Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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ANJ faz alerta para a perda de privacidade

Por Leticia Nunes em 10/11/2006 na edição 406

SEXTA-FEIRA, 10/11


ANJ faz alerta para a perda de privacidade


Leticia Nunes


Leia abaixo os textos desta sexta-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Sexta-feira, 10 de novembro de 2006


QUEBRA DE SIGILO
Folha de S. Paulo – Editorial


Direitos ameaçados


‘Facilidade com que se quebram sigilos no país abre as portas a extorsões e ameaças; já passa da hora de fechá-las


O QUE ressalta, no episódio da quebra do sigilo de uma linha telefônica desta Folha, é a leviandade com que agentes públicos tratam as garantias constitucionais no país. Ainda que não se demonstre intenção da Polícia Federal de bisbilhotar o trabalho jornalístico, o caso constitui inequívoca violação do sigilo de fonte. Lança luz, ademais, sobre uma gravíssima rotina na relação entre policiais e juízes que precisa mudar.


Duas linhas deste jornal foram incluídas pela PF em um pedido de quebra de sigilo de 169 números, a título de investigar o escândalo do dossiê eleitoral. Motivou a solicitação à Justiça, diz o delegado titular do caso, o fato de os números da Folha estarem na memória de chamadas de um celular usado por um suspeito de negociar os papéis contra tucanos. Tão logo constatou tratar-se de uma linha do jornal e de ligações sem conexão possível com a negociata, a PF descartou essa via de investigação, diz o policial.


A versão oficial tem dois problemas. O primeiro diz respeito à sua difícil harmonização com outro fato: se é verdade que os telefones da Folha deixaram de ser investigados, por que um ramal do jornal constava de um relatório de inteligência formulado pela Polícia Federal?


O segundo ponto a questionar é uma falha grave de procedimento. Por que a polícia se preocupou em saber que o número telefônico pertencia à Folha e não tinha ligação com a falcatrua somente após o sigilo do jornal ter sido quebrado? Seu dever era, de posse dos números armazenados no celular do suspeito, fazer uma apuração prévia para saber quais conexões mereciam ser aprofundadas.


Uma solicitação de quebra de sigilo telefônico tão pouco embasada e genérica deveria ter sido rechaçada na Justiça. Mas não: a ruptura de garantias constitucionais foi tratada como um ato burocrático banal. E o pior é que o episódio que envolveu este jornal não é exceção.


O despreparo e o comodismo de policiais que confundem investigação com quebra de sigilo a mancheias, endossados pela atitude de Pilatos de muitos juízes, constituem ameaça constante aos direitos dos cidadãos no Brasil. Essa rotina defeituosa é explorada à exaustão por bandidos infiltrados no poder público, em busca de munição para extorquir e intimidar.


Por essa brecha, há cinco anos grampearam-se mais de 200 telefones na Bahia -entre os alvos estavam adversários do senador Antonio Carlos Magalhães. Em 2001, o procurador federal Luiz Francisco de Souza solicitou à Justiça dados sigilosos de um desafeto ao incluir seu CPF num pedido relativo a outra apuração.


São dois exemplos célebres de uma deturpação cotidiana que deságua em extorsão e ameaças em todas as regiões do país. Passa da hora de fechar as portas a esse abuso. É preciso restaurar nos cidadãos a segurança de que as autoridades zelam por seus direitos fundamentais.’


 


Andréa Michael


PF quer retirar dados da Folha de inquérito


‘A Polícia Federal pedirá à Justiça Federal em Mato Grosso a retirada, do inquérito que investiga o dossiê contra políticos tucanos, de todas as informações relativas à quebra do sigilo de um número de telefone utilizado pela Folha no comitê de imprensa da Câmara dos Deputados e de um celular utilizado por uma repórter do jornal. A PF não informou quando fará o pedido.


Os dois números tiveram o sigilo quebrado, juntamente com outros 167, graças a um pedido feito pela PF à 2ª Vara da Justiça Federal em Mato Grosso, no dia 24 de setembro.


O pedido fez parte das investigações, comandadas pelo delegado Diógenes Curado, sobre o dossiê negociado por emissários petistas com o objetivo de envolver políticos tucanos com a máfia dos sanguessugas.


Concedida a autorização judicial, a Brasil Telecom enviou à PF uma planilha que lista 1.218 ligações feitas e recebidas pela linha fixa utilizada pela Folha. As informações foram utilizadas posteriormente, em um relatório elaborado pelo setor de inteligência da PF, que registrou o nome ‘Folha da Manhã’, referência à Empresa Folha da Manhã S.A. (que edita a Folha), no documento incluído no inquérito policial e enviado à CPI dos Sanguessugas.


Neste mesmo relatório de inteligência há registro, sem identificação, do telefone celular de um repórter do jornal ‘O Globo’ e de um telefone do jornal ‘O Estado de S.Paulo’, mas nenhum dos dois foi identificado nem teve o pedido de quebra de sigilo feito pela PF.


Tecnicamente, a PF pedirá à Justiça para ‘desentranhar’ dos volumes que compõem o inquérito as informações sobre o sigilo telefônico e qualquer referência feita à Folha.


Os números do jornal apareceram no relatório pericial elaborado com base na análise do aparelho celular de Gedimar Passos, que foi preso no dia 15 de setembro, juntamente com Valdebran Padilha, em um hotel em São Paulo, com um R$ 1,75 milhão em dólares e reais. O dinheiro seria usado para pagar o dossiê, produzido pelos empresários Darci e Luiz Antonio Vedoin, que comandavam a máfia dos sanguessugas.


