Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > INTERNET

Alessandro Giannini

17/05/2005 na edição 329

‘Criado no último dia 9 de maio, The Huffington Post (www.huffingtonpost.com) reúne em um mesmo blog a fina nata da criatividade e um time de celebridades que tem como marca distintiva a diversidade. Imagine o maestro Quincy Jones e o ator John Cusack ao lado do exâncora Walter Cronkite e do exredator de discursos de George Bush, David Frum no mesmo espaço compartilhando pensatas sobre os mais variados assuntos? No mínimo curioso.


A dona da idéia é Arianna Huffington, principal colunista do site e ex-candidata ao governo da Califórnia. Sua idéia é criar um impacto no que chama de ‘diálogo mundial’ e, de alguma forma, encurtar o espaço entre o leitor e esses formadores de opinião. É uma interatividade virtual, já que o contato não será direto, como acontece nos blogs tradicionais. Mas isso já é alguma coisa.


No primeiro dia, por exemplo, Jones fez um comentário sobre o caso Michael Jackson, com quem trabalhou como produtor no início da carreira solo dele: ‘Peguei um pouco do filme de Elvis na televisão. O rapaz de Dublin que fazia o papel dele era bom; tinha o jeitão dele. Fez com que eu pensasse sobre a fama e o sucesso maciço e sobre como as pessoas lidam com isso – e como para outras pessoas pode ser a coisa mais destrutiva do mundo. Fez com que eu pensasse em Michael – e como é difícil assistir o que está acontecendo com ele agora’.


Enquanto isso, Frum falava sobre sua participação no blog informativo de Arianna Huffington de uma forma que não deixa margem de dúvida sobre sua posição dentro do espectro político. ‘O (jornal inglês) The Guardian diz que meu trabalho aqui é ´perturbar uma visão de mundo cômoda´. Mas aprecio o convite de publicar aqui. Assim, talvez, em vez de perturbar, eu me resigne a expandila’, escreveu.


São mais de 250 colaboradores, entre celebridades, jornalistas e alguns ilustres desconhecidos – especialmente para quem não está integrado à sociedade americana. E há também um espaço noticioso, com flashes e textos mais alentados sobre o que está acontecendo no mundo. Uma combinação saborosa, mas que não é unanimidade. Já há quem critique a iniciativa por ser muito elitista, principalmente outros blogueiros americanos. Há até um site que satiriza o blog das celebridades, o Bluffington Post (www,bluffingtonpost.com). Viva a diferença?’




RÁDIO EM ALTA
Helena Celestino


‘Rádio por assinatura é a nova paixão nos EUA’, copyright O Globo, 15/05/05


‘O velho rádio, quem diria, vem despertando novas paixões. Ao incorporar uma nova tecnologia, foi a mídia que mais cresceu nos Estados Unidos nos últimos três anos, deixando para trás até o celular. Mais de cinco milhões de consumidores estão pagando US$ 155 por ano de assinatura, comprando equipamentos, antenas e acrescentando fios novos pela casa, para ter acesso à programação do rádio por satélite, em vez de continuarem ouvindo de graça as rádios AM/FM transmitidas por via terrestre.


É completamente supérfluo, já que poderiam baixar do computador qualquer música ou simplesmente fazer sua própria trilha sonora no iPod (aparelho que permite a gravação de músicas do computador) ou ainda ouvir rádio do mundo inteiro pela internet. Quer dizer, é claro que poderiam viver sem essa novidade. Mas eles não querem, porque se apaixonaram. Costuma ser amor à primeira vista – ou ao primeiro som – o caso entre os consumidores e o rádio por satélite.


– Eu não acredito na quantidade de música nova que ouço – surpreende-se John Benvenuti, publicitário, que tem iPod e uma quantidade maior de CDs do que ele mesmo consegue contar, mas que agora ouve rádio sem parar.


Canal de piadas faz grande sucesso entre os ouvintes


Existem duas empresas no mercado: XM Satellite, a maior e a primeira a se lançar em 2001, e a Sirius, uma competidora aguerrida desde julho 2002. Só nos primeiros três meses de 2005, a XM ganhou 540 mil novos assinantes e a estimativa dos especialistas é de que até o fim do ano as duas cheguem a ter mais de 8 milhões de consumidores pagando US$ 12,95 por mês pra ouvir os seus programas.


Cada uma das duas oferece em torno de 120 canais, com uma programação muito variada e um som fantástico, o que já obrigou as emissoras tradicionais a mexerem na extremamente padronizada grade das suas rádios.


