Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ENTRE ASPAS >

Adriana Del Ré

06/09/2005 na edição 345

‘Oitavo episódio da série ‘Chico Buarque Especial’, O Futebol estréia na programação da DirecTV a partir de hoje, com reapresentações até o dia 14. O especial tem por premissa focar temas recorrentes na vida e obra de Chico Buarque, sob análise do próprio compositor. E não é segredo para ninguém que, no patamar das grandes paixões de Chico, o futebol ocupa algum dos lugares mais privilegiados, próximo de música e literatura.

Há quem diga que Chico só se tornou músico porque não conseguiu brilhar no futebol. A dado momento do episódio, ele admite que, antes de começar a gostar de música, pensava em ser jogador, embalado pela admiração por vários craques. E não por influência do pai, Sérgio Buarque de Hollanda, que não gostava do esporte.

Na constelação futebolística que povoa seu imaginário, ele lembra do centroavante Pagão, do Santos, de quem é grande fã e a quem descreve como jogador elegante e com uma ‘troca de bola formidável’. Ele e Pagão se encontraram em 1984, no estádio do Politheama, no Rio. O momento, um dos mais importantes para o Chico fã, foi ao ar em um especial de TV e resgatado neste episódio. Há toda uma mis-en-cène de Chico tirando a roupa comum (as câmeras registram, rapidamente, o compositor nu) e vestindo a roupa do time. Fã e ídolo trocam figurinha e batem bola juntos.

Ainda em suas memórias, vem-lhe a inauguração do Maracanã na Copa de 1950, quando ele ainda morava em São Paulo. ‘Era o maior estádio do mundo. Ficava só imaginando’, recorda Chico. Ao pé do rádio, durante a final Brasil x Uruguai, Chico ouvia o locutor falar que o estádio estava vindo abaixo e ele achava que aquilo estava realmente ocorrendo. O Maracanã foi escolhido para ser cenário deste episódio, gravado um dia antes do início da reforma do estádio. ‘O sujeito na geral não vê o jogo todo, só abaixo do campo, só vê as pernas dos jogadores, não vê o que acontece no outro lado. Por isso, muitos trazem rádio para entender o que está acontecendo’, conta. ‘Mas a geral vai acabar.’

Torcedor do fluminense, Chico diz que é não fanático pelo time, mas por futebol. Era torcedor mais voraz aos 6, 7 anos. ‘Gosto mais de futebol do que do Fluminense.’ Criador do time de botão Politheama, ele entoa, divertindo-se, o hino também idealizado por ele. ‘A história do Politheama tem 2.600 jogos, alguns empates e nenhuma derrota.’

O Futebol mostra cenas de jogos realizados para o especial, de partidas disputadas na Vila Belmiro, estádio de Santos, contra veteranos do time e outras em Lisboa, Paris e Budapeste, além de cenas de arquivo. Nesse ínterim entre jogos e papo sobre futebol, Chico canta repertório que remete a esse universo, incluindo músicas como Bom Tempo, Biscate e O Futebol. ‘O futebol na música popular sempre foi muito citado’, observa.

Em breve, mais três episódios da série serão lançados em DVD pela EMI.’



Suzana Uchôa Itiberê

‘Vícios são tema de novo seriado’, copyright O Estado de S. Paulo, 5/09/2005

‘Não há nada parecido com Intervenção no universo dos reality shows – neste caso, melhor chamar de TV realidade. A série que estréia hoje, às 22 horas, no canal pago A&E choca mais que as sangrentas cirurgias plásticas de programas como Extreme Makeover e Dr. 90210. O título refere-se a um método de recuperação de viciados, pelo qual um intervencionista une-se a amigos e familiares para convencer o sujeito a se tratar. ‘Os participantes acreditam estar sendo filmados para um documentário sobre o vício em geral’, conta o produtor-executivo Robert Sharenow. ‘Não sabem que a intervenção está sendo planejada em paralelo.’ As imagens impressionam, a linguagem não é censurada e o próprio canal faz uma advertência antes da exibição.

Vale tudo, de jogadores compulsivos e cleptomaníacos a alcoólatras e drogados. Cada episódio acompanha o caso de duas pessoas. No primeiro, ambos são viciados em droga. Tommy é um executivo de 38 anos que consome cocaína há um ano e meio. Gastou mais de US$ 200 mil com a droga. Virou um trapo de homem, que vendeu a casa, o carro e o plano de previdência para manter o vício. Agora vive pelas ruas e rouba para comer. O outro caso abordado fala de Alyson, ex-estagiária da Casa Branca, garota prodígio na escola, levada ao vício por um namorado delinqüente. Tornou-se dependente de morfina e outras drogas legalizadas, mas também não dispensa uma sessão de crack. A câmera acompanha a jovem em ação no quarto do pai doente, que dorme enquanto ela rouba morfina do estoque dele. É dramático.

