Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > CARTAS DE KUCINSKI

Adonay De Nuccio e Silas Martí

23/11/2004 na edição 304

‘O professor de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes e atual assessor da Secretaria de Comunicação do governo federal, Bernardo Kucinski, fala sobre sua insatisfação com o governo Lula e sua visão das relações entre a imprensa e o poder. Para o autor de ‘Jornalistas e Revolucionários’ e livros sobre Lula, o PT e a dívida latino-americana, o governo atual não está bem, a política econômica serve aos interesses do capital financeiro e não se justifica, os jornais são precipitados e o Ministério Público pratica abusos de poder. O entrevistado ainda elogia a política externa da gestão petista, avalia o impacto da reeleição de Bush e sugere novos rumos para a integração do Brasil com a América Latina e o mundo.

JORNAL DO CAMPUS: Sendo um homem do jornalismo num cargo público, como você acredita que deve ser a relação entre imprensa e governo?

BERNARDO KUCINSKI: Imprensa é imprensa e governo é governo. Eles não têm que ter relação nenhuma. A imprensa tem que criticar, noticiar, discutir, educar. O governo é um objeto para a imprensa, assim como a sociedade. O governo é poder e, portanto, trabalha com segredo, revela aquilo que interessa. O segredo é um instrumento da política e do poder, e a imprensa trabalha para derrubar o segredo. O governo tem obrigações para com a imprensa porque deve prestar contas à sociedade. A imprensa não tem nenhuma obrigação em relação ao governo, tem em relação à verdade.

JC: Sua visão da imprensa mudou desde que foi para Brasília?

KUCINSKI: Não mudou nada. Eu continuo tendo uma visão muito negativa. No governo, deu para ver como é que o pessoal não cobre realmente a agenda do dia. O que mudou foi minha visão de governo. Nunca imaginei que ele fosse uma coisa tão ruim. Mas a imprensa não mudou. Infelizmente, ela é ruim em todos os governos.

JC: Como você avalia a crítica da imprensa à proposta de criação do Conselho Federal dos Jornalistas e à nova lei do audiovisual?

KUCINSKI: Esse foi um momento de histeria da imprensa. Acusaram o governo de stalinismo. Foi uma falta de seriedade. Eu nunca vi uma coisa dessas. A Globo sentiu que o governo tem um projeto na cabeça de organizar o setor audiovisual, que é muito importante do ponto de vista industrial. Eles quiseram se antecipar para deslegitimar o governo. Eles criaram um clima que não permite a discussão e acusam o governo de totalitarismo. Foi uma postura totalitária da imprensa.

JC: O tratamento da imprensa é o mesmo no governo atual em relação a governos anteriores?

KUCINSKI: Não. É um pouco paradoxal. Por um lado, a imprensa é mais crítica ao governo Lula, como nos casos do Fome Zero e Bolsa-Família, mas por outro é benigna porque trabalha pouco. Se a imprensa trabalhasse mais, seria mais severa. Estaria cobrando mais. Ela é pautada muito pelos tucanos. Não é severa com o governo porque ele está seguindo a política do outro governo, que a imprensa burguesa apóia. Ela aplaude a política econômica. Se ela aplaude no essencial, não pode ser crítica.

JC: Quais foram as maiores falhas do governo na área da comunicação?

KUCINSKI: O presidente Lula é um comunicador de primeira, então acha que se comunica bem. Não só isso como também acha que entende de comunicação. Ele realmente entende, mas às vezes pensa que entende e não entende. O governo não pode ser assim, tem que ser uma coisa um pouco mais sistêmica. E depois há a insegurança do Duda Mendonça. Ele já fez a campanha e por isso tem uma presença irregular no governo, mas não é do governo. Ele não tem que estar ali palpitando, tem que receber ordens, porque é dono de uma das agências contratadas pelo governo. Ele tem que ficar do outro lado do balcão.

JC: Quando Duda Mendonça foi preso numa briga de galos no Rio de Janeiro, o comportamento da imprensa foi adequado?

