Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 6 E 7/10

Agência Carta Maior

09/10/2007 na edição 454


MÍDIA & POLÍTICA
Gilson Caroni Filho


Reforma da imprensa: a fidelidade que interessa, 5/10/07


‘No momento em que o STF conclui o julgamento de três mandados de segurança
apresentados por DEM, PPS e PSDB a fim de recuperar, para os suplentes, as
cadeiras de deputados que migraram partidos da base aliada, a grande imprensa
volta a se apresentar como avalista da cidadania. Única instância capaz de, ao
preço da deslegitimação dos três poderes republicanos, impor uma agenda
‘moralizante’ e ‘modernizadora’. Cabe indagar qual tem sido o procedimento
recente do campo jornalístico ao ver surgirem propostas de reforma no seu
âmbito. Vale a pena um pequeno apanhado para ver os limites da sofreguidão
mudancista quando a democracia ameaça interesses sedimentados. Dois casos
ocorridos no primeiro mandato do governo Lula são por demais emblemáticos para
não serem relembrados.


O primeiro deles foi o envio ao Congresso de um projeto de lei criando o
Conselho Federal de Jornalismo. Ficou conhecido pelas reações que pouco
contribuíram para o debate visando ao aperfeiçoamento democrático de nossas
instituições. Do puro corporativismo de setores da mídia ao alarido udenista de
seus intelectuais orgânicos, a proposta da Fenaj foi combatida por assertivas
sofismáticas: estaria em curso um processo autoritário que, buscando ‘fiscalizar
o exercício da profissão de jornalista e da atividade de jornalismo’, objetivava
ameaçar a liberdade de imprensa e o direito do cidadão à livre informação. Até
mesmo o procurador nacional antimáfia da Itália, Piero Luigi Vigna, que veio ao
Brasil participar do Encontro Internacional de Combate à Lavagem de Dinheiro e
Recuperação de Ativos se manifestou contrariamente, vendo na medida uma forma de
controle eleitoral.


O segundo, igualmente bombardeado, foi o projeto de criação da Agência
Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) apresentado pelo Ministério da
Cultura ao Conselho Superior de Cinema. Os arautos da imprensa atacaram-no pelo
que ele tinha de modernizador buscando fomentar o setor com recursos públicos e
privados.


Como destacou Orlando Senna, então secretário do Audiovisual do Minc ‘nossa
democracia audiovisual é limitada: 90% dos municípios brasileiros não têm uma
tela de cinema sequer, apenas 8% dos brasileiros podem arcar com os altos
ingressos de um mercado cinematográfico concentrado e engessado e a televisão
reserva um espaço mínimo para a participação da produção artística e da
informação independentes. Estas censuras de mercado atingem a população
brasileira’. Senna sabia que estava tocando em ponto nevrálgico.


Foi o bastante para que Míriam Leitão, colunista de economia do Globo,
sentenciasse: ‘No começo deste primeiro mandato, como todos se lembram, através
da tentativa de criar o Conselho Federal de Jornalistas e da Ancinav, o governo
quis controlar os meios de comunicação. Fracassou. Agora tenta de novo e chama a
investida de’ democratização dos meios de comunicação ‘. Durante os últimos
quatro anos, o governo Lula criou jornais e revistas, achando que, assim,
substituiria os órgãos de maior circulação. Não deu muito certo’. A jornalista
parecia se postar como legítima ‘partisan’ de uma imprensa ameaçada.


Estávamos diante de constatações enganosas. Não se ameaça o que não existe.
Quem quiser travar a boa luta deve ir à questão central: a estrutura
oligopolizada e a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Tangenciar esse
ponto é trocar a substância pelo adjetivo fácil.


Era evidente que os projetos deviam ser aperfeiçoados, o que não significava
demonizá-los. Mas para tal era, e continua sendo necessário, a remoção de
premissas falsas da discussão. Historicamente, a imprensa brasileira nunca foi
fiadora de qualquer processo democrático. Seu papel de intermediação entre
Estado e sociedade civil existe apenas no campo do imaginário jornalístico. A
inserção na política se dá em aliança com setores do universo conservador,
quando não do reacionarismo mais deslavado, e grupos empresariais preocupados
exclusivamente com uma lei: a do valor.