Sharenow afirma que não há encenação ou manipulação, daí o termo TV realidade. ‘Alyson era um caso de vida ou morte, estava fora de controle e não hesitou em revelar como e com quem se drogava.’ A intervenção é o momento em que o viciado é convidado (sim, a produção paga tudo) a se internar numa clínica de reabilitação por no mínimo 90 dias. Nessa hora entra o intervencionista, o profissional que explica os métodos de tratamento e atua como mediador entre a família e a pessoa, que chega ao encontro sem ter noção do que a espera e nem sempre reage bem à proposta. ‘Temos tido resultados positivos e haverá até mesmo um episódio especial para mostrar como muitos deles estão hoje’, diz Sharenow. Não há cenas dos pacientes no processo de desintoxicação, assim como não existe uma preocupação em analisar as causas do problema. ‘Não quisemos sair em busca do motivo porque está ligado ao passado dos participantes, queremos focar o presente’, explica o produtor. ‘Um dos objetivos é mostrar que o vício pode acometer qualquer um, por um número enorme de razões, mas que é possível confrontá-lo.’ Sharenow conta ainda que o alto índice de audiência nos Estados Unidos já garantiu uma segunda temporada de Intervenção.’



Inácio Araujo

‘Cinemascope: a contemplação dos espetáculos’, copyright Folha de S. Paulo, 4/09/2005

‘Entendemos as superproduções em cinemascope como uma forma de Hollywood se defender dos avanços da televisão em seu território -o que é indubitável.

Improvável, contudo, é que este seja o único sentido do uso da tela larga e do gosto pelos superespetáculos entre os anos 50 e 60. Nesse período, os europeus haviam assumido as rédeas do cinema, tomando o tempo como dimensão essencial.

O cinema não era mais apenas imagens em movimento. Era a imagem do tempo. Isso é perceptível no neo-realismo, especialmente em Rossellini, e depois em Antonioni -entre tantos outros.

Ora, na América, o cinema continuava sendo movimento. Mesmo em Hawks, o mais ousado dos cineastas americanos em todos os tempos, o tempo decorre da ação. A superprodução em cinemascope é que, com sua grandiosidade, terá o dom de libertar o tempo. Hoje temos a oportunidade de observar, entre outras coisas, o enterro de Marco Aurélio em ‘A Queda do Império Romano’ (Telecine Classic, 21h). Quantos minutos dura? Há os personagens e a figuração. Há Cômodo e Lívio, os possíveis sucessores, há Sofia Loren de negro e há o vento que os flocos de neve tornam visível. Há as panorâmicas magníficas de Anthony Mann -quem melhor do que ele descortina a paisagem com o movimento panorâmico?

Como essas panorâmicas incidiam sobre grandes exércitos em movimento ou sobre cenários magníficos, a dimensão temporal acaba se introduzindo e, insidiosamente, tomando conta do filme. Não só deste, é claro: tanta grandiosidade -cenários, figurantes etc.- exigem ser vistos, e isso não se faz no vapt-vupt.

Assim, talvez, o tempo acaba se instalando como dimensão essencial no cinema americano, no mais insuspeito, tornando-se fator de modernização, libertando os demais cineastas das amarras da ação (por incrível que pareça) e permitindo a um público enorme o prazer da contemplação.’



HOJE É DIA DE MARIA
Renata Gallo

‘Sucata da Globo vira cenário’, copyright O Estado de S. Paulo, 5/09/2005

‘Padrão Globo de Qualidade implica, entre outras coisas, altos orçamentos empregados na cenografia. Mas não é que o produto que mais obteve aplauso da crítica e da emissora não utiliza quase nada desta verba? Hoje É Dia de Maria 2, que está sendo filmada e deve ir ao ar entre os dias 11 e 15 de outubro, montou seu cenário com sucata, com o lixo produzido pela Globo, como diz o diretor da microssérie Luiz Fernando Carvalho. ‘Optamos por fazer uma cidade de sucata para colocar o dinheiro do orçamento no aprendizado: nas aulas de expressão corporal, de voz, nas oficinas…’, diz.

Por isso, o elenco, o apoio e todas as equipes envolvidas, passaram a angariar material nas ruas ou nas sobras de cenografia da emissora. Isso aconteceu também com o figurino. Letícia Sabatella, por exemplo, que agora vive a espanhola Alonsa, trouxe para a emissora um chapéu feito com papel de bala criado por uma artista de rua de Curitiba. Do chapéu, todo o figurino de sua personagem foi criado.

