Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Agência Carta Maior

16/06/2009 na edição 542

FATOS E DADOS
Emir Sader

Por que e a quem o blog da Petrobras incomoda?

‘A imprensa mercantil – aquela dirigida por oligarquias familiares de empresas fundadas no lucro das grandes publicidades privadas – está profundamente incomodada com o blog da Petrobras. Diz que se ofende aos órgãos de imprensa, revelando as perguntas enviadas pelas empresas da mídia à Petrobras, se sente como que violada na sua privacidade (?) quando o blog responde as acusações (que vida de regra, como fica claro, são simples insinuações sem nenhum fundamento na realidade).

Por que órgãos de imprensa, que supostamente estariam interessados na melhor e maior difusão informativa, se sentem incomodados com um blog que dá o ponto de vista da maior empresa brasileira e uma das maiores do mundo, empresa estatal, que deve – não apenas agora, mas sistematicamente – regularmente dar conta da sua atuação, pelo próprio caráter publico da instituição?

Acontece que essa mídia empresarial quer continuar sendo o único instrumento de intermediação entre os governantes e o povo, entre o Estado e a opinião pública. Quer ser o filtro que decida que projetos do governo devem ser difundidos e com que versão. Que declarações de governantes ou parlamentares devem chegar ao povo e sob que forma. Que temas são essenciais ao país e como devem ser encarados. Querem ocupar um lugar de monopólio na formação da opinião pública, o que lhes permitiu, ao longo do tempo, dar as pautas ideológicas e políticas do país.

Grande parte do que se publica na mídia mercantil são simples insinuações, mas que ganha ares de verdade se não são imediatamente respondidas por argumentos reais. Isto é inassimilável para a imprensa privada, porque ela vive disso – de transformar insinuações em supostas verdades., (Reveja-se a lista de supostos escândalos que alimentou do governo Lula – do aerolula ao apoio de Cuba à campanha eleitoral de Lula, entre tantos outros -, de que nunca se autocriticaram quando se revelaram mentirosas.) Por isso acreditam que criam uma opinião pública que tem sido sistematicamente derrotada pelo governo – como tem acontecido na maioria dos outros países da região – e que as pesquisas revelam como reduzidas a cerca de 5% de rejeição do governo. A isso se reduzem e querem falar ‘em nome do país’, quando falam em nome da família que os dirige, dos funcionários que de forma absolutamente autoritária e não democráticas contratam para escrever e falar e dos grandes interesses econômicos que os mantêm.

Que se multipliquem os blogs alternativos – estatais e públicos não governamentais -, para quebrar esse monopólio fundado no dinheiro e na mentira, para que fiquem reduzidos ao que são – órgãos da ditadura privada do dinheiro e da opinião mercantil – e que se possa construir no Brasil uma opinião pública democrática e pluralista, sem a qual nunca seremos um país democrático e soberano.’

 

Laurindo Lalo Leal Filho

Petrobras democratiza a comunicação

‘O blog Fatos e Dados colocado no ar pela Petrobras é um marco na história da comunicação social. A partir de agora a relação entre as fontes e os veículos de informação muda de patamar, tornando-se mais equilibrada.

Até então a fonte, detentora da titularidade da informação, abria mão desse poder transferindo-o de forma integral para a mídia. E esta fazia do conteúdo informativo o que bem entendia. Daqui para frente isso não irá mais acontecer. Precavida, a fonte se antecipa ao veículo tornando públicas as informações prestadas. Estreita-se dessa forma a margem de manipulação. E quem ganha é o público, na medida em que as informações tornam-se mais confiáveis. Ou pelos menos ‘checáveis’.

Nesse sentido a ação comunicativa da Petrobras vai muito além dos seus resultados imediatos. Ela se insere no processo de construção de uma ordem informativa mais democrática e equilibrada que teve um dos seus pontos altos ao final dos anos 1970 quando a UNESCO deu por concluída a tarefa de propor a criação de uma nova ordem mundial da informação e da comunicação. O resultado desse trabalho, realizado por uma comissão presidida pelo irlandês Sean Mac Bride e que contou com a participação, entre outros, do colombiano Gabriel Garcia Marquez, está no livro ‘Um mundo e muitas vozes’, publicado pela Fundação Getúlio Vargas.

Propunha-se, naquele momento, a busca do equilíbrio dos fluxos informativos entre os hemisférios Norte e Sul e apontava-se para a necessidade de estimular a circulação de informações entre os países do sul. Era uma resposta às políticas impostas ao mundo pelas potências hegemônicas, segundo as quais deveria prevalecer o ‘livre fluxo das informações’, ou seja regulado apenas pelo mercado.

O debate entre as duas posições entrou pelos anos 1980 e chocou-se com a ascensão do neoliberalismo nos Estados Unidos de Ronald Reagan e no Reino Unido de Margareth Tatcher. O resultado é conhecido. Os dois países, retiraram-se da UNESCO, seguidos logo depois pelo Japão, esvaziando a organização e sepultando a generosa idéia de uma nova ordem informativa global.

