Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 14 E 15/6

Agência Carta Maior

17/06/2008 na edição 490

MÍDIA LIVRE
Joaquim Ernesto Palhares

Os desafios do Fórum de Mídia Livre, 12/6

‘A luta pela recuperação da palavra crítica é latino-americana e internacional. Em janeiro de 2009, Belém do Pará estará sediando mais uma edição do Fórum Social Mundial. Podemos, de agora até o final do ano, trabalhar pelo fortalecimento dessa articulação e pela construção de uma agenda de debates que aponte para propostas concretas para a democratização da comunicação e da informação.

No dia 14 de maio deste ano, um grupo de mais de 750 intelectuais argentinos lançou uma carta aberta à sociedade alertando para o crescimento de um clima golpista no país, com participação ativa dos grandes meios de comunicação. Além disso, o documento advertiu os governos latino-americanos para uma batalha simbólica que não está sendo enfrentada. A manifestação dos intelectuais argentinos identifica bem um problema estratégico relacionado à atuação da mídia em toda a América Latina. O contexto político argentino fornece a moldura dessa advertência. Uma advertência que é pertinente à realidade política de toda a América Latina e que merece toda a nossa atenção. Os signatários do documento divulgado em Buenos Aires definiram do seguinte modo o contexto da crise política na Argentina, explicitada a partir da mobilização do setor ruralista contra o governo de Cristina Kirchner:

‘Como em outras circunstâncias de nossa crônica contemporânea, hoje assistimos em nosso país a uma dura confrontação entre setores econômicos, políticos e ideológicos historicamente dominantes e um governo democrático que tenta implementar determinadas reformas na distribuição de renda e adotar estratégias de intervenção na economia. A oposição às retenções – compreensível objeto de litígio – deu lugar a alianças que chegaram a lançar a ameaça da fome para o resto da sociedade e lançaram questionamentos sobre o direito e o poder político constitucional do governo de Cristina Fernández para efetivar seus programas de ação, a quatro meses de sua eleição pela maioria da sociedade’.

O que essa realidade tem a ver conosco?

Tem a ver na medida que se refere a processos que nos são bastante familiares aqui no Brasil. Senão, vejamos as palavras seguintes do manifesto dos intelectuais argentinos sobre a natureza da ação da oposição ao governo de Cristina Kirchner:

‘Instalou-se um clima de desconstituição que tem sido considerado com a categoria do golpismo. Não, talvez, no sentido mais clássico de incentivar alguma forma mais ou menos violenta de interrupção da ordem institucional. Mas não há dúvida de que muitos dos argumentos que se ouviram nestas semanas têm paralelos ostensivos com os que, no passado, justificaram esse tipo de intervenções e, sobretudo, um muito reconhecível desprezo pela legitimidade governamental’.

Essas palavras soam familiares. Elas falam da ‘barbárie política diária da mídia’ e de uma ‘atmosfera política perigosa’ alimentada pelos grandes meios de comunicação:

‘Na atual confrontação em torno da política de retenções (impostos sobre produtos de exportação) desempenharam e desempenham um papel fundamental os meios massivos de comunicação mais concentrados, tanto audiovisuais como gráficos, de altíssimos níveis de audiência, que estruturam diariamente a realidade dos fatos, que geram ‘o sentido’ e as interpretações e definem ‘a verdade’ sobre atores sociais e políticos a partir de variáveis interessadas que excedem a busca de audiência. Meios que gestam a distorção do que ocorre, que difundem o preconceito e o racismo mais espontâneos, sem a responsabilidade por explicar, por informar adequadamente nem por refletir com ponderação as mesmas circunstâncias conflitivas e críticas sobre as quais operam’.

O documento prossegue:

‘Esta prática de autêntica barbárie política diária, de desinformação e discriminação, consiste na gestação permanente de mensagens formadoras de uma consciência coletiva reacionária. Privatizam as consciências com um sentido comum cego, iletrado, impressionista, imediatista, parcial. Alimentam uma opinião pública de perfil anti-político, que desacredita a existência de um Estado democraticamente interventor na luta de interesses sociais. A reação dos grandes meios diante do Observatório da discriminação na rádio e na televisão mostra claramente um desprezo fundamental pelo debate público e pela efetiva liberdade de informação’.

Diante dessa prática de ‘barbárie política diária de desinformação e discriminação’, os intelectuais argentinos colocam como desafio para toda a América Latina, ou seja, para todos nós, ‘a recuperação da palavra crítica em todos os planos das práticas e no interior de uma cena social dominada pela retórica dos meios de comunicação e pela direita ideológica de mercado’. A recuperação de uma palavra crítica que ‘compreenda a dimensão dos conflitos nacionais e latino-americanos, que assinale as contradições centrais que estão em jogo, mas sobretudo que acredite ser imprescindível voltar a articular uma relação entre mundos intelectuais e sociais com a realidade política’.

