Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > COLLOR vs. LULA (1989)

A mais polêmica edição do Jornal Nacional

Por Alexander Goulart em 19/02/2008 na edição 473

É comum encontrarmos em livros e trabalhos acadêmicos a sentença de que a edição do debate entre Lula e Collor, exibida pelo Jornal Nacional, foi manipulada em benefício de Collor e decisiva no processo eleitoral de 1989.

A Globo sempre negou que tivesse havido má-fé, mas admite que não foi uma edição equilibrada. Por outro lado, mesmo o PT tem consciência de que Lula não havia se saído tão bem no debate quanto seu opositor, ou seja, o desequilíbrio do confronto foi reproduzido no Jornal Nacional. Há quase 20 anos permanece a discussão e a pergunta: a edição do debate apenas reproduziu a má performance de Lula ou foi deliberadamente manipulada de modo a privilegiar Fernando Collor?

No livro Jornal Nacional, a notícia faz história (obra publicada pela Jorge Zahar em 2004), do projeto Memória Globo, encontram-se algumas luzes e sombras sobre o episódio. A emissora não se posiciona, mas apresenta elementos que tornam o debate ainda mais interessante. Os depoimentos transcritos no livro apresentam contradições sérias. Difícil saber onde está a verdade.

Inexperiência, e não má-fé

Na época do debate entre os dois candidatos à presidência, já no segundo turno, as pesquisas apontavam um empate técnico; logo, o confronto na televisão era peça-chave na disputa. No dia seguinte ao debate, a Globo exibiu duas edições diferentes sintetizando o confronto entre os candidatos. A primeira foi ao ar no Jornal Hoje. É consenso que o material apresentado foi imparcial e bem equilibrado; talvez tenha havido até um equilíbrio inexistente no debate em si. Já a edição da noite, no JN, apresentou Collor como campeão do confronto.

A Globo, que procurou a isenção na cobertura de todo o processo eleitoral, na reta final parece ter assumido uma posição, justamente na hora do ‘empate técnico’. Segundo um relato contido no já referido livro sobre o Jornal Nacional, Boni afirmou, na Folha de S.Paulo, que a Central Globo de Jornalismo fizera uma edição favorável a Collor, não seguindo a orientação da direção da empresa para que o tratamento fosse imparcial. Boni deixou claro que não concordou com a edição, mas amenizou a influência da emissora sobre o eleitorado.

Já Roberto Marinho, diante da declaração de Boni à Folha, afirmou que o seu vice-presidente de operações não entendia de eleições e que o Jornal Nacional tinha sintetizado de maneira correta o debate, visto que Collor havia se saído melhor.

João Roberto Marinho diz ter gostado da matéria exibida no Jornal Hoje, mas que gostou mais da que foi ao ar à noite, concordando com o argumento de seu pai. Ainda assim, ele ressalta que as duas edições foram equivocadas, o que se devia a inexperiência e não a má-fé.

‘Manipulação foi contra mim’

Os profissionais envolvidos diretamente no caso têm diferentes explicações para o episódio, mas concordam em um ponto: a edição foi imparcial e manipulada em benefício de Collor. Mas então, qual é a dúvida? A dúvida paira sobre a responsabilidade jornalística; quem manipulou e por quê?

Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo, acusa nominalmente Alberico de Souza Cruz, um de seus diretores, juntamente com o editor de política, Ronald de Carvalho, de terem deformado a edição apresentada no Jornal Hoje e que deveria ser repetida sem qualquer alteração.

‘Alberico, à minha revelia, mandou fazer alterações, das quais eu só tomei conhecimento no ar. Então eu estava diante de um caso típico de deslealdade, de traição profissional, traição funcional (…). Foi um caso típico de deslealdade profissional desse rapaz que era uma pessoa de minha confiança e que segue até hoje e vai continuar negando até o Juízo Final. Mas, no Juízo Final, continuarei a responsabilizá-lo por isso’ (Armando Nogueira).

Alberico de Souza Cruz, por sua vez, afirma que recebeu uma ligação de Ronald de Carvalho dizendo que Alice Maria e João Roberto Marinho queriam alterações na edição apresentada no Jornal Hoje, pois Lula teria sido privilegiado e o correto seria algo mais equilibrado. Alberico afirma que não quis se envolver na questão e deixou Ronald livre para fazer como quisesse. Alberico é enfático ao dizer que a edição foi correta, mostrou que Collor havia se saído melhor do que Lula, mas de forma alguma teve responsabilidade sobre ela.

‘Eu não desci sequer para ver a edição. Eu não estive na ilha. Eu estava na minha sala (…). Para mim é uma manipulação que se fez contra mim por uma razão muito simples: é que o dr. Roberto Marinho depois me escolheu como diretor de jornalismo. Eu vejo falar em crise na redação, que ameaçavam brigar comigo. Mas continuei na Globo do mesmo jeito, sem ninguém falar nada comigo’ (Alberico de Souza Cruz).

Entre 13:30 e 19:30hs.