Tanto a Sirius quanto a XM têm cerca de 60 canais dedicados exclusivamente a música, ou seja, sem interrupções para anúncios: são, por exemplo, seis canais só de música country , outros tantos só de soul, alguns dedicados ao jazz e blues, outro só de grandes sucessos, compensados por um de underground garage ou, dependendo do gosto, por outro só de música dos anos 40.


A segmentação e diversidade de canais é um dos segredos do sucesso, e há de tudo para todos os gostos. Coisas impensáveis para as rádios tradicionais são naturalíssimas nas emissões via satélites como, por exemplo, um canal dedicado só a canções religiosas ou outro de músicas mexicanas.


Cerca de 60 outros canais estão voltados para os esportes, tempo, notícias, talk shows – um deles é exclusivo para temas relacionados aos negros e outro só de sexo. Foi uma surpresa para os programadores descobrir que um canal de piadas e programas cômicos é um grande sucesso entre os ouvintes:


– Piada, quem poderia imaginar? – pergunta Hugh Panero, um executivo da XM.’


***


‘Celebridades fazem contratos milionários’, copyright O Globo, 15/05/05


‘As duas empresas estão gastando milhões de dólares para contratar celebridades, como a apresentadora de televisão e empresária Martha Stewart, que foi chamada pela Sirius para ter um canal dedicado a estilo de vida – coisas como decoração, moda, culinária etc. Ou o músico Eminem, que faz uma programação digamos ‘radical’ para atrair um público extremamente diferente dos admiradores de Martha.


Os ouvintes assíduos dizem que não há muita diferença entre a programação da Sirius e da XM e acham que a qualidade do som das duas é semelhante, ou seja, infinitamente superior ao do rádio tradicional.


– O que mais me surpreendeu foi a paixão dos assinantes pelo produto – disse ao jornal ‘Metro’ Mel Karmazin, o ex-presidente da Viacom, recentemente contratado pela Syrius.


É a satisfação do ouvinte, traduzida no pagamento das assinaturas, e os anúncios nas estações não-musicais que financiam as empresas. Nenhuma das duas ainda dá lucro mas as duas prevêem que sairão do vermelho até o fim deste ano, confiantes na progressão geométrica do crescimento dos assinantes. A XM, que tinha 350 mil ouvintes pagantes em 2002, chegou a 3,77 milhões em março de 2005, numa evolução semelhante à da Sirius, que passou de três mil, em 2002, para 1,14 milhão em 2005.


Até montadoras se rendem ao apelo do rádio


O mercado estima que até 2010, os assinantes de rádio por satélite serão entre 30 milhões e 45 milhões e, para manter esse crescimento, as empresas estão fazendo contratos com a indústria automobilística: a Hyundai já se comprometeu com a XM a equipar seus carros com rádios compatíveis, a Range Rovers e a Jaguar assinaram contrato com a Sirius para botar nos seus automóveis receptores da programação da empresa. Hoje em dia, os consumidores gastam algo entre US$ 100 e US$ 600 comprando os rádios e mais uns US$ 100 a US$ 150 em adaptadores, cabos, antenas e um técnico para acertar tudo.


– Vale a pena – garante Benvenuti.


Os apaixonados pelo rádio por satélite são muito poucos comparados com os 230 milhões de ouvintes das grandes empresas de comunicação. Mas foram em número suficiente para fazê-las aumentar a variedade do cardápio musical e reduzirem em alguns poucos minutos o tempo dos anúncios, constataram as companhias que medem audiência nos Estados Unidos. Em fevereiro, as 10 maiores rádios diminuíram de 11,7 para 11 minutos a duração dos anúncios a cada hora de programação e aumentaram de 300 para 1200 ó número de títulos musicais.’




TV GLOBO
Karla Dunder


‘Uma análise crítica dos 40 anos da Rede Globo’, copyright O Estado de S. Paulo, 15/05/05


‘Que a Globo é um império e abocanha boa parte da audiência ninguém discute, mas os professores de comunicação Valério Cruz Brittos e César Ricardo Siqueira Bolaños sugerem uma boa reflexão sobre os 40 anos da emissora. Os organizadores convidaram professores e pesquisadores para analisar, por diferentes ângulos, a trajetória da empresa no livro Rede Globo, 40 Anos de Poder e Hegemonia.