O superintendente da PF em Mato Grosso, delegado Daniel Lorenz, afirmou que, apesar de não fazer parte da investigação, a Folha teve seus dados e a razão social registrados em documentos do inquérito por uma questão de ‘transparência’.


Leia a seguir íntegra de nota divulgada ontem pela PF.


‘Em razão de diversas notícias veiculadas na mídia nacional no dia de hoje [ontem], 9 de novembro, o Departamento de Polícia Federal vem a público para esclarecer que:


O Departamento de Polícia Federal jamais trabalhou com a intenção de investigar a Folha de S.Paulo ou qualquer outro veículo de comunicação, seus profissionais ou ainda atentar contra sigilo de fonte ou a a liberdade de imprensa, a PF nunca solicitou ao Juízo pedidos contra a empresa Folha da Manhã S.A.; a inclusão de números de propriedade da Folha de S.Paulo dentre as solicitações de quebra de sigilo telefônico é exclusivamente fruto da impossibilidade de verificar previamente a propriedade dos terminais telefônicos e da celeridade que a sociedade brasileira e que a boa doutrina policial demandam em investigações tão graves e com tais características.


A Polícia Federal entende da maior importância o primado das liberdades de imprensa e expressão na vigência do Estado Democrático de Direito. A PF julga ainda que o bom conceito de que goza junto à opinião pública é resultado do livre exercício das liberdades que assistem os profissionais de jornalismo.


A PF não possuía na data em que solicitou as quebras de sigilo ao juiz do caso, 24 de setembro, meios de identificar previamente a titularidade dos telefones, e aproveita ainda a oportunidade para esclarecer que não requisitou as quebras dos telefones que interagiam com os números de Folha, pois este não era o objetivo dos investigadores que, sob determinação da Justiça Federal e vigilância do Ministério Público Federal, continuam a buscar o total esclarecimento do caso.’



Para Lacerda, imprensa deve entender que ação da PF está ‘dentro do razoável’


‘O diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, disse ontem que o delegado Diógenes Curado cumpriu o ‘papel de investigador’ ao pedir à Justiça a quebra de sigilo de linhas telefônicas que mantiveram contato com pessoas envolvidas na negociação de um dossiê contra políticos tucanos -entre as quais uma da Folha.


Segundo ele, a imprensa deveria ter sensibilidade para entender que os atos praticados estão ‘dentro do razoável’. Lacerda disse que, apesar do instrumental que a PF possui, ainda não conseguiu ‘ter uma bola de cristal para saber de quem é esse ou aquele telefone’.


Em 24 de setembro, com base em um laudo sobre as chamadas feitas e recebidas pelo celular de Gedimar Passos, a PF pediu à Justiça a quebra de sigilo e os dados cadastrais de 168 linhas, entre elas um número usado pela Folha no comitê de imprensa da Câmara (quebra) e o número de um celular usado por uma repórter do jornal (dados cadastrais).


Conforme Lacerda, ao identificar que os números eram de um veículo de imprensa, os investigadores descartaram sua utilidade para a investigação. Ele reafirmou o compromisso da PF com a liberdade de imprensa, à qual se referiu como ‘um valor primordial da democracia brasileira’.


Em seguida, analisou o ocorrido: ‘O delegado pega o celular de um investigado, vê os números [discados e recebidos] e pede autorização judicial para ter informação de quem são os usuários das linhas. Isso está certo ou errado? É o papel do investigador. Assim como havia ligação para ministérios, para a Presidência da República, havia um contato da mídia. O importante é saber se ele [Curado] deu curso a alguma diligência para investigar o que o repórter falou. Isso não houve. Quando se soube que era um órgão da mídia, isso já foi descartado da investigação’.


E continuou: ‘Não vemos isso como quebra de sigilo, como investigação sobre o profissional nem sobre o veículo’, disse.


A planilha enviada à PF pela empresa de telefonia Brasil Telecom lista 1.218 ligações feitas e recebidas pelo telefone fixo usado pela Folha entre os dias 1º de agosto e 29 de setembro -dados usados pela PF num organograma, que foi enviado à CPI dos Sanguessugas.


Ao defender os procedimentos adotados pelo delegado, Lacerda afirmou que a PF precisa ter sensibilidade para perceber o que serve ou não à investigação, da mesma forma que a ‘imprensa tem que ter sensibilidade para compreender essa situação e entender que está dentro do razoável buscar a informação primária, que vem às cegas, e a partir dali é que se começa a ter a noção de com quem se está lidando’.


Ao falar à imprensa, Lacerda fez referência ao vazamento de informação que tornou pública a quebra do sigilo dos telefones usados pela Folha. ‘[Há um] outro aspecto a considerar em favor da proteção [dos dados que são trazidos à investigação]. Esse inquérito corre sob sigilo, e, com certeza, não foi o delegado que passou essa informação para vocês.’’




Folha de S. Paulo


Juiz diz ignorar relação da Folha com o processo


‘O juiz Marcos Alves Tavares, da 3ª Vara Federal de Cuiabá (MT), e que na época da quebra de sigilo era o substituto da 2ª Vara Federal, onde corre o processo do dossiegate, disse ontem, por meio da assessoria de imprensa da Justiça Federal, desconhecer que dois telefones da Folha tiveram o sigilo quebrado na investigação.


O juiz Tavares substituiu o juiz responsável pelo processo do dossiê, Jeferson Schneider, até o dia 4 de outubro. O pedido da Polícia Federal para quebra de sigilo dos telefones foi encaminhado à Justiça Federal no dia 24 de setembro.