Esse é um dos principais desafios que está colocado diante de nós que estamos construindo esse movimento de Mídia Livre no Brasil. Não se trata de uma luta que se encerra nas fronteiras nacionais. Não se trata também de um debate que se limita à reivindicação por critérios democráticos na distribuição de verbas públicas para o setor de comunicação. Há uma dimensão política nesta disputa que envolve um enfrentamento com fortes estruturas de poder político e econômico ligadas ao grande capital financeiro. É disso que se trata.

A luta pela recuperação da palavra crítica é uma luta latino-americana e internacional. É importante ter isso em mente no momento em que realizamos o primeiro Fórum de Mídia Livre no Brasil. Nossos problemas não são exclusividade nossa. Fazem parte de uma realidade internacional onde a chamada grande mídia não é um feudo dissociado de outras estruturas de poder. Como já disse Bernard Cassen, os proprietários dos grandes sistemas midiáticos são empresários transnacionais que, na imensa maioria dos casos, têm negócios diversificados em outros setores para além da mídia. Ou seja, eles estão conectados ao mercado global e são atores centrais do processo de globalização. Enquanto tal, conclui Cassen, esse sistema é um vetor ideológico estratégico da globalização do capital.

Cabe a nós, portanto, trabalhar pela construção de uma articulação latino-americana e internacional em torno da proposta de uma mídia livre. Temos uma grande oportunidade histórica para fazer essa luta avançar. Em janeiro de 2009, Belém do Pará estará sediando mais uma edição do Fórum Social Mundial. A agenda da mídia e da comunicação mais uma vez estará presente nos debates do FSM. Podemos, de agora até o final do ano, trabalhar pelo fortalecimento dessa articulação e pela construção de uma agenda de debates que aponte para propostas concretas para a democratização da comunicação e da informação. Esse é um dos principais desafios que está em nossas mãos.

* Joaquim Ernesto Palhares é diretor da Agência Carta Maior’

 

OPINIÃO PÚBLICA
Marco Aurélio Weissheimer

O braço midiático da fraude no Detran, 11/6

‘Denúncia do MP Federal contra quadrilha que roubou o Detran/RS revela que líderes do esquema investiam na formação de opinião pública favorável aos seus interesses, com aportes publicitários para jornais do Estado. Lobista tucano acusado de integrar a quadrilha diz que colunistas de vários jornais eram pagos pelo esquema. Imprensa gaúcha silencia sobre o tema.

Há uma informação na denúncia produzida pelo Ministério Público Federal contra os acusados de integrar a quadrilha que agia no Detran/RS que não vem recebendo a menor atenção por parte da mídia gaúcha. É compreensível o silêncio. E lamentável também, colocando sob suspeita um serviço de interesse público (informar a população). Esse silêncio diz respeito a seguinte passagem da página 56 da denúncia:

‘Ao lado disso, os denunciados integrantes da quadrilha não descuidavam da imagem dos grupos familiares e empresariais, bem assim da vinculação com a imprensa. O grupo investia não apenas na imagem de seus integrantes, mas também na própria formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses, ou seja, aos projetos que objetivavam desenvolver. A busca de proximidade com jornais estaduais, aportes financeiros destinados a controlar jornais de interesse regional, freqüentes contratações de agências de publicidade e mesmo a formação de empresas destinadas à publicidade são comportamentos periféricos adotados pela quadrilha para enuviar a opinião pública, dificultar o controle social e lhes conferir aparente imagem de lisura e idoneidade’.

A denúncia cita como exemplo de investimento da quadrilha ‘na formação de uma opinião pública favorável aos seus interesses’ as inserções de reportagens que visavam promover a idéia da implementação de usinas de casca de arroz no Rio Grande do Sul. O documento do Ministério Público Federal não cita em que data e veículo de comunicação tais reportagens teriam sido veiculadas.

O Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul divulgou nota oficial, citando o artigo n° 11 do Código de Ética do Jornalista, segundo o qual ‘o profissional não pode divulgar informações visando interesse pessoal ou vantagem econômica’. Repudiando esse tipo de prática, o sindicato encaminhou a nota à CPI do Detran defendendo que o assunto seja investigado e sejam nominados os profissionais envolvidos em ilegalidades, ‘pois não é justo que toda a categoria seja colocada sob suspeição em uma denúncia generalizada’.

Já os representantes dos ‘jornais estaduais’, ‘jornais de interesse regional’, ‘agências de publicidade e empresas destinadas à publicidade’ não se manifestaram até agora sobre o tema. A rigor, existem dois jornais de circulação estadual no Estado, Zero Hora e Correio do Povo. Os demais jornais de Porto Alegre, O Sul, Jornal do Comércio e Diário Gaúcho não circulam em todo o Estado.

