A edição mentirosa de diversidades

Em nossa crença fundamentalista, acreditávamos em nossa pureza e para mantê-la íntegra usávamos o seguinte recurso para nos iludir que não estávamos atolados no fundo do poço e que não éramos a encarnação do fracasso de nós mesmos, embora julgássemos ser o próprio sucesso: o dispositivo religioso do perto e do distante, também conhecido como esconjuração de demônios ou sessão de descarrego, nomes que habitualmente ouvíamos em algumas designações religiosas evangélicas, as quais, ao fim e ao cabo também usavam dispositivos obscurantistas de esconjuração tal como nós, os ocidentais católicos, anglicanos, eurocêntricos e mesmo laicos.

Produzíamos uma civilização do descarrego que piamente acreditava expulsar para o longe tudo que nos parecia ser a encarnação do horror, do mal, do demônio, iludindo-nos de que nós éramos os magnânimos, os escolhidos, os civilizados, os superiores, os predestinados a amar e a mandar, em oposição aos bárbaros, os quais deviam ser esconjurados para os confins dos infernos, bando de abutres que eram, sendo que a única proximidade aceitável – deles, varas de porcos – era a baseada na sujeição, humilhação, reverência, inferioridade, empregabilidade, para usar uma palavra neoliberal, atualmente dita no lugar de trabalho explorado, roubado.

A fim de nos proteger de nós mesmos, criamos todo um modelo produtivo, o capitalismo, baseado no tripé guerra, guerra, guerra: guerra para esconjurar os demônios, expulsá-los; guerra para submetê-los e fazê-los trabalhar para nós; guerra de estratégia cuja finalidade é a de garantir que o perto seja perto e o distante seja distante.

A virtualidade midiática é o cenário da guerra estratégica do capitalismo atual, o suporte que incorpora as duas primeiras guerras, a de esconjuração dos demônios e a da domesticação deles, através, principalmente, da edição mentirosa de diversidades, ao mesmo tempo em que as condiciona à lógica do descarrego.

Um esconjurável mundo demoníaco

É por isso que é possível dizer que as tecnologias midiáticas, também conhecidas como indústria cultural, no capitalismo ocidental, constituem um sistema internacional de esconjuração, com suas múltiplas sessões de descarrego: descarrego de base icônica, como o televisivo, o cinematográfico; o descarrego sonoro, como os de modulação de rádio AM e FM; o descarrego alfabético ou gráfico, como os da imprensa escrita, de livros de diferentes gêneros; o descarrego da Rede Mundial de Computadores, que tem a vantagem de, em tempo real, incorporar todas outras formas de descarrego, de forma simultânea e sedutoramente eficiente, através, por exemplo, do hipertexto.

Como se vê, a palavra-chave do sistema internacional de descarrego midiático é a diversidade de suportes e de recursos. É tolo supor que um novo suporte ou/e recurso tornam os demais anacrônicos. O rádio não tornou a escrita ultrapassada e nem a televisão deixou o rádio superado, assim como a internet não fez com que a televisão fique sem uso. A diversidade técnica está relacionada com a diversidade de usos e esta está implicada com a construção do descarrego da diversidade, sendo que o principal objetivo da indústria cultural é este: esconjurar diversidades, classificando-as entre demoníacas, perigosas e impuras, logo esconjuráveis; e divinas, logo não esconjuráveis, posto que castas, puras, endeusadas.

O sistema midiático é, pois, o cenário do descarrego de diversidades, no duplo sentido, literal e religioso: neste, porque condena, enfeia e expulsa as diversidades consideradas más, indesejáveis, demoníacas; naquele porque produz, edita, separa, classifica e domestica diversidades étnicas, sexuais, econômicas, geográficas, linguísticas e culturais, descarregando-as literalmente em áreas diversas do mundo, consideradas tanto mais democráticas, desejáveis, quanto mais abrigarem as diversidades editadas virtualmente como igual a nós mesmos, razão pela qual é possível dizer, sob esse ponto de vista, que o capitalismo contemporâneo é este em que o mundo virtual, o do sistema mundial de descarrego, precede ao mundo histórico e, quando não consegue precedê-lo, transforma-o em esconjurável mundo demoníaco, impuro, perigoso, que deve ser descarregado para os confins da indiferença, do desprezo ou da morte.

Franchisesda indústria cultural

Como o capitalismo pós-moderno, o da americanização do mundo, é baseado na diversidade de produção de mercadorias físicas, subjetivas e simbólicas, o sistema mundial de descarrego é parte estratégica da americanização do mundo e não apenas positiva as diversidades estilizadas de nós mesmos – que passam a ser vividas como exemplos de democracia e ausências nelas mesmas de preconceitos – mas também, e antes de tudo, reproduzem sem cessar o virtual diverso espaço de descarrego de diversidades estilizadas, ao estilo americano, que funcionam como verdadeiras bugigangas do capitalismo pós-moderno.