No Brasil, o primeiro movimento mais articulado visando a democratização da comunicação ocorreu 1983, numa iniciativa de um grupo de professores do curso de comunicação social da Universidade Federal de Santa Catarina. Eles lançaram a Frente Nacional de Lutas por Políticas Democráticas de Comunicação, incorporada posteriormente pela Abepec (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Comunicação) e pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas).

De prático esses movimentos pouco conquistaram. A lógica do capital, concentrando cada vez mais o mercado produtor e distribuidor de informações, combinada com a política de enfraquecimento dos estados nacionais, sepultou as esperanças de uma circulação de informações mais equilibrada pelo mundo.

No Brasil houve um avanço com a Carta de 1988, especialmente no que se refere ao capítulo da Comunicação Social. Mas da Lei à prática a distância ainda é grande.

Assim ficamos, durante muito tempo, restritos a declarações e manifestos. Por isso, a ação concreta da Petrobras ganha dimensão histórica. Materializa objetivos perseguidos numa luta de décadas e aponta caminhos novos na relação entre mídia e sociedade. Com certeza o exemplo será seguido por outras pessoas físicas e jurídicas. E, aos poucos, a prática jornalística irá incorporando esse dado novo, estabelecido pela possibilidade de confrontação entre o que é dito e o que é publicado.

Deve-se ressaltar o papel fundamental da internet nesse processo, sem a qual nada disso seria possível. Mas é preciso não esquecer também a coragem política da empresa, sabedora sem dúvida, de que iria bater de frente com o mais poderoso setor empresarial do pais.

E o curioso é que não se tratou de ato ofensivo.

Depois de décadas sofrendo ataques violentos de grupos que nunca engoliram a sua existência, a Petrobras resolveu tomar uma atitude preventiva, de defesa. Daí a surpresa e a grandiosidade do seu ato. O blog da Petrobras se soma, no cenário latinoamericano, ao jornal Cambio da Bolívia, às rádios e televisões públicas da Venezuela e às propostas de alteração nas leis de radiodifusão da Argentina e do Equador. São diferentes instrumentos encontrados pelos governos populares da região para romper o cerco que lhes foi imposto pelas grandes corporações da mídia e para tornar um pouco menos desequilibrada a circulação da informação em seus respectivos países.

Mais de um quarto de século depois da declaração da UNESCO propondo uma nova ordem informativa mundial, eis que na América Latina são dados os primeiros passos concretos nesse sentido. E o blog Fatos e Dados é uma grande contribuição brasileira. Que venham outras.

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP e da Faculdade Cásper Líbero. É autor, entre outros, de ‘A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão’ (Summus Editorial).’

 

MÍDIA & POLÍTICA / EUA
Argemiro Ferreira

A direita terrorista e o ‘big brother’ Obama

‘O extremismo de direita nos Estados Unidos tem facções múltiplas. É religioso, patriótico e racista. Teme a invasão dos EUA por tropas da ONU e raças múltiplas, que chegariam em helicópteros negros. Em [i]The Turner Diaries[/i], ficção racista e anti-semita, lida nas milícias que infestam o país, o autor William Luther Pierce retrata uma revolução violenta, guerra nuclear, tomada do poder e extermínio de judeus e não-brancos. O artigo é de Argemiro Ferreira.

Em abril a secretária de Segurança Interna dos EUA, Janet Napolitano, divulgou o extenso relatório de seu departamento (DHS, Homeland Security) sobre a ameaça do extremismo de direita no país. Foi ridicularizada pelo império Murdoch de mídia, Fox News à frente. Apesar da reação inicial, a advertência é afinal levada a sério depois de dois ataques extremistas – que agora ameaçam dividir o jornalismo da Fox.

Aparentemente os excessos dos talk shows de Murdoch preocupam também alguns jornalistas da casa. A vítima do primeiro ataque extremista, em maio, foi o médico de uma clínica de aborto do Kansas, George Tiller, assassinado por um fanático religioso. No segundo, a 10 de junho, extremista defensor da supremacia branca atacou o museu do Holocausto na capital e matou um segurança a tiros.

O extremismo de direita tem facções múltiplas. É religioso, patriótico e racista. Teme a invasão dos EUA por tropas da ONU e raças múltiplas, que chegariam em helicópteros negros. Em The Turner Diaries, ficção racista e anti-semita, lida nas milícias que infestam o país, o autor William Luther Pierce retrata uma revolução violenta, guerra nuclear, tomada do poder e extermínio de judeus e não-brancos.

A vítima do atentado do Kansas, George Tiller, era chamada pelo campeão de audiência do horário nobre na Fox News, Bill O’Reilly, de ‘assassino de bebês’ – o que pode ter encorajado o extremismo de direita a matar Tiller. Depois do crime, O’Reilly jurou que fazia apenas ‘análises baseadas em fatos’ e às vezes citava grupos cristãos contrários ao aborto, que chamavam Tiller de ‘baby’s Killer’.