Schneider informou ontem desconhecer a informação de que tenha sido feita a quebra de sigilo dos telefones -um fixo, instalado no comitê de imprensa da Câmara, e um celular profissional, usado por uma repórter- da Folha.


De acordo com a assessoria de imprensa da Justiça Federal do Mato Grosso, os atos processuais da Justiça no caso do dossiê estão sob sigilo e não podem se tornar públicos.


Procurados pela Folha via assessoria de imprensa, ambos os juízes preferiram não se manifestar pessoalmente sobre o assunto.’


 


APURAÇÃO: JORNAL NÃO FOI INVESTIGADO, DIZ DELEGADO


‘O delegado Diógenes Curado, encarregado do inquérito sobre o dossiê contra tucanos, disse que as quebras de sigilo dos dois telefones usados pela Folha foram solicitadas porque os números estavam na memória do celular de Gedimar Passos entre as chamadas não-atendidas. Segundo ele, um dos telefones do jornal foi o último registrado no celular de Gedimar. Curado afirmou que a linha telefônica usada pela Folha é a única em nome de um veículo de comunicação identificado na perícia feita no celular. ‘Nos casos dos números da Folha, vimos que eram ligações posteriores à prisão de Gedimar, fruto normal do trabalho dos jornalistas. Imediatamente descartamos qualquer investigação sobre o jornal.’’



Em nota, ANJ faz alerta sobre risco de perda de privacidade


‘A ANJ (Associação Nacional de Jornais) distribuiu nota em que lamenta a quebra do sigilo de um dos telefones da Folha e alerta as autoridades judiciais e policiais sobre investigações que colocam em risco o direito à privacidade dos cidadãos.


‘A Associação Nacional de Jornais preocupa-se profundamente pelo fato de as investigações da Polícia Federal sobre o caso do ‘dossiê eleitoral’ terem tido como conseqüência a quebra do sigilo telefônico da ‘Folha de S.Paulo’, afirma a ANJ em nota assinada por Júlio César Mesquita, vice-presidente.


Leia a seguir a íntegra do texto divulgado pela entidade.


Associação Nacional de Jornais preocupa-se profundamente pelo fato de as investigações da Polícia Federal sobre o caso do ‘dossiê eleitoral’ terem tido como conseqüência a quebra do sigilo telefônico da ‘Folha de S.Paulo’.


A ANJ lamenta que a quebra do sigilo telefônico exponha os contatos telefônicos feitos pelos profissionais da Folha. Nunca é demais lembrar que o sigilo da fonte é parte essencial do livre exercício do jornalismo, conforme determina a Constituição.


As autoridades judiciárias e policiais deveriam atentar para as conseqüências da autorização e execução do recurso da quebra de sigilo telefônico.


Isso se aplica a qualquer investigação e tendo em vista todo e qualquer cidadão. O episódio envolvendo a ‘Folha de S.Paulo’ mostra que, no mínimo, deveriam se buscar critérios mais adequados para esse procedimento.


A ANJ se solidariza com a Folha e seus profissionais e espera que episódios como esse não se repitam. As investigações policiais, necessárias para averiguar crimes, não podem levantar suspeitas sobre suas motivações nem colocar em risco o direito à privacidade dos cidadãos.


Brasília, 9 de novembro de 2006


Júlio César Mesquita


Vice-Presidente da Associação Nacional de Jornais’



Congressistas criticam quebra do sigilo e questionam governo


‘Integrantes da CPI dos Sanguessugas e outros parlamentares condenaram ontem a quebra do sigilo de duas linhas telefônicas da Folha. O líder da oposição na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA), disse que vai entrar com representação no Ministério Público contra o delegado da Polícia Federal Diógenes Curado: ‘É evidente que o delegado foi tendencioso e negligente, no mínimo. Para não dizer que foi doloso’.


O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), sub-relator da CPI dos Sanguessugas, disse que buscará explicações com o próprio delegado na segunda: ‘É preciso checar com ele se as ligações da Folha ocorreram antes ou depois das prisões’.


O vice-presidente da CPI, deputado Raul Jungmann (PPS-PE), disse que ‘a quebra do sigilo da Folha torna-se incompreensível e inexplicável pelo fato de não ter ocorrido o mesmo com outros órgãos de imprensa que tiveram tanto ou mais ligações telefônicas para os envolvidos. Isso destrói qualquer explicação, que, se não for convincente, configurará mais um caso de abuso’.


‘O grande problema hoje é que não há mais privacidade. Deveria haver uma parcimônia e um cuidado para que só em casos com evidências claras fosse pedida a quebra. Ela é uma medida extrema’, afirmou o relator da CPI, o senador Amir Lando (PMDB-RO).


O líder do PFL no Senado, José Agripino (RN), classificou como ‘um precedente grave’ o episódio: ‘Evidenciou que imprensa está sendo policiada de forma ilegal e truculenta por orientação do governo’.


A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado aprovou ontem um requerimento de informação ao ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) sobre eventuais irregularidades na quebra de sigilo telefônico da Folha pela PF. Também foi aprovado um voto de solidariedade ao jornal. Os dois requerimentos foram apresentados pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP).


O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também condenou a quebra de sigilo de telefones do jornal. ‘Nós sempre lutamos contra essas coisas. Toda vez que o Brasil ficou sem liberdade de expressão pagou um preço altíssimo por isso. Não seria agora que concordaríamos com a repetição desses fatos’.


