Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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ENTRE ASPAS > CRISE POLÍTICA

Alberto Dines

26/07/2005 na edição 339

‘Nas brechas da vociferação, a voz ponderada. Enquanto a maioria digladia-se na arena com vassouras, esfregões e baldes de roupa suja, alguém preocupa-se com o dia seguinte. No grande circo federal poucos se dão conta de que os holofotes já começam a cegar, os malabaristas capengam e os palhaços estão rotos. Pior: ninguém se dá conta de que as feras estão famintas.

Neste banquete de canibais em que se converteu a cena política, o senador Jefferson Peres (PDT-AM) teve a ousadia de oferecer, sem grandes alardes, a idéia de uma concertação política. Com dois pequenos artigos (‘Globo, 19/7 e ‘Folha’, 21/7), ofereceu uma saída serena capaz de interpor-se à exaltação e desfazer a dinâmica do apocalipse.

Jefferson, o decente, começa pedindo desculpas pelo uso do espanholismo, concertación,. Não precisava: embora ainda não incorporada ao português falado no Brasil, a palavra e a noção de concertação social e política estão há mais de 15 anos em uso em Portugal (‘Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea’, da Academia de Ciências de Lisboa).

A Espanha, com o famoso Pacto de Moncloa (depois da ruína do franquismo), e o Chile, através do acerto entre a Democracia-Cristã e os Socialistas (em seguida ao fim da ditadura de Pinochet), são exemplos de plataformas de consenso capazes de acomodar as principais forças políticas de nações recém saídas de regimes de exceção em torno da idéia de estabilidade institucional.

Já tivemos um concertamento em 1961 (em seguida à renúncia de Jânio Quadros) quando os partidos civis e o partido militar, graças à genialidade de Tancredo Neves, contornaram o perigo de uma guerra civil com a solução de entregar a presidência da República num regime parlamentar a João Goulart.

Dizem os manuais de gerenciamento de crises que a boa solução é aquela que resolve pelo menos dois problemas: o parlamentarismo trazia uma reforma política radical que o Estado brasileiro reclamava desde o fim do Império e, junto com ela, oferecia a manutenção da linha sucessória prevista pela Constituição.

Esta solução foi torpedeada logo depois quando o carbonário Leonel Brizola percebeu que o sucesso da fórmula parlamentarista enterraria seu projeto voluntarista de suceder ao cunhado Jango. O Senador Jefferson Peres não citou esta brasileiríssima concertação certamente para não ser obrigado a lembrar os estragos que a desmedida ambição de Brizola, o fundador do seu partido, causou ao país.

A concertação só pode ser empreendida por políticos que tenham o estofo de estadistas, líderes capazes de ultrapassar os interesses pessoais e as limitações partidárias em cruzadas cívicas e morais. Não era o caso de Brizola, não era o caso de Darcy Ribeiro (principal conselheiro de Jango) e, não parece ser o caso dos aparelhistas do PT (alguns deles designados abertamente como ‘camarilha’).

A frase final do pedido de desfiliação do PT feito por Sílvio Pereira na sexta-feira contra as ‘forças conservadoras que se aproveitam de nossas fragilidades’ é exemplo da distância em que se encontram os ex-aparatchiks do PT (e são muitos!) da idéia de salvação nacional.

Jefferson Peres tem os atributos para lançar a idéia da concertação mas, infelizmente, não tem um partido capaz de sustentar um movimento de grandes proporções capaz de preservar o Estado enquanto os diferentes poderes são depurados da degradação. O ministro Márcio Thomas Bastos, graças à função (a pasta da Justiça antes de 1964, sempre foi a pasta política), graças ao respeito que goza do presidente Lula e, sobretudo, graças à sua natureza e/ou formação, já deu alguns passos discretos na direção de um entendimento.

