Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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Agência Carta Maior

03/03/2009 na edição 527

DITABRANDA
Rodrigo Vianna

Por que a Folha não publica cartas de Ivan Seixas?

Do blog de Rodrigo Vianna.

‘Ivan Seixas tinha 16 anos quando foi preso pela ditadura, ao lado do pai, Joaquim Alencar de Seixas. No dia 16 de abril de 1971, os dois foram levados para o DOI-CODI/OBAN, em São Paulo, e barbaramente torturados.

Ivan ficou indignado quando leu o editorial da Folha de S. Paulo, definindo a ditadura brasileira como ‘ditabranda’. Falei há pouco com ele por telefone: ‘É muita arrogância dos Frias, ainda mais com os pés de barro que eles têm. Os Frias não têm direito de pontificar sobre a ditadura, até porque colaboraram com a ditadura’.

Ivan Seixas mandou duas cartas para a Redação da Folha, protestando. Nenhuma das duas foi publicada. Escreveu, também, para o Ombudsman. Nada.

Nesta última, fez referência ao passado nebuloso do grupo Folha, jornal que ‘empregava carros para nos capturar e entregar para sessões de interrogatórios, como sofremos eu e meu pai. Ninguém me contou, eu vi carro da Folha na porta da OBAN/DOI-CODI.’

Ivan sabe do que está falando quando diz que a Folha tem pés de barro nesse tema.

Na madrugada do dia 17 de abril de 1971, poucas horas após a prisão dele e do pai, policiais a serviço da ‘ditabranda’ tiraram Ivan da prisão para um ‘passeio’ por São Paulo. Tomaram o caminho do Parque do Estado, uma área de mata fechada, próxima ao Jardim Zoológico. Lá, o jovem (algemado e desarmado) foi ameaçado várias vezes de fuzilamento. Os policiais – polidos como só acontecia na ‘ditabranda’ brasileira – dispararam várias vezes bem ao lado da cabeça de Ivan. Ele fechava os olhos e tinha certeza que morreria: tortura terrível. Mas, deixaram-no vivo, pra contar a história.

No caminho para o Parque do Estado, os funcionários da ‘ditabranda’ pararam numa padaria, na antiga Estrada do Cursino. Desceram pra tomar café, deixando Ivan no ‘chiqueirinho’ da viatura. Foi de lá que Ivan conseguiu observar a manchete da Folha da Tarde (jornal do grupo Frias), estampada na banca bem ao lado da padaria: o jornal anunciava a morte do pai dele, Joaquim.

Prestem bem atenção: a Folha da Tarde do dia 17 trazia manchete com a morte de Joaquim – que teria ocorrido dia 16. Só que, ao voltar de seu ‘passeio’ com os policiais, Ivan encontrou o pai vivo e consciente, nas dependências do DOI-CODI. Joaquim só morreria – sob tortura – no próprio dia 17.

Ou seja, o jornal da família Frias já sabia que Joaquim estava marcado pra morrer, e ‘adiantou’ a notícia em um dia. Detalhe banal.

A historiadora Beatriz Kushnir publicou um livro em que conta essa e outras histórias mostrando os vínculos estreitos da família Frias com a ditadura.

Ivan está se movimentando para que o livro de Beatriz seja relançado este ano, em São Paulo. O ato serviria também como desagravo às vítimas da ditadura, e como protesto contra a família Frias, que quer reescrever a história recente do Brasil.

O velho Frias, antes de ter jornal, se dedicava a criar galinhas. Não tinha pretensões intelectuais.

Frias Filho – o Otavinho – acha que é um pensador. Devia criar galinhas.

Pensando bem, melhor não. Deixem os bons granjeiros fazerem o serviço deles honestamente…’

 

 

DEBATE ABERTO
Gilson Caroni Filho

O nocaute dos ‘deportados’

‘Quando os boxeadores Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux decidiram por vontade própria voltar para casa, após terem abandonado a delegação cubana nos jogos Pan-americanos, em 2007, setores da imprensa e da oposição não titubearam em falar em deportação, ruptura com ‘nossas melhores tradições diplomáticas’ e uso da máquina burocrática do governo federal para atropelar direitos humanos.

Lideranças demo-tucanas compararam o episódio à deportação de Olga Benário, mulher de Luiz Carlos Prestes, para a Alemanha Nazista, onde morreu em campo de concentração. Comparação descabida? E o que importa quando há um teorema a ser demonstrado?

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) chegou a dizer que’Lula, que durante muitos anos pregou direitos humanos pelas ruas, nos desaponta ao permitir que a máquina policial do seu governo entregue de maneira precipitada esses dois jovens atletas que fugiram e demonstraram que para seu país não queriam voltar’.

