Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > TOMÁS ELOY MARTÍNEZ (1934-2010)

A última entrevista

Por Ubiratan Brasil em 03/02/2010 na edição 575

O escritor argentino Tomás Eloy Martínez morreu no domingo (31/1), aos 75 anos, após uma longa luta contra o câncer. Autor de Santa Evita, o romance argentino mais traduzido na história, e A Novela de Perón, biografias do mítico presidente Juan Domingo Perón (1946-1955 e 1973-1974) e sua segunda esposa, Eva Perón. No ano passado publicou seu último romance, Purgatório, com a qual buscou conscientizar o leitor que as ditaduras ‘mais cruéis’ não são possíveis sem a cumplicidade da sociedade.


Martínez conversou com o repórter do Estado ‘sobre um momento ainda doloroso vivido em seu país’, por telefone, de Buenos Aires. O livro, traduzido por Bernardo Ajzenberg e publicado pela Companhia das Letras é um de seus mais intensos romances e mesmo não tendo morado na Argentina durante a ditadura militar (1976-1983), ele produziu o vívido retrato de uma época de sombras.


Trata-se do purgatório vivido por Emilia Dupuy, filha de um fiel colaborador do regime, que busca durante 30 anos o marido Simón, desaparecido político. Uma procura tão cega que, quando o reencontra, sem nenhuma marca de envelhecimento, o leitor duvida entre a realidade ou fruto de sua imaginação.


***


O senhor não viveu o período de ditadura militar na Argentina?


Tomás Eloy Martínez – Nem um só dia. Fui ameaçado de morte no final do governo de Perón e decidi sair. Mas, mesmo não estando aqui, acompanhei o que aconteceu. Estabeleceu-se, na Argentina daquela época, uma cumplicidade tanto pela omissão como pela comissão. Algo semelhante a que aconteceu à Alemanha de Hitler.


A tirania, portanto, sobrevive também pela colaboração do povo?


T.E.M. – Sim, isso é geral. No caso alemão, houve um enorme fascínio popular pelo caudilhismo. Na Rússia de Stalin, havia uma ditadura imposta pelo terror, o que dificultava reação popular. Sem a cumplicidade da sociedade, nenhuma tirania sobrevive.


Ainda há casos de desaparecidos na Argentina, não?


T.E.M. – Sim, uma enorme quantidade. Especialmente os que não foram enterrados em túmulos anônimos, desaparecendo para sempre no oceano ou no Rio da Prata. Esse momento em nossa História ainda não se encerrou: persiste o duelo entre civilização e barbárie. Abrem-se feridas continuamente. Por conta disso, a Argentina ainda chora por seus mortos de uma forma que não se vê em nenhum outro país. São lágrimas que lamentam por uma nação que não existe mais.


Emilia Dupuy revela reações diversas ao longo do romance: a esperança em rever Simón vivo a deixa alheia à barbárie dos militares; mas, ela também demonstra-se cética a ponto de participar de um evento contra a ditadura. O ceticismo se manifesta em Emilia quando ela descobre o que se passa ao redor. É um reflexo do que aconteceu com a população argentina em geral: havia uma grande parcela que preferia não enxergar que os responsáveis por sua desgraça era o governo. Essa constatação é aterradora. Mas o fato de Emilia aparentemente não ter uma ideologia foi uma opção que adotei para não reforçar a história política. O que me interessava era o drama humano, essa busca cega pelo amado. Claro que Emilia não é inocente – ela se sente mal, por exemplo, de ter de dividir a mesa do almoço com os amigos poderosos do pai. Mas, volto a dizer, Emilia reflete o que se passava na Argentina na época: o monstro era tão aterrorizante que cegava as pessoas. Essa falta de ideologia é que permitiu à ditadura sobreviver tanto tempo.


Como explicar o amor cego de Emilia por Simón?


T.E.M. – É o mesmo das tragédias gregas, um amor que não se cumpre totalmente por conta do desaparecimento de Simón. E a busca de Emilia pelo amado – ao menos por seu corpo, o que confirmaria sua morte – me faz pensar em Antígona, de Sófocles, que desobedece um decreto de seu tio, o rei Creonte, e enterra o corpo do irmão, condenado a apodrecer em via pública por ter sido considerado um traidor na guerra de Tebas.


Ainda existem pessoas na Argentina como Dupuy, o pai de Emilia?


T.E.M. – Sim, existem, embora estejam inofensivos. Não quero citá-los, mas Dupuy não se inspira apenas em apenas uma pessoa, pois não houve ninguém que concentrasse tanto poder como ele. Eu diria que é fruto de uma união de vários nomes, um compêndio de diversos ideólogos e factótuns argentinos.


Quando escrevia, qual era o tema que mais lhe interessava?


T.E.M. – Creio que o dos desaparecidos. Não apenas os reprimidos por um governo de exceção, mas também aqueles que foram vítimas de ações diversas. E o que isso causou para a humanidade. Por exemplo, quantas melodias se perderam quando uma bala acabou com a vida de John Lennon? Ou quantas músicas maravilhosas deixaram de ser compostas por conta da morte precoce de Mozart?


Fatos que empobreceram o mundo. Emilia e Simón são cartógrafos, ou seja, fazem mapas, trabalho baseado na exatidão. Mas vivem em uma época de incerteza: é curiosa essa contradição.


T.E.M. – Sim, tem razão. Escolhi essa profissão porque os cartógrafos são os primeiros grandes narradores da História. Quando ainda não se sabia como eram os contornos dos continentes e dos mares, eles imaginavam perfis da Terra, desenhavam costas, criavam um desenho imaginário do mundo. Isso me fascina e me fez pensar nos personagens como cartógrafos à moda antiga.


Aliás, há uma passagem na trama em que Simón questiona se os mapas são metáforas do mundo e Emilia responde que, na realidade, são metamorfoses.


T.E.M. – Toda metáfora não passa, na verdade, de uma metamorfose. E, de algum modo também, toda a construção de uma realidade através de um mapa representa uma transformação dessa realidade. Essa é a função dos romances: criar uma realidade que é outra.


E uma curiosidade: em que o senhor se inspirou para criar o convite de Dupuy para Orson Welles filmar os valores argentinos durante a Copa do Mundo de 1978, inspirado no que Leni Riefenstahl fez durante a Olimpíada de Berlim, em 1936?


T.E.M. – Eu realmente me encontrei com Welles em Toledo, na Espanha, durante a última tourada de Antonio Bienvenida. Conversamos sobre touros, assunto do qual ele era especialista, mas não falamos sobre cinema, pois estava concentrado na arena. Nunca mais o revi, mas achei uma boa ideia usar essa história na trama.

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Repórter do Estado de S.Paulo

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