Surpreendido pelos repórteres pela manhã, o presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, não estava a par do assunto: ‘Foi quebrado por quem? Pela PF?’ Socorrido por um assessor, respondeu de forma genérica: ‘Imagino que uma quebra de sigilo tenha sido feita com autorização judicial. A pergunta tem que ser dirigida ao Poder Judiciário, que nesse país ainda é autônomo e tem competência para isso’.


Ele negou o cerceamento da imprensa: ‘O governo tem garantido uma liberdade de imprensa absoluta. Qualquer atentado que haja a ela receberá do governo, do PT e de mim uma condenação enérgica’.’




LULA FELIZ
Eliane Cantanhêde


Brincadeirinha


‘BRASÍLIA – Lula está parecendo outro homem depois de reeleito com boa margem de votos e de centralizar no seu gabinete do Planalto as negociações políticas para compor o novo ministério. Ele adora. Ontem, no Itamaraty, queimado de sol e sorridente, passou a exercitar uma das suas novas modalidades: confirmar ministros, para, em seguida, negar tudo. E ri, divertindo-se com a agonia dos coitados, que estão loucos para ficar, dos candidatos, que estão loucos para entrar, e dos jornalistas, que estão loucos para saber menos quem sai e mais quem fica e quem entra.


Lula percebe e dá corda. Na quarta-feira, aproveitou-se de uma solenidade em que uns gatos pingados gritavam ‘fica, fica’ para anunciar que era ‘o dia do fico’. Pronto. A conclusão foi que o ministro Fernando Haddad estava confirmadíssimo na Educação. Estava? Não. Era brincadeirinha.


Ontem, a cena se repetiu, numa área ainda mais sensível: o Banco Central. Primeiro, Lula disse que não tinha por que trocar Henrique Meirelles (aquele que os próprios ministros tentam culpar pelos índices haitianos de crescimentos): ‘Para que tirar?’.


Pronto. A conclusão foi que Meirelles estava confirmadíssimo. Estava? Não. Ou melhor: pode até estar, mas Lula tratou de corrigir em segundos, ‘explicando’ que não tinha confirmado nada. Pode estar confirmado, pode não estar, pode estar agora e não estar depois.


É assim que a Esplanada dos Ministérios vai virando uma concentração de ministros ansiosos para mostrar serviço, bom humor e proximidade do chefe. Enquanto, fora dela, o PT, o PMDB e demais aliados lambem os lábios, famintos.


Lula já tem muita coisa da nova equipe na cabeça, e tanto Meirelles como Haddad devem ficar, mas ele não vai anunciar assim tão fácil. Pra que, se ele pode se divertir tanto e dar boas gargalhadas ainda um bom tempo com a aflição alheia?’




TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Democratas e o Brasil


‘Avalia o ‘Financial Times’ que o ‘livre comércio é a maior vítima da eleição’ nos EUA, apontando ‘uma tendência em particular, o nacionalismo econômico’. Os democratas que venceram republicanos em Ohio, Virginia e Missouri fizeram campanha ‘contra o livre comércio’ e a exportação de empregos, inclusive os ‘acordos comerciais’ com México e América Central.


‘Washington Post’ e outros foram na mesma linha, sublinhando que os democratas ‘prometeram mais atenção ao comércio externo’. E que Charles Rangel, democrata que deve comandar uma comissão chave, ‘sinalizou relação mais agressiva com China e outros países’, visando ‘proteger empregos americanos’.


O ‘Miami Herald’ informa, porém, que a ameaça democrata é sobretudo aos acordos bilaterais com Colômbia e Peru -e até mesmo ao Plano Colômbia- que ainda precisam de aprovação no Congresso. Nada, portanto, contra as preferências para o Brasil:


– Aliás, muitos democratas anunciaram o desejo de estender dois regimes de preferência tarifária: o que abrange países como Brasil e Argentina e o andino.


É a avaliação também do jornal ‘Valor’, ontem em destaque, ‘Vitória democrata facilita a renovação do Sistema Geral de Preferências’. Alguma dificuldade persistiria no Senado, mas com a maioria democrata confirmada ontem ‘o problema deve desaparecer’.


O QUE É POSSÍVEL FAZER?


A nova revista ‘The Economist’ ironiza ‘a incrível Presidência que encolhe’, de George W. Bush (dir.) -e gasta editorial e reportagem buscando identificar o que ainda é possível fazer, nos dois anos que restam, em esforço ‘bipartidário’ com os democratas de Nancy Pelosi.


Aposta, como outros, que ‘uma área promissora seria a reforma na imigração’, já proposta antes pelo presidente, aceita pelos democratas, mas derrubada pelos parlamentares republicanos agora derrotados. ‘Outra possibilidade’ de acordo e avanço, diz a revista, seria na área de ‘energia e ambiente’, num momento em que a política nos EUA ‘está se tornando rapidamente verde, não somente na Califórnia, mas até no Texas viciado-em-petróleo’.


O programa democrata promete, como Bush, ‘livrar a América da dependência do petróleo’ via biocombustível.


‘ADIÓS’ 1


Ao menos um conservador latino-americano, o mexicano Felipe Calderón, gostou da derrota dos republicanos nos EUA. Ele disse ao ‘WP’, antes de falar com Bush, que os avanços democratas ‘abrem caminho para melhorias em termos da relação bilateral’:


– Eu sei que o presidente está enfrentando momento difícil. Mas eu penso que é uma oportunidade. Eu tenho esperança que os americanos e o Congresso darão uma chance ao debate racional.