O livro não faz parte das festas ou comemorações, o leitor encontrará um panorama e uma análise crítica da história da emissora. ‘Pesquiso sobre televisão há muito tempo, no ano passado me dei conta do óbvio, que esse aniversário seria comemorado com muita festa e muita pose, sem qualquer tipo de reflexão,’ afirma o professor da Unisinos Valério Cruz Brittos. ‘Esse é um assunto que merece ser debatido, uma vez que a emissora atinge muitas pessoas, via telenovela ou telejornal, com um poder político grande, que influencia a opinião pública, como é o caso do famoso debate entre Collor e Lula.’ Para a escolha dos profissionais que colaboraram com artigos, Brittos e Bolaños fizeram um mapeamento de pesquisadores da área em todo o Brasil e convidaram 20 intelectuais cujos textos estão divididos três partes. No primeiro são abordados aspectos gerais, como questões econômicas e políticas. Os autores destacam aspectos relevantes desde a regulação da televisão no País até mesmo a relação da Globo com questões políticas. ‘A interface com a política é marcante desde o início, no governo JK, por exemplo, a emissora era parceira do grupo estrangeiro Time/Life – a Constituição da época proibia o capital externo na área de comunicação – outras empresas teriam suas concessões cassadas, mas a Globo teve um prazo para regularizar sua situação. Como todo negócio, os primeiros anos necessitam de muito capital até ter algum retorno, daí a importância da Time/Life.’ Brittos também destaca que a ditadura militar esteve muito atrelada ao crescimento da Globo.


De acordo com Brittos, na época pouco se falava em rede de televisão, algo ainda incipiente para o Brasil. ‘A idéia de formar uma ampla teia de telecomunicações, que atingisse diferentes cantos do País, era interessante tanto para a emissora, que ampliaria seu público, como para o regime militar, que pretendia a união nacional.


A estréia do Jornal Nacional em 1969 vinha exatamente ao encontro dessa idéia.’ Nesse sentido, a telenovela também busca atingir diferentes espectadores, no geral, parte de um aspecto ou assunto local e o transforma em algo nacional.


As novelas da Globo conquistaram não apenas o mercado interno, como se transformaram no produto de exportação e laboratório para o desenvolvimento de tecnologia, o chamado padrão Globo de qualidade. É justamente na segunda parte do livro que os autores se debruçam sobre a questão do audiovisual e difusão dos produtos da emissora em outros países, principalmente em Portugal como demonstra Pedro Jorge Braumann, que faz uma análise detalhada do mercado português e o crescimento da emissora brasileira ali. ‘A tevê a cabo, repete, de certa forma, a fórmula da aberta no que diz respeito à programação, já o canal internacional usa os produtos nacionais, o que significa custo baixo. Com o conteúdo eclético que possui, a rede também tem grande capacidade para novos negócios e atingir outros públicos.’ A terceira parte é destinada a entender a evolução em outros mercados, como a mídia impressa, o rádio, a tevê por assinatura, a indústria fonográfica e o cinema. O livro aponta tendências, como a entrada das tevês digitais, sem esquecer de questões bem pertinentes como o endividamento das empresas de comunicação em todo o País.’




Daniel Castro


‘Globo testa modelos para próxima novela’, copyright Folha de S. Paulo, 15/05/05


‘‘Belíssima’, a próxima novela das oito da Globo, será uma vitrine para modelos. O autor da trama, Silvio de Abreu, quer que dois ou três personagens da história, que serão modelos, sejam profissionais das passarelas de verdade.


‘Estamos fazendo testes para vários papéis, entre eles os de modelos. Os personagens que serão modelos são importantes. Se acharmos alguns com condições de representá-los, eles farão esses papéis. Se não, faremos com atrizes. Tudo depende dos resultados dos testes’, afirma Abreu.


A novela, que começa a ser gravada em julho em São Paulo, terá o universo da moda como pano de fundo. A protagonista Júlia (Glória Pires) será executiva de uma confecção de lingeries. A indústria, que se chamará Belíssima, completa 50 anos no início da novela e os festeja com desfiles.


‘Belíssima’ tem um núcleo de moda, especificamente de lingerie. Muitos modelos deverão participar de diversos desfiles que ocorrerão durante toda a duração da trama’, adianta Abreu.


O autor nega que Gisele Bündchen tenha sido convidada para atuar na trama. Ele não revela nomes de quem está fazendo testes.


OUTRO CANAL


Missão


A TV Cultura negocia com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma participação dele no ‘Roda Viva’.