De nada adiantou o delegado-chefe da PF de Niterói (RJ), Felipe Laterça, afirmar que aos cubanos foi ofertado exílio, mas ele preferiram retornar a Havana. Ou o Ministério da Justiça assegurar que os atletas não apresentaram pedido de refúgio ao Itamaraty. A versão que deveria prevalecer era a que dava conta de que a Secretaria Nacional de Segurança Pública estava sendo utilizada como ‘um prolongamento da polícia política de Fidel Castro’. Era a que melhor se amoldava ao cenário de um ‘Estado Policial’ tão ao gosto de editorialistas e de alguns membros do Supremo Tribunal Federal.

Ao contrário das regras do boxe, a lógica da oposição compreende golpes abaixo da cintura, na nuca ou com o adversário no chão, mesmo correndo o risco de nocaute quando evidências concretas se apresentam com a força de um ‘jab ou um ‘direto’ (golpe frontal forte com o punho) desferido pela suposta vítima que ‘defendiam com fervor’. Foi o que aconteceu nesse domingo.

Entrevistado pelo programa Esporte Espetacular em Miami, Lara declarou que ele e Guillermo, após terem sido abandonados por uma empresa alemã que se dedica a agenciar lutadores, decidiram voltar para Cuba. ‘Nós decidimos retornar, não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém, já que as coisas deram errado, nós decidimos voltar’.

Enquanto estava no Brasil, o cubano manteve contato com o presidente Lula: ‘Ele me tratou bem, me ofereceu tudo que podia fazer. Ele me perguntou se eu queria ficar no Brasil, eu disse que não, que queria voltar para Cuba’. Ou seja, Lula ofereceu refúgio ao atleta.

E agora, como é que ficam as vidas paralelas dos ‘Varões de Plutarco’ da República brasileira? O que devem combinar com articulistas, editorialistas e cientistas políticos de plantão? Mantêm a ‘cara de paisagem’ tal como fazem na crise econômica que desacreditou totalmente suas análises ou esboçam uma retratação pública? Um pedido formal de desculpas.

Na dúvida, deixo aos leitores uma pequena mostra do circo de horrores. Alguns dos protagonistas ainda estão zonzos, mas não demora muito e voltam a atuar. Convém guardar a estrutura dos relatos.

‘Esse caso( Cesari Battisti) merece um comentário paralelo. Por mais controverso que possa ter sido seu julgamento, por mais dúvidas que possam existir sobre sua participação em todas as mortes de que é acusado, a decisão do ministro brasileiro peca pela origem: como pode o mesmo ministro que entregou para uma das mais cruéis ditaduras do mundo os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que fugiram da concentração durante os jogos do Pan no Rio, alegar que Battisti corre o risco de ser perseguido na democrática Itália?’ (Merval Pereira, 27 de janeiro de 2009)

‘Condeno a forma intempestiva como foi feita essa repatriação, sem que houvesse por parte da sociedade brasileira a possibilidade de saber se essa era a vontade daqueles indivíduos.’ (Aécio Neves, 9 de agosto de 2007)

‘Estrangeiros que pedem asilo a uma embaixada brasileira são da alçada do Itamaraty, e os que pedem refúgio dentro do Brasil são do Ministério da Justiça. Mas, convenhamos, não se trata um simples caso de asilo ou refúgio. E os dois acabaram sendo um caso de polícia. Uma polícia que aceitou com muita facilidade a versão do ‘arrependimento’. Rigondeaux e Lara foram despachados ‘a pedido’, como nas demissões em Brasília, e sem investigação, sem processo, sem julgamento. Nenhuma entidade de direitos humanos foi ouvida. Em sendo muy amigo de Fidel, fica parecendo que o governo do PT cedeu à pressão e entregou os cubanos à própria sorte -ou azar. Se viessem de outra ditadura, ‘à direita’, talvez tivessem sido acolhidos como refugiados. Aos amigos, tudo; aos inimigos.’ (Eliane Catanhêde, Folha de S.Paulo, 10 de agosto de 2007)

‘A decisão do governo de Cuba de proibir os pugilistas Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara de prosseguir em suas carreiras de atletas e de sair pelo resto de suas vidas do país é a prova mais evidente de que os dois não retornaram à ilha de Fidel Castro por vontade própria’. (Dora Kramer, Estado de São Paulo, 25/08/2007)