Ele não quer o tal muro dos republicanos e quer a reforma para os imigrantes nos EUA -e sobretudo quer recursos, para evitar que os mexicanos precisem cruzar a fronteira.


‘ADIÓS’ 2


Andrés Oppenheimer, do ‘Miami Herald’, dá números ao que chamou, no título, ‘Hispânicos dizem adeus ao Partido Republicano’. Eles repetiram os 8% do eleitorado de 2004, mesmo sem pleito presidencial, e escolheram os democratas (73% a 26%).


Foi reação, diz o colunista, à ‘estratégia republicana de culpar os trabalhadores sem documentos por muitos dos problemas dos EUA’. Avalia Oppenheimer, em festa:


– Ótimo! Agora, com sorte, os candidatos presidenciais em 2008 vão abandonar os golpes populistas de cruzados antiimigrantes -e procurar soluções sérias para parar com o fluxo nas fronteiras.’




ELEIÇÕES NOS EUA
João Batista Natali


Blair se esconde da mídia depois da derrota de Bush


‘Maior prejudicado na Europa pela derrota republicana nos Estados Unidos, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, evita desde terça os jornalistas para não responder a perguntas embaraçosas, como o redirecionamento da Guerra do Iraque e os rumos de sua aliança com George W. Bush.


A única reação foi dada de forma bastante indireta por seu porta-voz, e isso enquanto os eleitores americanos ainda estavam votando. O porta-voz disse que o premiê ‘estaria dormindo’ quando fossem divulgados os resultados das urnas e que ‘caberia ao país envolvido [os EUA] responder perguntas sobre sua própria eleição’.


Ainda na terça, durante entrevista coletiva com o presidente polonês, Lech Kaczynski, Blair foi indagado sobre a crescente oposição do eleitorado americano à intervenção no Iraque, onde a Polônia também mantém tropas de ocupação.


Respondeu tratar-se de uma questão de segurança global, que envolve valores que não correm o risco de contestação.


Blair deveria comparecer ao Parlamento anteontem, para a sabatina semanal com os deputados. Mas felizmente, para ele, a Câmara dos Comuns está até o dia 15 ‘prorogued’, termo que designa um recesso entre duas sessões parlamentares.


Ontem, no site do governo, a única informação relevante foi a de um debate do ministro das Ciências, lorde David Sainsbury, com integrantes da comunidade científica local.


O premiê britânico recebe hoje sua homóloga neozelandesa, Helen Clark. É de praxe que esses encontros terminem em entrevista. Veremos.


Quem também tem evitado a mídia nos últimos dias é a chanceler alemã, Angela Merkel, que assumiu seu posto em novembro do ano passado com a promessa de melhorar as relações com Washington, deterioradas pela oposição de seu antecessor, Gerhard Schröder, à Guerra do Iraque.


Ela recebeu ontem, em Berlim, o responsável pela política externa da União Européia, Javier Solana. Um de seus assessores informou que não estava prevista entrevista coletiva depois da audiência.


Merkel faz hoje uma palestra sobre segurança internacional, organizada pelo Ministério da Defesa de seu país. Poderá novamente evitar os jornalistas para não dar declarações sobre o enfraquecimento de Bush e a troca de Donald Rumsfeld por Robert Gates no Pentágono.


Críticas


O mutismo de Blair e Merkel contrasta com a voracidade verbal do premiê italiano, Romano Prodi, que pelo segundo dia consecutivo comentou as reviravoltas eleitorais nos Estados Unidos. Disse que o afastamento de Rumsfeld demonstrava ‘a profundidade’ das mudanças dentro do governo americano. ‘Saberemos nos próximos dias em que direções elas deverão ocorrer’, afirmou.


Prodi substituiu em abril o conservador Silvio Berlusconi. Retirou os militares italianos do Iraque e manteve a sua antiga tonalidade crítica à política externa da Casa Branca.


O presidente francês, Jacques Chirac, opunha-se à invasão do Iraque desde 2003. Mas tem evitado tripudiar sobre o governo americano. Ou melhor, em termos. Discursando ontem em Colombey-les-Deux-Églises, aldeia normanda em que está sepultado o general e ex-presidente Charles de Gaulle, morto há 36 anos, ele deu uma cutucada em Bush.


Disse que, entre os legados do gaullismo, está a ‘defesa do multilateralismo, o diálogo entre as culturas e a rejeição do choque de civilizações e do uso unilateral da força’.’




TV
Daniel Castro


Fox lança no Brasil em 2007 o canal Sci Fi


‘Um dos dez canais pagos mais vistos dos EUA, o Sci Fi Channel será lançado no Brasil no segundo semestre de 2007 pela Fox Latin America, programadora da News Corporation para a América Latina e controladora dos canais Fox, National Geographic e FX.


O Sci Fi, também presente na Europa, é um canal dedicado a filmes e séries de ficção científica, horror, extraterrestres e paranormalidades em geral.


Depois de um ano de negociações, a Fox acaba de fechar uma associação com a NBC Universal, dona do Sci Fi, para abrir uma franquia do canal em toda a América Latina. O Sci Fi latino terá a mesma programação, mas um áudio em espanhol e outro em português. Gustavo Leme, vice-presidente da Fox Latin America, diz que o Sci Fi latino ainda não tem um único programa definido. ‘Devemos ter programas do Sci Fi americano, mas ainda temos que negociar os direitos’, diz. O executivo frisa que o Sci Fi latino não será um canal só para ‘trekkers’, como são chamados os fãs de ‘Star Trek’, um tanto ‘órfãos’ desde que o canal Universal (ex-USA) reduziu a exibição de ficção científica.