Sol 1


As mudanças feitas até agora em ‘América’ estão agradando pesquisadores do núcleo de teledramaturgia da USP (Universidade de São Paulo). Para a professora Maria Lourdes Motter, a novela está mais ‘iluminada’. ‘A fisionomia da Sol [Deborah Secco] mudou muito. Ela passa por uma situação péssima, mas demonstra estar mais feliz, luminosa’, diz.


Sol 2


Motter também aprova a personagem de Christiane Torloni (Haydée), ‘que é autocentrada’, mas identifica nela um ‘déja vu’: o reencontro com um ex-amor (Tony/Floriano Peixoto) lembra a trama da mesma atriz com José Mayer em ‘Mulheres Apaixonadas’ (2003), de Manoel Carlos.


Rodeio 1


O programa ‘Terra Sertaneja’, de Sérgio Reis na Band, lança hoje o ‘primeiro ‘game country’ da TV brasileira’. Será uma gincana em que os participantes representarão os Estados do país. As equipes serão formadas por peões e por um boi, que ao contrário do da novela ‘América’, será chamado de Mocinho (e não de Bandido).


Rodeio 2


Os prêmios da gincana serão 15 vacas, cinco bois, R$ 10 mil, um ‘pedaço’ de terra e um emprego em uma fazenda.’

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PRIMEIRAS EDIçõES > TV BRASILEIRA

Alessandro Giannini

Por lgarcia em 05/02/2003 na edição 210

CIDADE DE DEUS

“?Cidade de Deus? chama atenção na Inglaterra”, copyright O Estado de S.Paulo, 2/2/03

“Por ocasião da estréia de Cidade de Deus na Inglaterra, a revista Sight & Sound publicou na edição de janeiro um pequeno ensaio de três páginas sobre o filme assinado pelo professor e crítico brasileiro Ismail Xavier. Na mesma edição, que traz como destaque na capa uma entrevista com Martin Scorsese a propósito de Gangues de Nova York, há ainda uma crítica assinada por Paul Julian Smith, professor da Universidade de Cambridge e autor de livros sobre cinema espanhol.

Intitulado Angels with Dirty Faces (na tradução, anjos de cara suja), o texto de Xavier parte do grande sucesso de Cidade de Deus no Brasil e das polêmicas que o filme despertou entre críticos e intelectuais brasileiros para destrinchar sua estrutura. Ao afirmar, em poucas palavras, que se trata de ?um evento social?, ele evita entrar em polêmicas quixotescas. Em vez disso, dedica-se a explicar o por que do fenômeno, usando o que se desenha na tela – e somente isso – como principal e mais importante ponto de referência.

Tomando como premissa o fato de que o impacto de Cidade de Deus é decorrente do tema central, uma combinação de violência, crime organizado e crianças, Xavier escreve: ?É um sucesso por causa da maneira como a situação é representada. (…). É um filme que lida com problemas sociais, mas os expressa na linguagem cultural da MTV, do rap e da disco music, familiar aos jovens da mesma idade que seus protagonistas. Foi esse estilo que fez de Cidade de Deus a tentativa brasileira mais bem-sucedida, desde meados dos anos 90, de tornar o drama social palatável para um público massivo.?

Com isso, Xavier esquiva-se – sabiamente, diga-se de passagem – da polêmica inesgotável entre estética e mercado. Por mais que se condene no filme uma tênue contextualização, uma certa desumanização e a opção por retratar de modo cru a violência feita pelas crianças e cometida contra elas, não se pode negar que Fernando Meirelles – e sua co-diretora, Katia Lund, responsável principalmente pela direção dos atores – foi extremamente hábil na construção desse painel histórico de um dos bolsões de pobreza mais violentos do País.

Responsável pela crítica da revista ao filme, Paul Julian Smith expõe a visão do estrangeiro de Primeiro Mundo, em geral pouco acostumado – ao contato com realidades como a da Cidade de Deus. Despido, portanto, de preconceitos e parcialidades, ele consegue ser apenas incisivo quando fala da estilização extremada do filme. ?A brilhante estilização aqui não poderia estar mais longe do neo-realismo miserabilista dos primórdios do cinema urbano latino-americano. E Meirelles não tem uma agenda política para esfregar na cara dos espectadores; mais sutilmente, como Scorsese, ele nos leva tão longe dentro do mundo dos personagens que nós, como eles, não podemos imaginar como seria a vida fora desse círculo infernal.?