É por isso que é possível afirmar que a indústria cultural constitui uma empresa multinacional de descarrego de diversidades americanas, condenando e expurgando, como parte da concorrência, todo perfil que não se amolde ao formato das bugigangas estadunidenses de diversidades estilizadas.

O sistema mundial de descarrego, ao qual chamamos de mídia, é, portanto, a empresa multinacional responsável pela produção, distribuição e gestão das americanizadas mercadorias de diversidade, pouco importando se tal e qual empresa subsidiária são ou não de capital americano, uma vez que funcionam como base militar-empresarial-comercial-publicitária de descarrego de bugigangas de diversidades – simbólica, comportamental, subjetiva, étnica, sexual e econômica – marcadamente adaptadas ao modelo do capitalismo americano, razão pela qual constituem, bem entendido, franchises da indústria cultural do imperialismo estadunidense.

Diversidades assimiláveis e não assimiláveis

A TV Globo é, portanto, uma franchise de fast-food de diversidades, assim como a Bandeirantes, Record e todas as outras mídias oligopolizadas, mercantis. Todas elas estão absorvidas no desafio de esquentar a bandeja do self service de diversidades, ao estilo do imperialismo americano, com o tempero performático, artificioso, mentiroso e camaleônico, típico da americanização do mundo, por ser o tempero da expansão imperialista deles mesmos sobre as diversidades vivas dos povos do planeta.

É, pois, um tempero que imita artificiosamente a diversidade, com o propósito de domesticá-las, torná-las palatáveis, domáveis, ainda que se apresentem com naturalidade, espontaneidade, confiança e mesmo ainda que falem em nome das diversidades esconjuradas, caçadas, evitadas, expulsas, torturadas, assassinadas.

Ou você vira fast food de diversidades étnica, sexual, religiosa, política, econômica, local, museológica, e a si mesma se apresenta, alegremente, na bandeja midiática, para ser requentada, ou é perseguida, satanizada, esconjurada, barbarizada, satanizada. Essa é a lógica implacável, absoluta, determinista e imposta como destino manifesto, religiosamente, pela imperiosa americanização do mundo.

Eis que a grande sacada dessa lógica de descarrego midiático, de diversidades em banho-maria, é a de gerir diversidades já existentes, sem precisar inventar novas, mas simplesmente classificando-as em assimiláveis e não assimiláveis, palatáveis e não palatáveis, estilizáveis e não estilizáveis, com a vantagem de transformar tudo em diversidade, ate mesmo a sua evidente ausência, razão pela qual o monopólio midiático, vira, subitamente, diversidade – e não a sua evidente falta –, assim como a americanização implacável de algumas multinacionais americanas, também concebidas e vividas como parte da diversidade.

A diversidade numeral do dinheiro

Como tudo é uma questão de boa-fé nas diversidades, diversos palatáveis bem-resolvidos que somos, pouco importa se as decisões – as pequenas e as grandes que decidem o trágico destino das diversidades pelo mundo afora – sejam tomadas pelo CIA, pelo Pentágono, o Departamento do Estado, Wall Street, Coca-Cola, Banco Mundial, FMI, Otan, CNN, uma vez que tudo faz parte da diversidade, indistintamente, de tal sorte que qualquer demanda contrária deve ser acusada, via-satélite, de um imperdoável atentado autoritário contra as diversidades tipo fast food, principalmente se forem demandas organizadas por diversidades vivas, não estilizadas, não americanizadas, porque, nesses casos, serão esconjuradas imediatamente pelo sistema de descarrego das mídias self service.

É assim que num passo de mágica tudo é admitido e concebido como parte da diversidade. Tudo é parte do cardápio de diversidades. A atual trágica crise alimentaria na Somália, que depõe contra todos nós, é parte da diversidade do mundo, que deve incluir, previsivelmente, não apenas bem-alimentados, desperdícios, mas também o contrário: a subnutrição, a fome endêmica de um povo inteiro como mercadorias de um mundo diverso.

Constatar o óbvio, que a fome na Somália não é parte da diversidade nutritiva do mundo, mas a consequência lastimável da violência e interferência do despotismo dos interesses do imperialismo europeu e americano, durante o século 20, é evidentemente, sob o ponto de vista das sessões de descarrego midiáticas, uma flagrante expressão de autoritarismo, de falta de compreensão de que são as diversidades descarregadas midiaticamente que interessam, pois precedem a tudo, inclusive porque a violência imperialista mesma é parte natural delas – sagrada parte.

É assim que chegamos ao absurdo mundo em que vivemos, no qual as diversidades de tipo fast food, ou diversidade ao estilo dos museus ou zoológicos, são permanentemente estilizadas e arregimentadas pelas sessões midiáticas de descarrego planetárias, num contexto em que a diversidade política não decide nada, pois esta deve estar submetida às decisões autárquicas, despóticas e impositivas da diversidade numeral do dinheiro, que é o fundamento religioso da diversidade, com seus milhões, bilhões e hoje trilhões de esfíngicos patriarcais dólares.

