Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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ENTRE ASPAS >

Ana Wambier, Helena Celestino e Roberta Oliveira

01/02/2005 na edição 314

‘O ‘New York Times’ errou. A confissão estará publicada na edição de hoje, numa nota de redação em que o jornal lamenta não ter verificado a nacionalidade de três mulheres cujas fotos foram usadas para ilustrar uma reportagem sobre a obesidade das mulheres de Ipanema, no último dia 13. Na nota (veja a íntegra abaixo) , o jornal informa que uma das mulheres fotografadas contou ao GLOBO que as três eram turistas européias e explica que o autor das fotos é um freelancer, que trabalhou independentemente do repórter.

A todas as perguntas sobre o trabalho do jornalista Larry Rohter, o porta-voz do ‘NYT’, Toby Usnik, respondeu que o jornal tem plena confiança no seu correspondente no Rio, o que inclui a reportagem que escreveu sobre o problema da obesidade no Brasil, tendo como base um estudo do IBGE. Daniel Okrent, ombudsman do jornal, classificou a história como embaraçosa para o ‘NYT’.

‘Sou gordinha, mas sou feliz’, diz tcheca

Uma das mulheres retratadas pelo fotógrafo Jonh Maier para o ‘NYT’, a tcheca naturalizada italiana Milena Suchopárková, voltou ontem ao Rio, depois de passar alguns dias de férias em Foz do Iguaçu. Ao desembarcar no Aeroporto Internacional Tom Jobim, ela foi tratada como celebridade: uma legião de curiosos esperava para ver Milena passar. No meio do tumulto, uma voz sobressaiu com um elogio à tcheca:

– Olha a garota de Ipanema. Que filezão – gritou o taxista Leonardo Brasil.

– Não sou uma pessoa conhecida. Não estou acostumada com isso – repetia Milena enquanto posava, constrangida, para fotógrafos e cinegrafistas. – Vim para o Brasil como uma total desconhecida e minha foto foi vista por meio mundo. Sou gordinha, mas sou feliz.

Menos satisfeita que a amiga, a tcheca Hanna Seidlerova disse ao GLOBO ontem, por telefone, que pensa em nunca mais voltar ao Brasil depois de sua imagem ter sido exposta internacionalmente.

– Adoraria poder conhecer a Amazônia, mas não posso voltar a um país que não consegue defender seus turistas de um terrorismo psicológico como o que eu sofri – disse ela, referindo-se ao fato de não ter sido consultada sobre a publicação da foto. – Gostaria de saber o que o Brasil vai fazer em relação a isso.

Milena, que está hospedada no apartamento de uma amiga no Flamengo, confessou que sua intenção inicial ao chegar no Brasil no fim de 2004 era fazer uma dieta de emagrecimento, mas logo desistiu.

– Gosto de comer. Sou onívora, como de tudo. Aqui no Brasil não há como resistir a um churrasco, uma caipirinha ou uma feijoada – contou ela.

Ela também revelou seus planos para o carnaval:

– Vou ficar por aí e me divertir. Adoraria desfilar numa escola de samba, mas nunca tive a oportunidade – disse ela, que ainda pretende voltar a Foz do Iguaçu com um amigo italiano que está chegando ao Brasil.

Com a mesma simpatia, ela voltou ontem, a pedido do GLOBO, ao local em que foi flagrada pelas lentes de John Maier: a Praia de Ipanema, cujas areias ela não pretende deixar de freqüentar por causa da reportagem do jornal americano. O que não quer dizer que Milena não pense em tomar medidas legais. Pelo contrário.

Uma carta enviada por Milena ao ‘New York Times’ três dias depois da publicação da reportagem mostra que ela ficou irritada com o uso de sua imagem e que considerou ofensiva a sua exposição. ‘Achei o artigo mentiroso e ofensivo porque danificou a minha imagem. Por isso, queridos senhores, peço ressarcimento de danos para mim e para minhas amigas correspondente a US$ 50 mil. Do contrário, vamos passar para as vias legais’, afirma um trecho da carta.

O fotógrafo John Maier não foi encontrado.’



Helena Celestino

‘‘O jornal não foi cuidadoso o suficiente’’, copyright O Globo, 28/01/05

‘Em entrevista ao GLOBO, em Nova York, o ombudsman do ‘New York Times’ afirma que o repórter Larry Rohter não pode ser responsabilizado pelo erro do fotógrafo John Maier, e sim o jornal, que publicou a foto.

O senhor, como ombudsman, acha grave o erro do ‘New York Times?’

DANIEL OKRENT: A publicação da fotografia foi um erro e é um embaraço para o jornal, é um erro grave.

Como isso aconteceu?

OKRENT: Pelo que eu entendi, o fotógrafo e o repórter trabalharam independentemente. O fotógrafo não perguntou a nacionalidade das mulheres da foto.

Fotógrafo e repórter falharam ao não cumprir as regras internas do ‘Times’?

OKRENT: Pelas regras de qualquer jornal, fotógrafos têm de identificar as pessoas que retratam. Não sei se foi por falta de cuidado ou por não obedecer às regras do jornal. De qualquer jeito, a atitude não foi correta.