‘Imagino que muita gente ainda se lembre de Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara. Os dois pugilistas cubanos tentaram desertar durante os Jogos Panamericanos do Rio de janeiro em julho de 2007. Pretendiam seguir para a Alemanha, já com promessa de contrato. Entretanto, foram presos pela Polícia Federal e imediatamente deportados. Um avião posto à disposição do governo cubano pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, levou os pugilistas de volta para Cuba.’ (Lúcia Hippolito, em seu blog, 25/02/2009)

‘A Polícia localizou os cubanos, e os prendeu, sem motivos para isso. Manteve os rapazes incomunicáveis, atropelando a Constituição, e chegando inclusive a expulsar o advogado enviado pelos empresários, que teve que ir embora sem sequer poder ver os presos. Depois, em tempo record, providenciou um avião que levasse os pobres coitados para Havana, com escala em Caracas.’ (Cláudio Humberto, Tribuna da Imprensa, 11/08/2007)

‘Com a fuga de Cuba do boxeador Guillermo Rigondeaux, escreveu-se o penúltimo capítulo da uma história iniciada em 2007, quando ele e seu colega Erislandy Lara foram deportados pela polícia do comissário Tarso Genro.O último será escrito quando se souber com quem Fidel Castro falou no dia em que ele soube do desaparecimento da dupla. Que falou com alguém, falou, pois isso foi contado pelo seu chanceler, Felipe Pérez Roque. Nas suas palavras, o Comandante pediu ao seu interlocutor ajuda para ‘propiciar e organizar’ o repatriamento dos fujões. Pode demorar, mas um dia a identidade do amigo de Fidel será conhecida’. (Elio Gaspari, Folha de S. Paulo, 01/03/2209)

O boxe, quando bem ensinado, ensina o lutador a ter respeito pelo próximo. Certos sentimentos são extremamente prejudiciais aos praticantes, como medo, raiva e vaidade. Na política e no jornalismo brasileiros tais disposições soam virtuosas. Sem direito a refúgio.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.’

 

 

POLÍTICA
Rodrigo Vianna

Contra PSDB, jornais exigem provas

‘Do blog de Rodrigo Vianna:

Em 2005, Roberto Jefferson deu uma entrevista exclusiva à Folha, em que lançava dezenas de acusações contra o governo federal. Foi nessa entrevista, também, que Jefferson cunhou a expressão ‘Mensalão’.

Vocês se lembram da manchete da Folha de S. Paulo na época? Não? Então, relembremos:

‘PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson’.

Agora, comparemos com o título da última sexta-feira (20/02/2009 – no ‘pé’ da primeira página da Folha), sobre a denúncia do PSOL de Luciana Genro contra Yeda Crusius, governadora do PSDB:

‘Sem provas, PSOL acusa tucanos de corrupção no RS’.

Por que este ‘sem provas’ tão cuidadoso, no título da última sexta-feira (20/02/2009)? Por uma questão de isonomia, o correto seria ‘Governo tucano tem corrupção e caixa dois, diz PSOL’.

Por que o mesmo ‘sem provas’ não apareceu na manchete quando Jefferson deu sua entrevista?

Hum…

Bem, talvez para a Folha, Jefferson valha mais do que o PSOL. Gosto não se discute. Ou, mais provável: qualquer denúncia contra o partido de Serra (o editorialista preferido da família Frias) merece todo cuidado! Por que a sigla ‘PSDB’ não aparece nem na primeira página, nem na manchete de página interna?

(Isso me lembra a cobertura da Globo, na reta final da eleição de 2006. Os aloprados que tentaram comprar o dossiê contra Serra eram ‘petistas’. O Freud Godoy era ‘petista’. Na hora de falar de Abel Pereira, um sujeito que intermediaria negócios na gestão de Barjas Negri (PSDB) no Ministério da Saúde, aí ninguém falava em ‘governo do PSDB’. A fórmula era: ‘ministro no governo anterior’.)

Mas, voltemos ao caso da corrupção no Rio Grande do Sul. A denúncia é gravíssima. E já há um cadáver. Marcelo Cavalcante, ex-assessor de Yeda Crusius, apareceu morto no Lago Paranoá, em Brasília. Ele deveria ter uma reunião com o Ministério Público Federal em Brasília, logo após o Carnaval.

Hum, hum…

Imagine se um ex-assessor do governo da Bahia, do PT, tivesse morrido, poucos dias antes de depor ao Ministério Público, num caso que envolve corrupção? Imagine as manchetes a essa altura? Eu imagino: ‘Ex-assessor petista aparece morto em Brasília’. Seria manchete semana inteira, com matéria na Veja, e editorial na Folha.’

 

 

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