Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 14 E 15/07

Agência Carta Maior

17/07/2007 na edição 442

AUDIOVISUAL
Eduardo Carvalho

MinC equaciona projeto de pólo nacional de audiovisual na Bahia, 12/7/07

‘Mudanças nas estruturas históricas do audiovisual no âmbito estadual e o conjunto dos esforços federais para a criação de um pólo nacional de audiovisual na Bahia são as temas centrais do último dia de debates do III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual.

A mesa matinal do último dia de debates do III Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, neste dia 11, teve o jornalista e crítico João Carlos Sampaio como mediador. Ele abriu os trabalhos com a paráfrase de Cazuza feita por Edgard Navarro na tarde anterior: ‘meus heróis morreram de overdose e meus ‘amigos’ estão no poder’. O artíficio não só serviu para passar um polido verniz no incidente da tarde anterior (leia mais), como para indagar aos tais ‘amigos’ do Navarro quais as políticas públicas que estão sendo realizadas e para onde elas levam o audiovisual brasileiro.

As autoridades presentes responderam. Não por serem ‘amigos’, mas por estarem empenhados na construção de políticas públicas para o audiovisual com conseqüente geração de desenvolvimento econômico e social, propondo e operando mudanças nas estruturas históricas do audiovisual no âmbito estadual e empenhando um complexo conjunto de esforços federais para a criação de um pólo nacional de audiovisual na Bahia, com aporte de R$ 100 milhões por ano.

Para indicar os fatos e argumentos desta complexa resposta aos ‘amigos’ Navarros e outros tantos da imensa, presente, atuante e entusiasmada comunidade cinematográfica baiana, estavam à mesa três cineastas da terra: Pola Ribeiro, que atualmente é diretor do Instituto de Radiodifusão da Bahia (IRDEB), José Araripe Jr., diretor do Ctav-MinC e Orlando Senna, Secretário do Audiovisual do MinC. Leopoldo Nunes, diretor da Ancine, não compareceu e foi substituído pelo cineasta paraense Sérgio Pêlo.

Pola Ribeiro evocou, de saída para o painel mais bem articulado do seminário, o cenário de carências do cinema para ressaltar que se trata de uma atividade de alma e de sobrevivência e que não se pode pensar em cinema e audiovisual com ojeriza à condicionante realidade econômica ou com ojeriza à inevitável evolução da tecnologia e sua conseqüente diversificação dos equipamentos e suportes.

Cineasta à frente do IRDEB, Pola experimenta, na prática, a busca de linhas de confluência entre cinema e televisão, que, em sua opinião, nasceram e ainda vivem apartados no Brasil. Reafirmou, ainda, a necessidade de agregar, neste esforço de convergência, todas as formas de produção audiovisual. Seu esforço porém, descreve ele, esbarra em históricas dificuldades institucionais. São tentaivas de trazer o cinema para próximo da TV, situá-lo numa área de cobranças imediatas, de produção 24 horas no ar, que gera audiência e sobrevivência, comunicação e informação. Em contrapartida, trazer para a televisão conceitos e linguagens que o cinema desenvolveu e oferece. Um esforço para qualificar mais a televisão e dinamizar o cinema.

O cineasta baiano também tocou o cerne da questão do poder ao afirmar que, estando em suas malhas, constata sua verdadeira essência ao verificar que, embora se conquistem quinhões aqui e ali, o verdadeiro poder continua emanando do desejo de elites que conduzem a economia, o mercado, e que precisam entender, assim como parte do próprio conjunto de dirigentes instituídos no poder oficial, inclusive colegas de governo, que o cinema é fundamental para a consolidação de um pensamento, de uma história e de um sentimento baiano de cidadania que, ao mesmo tempo, gera recursos econômicos dentro de uma rica cadeia produtiva do complexo audiovisual, agregando o trabalho de administradores, contadores, advogados, historiadores, sociólogos, antropólogos, gestores públicos e privados, músicos, escritores, cenógrafos, maquiadores, motoristas…

Salientou, assim, a necessidade de reconhecimento da complexidade desta cadeia e maior aceitação de suas contingências econômicas, para conseguir juntar a verve criativa baiana com uma capacidade gestora e produtiva a ser fortificada e desenvolvida no estado com a criação de cursos de cinema na UFBA e na do Recôncavo, com o trabalho junto aos Pontos de Cultura do Programa Cultura Viva e junto aos Cineclubes, com a diversificação dos objetos dos editais públicos, com o esforço para dar visibilidade à produção de audiovisual baiano. Por fim, anunciou um plano urdido no Fórum de TVs Públicas que prevê que R$ 50 mil em mídia nas Rádios e na TVs públicas de quatro estados (BA, MG, SE e PA), totalizando R$ 200 mil por projeto, fortifiquem a garantia de divulgação e de conseqüente distribuição eficiente em praças pré-estimuladas a assisti-lo, aumentando, assim, as chances de tais projetos serem contemplados em editais de fomento e potencializando sua capacidade de captação.