Essa coalizão de interesses sempre combateu movimentos sociais que tentaram
ampliar a institucionalidade estabelecida em sucessivas transições por alto . O
surgimento de um regime que ultrapassasse os mecanismos representativos do
sistema político excludente e do ordenamento jurídico aparelhado sempre foi o
pesadelo das elites. Sempre exorcizado em contundentes editoriais. Podemos
correlacionar o funcionamento da imprensa com democracia no Brasil. Mas será um
exercício projetivo de imaginação. Calcada na história recente, tal correlação
não tem qualquer fundamentação empírica.


Se remontarmos ao movimento político que, temendo as conseqüências da
inserção de massas urbanas no jogo institucional, levou Getúlio ao suicídio,
onde, com raríssimas exceções, encontraremos os grandes jornais da época?
Aboletados na farsa que ficou conhecida como República do Galeão. Dez anos
depois, mais que cúmplice, a mídia é protagonista do golpe militar. Primeiro
como articuladora junto à opinião pública do arrazoado golpista. Posteriormente
como legitimadora do regime que matou e torturou para zelar pelos interesses do
grande capital. Esgotado o ciclo dos generais, a grande imprensa em geral, e a
Rede Globo de forma particularíssima, se dedicaria a abortar a campanha das
diretas-já. As demandas, saídas da panela de pressão do autoritarismo, davam um
tom de imprevisibilidade ao processo político. Como lidar com o imponderável da
práxis democrática?


Mais uma vez, era necessário conspirar, trair e sair com alguma legitimação
política. Excetuando poucos veículos, o baronato da grande imprensa não se
furtou, em nome dos próprios negócios, a prestar um último favor ao estamento
que tanto o beneficiou em duas décadas.


Ao associarmos a grande imprensa ao que há de mais reacionário na história
republicana do Brasil, não ignoramos o papel de vários profissionais que, em
muitos casos, pagaram com a própria vida o preço de ter ido contra regimes que
tinham sustentação simbólica da empresa em que trabalhavam. Nosso objetivo é
tão-somente mostrar que não há estupradores autoritários à espreita de uma
senhora virtuosa e democrática. Talvez o maior mérito da discussão envolvendo as
propostas abortadas tenha sido o de mostrar a atividade jornalística sem
ilusionismo. Como prática autoritária que não comporta a diversidade de
informações e a pluralidade de opiniões.


Essa, sem dúvida, é a mãe de todas as reformas políticas. Democratizar o
campo informativo em nome da fidelidade aos mais básicos princípios
republicanos. Concentração midiática anda de mãos dadas com concentração
fundiária e de riquezas. Eis o eixo a ser quebrado se queremos ampliar a
democracia. Cabe recurso ao Supremo?


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio
Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e
Observatório da Imprensa.’


MEMÓRIA / CHE GUEVARA
Flávio Aguiar


A sombra do Che, 5/10/07


‘Causou reações a reacionária matéria de capa de Veja sobre Ernesto Guevara,
por ocasião destes 40 anos de sua morte, assassinado por membros do Exército
boliviano a serviço dos Estados Unidos. Mas é coisa de não causar surpresa.


Tentaram, na revista, levantar o que os psicanalistas jungueanos chamariam de
‘a sombra’ de Ernesto Guevara. Sob a égide de ‘destruir’ um mito, pretenderam
levantar tudo o que de negativo se poderia sobre a vida de um homem humano,
certamente mais humano do que estes arautos do que de mais servil existe no
jornalismo brasileiro.


Não conseguem. É verdade que Ernesto Guevara se transformou no mito Che. Num
mito, quanto mais se bate, mais ele cresce. Porque ao contrário do que essas
vulgaridades pensam, um mito não é sinônimo de uma mentira. Um mito é uma
história que explica porque estamos aqui e somos assim ou assado. Um mito
remonta a enigmas que não conseguimos explicar. Então temos que narrar.