Segundo Carvalho, o custo de um episódio da série é o mesmo de um capítulo de novela da Globo. ‘Se fosse cinema, seria um filme de baixo orçamento’, diz. Falando em cinema, o autor pretende, assim que acabar as gravações, ver a possibilidade de Hoje É Dia de Maria virar uma trilogia de cinema – ele não aceitou condensar a primeira fase em só um filme. ‘Há um convite para que a série se transforme em filme, mas ela foi toda feita para a TV. Quando todo mundo estiver descansando, vou ver se é viável.’ O que é certo é que serão lançados 3 CDs, com as músicas da série, e um livro.’



Daniel Castro

‘O próximo dia de Maria’, copyright Folha de S. Paulo, 4/09/2005

‘Parte do programa de TV mais surpreendente dos últimos anos sai do lixo que é produzido no Projac, a central de estúdios da Globo, no Rio, onde são feitas as novelas mais vistas do país.

A segunda temporada da microssérie ‘Hoje É Dia de Maria’, que será exibida entre 11 e 15 de outubro, está se alimentando desse lixo e transformando-o em luxuosos objetos cenográficos e peças de figurino. Uma cidade feita de papel, papelão e plástico foi toda construída com material recolhido no Projac. Um boneco gigante está sendo montado com sobras de metais do complexo.

‘Nos foi autorizado pegar o lixo da TV Globo’, reclama Luiz Fernando Carvalho, co-autor (com o dramaturgo Luís Alberto de Abreu) e diretor de ‘Hoje É Dia de Maria’, que levou dez anos para sair do papel. ‘Esse programa não tem um grande orçamento. No cinema, seria um filme de baixo orçamento, que são os que mais avançam em linguagem.’

Carvalho optou por economizar com cenários (mas sem empobrecer o resultado final) e investir essa verba na preparação dos atores, que passaram dois meses tendo aulas de música e de expressão corporal (e até palestra com psiquiatra junguiano e técnicas de aikidô). Carvalho afirma que cada um dos cinco capítulos de ‘Hoje É Dia de Maria 2’ custará o mesmo que um episódio de programa fixo da emissora -algo entre R$ 140 mil e R$ 200 mil.

O uso de material reciclado não é uma novidade em ‘Hoje É Dia de Maria’. A primeira temporada, apresentada em janeiro, já foi gravada dentro de uma bolha de 2.300 m2, que um dia serviu de estrutura de palco do festival Rock’n’Rio e que, vista de fora, parece um circo.

A bolha, montada do outro lado da rua em que fica o Projac, continua sendo o ‘estúdio’ de ‘Hoje É Dia de Maria’. É lá que a microssérie está sendo gravada, desde o dia 15. As gravações só devem acabar no próximo dia 20. São sete horas por dia, seis dias por semana. É tempo demais para uma série de TV de apenas cinco episódios de 40 minutos cada.

A localização da bolha, fora do Projac, é simbólica. Iniciado no cinema, com formação em literatura e arquitetura, Carvalho (diretor do longa ‘Lavoura Arcaica’) é o menos televisivo dos diretores da Globo. Normal então que trabalhe do outro lado da rua.

Na bolha, ao contrário dos estúdios das novelas, não há ar-condicionado (o que leva os técnicos da microssérie a usarem produtos especiais nas caracterizações). Em volta dela, há muita sucata. Construções de madeira do canteiro de obras do Projac viraram oficinas para os artistas plásticos e figurinistas de ‘Hoje É Dia Maria’. Servem também de depósito para o lixo recolhido por Carvalho.

Dentro da bolha ficam todos os elementos cenográficos da microssérie. Até ontem, abrigava um mar (feito com 20 telas presas a estruturas com alavancas giratórias que fazem o movimento das ondas, inspirado em telas de Paul Klee) e uma cidade de papel com prédios de oito metros de altura, suas ruas e até um teatro e uma rodoviária. Ao ver pela TV, tem-se a impressão de que o ambiente é muito maior. O efeito se deve a um ciclorama, um enorme painel de 10m de altura e 170m de largura que recobre internamente toda a bolha, em 360. Esse ciclorama é pintado à mão. As pinturas mudam conforme a paisagem ambientada. Em ‘Maria 1’, eram desertos e campos. Em ‘Maria 2’, será uma cidade em guerra, assumidamente inspirada no filme ‘Metrópolis’, de Fritz Lang.

Mas tudo isso foi destruído ontem. A metrópole de Mariazinha será arrasada pela guerra. Um novo cenário será montado no lugar.