José Araripe Jr. apresentou o Centro Técnico do Audiovisual – Ctav-MinC, do qual é diretor e que nasceu, há 25 anos, do lado não comercial da Embrafilme com a missão primeira de aprimorar o som do cinema nacional, apoiar a formação e especialização profissional e também para o desenvolvimento do cinema de animação. De lá, para cá, o espectro de atendimento a todo o Brasil ampliou-se muito e abrange, hoje, várias ações ligadas à formação, memória, difusão e ao fomento de produção.

Depois de opor-se à posição do crítico André Setaro na querela da tarde de ontem, Araripe deu seu depoimento que inventariou o desenvolvimento recente de toda teia produtiva do cinema na Bahia – onde, lembrou Orlando Senna, pela primeira vez na História, estão sendo rodados cinco longas-metragens simultaneamente -, e exaltou as possibilidades que o associativismo oferece nesta área.

Depois, Araripe apresentou o projeto da Programadora Brasil que ilustra um trabalho do Ctav com a Cinemateca Brasileira que recebeu, nos últimos cinco anos, recursos inéditos e abriga hoje, em seu acervo, mais de 50 mil cópias de filmes. A Programadora Brasil é um projeto de difusão para tonificar o circuito cineclubista que busca a criação de salas de exibição alternativas àquelas que atendem ao cinema hegemônico americano, para exibir filmes hoje confinados às prateleiras, num esforço de formação de platéia e de pensamento crítico, com 126 títulos disponíveis em DVDs para serem exibidos em salas não comerciais credenciadas no projeto, como alguns Pontos de Cultura, por exemplo. Não há assistencialismo, mas um arranjo bem feito que possibilita remunerar direitos autorais, custos de cópias e envio e oferecer o direito de exibição contínuo do conjunto completo dos filmes, por dois anos, a uma taxa de R$ 600, com suporte de comunicação, com revista e site. Em 90 dias de operação, já associou mais de 100 salas em 21 estados e já existe um convênio com o SESC que elevará este número a 300. A meta é chegar a 2 mil pontos de exibição, alentando mais de 500 ‘filmes sem tela’ que serão tirados das prateleiras para serem exibidos gratuitamente aos que não teriam acesso a eles.

Orlando Senna, Secretário do Audiovisual do MinC, marcou sua intenção de falar sobre perspectivas para o audiovisual na Bahia e no Brasil sob um ângulo oficial e baiano, contextualizando sua fala no espectro da constatação de que nunca houve em toda a história da Bahia, até 2003, políticas públicas de audiovisual, ainda que se possa reconhecer alguns surtos de política públicas cinematográficas no Brasil, como a Embrafilme, que gerou muitos proveitos, mas que se restringia ao âmbito estrito do cinema e não à totalidade do audiovisual. Lembrou ainda que a Bahia está há poucos meses com um novo governo, de quem se espera um grande impulso na área a partir do estreitamento já anunciado da relação do estado com as políticas federais.

O secretário evocou a força econômica mundial do setor que coloca o audiovisual no topo das projeções governamentais e privadas que prevêem o desenvolvimento futuro. Neste cenário, lembrou da existência de uma série de providências já em curso para a criação de uma indústria e de uma cultura fortes de audiovisual no Brasil, no continente e no mundo, articuladas na forma de uma série de providências e de mecanismos que podem, na somatória de seus esforços, desenhar um conjunto de políticas públicas para interferir no imenso universo tentacular do audiovisual. Destacou seis pontos deste conjunto: o esforço para que esta atividade seja uma prioridade do Estado em nível estratégico, pensando-se, em última análise, na soberania nacional; que, nela, seja dado o mesmo nível de importância para a produção a cultura e a formação – e neste item lembrou-se do nascimento, durante sua palestra no seminário do ano passado, da proposta para a criação de uma escola de cinema na UFBA (leia mais) e de outra privada já em funcionamento -; a internacionalização da atividade e do pensamento audiovisual; foco na difusão e na televisão; a prática do capitalismo democrático com cobertura nacional e, por fim, o conceito da abrangência, que envolve, entre outras questões, a disseminação dos suportes.

Por fim, valendo-se ainda de dados panorâmicos do recente crescimento do cinema nacional, completou a justificativa da proposta da criação de um pólo nacional de produção audiovisual na Bahia, com investimento anual de R$ 100 milhões (80% do Governo do Estado, 10% da Petrobras e 10% do MinC) e evocou o empenho dos seus colegas governantes nos âmbitos estadual e federal para a concretização desta proposta do MinC que, segundo seu raciocínio, permitirá fortalecer significativamente a economia local ao mesmo tempo que criará a base para a revitalização de um cinema tipicamente baiano, calcado em sua tradição e nos trilhos de suas novas e velhas vanguardas, com forte identidade regional, para ser um cinema de alcance global.

(N.E.: Nos próximos dias, publicaremos entrevista exclusiva com Orlando Senna.)’

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Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

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