Não se pode, também, ignorar outro aspecto decorrente do sucesso de Cidade de Deus. Ao tocar em feridas profundas e se atrever a mexer em certos tabus, o filme mobilizou a opinião pública em torno de temas que pareciam estar fora da agenda do brasileiro esclarecido, de tão banalizados – e maltratados, no pior sentido do termo – pela média dos meios de comunicação.

Cite um filme brasileiro da retomada que tenha atraído tanta atenção e promovido tantas discussões acaloradas antes de jogar a primeira pedra.”

 

TV BRASILEIRA

“A TV brasileira tem duas faces”, copyright O Estado de S. Paulo, 2/2/03

“Este mês faz 12 anos que os Estados Unidos bombardearam Bagdá entrando na Guerra do Golfo Pérsico. Este mês o mundo poderá reviver esse mesmo pesadelo ao vivo pela TV. A diferença é que, em 1991, o que o telespectador brasileiro soube da guerra foi por meio da narração e viu apenas clarões verdes do bombardeio na noite por meio de imagens registradas pela CNN americana, única emissora presente no Iraque.

Desde então, os brasileiros têm tido acesso a informações internacionais com a mesma rapidez que os telespectadores do Primeiro Mundo. Chegamos a um grau de sofisticação que hoje dispomos de um olhar nacional sobre os conflitos e notícias que, neste mundo globalizado, interferem em nosso cotidiano. Temos repórteres brasileiros onde as notícias nascem para traduzir para o público qual o papel dos personagens envolvidos e as implicações dos conflitos.

A verdade é que, em termos de telejornais, todas as emissoras deram um grande salto de qualidade. Os noticiários são profissionais, bem formatados e densos. Eles representam o que podemos chamar como a nova TV brasileira.

Infelizmente, a essa parte nova da televisão está colada – como irmãos xipófagos – uma outra muito velha: a do sensacionalismo e da exploração da miséria humana.

Esse lado, diríamos, podre da TV, esteve na mais alta evidência na semana passada por causa do hediondo crime do cirurgião-plástico Farah Jorge Farah, chamado pelos programas policiais e femininos da tarde de ?esquartejador?, ?médico monstro?, etc.

Como já foi mencionado nesta coluna, a notícia toda tem de ser dada. O repugnante é a utilização que se faz de fatos desse gênero. Em todos os programas – até nas mais prosaicas revistas femininas – o crime foi explorado à exaustão em seus detalhes mais macabros. Na volúpia por pintar o diabo mais feio do que ele já é, cada programa foi atrás de personagens que de alguma forma ofereceram pretexto para repórteres e apresentadores mergulharem na sordidez do crime. O soldado que tomou conta do cadáver da dona de casa vítima do cirurgião foi levado ao estúdio do Repórter Cidadão para descrever cada centímetro do estrago feito no corpo da mulher.

O marido, os pais e a irmã da vítima foram disputados pelas produções para depor. Pessoas simples, elas prestaram-se a interpretar o papel escrito pelos programas: perambularam pelos estúdios, emocionaram-se, expuseram a intimidade de suas casas e os objetos da vítima. Vizinhos do criminoso, ex-pacientes, psicólogos, anatomistas, policiais e delegados também atenderam prontamente ao chamado da TV para atuar como figurantes no circo de horrores armado.

A cartilha foi seguida à risca por todos: A Casa é Sua, Repórter Cidadão (Rede TV!), O Melhor da Tarde e Brasil Urgente (Bandeirantes), Falando Francamente (SBT), Direitos Humanos e Cidade Alerta (Record) investiram forte na carnavalização da tragédia. Como brinde, todos eles recuperaram uma fileira de crimes – como o do psicólogo pedófilo e da garota que matou os pais – que lhes serviram de enredo para o espetáculo na última temporada.

As cores foram tão fortes na pintura da tragédia da ?esquartejada? que os deslizamentos que mataram famílias inteiras em recantos miseráveis ficaram em plano secundaríssimo, como se o drama dessas pobres criaturas não fosse bastante forte para segurar a audiência.

Este Brasil moderno, que tem feito bonito no noticiário internacional graças à eleição de um presidente popular e comprometido com causas sociais, precisa – em algum momento muito próximo – analisar o conteúdo da TV e dar vez à sociedade organizada (ONGs e afins) para promover uma cirurgia na programação. E livrá-la de sua parte velha.”

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