Larry Rohter virou motivo de piadas no Brasil. Isso não cria problemas para o ‘Times’?

OKRENT: Rohter não é responsável, não esteve envolvido no trabalho do fotógrafo.’



O Globo

‘Turistas tchecas viram notícia em seu país’, copyright O Globo, 28/01/05

‘As três tchecas flagradas pelas lentes do fotógrafo John Maier para ilustrar uma reportagem do ‘New York Times’ que falava sobre obesidade no Brasil estão revoltadas com a dimensão que o caso tomou. Ontem, no início da noite, o principal telejornal daquele país mostrou as imagens das reportagens publicadas pelo ‘NYT’ e pelo GLOBO. Foi a primeira vez que a notícia foi divulgada no país de origem das turistas. Segundo uma delas, a repercussão trouxe ‘uma enorme dor de cabeça’.

‘Agora, todos no nosso país sabem’

Milena Suchopárková, a tcheca naturalizada italiana que ainda está de férias no Brasil, falou com Hanna Seidlerova pelo telefone ontem no fim da tarde e ficou sabendo da notícia:

– Ela disse que as imagens do GLOBO apareceram numa das principais emissoras, mostrando nós três na praia. Estamos com muita raiva. Antes, só estrangeiros estavam sabendo. Agora, todos no nosso país sabem. Não achava que isso ia chegar à República Tcheca.

Milena, que nos primeiros dias estava sempre de bom humor, deixou o sorriso de lado:

– Andei pelas ruas do bairro fazendo coisas absolutamente rotineiras e as pessoas estão vindo falar comigo, dizendo que me reconhecem do jornal. Eu não falo com estranhos – disse ela.

Também ontem, o ‘New York Times’ publicou uma carta do editor na seção ‘Erros’. O jornal admitiu ter errado ao publicar a foto sem que a nacionalidade das três fosse conferida.’

***

‘Colegas apóiam Rohter’, copyright O Globo, 28/01/05

‘A presidente da Associação dos Correspondentes Internacionais de Imprensa Estrangeira no Brasil (Acie), Diana Kinch, disse ontem que o jornalista William Larry Rohter Jr. continua sendo um profissional respeitado:

– Acho que a matéria de Rohter tem uma coisa muito positiva, que é chamar a atenção dos brasileiros para a questão da saúde.

Uma pessoa próxima a Rohter, que pediu para não ser identificada, disse que o jornalista americano conhece a fundo o Brasil, ‘mais até que muitos brasileiros’.

– A matéria que ele escreveu não tem nada do tom jocoso que a imprensa nacional insinuou. Ele já fez muitas matérias positivas a respeito do Brasil.

Outros correspondentes estrangeiros definiram Rohter, de 55 anos, como uma pessoa fechada e sem muitos amigos. Ele mora no Leblon e sai pouco.’

***

‘‘Cariocas’ de Larry Rother vieram da República Tcheca’, copyright O Globo, 27/01/05

‘O polêmico correspondente do New York Times, Larry Rother, criou alvoroço quando escreveu matéria mostrando que nem só de belas mulheres se faz o Rio de Janeiro e fotografando três ‘cariocas’ bastante acima do peso. A pauta era sustentada por números do IBGE sobre a obesidade no Brasil, que mostram que mais de 40% da população está acima do peso. Ao sair a campo para comprovar o que a pesquisa revelara, no entanto, o fotógrafo John Maier, da equipe de Rother, escolheu mal: a foto que tanto revoltou os brasileiros era, na verdade, de três tchecas.

‘Dá para ver no meu rosto que sou uma típica mulher brasileira’, brinca Milena Suchopárková, uma das fotografadas. As outras duas eram suas amigas, também da República Tcheca. A foto ilustrou a reportagem ‘Praias para esbeltos, onde as calorias estão à mostra’, de 13/01.

Atestada a ‘barriga’, fica a certeza de que o erro só aconteceu porque a dupla de repórteres não pediu permissão às turistas para fotografarem-nas. ‘O que mais me irritou não foi aparecer numa reportagem sobre obesidade no Brasil, e sim o fato de ninguém ter me perguntado se eu permitiria fazer a foto’ contou Milena à equipe de reportagem do jornal O Globo. ‘Isto, em qualquer país do mundo, é invasão de privacidade. Eu me senti muito ofendida. Como eles se atrevem a fazer isso?’

A tcheca descobriu o que havia acontecido quando o porteiro do prédio onde estava hospedada perguntou, com a capa do jornal O Globo com sua foto reproduzida na mão, se aquela era mesmo ela. ‘Desci para comprar outro jornal e quase desmaiei’. As amigas só souberam da foto por Milena. E também não gostaram. ‘A Hanna, que é aquela que aparece de costas na foto, achou um absurdo viajar quilômetros e gastar tanto para depois ter o bumbum exposto mundialmente’.

O susto de aparecer no jornal não foi único. Milena e as amigas também se assombraram ao serem fotografas para uma matéria sobre obesidade. ‘Acho que estou acima do peso, mas nunca fui magricela, sempre tive uma constituição robusta, o que não quer dizer que seja obesa’, defende-se Milena, que, aos 58 anos, distribui seus 90 quilos por 1,75 metro de altura. ‘Certamente, não sou uma garota de Ipanema, já sou uma senhora de uma certa idade’.