Nos EUA, o Sci Fi exibe atualmente séries como ‘Arquivo X’, ‘Twilight Zone’ (‘Além da Imaginação’), ‘Stargate SG 1’ e ‘Stargate Atlantis’ (ambas passam no Fox no Brasil), ‘The 4400’ e ‘Battlestar Galactica’, além das originais ‘Ghost Hunters’ e ‘Sci Fi Investigates’.


MARKETING GLOBAL 1 A Globo está convidando acadêmicos para assistirem às filmagens da microssérie ‘A Pedra do Reino’, em Taperoá, sertão da Paraíba. A emissora paga passagens e estadias. Professores da PUC-SP e das universidades federais de Pernambuco e Paraíba já estiveram no set.


MARKETING GLOBAL 2 A intenção da Globo é dar à microssérie um tratamento que extrapola o produto televisivo e fazer a TV ser mais reconhecida por intelectuais.


MARKETING GLOBAL 3 Segundo a Globo, as filmagens de ‘A Pedra do Reino’ geraram uma cadeia produtiva que envolve toda a Taperoá (de manicures a artesãos). Para a TV, que montou um cineclube em Taperoá, a cidade passa por uma ‘revolução pela cultura’.


TV RACHADA A ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura), que rachou depois que a Telefônica anunciou a compra de parte da TVA, ganhou uma sobrevida em reunião anteontem. No encontro, a TVA pediu que a ABTA se mantivesse neutra, mas em votação, da qual se abstiveram as programadoras, venceu o veto da entidade à entrada da Telefônica no setor, como queria a Net. Executivos de TV paga temiam que a ABTA fosse implodida na reunião.


BOLA QUADRADA A Rede TV! esnobou proposta da Globo para dividir com ela as transmissões dos principais torneios de futebol brasileiros em 2007. ‘Esse produto não vale o que a Globo está pedindo. Meu interesse por ele é zero’, diz Antonio Rosa Neto, superintendente comercial da TV.’




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O Estado de S. Paulo


Sexta-feira, 10 de novembro de 2006


AUDIÊNCIA OU CONTROLE?
O Estado de S. Paulo


Senador denuncia censura na TV Senado


‘O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou ontem que, enquanto comandar a Casa, ‘a livre e soberana palavra dos senadores não sofrerá qualquer restrição’. A declaração foi uma resposta ao senador Almeida Lima (PMDB-SE), que subiu à tribuna anteontem para denunciar que o Senado estaria promovendo um estudo com o objetivo de acabar com a transmissão ao vivo das sessões plenárias, sob a alegação de que há pouca audiência nos programas ao vivo.


‘Não podemos retroceder. Vejo nisso uma manobra contra a democracia e a liberdade do Parlamento’, protestou Almeida Lima. ‘Não sou, nem nunca fui, adepto de qualquer gesto que limite a liberdade de expressão’, respondeu ontem o presidente do Senado, que negou qualquer estudo para pôr fim às transmissões ao vivo ou da íntegra do trabalho dos senadores no plenário, nas comissões técnicas e CPIs, que justificaram a criação da TV Senado.


Em seu discurso, Almeida Lima não quis citar quem lhe dera a informação, mas o diretor da Secretaria de Comunicação Social do Senado, Armando Rollemberg, disse que a notícia sobre o estudo foi resultado da interpretação equivocada de uma conversa entre os dois.


O senador procurou Rollemberg na quarta-feira para reclamar do fato de o Jornal do Senado não ter incluído um aparte seu em reportagem publicada sobre o discurso feito na véspera pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Embora o jornal não tenha espaço para registrar todos os apartes, Almeida Lima queixou-se de censura.


Rollemberg explicou que se tratava apenas de falta de espaço, lembrando que todos os discursos, como toda a programação diária do plenário do Senado, são transmitidos ao vivo pela TV Senado e retransmitidos na íntegra mais uma vez. Contou, ainda, que o Senado estava se preparando para oferecer outra alternativa para divulgar o trabalho dos senadores, desta vez nas emissoras abertas, como a TV Cultura e a Radiobrás.


Além de convocar uma equipe da TV Senado para dar atenção a Almeida Lima, Rollemberg explicou a idéia de produzir programas compactos, de 20 minutos, sobre a programação extensa das comissões técnicas.


EDIÇÃO


A intenção seria oferecer um programa compacto a outras emissoras, com a participação de todos os senadores que estivessem presentes à audiência pública, já transmitida na íntegra pela TV Senado. Rollemberg insistiu em que compactar não é excluir senadores, mas editar várias horas de sessão, para adaptar o programa às emissoras abertas. Deixou claro, por fim, que tudo isso está no campo das idéias.’




FOLHA INVESTIGADA
O Estado de S. Paulo


ANJ condena quebra de sigilo telefônico de jornal


‘A Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgou nota ontem em que lamenta a quebra de sigilo de telefones da Folha de S. Paulo, a pedido da Polícia Federal, nas investigações sobre o dossiê Vedoin e cobra mais critério nas autorizações de abertura de dados telefônicos pela Justiça.


A quebra do sigilo telefônico de dois números do jornal entre agosto e setembro foi pedida pelo delegado Diógenes Curado Filho. Uma das linhas fica no comitê de imprensa da Câmara, em Brasília, e a outra é o celular de uma repórter. Os números têm ligações feitas para o telefone de um dos investigados no caso, Gedimar Passos – ex-agente da PF envolvido na operação de compra do dossiê Vedoin, destinado a relacionar políticos tucanos com a máfia dos sanguessugas.