Abaixo, dou cinco razões pelas quais os arautos da direita brasileira não
podem suportar o mito Che. Muito mais do que a direita propriamente, porque
duvido que os poderosos de fato na direita estejam hoje muito preocupados com o
mito Che Guevara. Até porque nenhum – repito, nenhum – governo de hoje na
América Latina está à altura do mito.


1) Che em línguas pampeanas quer dizer ‘homem’. Em guarani quer também dizer
‘meu’. El Che significa ‘o homem’, ‘o ser humano’, em linguagens que, como rios
subterrâneos, nos lembram das catástrofes históricas que nos trouxeram até hoje.
O nome, El Che, é uma cicatriz da história, assim como o de Zumbi, ou o de Anita
Garibaldi. Com a diferença de que ele cobre o continente e hoje o mundo com sua
imagem. A mera presença desse nome como dos preferidos no mundo inteiro prova
que as tragédias dos povos são inesquecíveis, por mais que as queiram mergulhar
no esquecimento.O nome do Che é um ícone do anjo de Walter Benjamin, aquele que
segue para diante na história, mas de costas, vendo-a como uma construção de
ruínas.


2) O Che foi um guerrilheiro romântico. Nada mais estranho ao mundo desses
arautos do que qualquer sombra de romantismo rebelde. Eles (os arautos) tiveram
que eleger o servilismo como estilo, têm que beijar a mão que os afaga ou os
chicoteia conforme o gosto (o deles e o da mão). Palavras como rebeldia, entono,
ousadia, energia, paixão, e outras do mesmo estilo, são verbetes em branco nos
seus dicionários. O Che – que como todo o ser humano tinha qualidades, defeitos
e problemas, e que como todo o mito, é mais uma lâmina de contradições do que de
certezas absolutas – era alegre, era um ser voltado para a vida, não párea a
morte. Como podem os mortos vivos passar incólumes diante desse ser em contínua
operação na história, eles que venderam a alma mas esperam poder deixar de
entrega-la?


3) O Che era latino-americano. Nada mais detestável para esses arautos (e aí
também para os poderosos da direita) do que a lembrança de que eles são
latino-americanos. O ideal da sombra deles (a sombra é aquilo que a gente também
é mas não gosta de lembrar de que é) é que o Brasil fosse uma imensa pista de
aeroporto rumo ao norte, aos idolatrados shoppings centers onde se fala inglês
como ‘língua natural’ (como se isso existisse), porque é assim que eles vêm o
mundo e a cultura do hemisfério norte. O fato do ícone cuja imagem é uma das
mais procuradas no mundo ser a de alguém que morreu pelos povos desse continente
amaldiçoado pelos poderes de todo o mundo traz pesadelos inconfessáveis para
esses arautos. Pesadelos tão pesados que de manhã eles fingem nem se lembrar
deles. Fingem tão fingidamente que até acreditam ser o sonhozinho de consumo em
que fingidamente vivem, esses sinhozinhos das próprias palavras, a quem tratam
como escravas.


4) O Che lutou pela libertação da África. E com os demais companheiros e
companheiras do Exército cubano. Sem a participação de Cuba, é possível até que
o regime do apartheid sulafricano pelo menos demorasse muito mais para cair. A
vitória do Exército angolano, com Cuba, contra as forças sulafricanas, na
batalha de Cuita Canevale foi fundamental para a queda do regime sulafricano. É
verdade que as iniciativas do Che nas lutas no Congo não tiveram êxito. Não
importa: como o Che é que se tornou o mito, ele carrega nas costas essa pesada
carga de ser um dos ícones da solidariedade latino-americana com os povos do
continente cujas costas lanhadas de sangue ajudaram a construir a nossa
riqueza.


5) O Che era bonito. Aí é demais. Dispensa palavras.


Tudo isso vem aliado à terrível sensação, para esses arautos, de que o mito
do Che, a lembrança do personagem vivo, sobreviverá a todos eles. E que se esse
mito-anjo vê a história como a construção de ruínas, eles, os arautos, são as
mais expressivas da ruína humana a que se reduz o servilismo eleito como estilo.


Flávio Aguiar é editor-chefe da Carta Maior.’


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