Alice Maria, então diretora-executiva da Central Globo de Jornalismo, afirma que mandou reproduzir no Jornal Nacional a mesma matéria do Jornal Hoje, porém, ressalva que Alberico telefonou para Armando Nogueira sugerindo algumas modificações. Armando teria concordado, mas avisado que a isenção deveria ser mantida.

‘Eu estava na sala do Armando quando o Jornal Nacional foi ao ar. Ao ver a edição do debate, levei um susto. A matéria do JN não tinha nada a ver com a do Hoje. O Alberico ignorou a orientação que recebera. Na verdade, ele tinha traído a confiança do Armando e alterado completamente a edição’ (Alice Maria).

Ronald de Carvalho assina embaixo da defesa de Alberico Souza Cruz e assume para si toda a responsabilidade da edição. Ele diz que não concordava com a isenção, que naquele momento era preciso mostrar a realidade. Ronald diz ter recebido de Alice Maria ordens para refazer a edição, pois estava tudo muito igual e o debate não havia sido assim, mas ressalva que os critérios foram seus e de mais ninguém. Ronald afirma ter ido para a ilha, liberado o editor Octávio Tostes, e ter feito tudo sozinho.

‘Eu, desde o primeiro momento, sempre tenho dito e repito: o único responsável pela edição do debate fui eu; não recebi instruções de ninguém’ (Ronald de Carvalho).

Wianey Pinheiro, na época editor regional de SP, foi o responsável pela edição exibida no Jornal Hoje. Ele lembra que foi parabenizado pelo trabalho e orientado a fazer pequenas modificações gráficas na matéria que seria reproduzida à noite. Porém, conta que num certo momento viu a movimentação do editor Octávio Tostes fazendo todo o trabalho. Otávio teria recebido orientação para mexer bastante. O que Pinheiro não compreendia é por que a edição tão elogiada pela direção de jornalismo e pela família Marinho estava sendo alterada.

‘Um fenômeno que talvez algum dia se saiba é o que aconteceu entre uma e meia da tarde e sete e meia da noite. O que aconteceu para ter essa mudança e, por orientação direta do Alberico, se cometeu aquela violência. São coisas que eu não sei discernir sobre elas. Só acho que o jornalismo da Globo não merecia ter sofrido aquela violência’ (Wianey Pinheiro).

Uma autoridade ‘mais importante’

Octávio Tostes, o homem que esteve à frente da ilha de edição, relata que Ronald de Carvalho disse-lhe textualmente para fazer uma edição com o pior do Lula e o melhor de Collor. Octávio diz que também recebeu orientações diretas de Alberico Souza Cruz, que ele esteve na ilha duas vezes.

‘Não havia da parte do Ronald e do Alberico qualquer preocupação com isenção. Foi uma edição manipulada (…). Ronald de Carvalho deu a orientação inicial e não fez mais nada. Eu fiz a edição seguindo as ordens dele e do Alberico. A edição manchou a história da Globo e, em escala muito menor, mas gravíssima no nível individual, é uma nódoa na minha carreira’ (Octávio Tostes).

Francisco Tambasco, editor de imagens que atuou com Octávio Tostes, lembra que Ronald de Carvalho várias vezes pegava a fita com a edição e levava para a direção e, ao retornar, pedia mais alterações. Tambasco diz que Octávio Tostes alertou Ronald de Carvalho sobre o desequilíbrio, mas ele teria respondido que não era ele quem estava fazendo aquilo, mas a diretoria.

‘O trabalho foi sendo feito por etapas. Na verdade, não era só cortar o tempo de um e deixar do outro. Tinha, se não me engano, substituição das respostas. E cortar é mais fácil, você vem cortando. Mas o trabalho era tirar uma resposta e colocar uma outra. Isso era mais trabalhoso e isso foi importante na edição. Não foi só cortar tempo. O contexto da entrevista é que mudou bem’ (Francisco Tambasco).

Os depoimentos de todos os envolvidos deixam claro que houve manipulação em favor de Collor, mas a responsabilidade continua obscura. Embora Ronald de Carvalho assuma tudo para si, os depoimentos dos editores apontam na direção de Alberico, o qual, por sua vez, se exime de qualquer responsabilidade. Curiosamente, Alberico e Ronald poucos meses depois do episódio foram alçados aos cargos de diretor-geral da Central Globo de Jornalismo e diretor editorial, respectivamente. Tal promoção só pode ser compreendida à luz de duas hipóteses: coroação da inexperiência (João Roberto Marinho afirma que a edição foi fruto da inexperiência) ou, talvez, coroação da competência (Roberto Marinho disse que a edição foi correta. Collor foi feliz e Lula infeliz, no debate).

Poderíamos, ainda, conceber uma terceira possibilidade. Era preciso muita coragem para não seguir as ordens de Armando Nogueira e Alice Maria, a não ser que uma autoridade mais importante desse uma contra-ordem; uma autoridade capaz de arcar com as conseqüências sem precisar aparecer e ainda garantir o futuro de seus fiéis escudeiros com o poder da caneta.

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Jornalista, doutor em Comunicação, Porto Alegre, RS

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