Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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Agência Carta Maior

28/10/2008 na edição 509

SEQÜESTRO EM SANTO ANDRÉ
Luís Carlos Lopes

A catarse midiática, 22/10

‘A cobertura de um fato, escolhido como bombástico, na verdade, se torna parte do mesmo. Hoje, nestes casos, as grandes mídias participam de modo efetivo nos rumos do evento, sobretudo, se ainda não houve um desfecho. Elas interferem no que sucederá e indicam caminhos a serem percorridos, influenciando não só suas audiências como também os que estão diretamente envolvidos.

Há um trinômio que se pode observar na pseudoconstrução da realidade atual. Nele, atuam o Estado, a sociedade e as mídias. Esta realidade não é natural, sendo fruto exclusivo da ação humana, mesmo nos seus aspectos mais imateriais. Constróem-se fatos e artefatos, fortemente ancorados nas três forças citadas. O Estado se materializa através dos governos em seus três níveis e seus mil e um aparatos, que servem para manter a ordem e preservar interesses. A sociedade é formada e dividida em classes e grupos socioculturais, que nem sempre têm consciências de si mesmos. As mídias são empresas que vendem um produto imaterial, a publicidade, e dezenas de outros produtos simbólicos que servem para carregar e difundir os artefatos publicitários.

O Estado existe por meio dos seus aparatos jurídicos e políticos e pela ação efetiva dos seus agentes. Estes atuam sem qualquer sincronização obrigatória. Dependendo de seus micropoderes, outorgados por autoridades centrais, basta seguir a orientação geral que vem de cima. Fazendo isto, as forças da ordem estão aparentemente livres de quaisquer responsabilizações pelos seus atos, mesmo que sejam impróprios ou, até mesmo, criminosos. Na outra ponta, os macropoderes se disfarçam através da ação de seus agentes operacionais. Se algo der errado, o problema é deles. Mandam, tentando não responder, publicamente, pelo que determinam em sigilo.

A sociedade real é algo que se tenta tornar invisível. Como isto não é possível, os seus desníveis e incongruências aparecem com muita força na construção citada. Não dá, por exemplo, para esconder a miséria das periferias e favelas das metrópoles brasileiras. Na pseudoconstrução citada, abre-se uma janela para problemas efetivos vividos por pessoais reais. Observando-a, com atenção, podem-se ver as suas contradições tanto do ponto de vista material, como no que se refere à subjetividade dos envolvidos.

As mídias, isto é, os meios técnicos e humanos de comunicação, são os principais operadores da construção daquilo que o tecido social imagina como o real. Trabalham com o Estado e com a sociedade destacando, a partir de suas óticas e interesses, o que se devem mostrar como exemplos do mundo da vida. O espetáculo, como já apontava Guy Debord há quarenta anos, é o seu principal artefato.

Destacar um episódio, explorar as emoções do público e levar a audiência ao desespero consistem em técnicas de há muito conhecidas. A catarse, isto é, a paralisação da inteligência através do choque emocional, funciona por toda parte. Em países de baixa escolaridade formal e real, elevado grau de desinteresse político popular e de uma cultura de resignação frente à dominação é bem mais fácil conseguir que o grande público se renda e acredite quase piamente na mercadoria simbólica que lhe é imposta. O espetáculo substitui a vida tal como ela é de fato. Para funcionar bem, tem que ser verossímil, isto é, tocar as pessoas no que elas vivem diariamente.

A cobertura de um fato, escolhido como bombástico, na verdade, se torna parte do mesmo. Hoje, nestes casos, as grandes mídias participam de modo efetivo nos rumos do evento, sobretudo, se ainda não houve um desfecho. Elas interferem no que sucederá e indicam caminhos a serem percorridos, atingindo e influenciando não só suas audiências como também os que estão diretamente envolvidos. As mídias tornam-se sujeitos participantes do processo, sendo, por isto, responsabilizáveis pelo seu desdobramento.

A dialética midiática tem um poder jamais visto no mundo da vida. Nestas situações mais dramáticas, as mídias podem se tornar, em alguns momentos cruciais, os seus principais sujeitos. Elas tomam decisões ou influenciam fortemente o que os que representam o Estado e a sociedade, de certo modo, ditando o que vão ou devem fazer. Concluído o episódio, ele vai sendo abandonado progressivamente. Já não mais interessa. Agora, o que importa é esperar o próximo ou a próxima oportunidade, para se repetir a mesma lógica insana e difusora da ignorância, porém bastante lucrativa. O oportunismo midiático não tem senso de medida ou de tamanho.

No último episódio mais rumoroso, causa espanto que o sexismo dos personagens não tenha sido mencionado. As mulheres, no Brasil, mesmo ainda quando ainda são crianças, tem o seu destino traçado. Não podem ser donas de suas vidas e nem tomar decisões, sem fortes riscos. O caso do ônibus 174 acabou com a morte oficial da refém Geísa, já esquecida pelas mídias. Agora, tem-se na Eloá, outro exemplo do desprezo pela vida humana, principalmente daqueles mais oprimidos e mais fragilizados pelas circunstâncias. Não raro, seus algozes imediatos são gente igual ou próxima socialmente e culturalmente.

Assassinos de carne e osso tiraram a vida de Geísa e de Eloá. Entretanto, estas mortes devem nos fazer refletir sobre a fragilidade da condição de ser uma mulher brasileira, sobretudo, no que se refere às mais pobres e oprimidas. Quando elas poderão ser donas dos seus corpos, dizer o que realmente querem e escolher os seus próprios caminhos? Por pouco, a Nayara não foi engordar as mesmas estatísticas.

No pano de fundo de todos estes espetáculos, não é difícil ver toneladas de ignorâncias e de atos prepotentes dos envolvidos em posição de poder. Na verdade, os assassinos de ambas não são somente os que apertaram os gatilhos de suas armas. A complexa trama político-social-repressiva do Brasil explica a possibilidade de tais crimes. Cada um quer dar a sua parte na construção do espetáculo. Muitos ambicionam a fama e a distinção, nem que para isto tenham que destruir suas próprias vidas ou a de outros.

O imenso sexismo de nossa sociedade, que permite e naturaliza o amadurecimento sexual precoce de gente tão jovem é um dos vetores a ser considerado. Outro, é o que se refere à exclusão das maiorias do saber básico contemporâneo. Não se está criando apenas excluídos sócio-econômicos, mas também aqueles que podem ter acesso aos mais modernos meios de comunicação, sem acessar a informações básicas que os permitam pensar e se proteger da barbárie.

Pensar não é repetir o que as mídias vomitam. Pensar é se interrogar sobre a realidade envolvente. É preciso aprender a fazê-lo. A imensa maioria dos seres humanos nasce com a possibilidade de usar sua massa encefálica para pensar. Ninguém nasce para ter o seu cérebro transpassado por uma bala. O que importa é vencer as dificuldades e barreiras impostas, e alcançar uma consciência mais crítica do real.

Luís Carlos Lopes é professor.’

 

 

 

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