‘Um lugar no inferno para ele’

Jornalistas e blogs mais à esquerda acusam a Fox. ‘Qual o próximo alvo da ira de O’Reilly e (Glen) Beck a ser abatido a tiros por terroristas conservadores?’ – perguntou a 31 de maio o blogueiro Markos Moulitsas, do Daily Kos. No mesmo dia Mike Hendricks escreveu no jornal Kansas City Star que são cúmplices todos os que se referiam à vítima, na TV, como ‘baby’s Killer’ e ‘Tiller, the Killer’.

Para O’Reilly, seus críticos são ‘odiadores da Fox’; e defendem a vítima mas são indiferentes à sorte de 60 mil fetos supostamente destruídos por Tiller. Ele jurou, ao mesmo tempo, nunca ter usado as expressões ofensivas ao médico. Mas o site Media Matters for America, ativo no monitoramento da mídia, relacionou as datas (foram dezenas) nas quais o dr. Tiller foi acusado daquela forma.

A 27 de março, depois de Tiller ter sido absolvido em processo movido contra ele por grupo religioso antiaborto, O’Reilly disse: ‘Tiller, o assassino de bebês, foi absolvido no Kansas. (…) Deve haver um lugar especial no inferno para esse cara’. A 3 de abril o herói do horário nobre da Fox atacou de novo: ‘Tiller foi absolvido no Kansas. Tiller, o assassino de bebês’. Eram afirmações dele e não citações.

Ao abordar, a 27 de abril, o veto a um projeto de lei antiaborto, ele se referiu de novo ao ‘caso de Tiller, assassino de bebês’. A 11 de maio, falando da secretária de Saúde Kathleen Sebelius, ex-governadora do Kansas, também observou ser aquele ‘o estado do dr. Tiller, o assassino de bebês’. Consumado o assassinato, passou a alegar cinicamente que só usava a expressão citando outras organizações.

Fundamentalismo cristão, a ameaça

Na verdade, O’Reilly não informava: fazia campanha, havia quatro anos, contra o dr. Tiller, que se tornou personagem fixo em seus talk shows, até ser morto. O crime, a 31 de maio, levou mais jornalistas – Helen Kennedy no Daily News de Nova York, Keith Olbermann na MSNBC e a ex-produtora do ‘60 Minutes’ da CBS, Mary Mapes, em artigo no Huffington Post – a culpar a pregação de ódio de O’Reilly.

Em razão disso veio ainda a reação inesperada dentro da própria Fox de Murdoch. O jornalista Shepard Smith, que apresenta de Nova York o noticiário Studio B, e a correspondente Catherine Harridge, que cobre o Pentágono e assuntos de segurança nacional, disseram que a morte do dr. Tiller e o ataque de James W. von Brunn ao museu do Holocausto davam relevância maior ao relatório do DHS

Antes, ao ser divulgado o relatório, O’Reilly e Beck o repudiaram e Sean Hannity retratara o presidente Obama como o ‘Big Brother’ de George Orwell a vigiar os americanos. Smith e Harridge ousaram adotar posição oposta. O objetivo maior do DHS fora alertar departamentos de polícia – e demais órgãos encarregados de fazer cumprir a lei – para os perigos representados pelo extremismo de direita.

A preocupação das autoridades do Departamento de Segurança Interna, a começar pela secretária Napolitano, é compreensível. A partir do 11/9 a obsessão do país tinha passado a ser o terrorismo muçulmano mas antes disso os terroristas mais ativos estavam na direita – como os milicianos brancos motivados pela supremacia racial e o fundamentalismo cristão obscurantista, comparáveis a Osama Bin Laden.

Ideais e obsessões de Oklahoma City

Na década de 1990, os federais acompanhavam a proliferação de milícias e seitas no país, com confrontos como o que levou ao incêndio no complexo davidiano de David Koresh em Waco, Texas. Ali morreram 54 adultos e 21 crianças em 1993. Dois anos depois, em 1995, veio o atentado de Oklahoma City – o maior ocorrido no país antes do 11/9. Matou 168 pessoas e deixou mais de 800 feridas.

Veterano da guerra de 1991 no Iraque, o terrorista Timothy McVeigh, simpático às milícias de direita, pagou com a pena de morte pelo crime. O relatório do DHS, não por acaso, alertava para a necessidade de preparar o país para o retorno dos veteranos da atual guerra do Iraque. Mas a Fox e os republicanos indignaram-se à mera menção desse grave problema, como se não fosse de fato preocupante.

Tratar com leviandade a morte de dr. Tiller e o ataque ao museu em Washington é um risco, como perceberam Smith e Herridge. Os bandos de direita talvez prefiram ser tratados como piada, mas são reais. Mais sensato é não subestimá-los. Até porque, com base naquele alerta do DHS, um grupo já pede doações pela internet e oferece carteiras de identidade para quem se orgulha de ser ‘extremista de direita’.

Procurados pela mídia, os responsáveis alegaram ser inofensivo, apenas humorístico, o site do grupo Liberty Counsel. Isso é duvidoso: pregam-se ali ideais e obsessões das milícias: interpretação literal da Bíblia, santidade da vida, valores tradicionais da família, porte de armas, redução do poder do governo federal, apoio ‘às nossas tropas’ e aos veteranos. Timothy Weigh assinaria embaixo. Murdoch também.’

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