KUCINSKI: Uma coisa que se pode observar em todos esses episódios é que quando a personagem pertence às elites, a imprensa é muito recatada, não faz alarde. Não fizeram com o Duda Mendonça, não fizeram com o [Henrique] Meirelles. Agora, o José Dirceu é martelado até hoje por causa do caso Waldomiro [Diniz] porque ele não pertence às elites. A imprensa brasileira tem um padrão duplo de apreciação. Ela, na verdade, se vê parte da elite. Nós temos direitos. A elite no Brasil tem privilégios.

JC: Isto se restringe à imprensa brasileira?

KUCINSKI: Não. Essa questão é geral, mas o fenômeno se manifesta de maneira patológica no Brasil. A Justiça é uma justiça de classe. Ela não é neutra, foi feita para estre-par com os pobres. Se você for pe-go com um pacotinho de maconha, está estre-pado. Agora, se você roubar 100 milhões de um banco, não acontece nada. O governo Lula até tenta inovar nessa área. Ele desbaratou várias quadrilhas de gente importante. Mas o governo prende e a Justiça solta. Aquele fazendeiro de Unaí, que foi acusado de mandar matar três fiscais do Ministério do Trabalho, foi solto. É outro problema gravíssimo da disfunção do Estado brasileiro. Eu acho que o governo Lula foi muito devagar nisso. Ele propôs uma reforma judiciária, o controle externo, mas é muito pouco para a gravidade do problema.

JC: E quanto às acusações de casuísmo no governo, como a medida provisória que deu status de ministro ao diretor do Banco Central durante investigações de seu suposto envolvimento ilícito com doleiros?

KUCINSKI: Em primeiro lugar, o governo é casuístico. É um governo de pequenos acordos e transações. É um governo de táticas, que não tem uma estratégia. No caso específico do Meirelles, o Brasil acumulou uma série de problemas. Hoje o nosso país é totalmente disfuncional. São Paulo teve uma greve de seis meses [do poder Judiciário] e não acon-teceu nada. O que acontece com o Meirelles? Existe hoje no Brasil um personagem que se chama procurador do Ministério Público. Pela Constituição, [os procuradores] podem fazer o que quiserem. Estão copiando o que foi feito na Itália, a Operação Mãos Limpas, se julgam a inquisição brasileira. Estão parando hidrelétricas e usurpando o papel das agências reguladoras. Eles abrem processo por causa de qualquer notícia de jornal.

JC: O Ministério Público não deveria ter o poder de investigação?

KUCINSKI: Na investigação, eles claramente praticam abuso de poder. Principalmente porque denunciam e fazem julgamento pela imprensa. Fica parecendo mais linchamento do que julgamento. É um julgamento midiático. O caso Meirelles tem a ver com tudo isso: casuísmo no governo, medo que o governo tinha que eles aprontassem alguma coisa contra o Meirelles. Os procuradores chamam jornalistas e abrem processos a partir de coisas que jornalistas falam para eles. É uma aliança de interesses. A imprensa, como está em crise, não faz investigação própria, ela usa o dossiê do investigador, já publica direto a matéria. A Justiça determina, como na Constituição, a presunção da inocência: todo mundo é inocente até que provem o contrário. Eles trabalham seguindo a presunção da culpa. Eles estão, no fundo, violentando a justiça.

JC: Você está desiludido com o governo Lula?

KUCINSKI: O governo não cumpriu as promessas que fez. Ele mudou de rumo. O Brasil trabalha para servir o capital financeiro e nós não conseguimos romper com isso. E teve coisas mais específicas. Acho que um dos momentos mais dramáticos foi a discussão do aumento do salário mínimo, porque aquela foi uma promessa específica de campanha muito concreta e, na hora ‘H’, o governo deu para trás. Prevaleceu uma visão de setores conservadores de que isso era ruim para economia.

JC: Mas não houve avanços na área econômica?

KUCINSKI: A retomada da economia é um fenômeno espontâneo, cíclico. Não tem muito a ver com o governo. O pouco que tem a ver com o governo tem a ver de forma negativa. Nós rebaixamos salários e, ao rebaixar salários, nós fizemos a economia decolar um pouco, mas é uma forma negativa de fazer isso acontecer.