O despotismo americano-europeu-sionista

Estamos, pois, no epicentro do despotismo deste regime de descarrego de diversidades, que é o nosso; regime que proíbe qualquer decisão coletiva de e para as diversidades vivas, porque afinal existem diversidades descarregáveis para todos os gostos e perfis. Se quiseres diversidade esportiva, toma as incessantes discussões sobre as decisões no plano do futebol, das quais não decidimos nada, evidentemente, meros espectadores diversificados que devemos ser.

Se, por outro lado, quiseres diversidades noveleiras, toma essa e aquela; se é fílmica, olha essa, olha aqueloutra; se política, olha o tal partido de direita, ou veja o da esquerda tal. Se é religiosa, nem se fala, olha a profusão de seitas, o diverso cardápio exotérico. Se é, por sua vez, de gênero e étnica, olha o personagem tal, o ator tal, o comediante tal, cada qual com sua diversa qualidade tal.

A gestão da diversidade, constituída pela lógica de que tudo é diversidade, é a marca principal do capitalismo contemporâneo e o efeito mais nefasto e intencional que produz é a impotência, pois, em nome das diversidades de fast food, nada pode ser decidido coletivamente, porque será acusado de autoritário, autárquico, déspota.

Seja uma diversidade de fast food, descarregue-se de mundos e estilize-se espontaneamente, decidindo tudo que tem que decidir a partir de seu mundinho particular: esta é a palavra de ordem de nossa época!

O motivo pelo qual, sob esse ponto de vista, Líbia foi recentemente invadida, pelo despotismo americano-europeu-sionista, não foi nem pelo fato de Muamar Kadafi estar no poder há quarenta anos, nem muito menos porque teria – informação até hoje não confirmada – bombardeado seu próprio povo, seja porque efetivamente quem bombardeou o povo líbio foi e está sendo a diversidade bélica da Otan, do Pentágono e de Israel, seja porque, por todo o Oriente Médio, mesmo após a rebelião árabe, continua prevalecendo monarcas diversos, como ocorre em Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Kuwait, sem contar os países que viveram processos de rebelião populares sabidamente mais evidentes que na Líbia, como Egito, Iêmen, Bahrein, nos quais nada aconteceu de diverso, efetivamente.

O fim da biodiversidade

O motivo pelo qual Líbia foi invadida, enfim, além de seu petróleo e seu lugar estratégico no grande Oriente Médio, é sem dúvida o perfil de efetiva diversidade política de Kadafi, em relação ao estilo dos déspotas fast food que governam autoritariamente o restante dos países ricos em petróleo daquela região do globo. O motivo é, pois, a pedra no feijão fast food que foi e é Kadafi, sempre disposto a decidir fora do descarrego planetário da completa falta de decisão em que vivemos, no regime do descarrego de diversidades mercadológicas, que é o nosso.

A questão, pois, não é ser déspota ou não déspota, e os fatos estão aí para comprovar, mas ser ou não um déspota fast food, o que Kadafi efetivamente não foi, pois por mais que tenha feito imperdoáveis concessões ao fast foodismo, para não ser esconjurado do sistema-mundo, Kadafi mantinha ainda uma perigosa independência, seja porque confabulava uma diversidade de contatos e intercâmbios com países esconjuráveis pelo monopólio numeral do dólar, como Venezuela, China, Rússia, seja porque abrigava projetos de decisões coletivas, como o relativo à fundação de um Banco e o de um sistema de comunicação pan-africanos, independentes, respectivamente, de Wall Street e do ventríloquo sistema de descarrego midiático americanizado.

A questão ontológica, mais que odontológica, portanto é esta: ser ou não ser uma diversidade fast food. O papel, portanto, do descarrego midiático é este: produzir e reproduzir tudo que existe como fast-food, de tal sorte que a questão ontológica venha a se esfumar na profusão de diversidades não decisórias do mundo, as não esconjuráveis e as esconjuráveis, pois assim podemos escolher, entre tantas plumas e paetês, ser a religião de nós mesmos, em guerra santa em relação a toda diversidade viva, porque ávida de inventar mundos diversos, midiáticos, alimentares, econômicos, políticos, fora da impotente diversidade do mesmo.

Por sua vez, a questão monolítica, mais que política, é esta: a constituição de um mundo de diversidade é impossível num contexto de mídias que concentram poderes autárquicos e cuja principal finalidade é a produção de fantasias narcísicas de diversidades, num cenário virtual em que só podemos escolher o mercado das diversidades descarregadas, esconjuradas, expulsas de si mesmas.

Finalmente, a diversa questão política é esta: sem efetivas diversidades midiáticas, independentes das sessões de descarrego das diferenças vivas do mundo – americanas ou não – o fim da biodiversidade será a onipresente palavra de ordem, ainda que seja editada pelos jogos de luzes da diversidade de mentiras do sistema mundial de esconjuração da verdade ou o sistema mundial de perjuro midiático.

E a questão de sempre, como consequência, é esta: decidir além de mim, de si e de ti. Decidir o diverso, no diverso, pelo diverso, coletivamente.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo]

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