A travessia

Em ‘Maria 1’, a menina Maria (Carolina Oliveira) abandona a casa do pai (Osmar Prado), onde era explorada pela madrasta (Fernanda Montenegro), em busca das ‘franjas do mar’. ‘Maria 2’ começa onde ‘Maria 1’ terminou, no mar, e conta a saga de sua volta para casa. Hipnotizada pelo oceano, Mariazinha é jogada por uma onda para uma terra distante, onde vive um gigante. Acreditando que tudo não passa de um pesadelo do gigante, tenta acordá-lo, mas cai dentro da boca dele e acaba no lixão de uma metrópole.

A boca do gigante e tudo o que tem dentro dela, diz Luiz Fernando Carvalho, são ‘metáfora do mundo como ele é hoje, das grandes corporações, da burocracia’.

‘Hoje É Dia de Maria 2’, avisa Carvalho, terá muito mais crítica social do que ‘Maria 1’ -que abordava temas como trabalho infantil. Os Asmodeus (demônios) que, em ‘Maria 1’, tentavam e desviavam Mariazinha de seu caminho, agora personificam a guerra, o consumismo.

O elenco é idêntico, mas apenas Carolina Oliveira faz o mesmo personagem. Rodrigo Santoro não é mais Amado. Incorpora dom Chico Chicote, morador de rua, poeta revolucionário que ama Alonsa (Letícia Sabatella) e acolhe Mariazinha na cidade.

‘A gente continua com arquétipos semelhantes. Amado trabalhava com o arquétipo do amor. Chico trabalha com o da esperança. Ele não é um Dom Quixote. Tem um pouco de todos nós. É corajoso e muito lúcido, louco em alguns momentos’, diz Santoro, que emagreceu dez quilos e usará roupas inspiradas nas obras de Arthur Bispo do Rosário (um interno de hospital psiquitriáco que produzia mantos hoje reconhecidos como obras de arte).

‘Alonsa é o arquétipo do feminino. Se veste de forma criativa, colorida. Todos os personagens aqui têm um pé na infância’, define Letícia Sabatella, que vestirá um sutiã feito de papel de bala com tampinhas e pedrinhas.

Inovação

‘Hoje É Dia de Maria 2’ promete ser mais inovadora do que ‘Maria 1’, que, entre outras experimentações, usou técnicas de animação. Carvalho apelará ainda mais a esse recurso.

Por exemplo, a destruição da metrópole em guerra será toda feita em ‘stop motion’ -animação com objetos. Toda a destruição será gravada (por uma câmera de alta definição). Na edição, parte dos quadros que compõe a imagem em movimento como a vemos será descartada, dando um efeito de seqüência picotada. O tráfego de veículos pela cidade também será em ‘stop motion’.

Todos os figurantes serão bonecos. Foram confeccionadas 120 cabeças, com diferentes expressões (algumas com movimentos de boca e olhos), que se revezarão sobre 15 corpos articuláveis de madeira e vidro. Em movimento, ‘atuarão’ em ‘stop motion’.

Mas a maior novidade de ‘Maria 2’ será sua narrativa, musical. As falas fluirão em poesia cantada ou quase cantada. ‘A música foi importante para a gente não repetir a linguagem. É também para acabar com esse preconceito de que ator brasileiro não sabe cantar’, diz Carvalho.

Assim, em ‘Maria 2’, além de composições de Villa-Lobos, haverá mais de 50 novas canções, compostas pelo produtor Tim Rescala, entoadas pelo elenco.

‘Hoje É Dia de Maria’, segundo Carvalho, continua sendo uma fábula baseada nos contos populares, transmitidos de forma oral e compilados por Câmara Cascudo. É, portanto, popular e erudita. Mas, agora, ‘Maria’ é mais globalizada, ou multifacetada. Há referências a escritores e artistas plásticos contemporâneos e do mundo todo. ‘Queremos falar do nosso cotidiano’, explica.

Carvalho recusa o rótulo de ‘obra de arte’ para a artesanal ‘Hoje É Dia de Maria’. ‘É televisão’, afirma. Fernanda Montenegro discorda um pouco: ‘Esse é um trabalho alternativo. Do lado de cá, na bolha, criou-se um método de trabalho que aproxima a TV do teatro e do cinema, com as oficinas. Não é industrial’.

A segunda ‘jornada’ (Carvalho prefere esse termo a temporada) de ‘Hoje É Dia de Maria’ pode se encerrar no último dia de Maria. ‘Não há a menor possibilidade [de uma terceira ‘jornada’]. A minha Maria é a Carolina. E, daqui a um ano, ela estará crescida’, diz.

O jornalista Daniel Castro viajou a convite da TV Globo’

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