JC: O Comitê de Política Monetária é conservador demais?

KUCINSKI: O Copom não é conservador. O Copom se constitui em um núcleo deformado de pessoas. Alguém fez uma comparação do Copom com a Oban. A Oban foi um mecanismo de repressão na ditadura. Antes de haver o DOI-Codi foi criada a Oban. A primeira operação dela foi contra a universidade, a Maria Antônia. O Copom é assim, é um organismo que tem autonomia total e está botando para quebrar, faz coisas tresloucadas, co-mo a Oban fazia no campo da repressão. Ninguém controla. Nós chegamos a uma situação limite nesse caso. As últimas decisões do Copom são verdadeiros atos de provocação. É um organismo autoritário, que não tem representação da sociedade civil e não consegue se justificar nem pelo lado da técnica.

JC: Você é a favor da redução da taxa básica de juros?

KUCINSKI: Todo mundo é a favor, a não ser quem ganha com a alta dos juros. É uma unanimidade nacional. Já se passaram dois anos e a maioria das coisas ainda não decolou. Os problemas de infra-estrutura se arrastam. O governo está se arrastando e não consegue decolar.

JC: Quais são os principais problemas do governo que o impedem de avançar?

KUCINSKI: O governo está muito dominado pelo capital financeiro. Desde a transição, houve aquele medo de fuga de capitais, houve um certo receio. O fato é que hoje o capital financeiro domina a política do governo. Nesse sentido, o governo é um governo de continuidade.

JC: Muita propaganda e pouco resultado?

KUCINSKI: É um governo que recorre muito à propaganda política. O governo não está bem.

JC: O que o governo deve fazer para ficar bem?

KUCINSKI: Dar prioridade ao desenvolvimento, acabar com essa conversa de que não pode crescer mais que 3,5%, focar em infra-estrutura e não ficar esperando a aprovação das Parcerias Público Privadas.

JC: Isso pode acontecer no ano que vem?

KUCINSKI: Eu sou muito cético. Tem que demitir esse pessoal do Banco Central. Tem que jogar dinheiro na infra-estrutura, o que vai gerar emprego e baratear custos. Tem que atacar as disfunções, o que é mais difícil. Tem que reduzir os impostos, criar um sistema mais simplificado para as médias e pequenas empresas. O governo tem que ser mais ousado, porque se satisfaz com pouco.

JC: Mas houve avanços. O Brasil não conseguiu ganhar espaço no exterior nessa administração?

KUCINSKI: Sim, ganhou muito. Hoje o Lula é uma liderança mundial. Ele ocupa o lugar do Nelson Mandela. Criou o projeto Fome Zero, teve desenvoltura em como foi feita a denúncia dos subsídios agrícolas. O Lula conseguiu algumas vitórias importantes, só que a situação está chegando nos limites e de repente pode tudo soçobrar.

JC: No campo internacional, qual o impacto da reeleição de Bush para o Brasil?

KUCINSKI: É ruim para todo o mundo. O que é ruim para o mundo é ruim para o Brasil, é ruim para a humanidade. Ele é um bandido. A eleição de um bandido é ruim para todo o mundo. O Bush é um político que só defende os interesses americanos. Ele não quer assinar o Protocolo de Kyoto, ele fez uma guerra ilegal com o Iraque. É um sujeito realmente nefasto.

JC: O que falta na política externa do Brasil?

KUCINSKI: Houve muitos avanços. O governo teve uma visão estratégica, mas também houve uma contradição entre política interna e externa. A estratégia partia da idéia de fazer a integração física da América Latina, com estradas, ferrovias e pontes. Nada disso foi feito. Faltou ousadia. A América Latina é o único continente no mundo que não tem estradas, porque o imperialismo nos dividiu. Sem a união do continente, nada vai dar certo. Teria que criar um banco de fomento para o continente. A idéia é que com a política externa a gente romperia o cerco, mas não conseguimos.’

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