Lobista tucano diz que esquema pagava colunistas

Além da referência a um braço midiático da quadrilha acusada de roubar o Detran, feita na denúncia do Ministério Público Federal, há uma outra menção ao pagamento de jornalistas para produzir matérias de interesse do grupo. Ela aparece na carta que o empresário e lobista tucano Lair Ferst escreveu à governadora Yeda Crusius para ‘denunciar’ que estava sendo vítima de uma campanha difamatória por parte da quadrilha. Segundo as investigações da Polícia Federal e do MP federal tratava-se de uma disputa interna no grupo pelo controle das verbas do Detran. Na carta, Lair Ferst escreve:

‘Este grupo é liderado pelo ex-professor da Universidade Federal de Santa Maria, José Antonio Fernandes, e dos seus sócios Barrionuevo e do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Sr. João Luiz Vargas. Conta também com uma série de colunistas de vários jornais que tem remuneração paga pelo Sr. José Fernandes para plantar notícias de seu interesse particular. Usam diversas pessoas para servir aos seus propósitos escusos sem aparecer e ficar impune e livre de qualquer acusação’.

Barrionuevo é José Barrionuevo, ex-colunista político do jornal Zero Hora. Após deixar o jornal, Barrionuevo passou a trabalhar como ‘consultor de imagem’ e marqueteiro em campanhas políticas. Em 2006, Barrionuevo trabalhou como consultor para o Pacto pelo Rio Grande, uma iniciativa do então presidente da Assembléia Legislativa do RS, Luiz Fernando Zachia (PMDB).

O principal resultado concreto do Pacto foi o lançamento do livro ‘Pacto – Compromisso de todos – Jogo da Verdade – Crise estrutural e governabilidade do Rio Grande’, assinado pelo próprio Barrionuevo e por Cezar Busatto (do PPS, ex-chefe da Casa Civil do governo Yeda Crusius, demitido após a revelação de uma conversa explosiva com o vice-governador Paulo Feijó (DEM), onde admitia o uso de empresas públicas para financiar campanhas eleitorais do PMDB e do PP).

Na noite do lançamento do livro (13 de novembro de 2006), Barrionuevo deu o seguinte autógrafo para José Fernandes, dono da empresa Pensant, acusado de ser um dos chefes da quadrilha que roubou o Detran:

‘Prezado José Fernandes, meu bruxo: este livro e o Pacto não existiriam sem o teu apoio e as tuas luzes. Vamos juntos nesta caminhada. Viva a Pensant’.

O autógrafo de Busatto para Fernandes não foi menos entusiasmado:

‘Caríssimo José Fernandes, o Pacto tem uma marca indelével da tua competência, sabedoria, compromisso público! Obrigado por tudo! Vamos continuar trabalhando juntos pelas boas causas!’.

Barrionuevo repudiou as acusações de Lair Ferst, que trabalhou na campanha de Yeda Crusius em 2006 como ‘captador de recursos’, conforme confirmou dias atrás o vice-governador Paulo Feijó. O hoje ‘consultor de imagem’ afirmou:

‘No final da campanha do segundo turno de Yeda Crusius (em outubro de 2006), quando atuei como consultor, chamei atenção para os problemas do senhor Lair Ferst. Um coordenador, braço direito da candidata, me pediu informações sobre o empresário, em decorrência de nota publicada na Página 10 (coluna do jornal Zero Hora) naqueles dias. Mandei a ficha policial, que dispensa comentários. Soube que, a partir do meu relatório, foi solicitado que Lair não freqüentasse mais o comitê. Desconfio que atrapalhei seus planos’.

As afirmações de Barrionuevo comprometem a governadora Yeda Crusius que considera Lair Ferst um ‘companheiro’ e ‘militante’ do PSDB. Se ela teve acesso à ‘ficha policial’ de Ferst durante a campanha, como permitiu que ele trabalhasse como captador de recursos para sua campanha? O ex-vice-governador do RS, Antonio Hohlfeldt (ex-PSDB, hoje no PMDB) também se referiu a Ferst de maneira nada elogiosa, dizendo que conhecia sua reputação e, por isso, jamais permitiu que ele entrasse em sua sala.

Por outro lado, o relato que o lobista tucano fez à governadora guarda grande semelhança com o que a denúncia do Ministério Público Federal afirma sobre as conexões midiáticas da quadrilha que roubou o Detran. Apesar de todas essas informações, a mídia gaúcha decidiu silenciar sobre o tema. Acusados, de forma generalizada, de ter recebido verbas publicitárias de integrantes da quadrilha, os jornais do Estado não publicam uma linha sequer sobre esse assunto espinhoso.

Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)’

 

 

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