Na nota, a ANJ afirma que ficou profundamente preocupada com o fato de as investigações da PF terem ‘tido como conseqüência a quebra do sigilo telefônico da Folha de S. Paulo’. ‘A ANJ lamenta que a quebra do sigilo telefônico exponha os contatos telefônicos feitos pelos profissionais da Folha. Nunca é demais lembrar que o sigilo da fonte é parte essencial do livre exercício do jornalismo, conforme determina a Constituição.’ A ANJ defendeu a busca de ‘critérios mais adequados para esse tipo de procedimento’ por parte das autoridades.


O delegado Curado se defendeu, dizendo que a quebra de sigilo não foi intencional e que só descobriu que os números pertenciam à Folha posteriormente. Em nota, a PF reafirmou desconhecer que as linhas pertenciam à empresa e sustentou dar ‘a maior importância’ ao ‘primado das liberdades de imprensa’.


O líder da oposição na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA), informou que entrará com representações contra o delegado e contra o juiz Marco Alves Tavares, que autorizou a quebra do sigilo. Para o deputado, o delegado foi ‘tendencioso e negligente’.


O presidente interino do PT, Marco Aurélio Garcia, salientou que não houve cerceamento da liberdade de imprensa pelo governo, pois foi a Justiça que autorizou a quebra do sigilo.’





TV
O Estado de S. Paulo


Ana Paula Padrão deixará ‘SBT Brasil’


‘Ana Paula Padrão anunciou ontem à equipe do SBT Brasil que deixará o noticiário para se dedicar a outro projeto na casa. Disse que ‘o martelo ainda não foi batido’, mas a idéia é dedicar-se a reportagens especiais. Trata-se de um programa quinzenal, já aprovado pelo departamento comercial, mas ainda em estudo por Silvio Santos. À redação, ela alegou busca por qualidade de vida, mesma razão que teria pesado na sua troca de Globo por SBT. Carlos Nascimento vai substituí-la no SBT Brasil.’




CINEMA
Luiz Carlos Merten


Almodóvar faz o definitivo ‘tudo sobre minha mãe’


‘Pedro Almodóvar não escondeu sua decepção pelos prêmios que recebeu no Festival de Cannes, em maio. Há anos que ele tenta ganhar sua Palma de Ouro. Chegou perto em 1999, com Tudo sobre Minha Mãe, mas teve de se contentar com o Oscar de melhor filme estrangeiro, no ano seguinte. Voltou à Croisette com Má Educação e com Fale com Ela ganhou o Oscar de melhor roteiro, prova de que os americanos são mais sensíveis ao seu encanto. Com Volver, somou ao prêmio de roteiro o de melhor interpretação feminina, dividido entre as seis atrizes do novo filme – Penelope Cruz, Carmem Maura, Lola Deñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo e Chus Lampreave. Sua cara foi de decepção, mas depois, na coletiva dos vencedores, ele sentiu que deveria se explicar.


Disse que não tinha a sensação de ser o diretor destas magníficas atrizes e, sim, um membro da família. ‘Cada uma delas contribuiu para a escrita do roteiro, mesmo sem se dar conta. Talvez até fiquem surpresas com o que estou dizendo agora. Ao longo do festival, eu lia diariamente as críticas e meu nome estava sempre lá no alto, como favorito para a Palma de Ouro. Acho que é uma maldição. A gente chega vitorioso e sai sem o prêmio que ambiciona. Mas eu estou feliz com o prêmio de roteiro e, mais ainda, com o prêmio dado às atrizes de Volver.’ Seis, sete anos depois de Tudo sobre Minha Mãe, Almodóvar fez o filme que realmente merece levar este título. A história trata dessas filhas que regressam à Mancha e reencontram o fantasma da mãe. Mas será mesmo um fantasma?


Segundo o próprio Almodóvar, Volver, já desde o título, assinala seu retorno às raízes. ‘É um tema que me toca, senti algo de verdadeiramente particular realizando Volver’, ele disse na coletiva após a exibição do filme para a imprensa, em Cannes. ‘Nasci na Mancha, vivi em Madri, viajei muito, mas, dentre todos os meus filmes, foi este que me reconciliou com minha juventude. Falo das mulheres que me cercavam quando garoto. Fui criado numa família de mulheres. Os homens estavam no campo, na colheita, estavam sempre em outra parte. Não os via quase nunca, mas, em compensação, ouvia essas mulheres, escutava-as cantar, quando acompanhava minha mãe na beira do rio. Foi assim que tomei minhas primeiras lições de arte dramática. Escrevi muitos papéis baseado em minha mãe e minhas irmãs. São personagens com os pés na realidade, mesmo quando pertencem à ficção.’


Histórias de mortos que voltam à vida pertencem à tradição oral da Mancha. Fantasmas domésticos que participam da vida cotidiana das famílias. Foi assim que começou a tomar forma a história da mãe de Penelope Cruz, interpretada por Carmem Maura, com quem Almodóvar não filmava desde Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, em 1988, há quase 20 anos. Penelope, no filme, tem contas a acertar com essa mãe de quem se afastou e que teria morrido, por amor, num incêndio enquanto estava na cama com seu amado. Mas Penelope também tem uma filha e se envolve num assassinato, tendo de encobrir um crime. É desta maneira, entre passado e presente, que se desenvolvem as duas histórias, uma interferindo na outra e ambas traçando este retrato definitivo da mãe.