A discrição, no caso, nada tem a ver com escamoteação. Um acordo supra-partidário neste momento não pode, sob hipótese alguma, sugerir um abrandamento das investigações ou de punições. A concertação pretende justamente garantir a governabilidade DEPOIS das numerosas cassações, depurações administrativas e reformas da máquina governamental. A governabilidade que se pretende com a concertação não é a mesma que o governo aconselhado pelo cínico Sarney persegue de forma tão desastrada há quase um ano.

A concertação pretende um conserto de emergência. Para evitar lapsos, rupturas. Para evitar traumas.’



Ricardo Noblat

‘José Dirceu se defende e acusa parte da mídia’, copyright Blog do Noblat (www.noblat.com.br), 24/7/05

‘Nota oficial distribuída ontem pelo deputado e ex-ministro José Dirceu de Oliveira:

‘O linchamento moral ao qual estou sendo submetido nas últimas semanas é de uma covardia jamais vista na história política deste país. A frustração por não encontrar uma única evidência concreta de minha participação nas ilicitudes investigadas pelo Congresso Nacional, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, tem levado parte representativa da imprensa brasileira a fazer o jogo dos meus adversários políticos. Estou sendo sumariamente condenado em praça pública, sem direito de defesa.

Na competição sem freios pelas denúncias, qualquer referência a mim promove a notícia do cesto de lixo para a manchete do dia. Citações desconexas de pessoas sem credibilidade são transmitidas como verdade à opinião pública, sem que meus argumentos sejam sequer levados em conta na apuração. A revista ‘Veja’ faz isso três vezes na edição 1.915, de 27 de julho de 2005. Nas reportagens ‘A chantagem’ e ‘O petróleo é deles’, minha contestação foi completamente ignorada. Na reportagem ‘Fábrica de fraudes’, sequer fui ouvido.

‘Veja’ apresenta pessoas que supostamente teriam feito tráfico de influência como meus ‘representantes’. Assume como verdade o fato, mesmo após eu ter dito que ‘nunca autorizei ninguém a usar meu nome’ para abrir portas no governo. Lembrei ainda que isso foi dito em relação ao ex-subchefe de Assuntos Legislativos da Casa Civil Waldomiro Diniz, mas o depoimento do próprio denunciante Carlinhos Cachoeira na CPI dos Bingos provou o contrário.

‘Veja’ também me coloca como interlocutor de conversas entre o ex-presidente da Câmara deputado João Paulo Cunha (PT-SP) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suposta operação para ‘acalmar’ o empresário Marcos Valério. A reportagem não registrou que neguei ter conversado sobre esse assunto. Na outra reportagem, a revista me acusa de ter ‘acertado’ a edição de uma medida provisória para beneficiar o banco BMG. Não me deu a oportunidade de, além de negar o fato, argumentar que a liberação do crédito consignado para trabalhadores, aposentados e pensionistas do INSS, objeto da MP, foi solicitada pelas centrais sindicais, aprovada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, referendada pelos Ministérios da Fazenda e da Previdência Social e aprovada pelo Congresso Nacional.

A mesma falta de consideração e respeito aos princípios básicos do jornalismo ocorreu com reportagem de igual teor do jornal ‘Correio Braziliense’, publicada em 17 de julho passado. Também fui vítima da mesma anomalia na exibição e publicação de reportagens com citações ao meu nome em conversas interceptadas de fraudadores do INSS. Meu patrimônio moral foi massacrado em duas reportagens que totalizaram mais de 13 minutos no ‘Jornal Nacional’ da TV Globo, que só no terceiro dia informou seus telespectadores que os denunciantes eram pessoas envolvidas com a máfia do INSS que tinham o objetivo de atingir quem estava moralizando o órgão. A versão inicial foi reproduzida por toda a imprensa, mas a outra foi quase completamente ignorada.