Pelo cálculo do Índice de Massa Corporal, Milena não chega a ser obesa, está apenas acima do seu peso.

As amigas decidiram processar o jornal americano por danos morais. Três dias depois de a foto ser reproduzida no Globo, Milena enviou uma carta à sede do New York Times pedindo explicações, com cópia para Rohter e Maier. Não recebeu resposta. As amigas estão dispostas a brigar por seus direitos porque a reportagem mexeu com sua auto-estima. ‘Há cinco anos, Hanna pesava 45 quilos, mas teve uma doença e engordou’, conta Milena. ‘Quando viu a foto, disse que certamente repórter e fotógrafo nunca tinham passado pelo que ela passou’.

O correspondente Larry Rother não foi encontrado para discutir o erro.’



Folha de S. Paulo

‘Garota de Ipanema do ‘NYT’ veio do frio’, copyright Folha de S. Paulo, 28/01/05

‘A garota de Ipanema do ‘New York Times’ veio do frio. Estampada na capa do jornal norte-americano como exemplo da obesidade que atinge as mulheres que inspiraram Tom Jobim e Vinícius de Moraes, a turista tcheca Milena Suchopárková, 58, diz só esperar a volta do sol para novamente freqüentar as areias de Ipanema. ‘Não tenho problema com meu peso’, disse.

Em férias no Brasil, Milena, que também possui nacionalidade italiana, chegou ontem de Foz do Iguaçu (PR) e fica no Rio até o final de fevereiro, quando retorna a seu país. Com 90 quilos e 1,75 metro, Milena apareceu na primeira página do ‘New York Times’ do dia 13 de janeiro em reportagem sobre obesidade e excesso de peso no país.

Ela acusou de ‘invasão de privacidade’ o repórter Larry Rother e o fotógrafo John Maier. ‘Eles deveriam nos consultar antes de sair fotografando.’

Para escapar do inverno europeu, Milena há quatro anos consecutivos passa longas férias no Brasil, onde tem parentes.

A reportagem do ‘New York Times’ se baseava em levantamento do IBGE apontando que 40% da população brasileira está acima do peso e afirmava que as garotas de Ipanema de hoje nem sempre apresentavam a beleza perfeita sugerida pela canção de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, gravada em 1963.

Milena, de cabelos claros e pele branca, avermelhada pelo sol, estranha que o fotógrafo não tenha desconfiado de sua nacionalidade. Quando fotografada pelo ‘NYT’, estava com duas amigas também tchecas, Ludmila Kamberskaed e Hanna Seidlerova.

Indagado pela Folha sobre o erro, o diretor de Relações Públicas do jornal, Toby Usnik, afirmou que ‘o ‘New York Times’ tem plena confiança no correspondente Larry Rohter e em seu trabalho’. Segundo o jornal, o fotógrafo acreditava que todos os fotografados eram brasileiros.

Usnik afirmou que o jornal pretendia publicar hoje uma nota dos editores com um pedido de desculpas pelo erro na identificação da fotografia.

Outra personagem da reportagem, a professora Juddy Hoolliday de Jesus, 41, já havia dito à Folha que aparecer no ‘NYT’ e, depois, no jornal ‘O Globo’ foi um ‘tsunami’ em sua vida.

Rother criou controvérsia em maio, ao fazer reportagem sobre os hábitos etílicos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.’

***

‘Após obesidade, NYT vê febre do ‘fraldão’ no país’, copyright Folha de S. Paulo, 28/01/05

‘Após publicar reportagem sobre a epidemia de obesidade no Brasil, com fotos de estrangeiras acima do peso, na praia, o ‘New York Times’ aponta agora o que seria nova febre no país: sumô.

O diário conta a história de lutadores que, uma vez por semana, se reúnem em um velho bairro industrial de São Paulo para praticar o esporte. Segundo o texto, o sumô está tão estabelecido no país que lutadores viraram artigo de exportação. Explica o fenômeno apontando o 1,5 milhão de descendentes de japoneses que vivem no Brasil (é a maior população nipônica fora do país natal).

O sumô registra hoje no Brasil só cerca de 2.000 praticantes e tem colhido atletas fora da comunidade japonesa -80% não têm ascendência oriental. Seu sucesso, porém, segue atrelado a nichos nipônicos. A maior concentração de atletas está em São Paulo (500) e luta no bairro da Liberdade.

‘Existem muitos lutadores, mas não é um esporte popular. Trabalhamos para fazer o número crescer’, diz o presidente da confederação brasileira, Masatoshi Akagi.

Acredita-se que o sumô surgiu há mais de 1.500 anos. Sua imagem mais comum é a de lutadores obesos com vestimenta tradicional (similar a um ‘fraldão’), mas pode ser praticado por várias categorias de peso e por mulheres. No Brasil, os atletas são desconhecidos do público apesar de conquistarem medalhas, inclusive de ouro, nos dois últimos Mundiais.’

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