Tudo sobre minha mãe. Não é só às suas raízes manchegas que Almodóvar regressa. É também às suas raízes cinematográficas, ao amor pelo melodrama, pelo filme noir. Ele próprio cita que a origem do seu filme está num velho melodrama de Michael Curtiz, com Joan Crawford – Alma em Suplício (Mildred Pierce), de 1946, ao qual foi superposta uma história que leu no jornal, numa viagem pela América Central, sobre um homem que havia cometido um assassinato, tendo conseguido acobertar seu crime durante anos. Desde o início, ele escreveu o filme para Penelope Cruz, mas ela ia fazer a filha, depois sua personagem evoluiu para a jovem mãe e, quando Carmem Maura foi incorporada ao projeto, Almodóvar deu-se conta de que estava falando sobre mulheres de diferentes gerações, da juventude à velhice. Foi um filme que ele amou fazer. É um filme que você poderá ter imenso prazer ao assistir. É inteligente, brilhante, trágico como uma letra de tango-canção (Volver, que fornece a trilha para Luzes na Escuridão, de Aki Kaurismaki, também exibido na 30ª Mostra), mas em última análise humorado como só um grande filme de Almodóvar sabe ser.


(SERVIÇO)Volver (Espanha/2006, 121 min.) – Comédia dramática. Direção de Pedro Almodóvar. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Ótimo’




ELEIÇÃO NA TV
Keila Jimenez


Cassetas fazem debate de paródias


‘Foi ao ar pela primeira vez na terça-feira, mas a turma do Casseta & Planeta já comemora o sucesso do quadro que elegerá o novo Lula entre os integrantes da trupe. Essa foi a solução encontrada pelo humorístico para não perder a piada com o presidente – agora reeleito – após a morte de Bussunda, que fazia a paródia do petista.


‘Nunca pensamos em dar a um casseta esse papel logo de cara. Abrir para o público escolher foi uma ótima solução’, conta Hubert, um dos candidatos a Lula mais bem cotados. ‘Criamos vários Lulas e estamos fazendo o roteiro de cada um em conjunto, para não privilegiar ninguém com piadas na eleição.’


O segredo dos candidatos a Lula, fala Hubert, é usar antigos personagens dos cassetas para atrair o público. ‘Eu, por exemplo, brinco com a história de ter feito a imitação do FHC por muito tempo.’


O casseta não sabe quanto tempo vai demorar a eleição do novo Lula – que abriu votação na internet -, mas prevê longa vida à brincadeira. ‘Vamos agora fazer um debate entre Lulas e as agendas dos candidatos’, conta ele. ‘O casseta que vencer terá de cortar o dedo, de verdade’, brinca.’




TV FECHADA
Cristina Padiglione


Vem aí a 2.ª temporada de Mothern


‘Mothern, a série inspirada no livro baseado no blog homônimo de Juliana Sampaio e Laura Guimarães, continua a procriar. O último episódio do primeiro programa de ficção do canal GNT vai ao ar amanhã, às 20h30, e já há movimentação para uma segunda temporada. A estréia está prevista para maio, claro, mês de motherns. Para tanto, o GNT conta com o interesse do mercado anunciante. Foram as marcas dispostas a desfilar em cena – todas relacionadas ao universo da maternidade – que bancaram a primeira temporada.’




TEATRO
Beth Néspoli


Uma relação complicada: poder público e mídia


‘Bem antes das polêmicas que tomaram conta dos noticiários e da internet durante as últimas eleições, Marcelo Marcus Fonseca decidiu escrever um texto que abordasse as intrincadas relações entre mídia e poder público. Assim nasceu o texto Todos os Homens Notáveis, em 2002. Desde então, ele realizou leituras abertas ao público da peça e, a cada uma delas, aperfeiçoava sua escrita. Hoje, a 12ª versão finalmente sobe ao palco do Teatro João Caetano, sob direção de Fonseca, com 12 atores, figurinos de Lola Tolentino e iluminação de Davi de Brito.


A trama gira em torno de personagens fictícios, entre eles o dono de uma poderosa emissora de TV, o dono de um jornal, um publicitário e um jovem jornalista. No decorrer da peça, eles vão manipular a opinião pública para eleger um governador, mas acabam atropelados pela população. ‘A peça tenta colocar em questão a forma como se pode fabricar a imagem de um político’, diz Fonseca.


Num texto cuja temática está por demais colada à realidade, há sempre o perigo de não se conseguir ultrapassar o senso comum. ‘Acho que escapamos desse risco porque a peça revela mecanismos que costumam ficar ocultos. Por exemplo, o publicitário não se constrange em revelar sua estratégia para seduzir os pobres e tais planos são fascistas’, diz. ‘É como naquele quadro do Programa do Gugu, citado na peça, em que os nordestinos recebem apoio para voltar para sua terra. Essa aparente generosidade mascara a intolerância que dá audiência ao programa.’


Fonseca garante ter buscado fugir dos estereótipos. ‘Os personagens são ambiciosos, inescrupulosos, disputam poder, mas são seres humanos, não caricaturas.’ O contraponto está na figura do jovem jornalista, vivido por Manoel Candeias, que investiga a vida do governador. Até onde vai o seu poder? Só vendo o espetáculo.


(SERVIÇO)Todos os Homens Notáveis. 105 min. Teatro João Caetano (438 lug.). R. Borges Lagoa, 650, V. Clementino, 5573-3774, metrô Santa Cruz. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 10. Até 17/12′


 


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