Em outras vezes, apesar de ser ouvido na apuração da reportagem, minhas afirmações e argumentos são registrados apenas como obrigação formal. Nesta semana ocorreram dois casos. A Folha de S.Paulo considerou como dívida o reembolso de adiantamentos de despesa feito por mim ao PT, mesmo sendo esclarecida previamente. Outros veículos da imprensa reproduziram a mesma versão. Poucos tentaram me ouvir. Os que o fizeram também desconsideraram a informação correta.

Outro caso semelhante ocorreu novamente com o ‘Correio Braziliense. Mesmo depois de sustentar que não conhecia um determinado diretor de finanças de um fundo de pensão e que os controles sobre a indicação de cargos não apontavam que a indicação partiu da chefia da Casa Civil ou do PT, a reportagem assumiu como inteira verdade apenas a palavra de outras fontes, que não se sabe qual interesse podem ter para me desmoralizar.

Em razão desse comportamento inadequado de parte da imprensa brasileira, me dirijo à opinião pública do país para afirmar mais uma vez: não me envergonho de nada que fiz nos 30 meses em que permaneci no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Espero ser tratado com respeito, ponderação e justiça nesse processo político de desmoralização, que busca justificar minha condenação sumária em um Tribunal de Exceção.’’



João Ubaldo Ribeiro

‘O que é isso, companheiro?’, copyright O Globo, 24/7/05

‘Abordando o que vou abordar, corro o risco de desinteressar os leitores. Culpa minha, claro, pois estarei tocando num assunto velho. Já é comum escreverem-se ensaios polissilábicos sobre como a massa de informação que nos bombardeia sobrecarrega a mente e nem temos tempo de pensar direito. E a tecnologia, cada vez mais célere, torna tudo obsoleto de um dia para o outro. Consumimos novidades, não queremos senão novidades, tudo envelhece em poucos dias, às vezes horas. O massacre de ontem hoje não mais interessa e a corrupção denunciada hoje cansa, se repisada amanhã. Tudo, até a notícia, virou uma espécie de mercadoria e o consumidor quer o último lançamento.

Acrescente-se a isso a revelação vertiginosa de falcatruas e crimes. É um caleidoscópio enlouquecido, um carrossel desgovernado, uma lanterna mágica de trambiques, mentiras e armações sórdidas, apresentada em compasso tão desenfreado que não se pode acompanhá-lo. Puxa-se um fio e a meada, em lugar de diminuir, aumenta e leva a outra e esta ainda a outra, numa rede diabólica de manobras delinqüentes, trazendo a sensação de que o país é conduzido por gangues ou famílias mafiosas. O espírito do homem de bem acaba por chegar a seus limites, o que se expressa em dezenas de formas, até mesmo evitando esses assuntos, por uma questão de sobrevivência psicológica e emocional, pois, afinal, para muitos, já soçobraram os valores, as crenças e os padrões incorporados à sua formação, o que pode tornar a vida insuportável.

Tenho ciência desse problema, mas não vou deixar de fazer meu registro de algo que não gosto de dizer, mas que alguém tem que dizer, porque estou seguro de que muita gente pensa da mesma maneira. Não gosto de dizer o que vou dizer porque queria acreditar no contrário, achar fatos ou indícios que me desmentissem convicções que a cada dia mais se solidificam na minha cabeça e na de inúmeros concidadãos. Mas não encontro fato ou indício algum e, assim, entendo que cabe afirmar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desrespeita e subestima os governados, despreza-lhes a inteligência, julga-os cegos diante dos acontecimentos e surdos-mudos depois deles.

Infenso ao contato com a imprensa, a não ser para monologar, escolheu um método singular para dirigir-se ao país, em sua visita à França. Com ar despreocupado, até fagueiro, que, em lugar da imagem de tranqüilidade que talvez quisesse projetar, dava a impressão de deboche quanto aos que vêem gravidade em nossa situação política, disse, com um cinismo que me assustou, pois era a última cara em que esperava vê-lo estampado, que era aquilo mesmo, que o PT tinha feito apenas o que é feito ‘sistematicamente’, no Brasil. Portanto, conclui-se, não há razão para espanto ou desilusão.

Mas há razão para espanto e desilusão. Ficam agora dizendo por aí que não se suporta mais um presidente operário e se quer depor um presidente operário. Em primeiro lugar, não estou apoiando e muitíssimo menos propondo, sua deposição, até mesmo por vias legais. Em segundo lugar, votei no presidente operário, votou a esmagadora maioria do povo brasileiro e o que eu queria era ter orgulho de dizer isso, era encher o peito como cheguei a encher nos primeiros tempos. Não fizemos uma revolução, optamos pela mudança por vias democráticas, levamos ao poder um operário, um herói de origem humilde, um lutador, um desbravador, um que se proclamou ser aquele que mudará.

E de fato mudou. Quer dizer, mudou ele. Hoje temos a nos presidir um assassino de sonhos e esperanças, um que diz, com o semblante jovial, que o partido que vinha para mudar já começou por não mudar coisa nenhuma, ou melhor, ao que tudo indica, aperfeiçoou os mecanismos do embuste e da ladroagem, a partir da própria campanha. É isso mesmo, que queríamos, que o PT efetivamente representasse mudança, que ingenuidade é essa, que otários somos? Portanto, o presidente devia saber do que se passava, certamente não em detalhes, mas em linhas gerais. É assim que se faz, quem não sabe disso?

Numa entrevista que dei, referi-me a ele como ignorante. Confirmo. Mas a entrevista, por questão de espaço, precisou ser editada e, no muito que se teve de excluir, deixei claro que, quando disse ‘ignorante’, o fiz apenas para ilustrar uma afirmativa e utilizo a palavra no sentido de formalmente inculto. Pois ignorante, infinitamente ignorante em relação a ele, sou eu, naquilo que ele — que, além de tudo, é muito inteligente, apesar da preguiça intelectual ou geral — domina magistralmente, o tornou artífice principal de uma obra política sem precedentes e o conduziu à posição em que está e que agora o revela como na inquietantemente profética frase do Barão de Itararé: ‘Queres conhecer o Inácio, coloca-o num palácio.’

O candidato da mudança, do partido diferente dos demais, é o presidente de um país onde seu partido não muda nada, antes conserva com afinco e esmero. O companheiro, afinal, não passa de mais uma Vossa Excelência, das quais, aliás, já vimos melhores. Não tenho provas e por isto mesmo não acuso. Apenas digo que, na minha opinião, que só retiro se um juiz ordenar, Vossa Excelência sabia da bandidagem de seus auxiliares e, vai ver, tacitamente a aceitava, ou seja, calava e, pois, consentia. E digo, interprete Vossa Excelência como lhe for servido, que corrupto não é só quem frauda diretamente ou põe dinheiro no bolso: é também quem vê e ou finge que não vê, ou não liga e não faz nada, sabendo que é seu dever fazer algo. Sobretudo em casos assim, a conivência ou negligência faz alarmante fronteira com a cumplicidade. Se o raciocínio é correto, Vossa Excelência está próximo da suspeita de corrupção. Por favor desculpe a franqueza, mas acredito, embora não tenha certeza, que Vossa Excelência ainda prefere a sinceridade à bajulação e à hipocrisia.’



Ancelmo Gois

‘Efeito Mala Valério’, copyright O Globo, 25/07/05

‘Lula deve anunciar esta semana a descentralização da propaganda do governo até aqui centrada no Palácio.

Cada órgão vai cuidar da parte que lhe cabe neste latifúndio.’



***

‘Todos na TV’, copyright O Globo, 25/07/05

‘Cesar Maia é mau que nem pica-pau. O prefeito estuda decretar, como fez na Copa do Mundo, ponto facultativo no Rio, dia 2 de agosto, ‘para que as pessoas possam assistir na TV ao depoimento de Zé Dirceu na Comissão de Ética’.

É. Pode ser.’

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