Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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Antônio Gois

15/06/2005 na edição 333


‘A editora Ediouro informou ontem a compra de metade do capital da Nova Fronteira. É o segundo movimento significativo que acontece neste mês no mercado editorial brasileiro. Na semana passada, o grupo espanhol Prisa-Santillana adquiriu 75% da editora Objetiva.


Nenhuma das duas empresas divulgou os valores da negociação. Não há estatísticas oficiais ou rankings das empresas, mas a Folha apurou com pessoas ligadas ao mercado que, com a compra, a Ediouro se consolida como uma das cinco maiores do setor -excetuando a área de didáticos-, ao lado da Record, Rocco, Cia das Letras e Objetiva.


Esse é a terceira aquisição importante da Ediouro desde 2001. Nesse período, a empresa já tinha ampliado sua participação com a aquisição das editoras Agir e Relume-Dumará.


A Nova Fronteira foi fundada por Carlos Lacerda (1914-1977), governador do então Estado da Guanabara na década de 1960, e é comandada hoje por Carlos Augusto Lacerda, seu neto. A parte da editora vendida à Nova Fronteira estava nas mãos da D&PP, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. A outra parte permanece com a família.


As editoras disseram que a Nova Fronteira continuará independente editorialmente, mas que haverá uma estratégia comercial comum, incluindo distribuição, impressão e compra de papel.


Para Oswaldo Siciliano, presidente da Câmara Brasileira do Livro, a aquisição será ‘muito boa’ para as duas empresas, mas especialmente para a Nova Fronteira. ‘Depois que a Nova Fronteira perdeu o direito de publicação do Dicionário Aurélio para o grupo Positivo, houve a necessidade de ela se reerguer e voltar a ser a grande editora de ficção e não-ficção dos anos 70 e 80. Com essa negociação com um grupo considerável como o Ediouro, terá mais condições de ampliar sua condição editorial’, disse.


Na avaliação do economista da UFRJ Fábio Sá Earp- que produziu em parceria com o pesquisador George Kornis, da Uerj, um estudo sobre o mercado editorial brasileiro para o BNDES-, as aquisições recentes refletem um ajuste provocado pelo encolhimento do setor. ‘O mercado editorial está encolhendo desde 1995, e é natural que não haja espaço para todo mundo. Por isso, há uma tendência de algumas editoras virarem selos das outras’, afirma Earp.


Dados da Câmara Brasileira do Livro mostram que esse movimento de encolhimento acontece principalmente a partir de 1998, quando foram vendidos 410 milhões de exemplares. Em 2003, o total de vendas foi de 256 milhões.’



 


Mànya Millen


‘Ediouro compra participação de 50% na Nova Fronteira’, copyright O Globo, 15/06/05


‘Poucos dias depois da venda de 75% da editora Objetiva para a espanhola Santillana, o mercado editorial brasileiro volta a se agitar. Ontem, a Ediouro anunciou a compra de 50% da Nova Fronteira, comandada por Carlos Augusto Lacerda e fundada em 1965 por seu avô, Carlos Lacerda. Essa parte pertencia a um grupo de investidores, entre os quais o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Ele havia adquirido a participação há seis anos, quando trabalhava nos EUA para o megainvestidor George Soros.


Nem Lacerda nem Jorge Rodrigues Carneiro, diretor-presidente da Ediouro Publicações, quiseram anunciar os valores da compra ou comentar a venda. A negociação estava em andamento desde o ano passado, e a família Lacerda já havia conversado com outros grupos interessados.


Atrativo da Ediouro é sistema de distribuição


A Ediouro, que está completando 65 anos, vem se expandindo desde 2001, quando incorporou a editora Agir, e, no ano passado, a Relume-Dumará. Na prática, Lacerda trocou um sócio que era apenas investidor por outro com visão editorial, o que permitirá à Nova Fronteira consolidar sua posição no mercado.


Com a união, o maior patrimônio das duas empresas – que vão manter independência de marcas, catálogos, equipes e endereços – será o amplo acervo de nomes consagrados da literatura nacional. A Nova Fronteira tem o best-seller João Ubaldo Ribeiro, além de Guimarães Rosa, Cecília Meirelles e Antonio Callado, entre outros. A Ediouro tem Ariano Suassuna (pela Agir), além de vários clássicos nacionais. Na área internacional, ambas têm autores que nunca saem das prateleiras, os chamados long-sellers , como Thomas Mann e Agatha Christie (Nova Fronteira) e Saint-Exupéry (‘O pequeno príncipe’ é da Agir).


Hoje a Ediouro é uma das cinco principais editoras do país na área de livros de interesse geral (que exclui didáticos e técnicos) e publica 25 títulos por mês. Além de parque gráfico próprio, outro atrativo é seu amplo sistema de distribuição. Um dos principais calos do setor é a chegada dos exemplares aos quatro cantos do Brasil.


A Nova Fronteira, com cerca de dois mil títulos no catálogo e 480 autores, sofreu um baque em 2003 quando perdeu para o grupo Positivo, de Curitiba, o dicionário ‘Aurélio’, que editava desde 1975, tendo vendido 12 milhões de exemplares. Para continuar na área, a editora recuperou o dicionário português ‘Caldas Aulete’, cujas últimas edições no país eram dos anos 70. Da família ‘Aulete’ já chegaram ao mercado o minidicionário, o infantil ilustrado e o infantil escolar.’



 


Flávia Oliveira


‘Editor por acaso’, copyright O Globo, 15/06/05


‘Armínio Fraga Neto jamais planejou ser um habitué do mercado editorial brasileiro. Tampouco pretende tornar-se. O ex-presidente do Banco Central (BC) comprou metade da Nova Fronteira há seis anos, com o cunhado (que trabalhava na empresa) e alguns outros investidores que prefere não identificar. Cumprido o ciclo do investimento, decidiu transferir a participação acionária a um comprador com experiência no setor:


– Adoro ler, tenho muitos livros, mas há uma distância grande entre ser leitor e ser editor. Ser editor requer um talento específico e uma dedicação que não posso ter – disse Armínio ao GLOBO, ontem à tarde.


O economista, sócio da Gávea Investimentos, a administradora de recursos que montou no Rio depois de sair do BC, virou acionista da Nova Fronteira para ajudar o amigo Carlos Augusto Lacerda a capitalizar e reorganizar a editora, num momento difícil. Armínio não revela quanto aplicou nem por quanto vendeu suas ações. Comprador e vendedores fizeram um pacto de silêncio sobre as cifras, informou:


– Fiz um investimento financeiro que amadureceu. Agora, surgiu a oportunidade com a Ediouro e não fazia sentido manter esta participação no longo prazo.’



 


Márcia De Chiara e Ubiratan Brasil


‘Ediouro leva 50%de concorrente ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 15/06/05


‘Menos de uma semana após o grupo espanhol Prisa-Santillana ter adquirido 75% da Editora Objetiva, um novo negócio agitou ontem o mercado editorial brasileiro. Desta vez, a transação envolveu duas tradicionais companhias brasileiras. O Grupo Editorial Ediouro anunciou a compra de 50% da Editora Nova Fronteira. O valor do negócio é mantido sob sigilo por questões contratuais.


A Ediouro, com sede no Rio, tem mais de 60 anos de atuação no mercado e reúne cerca de 3,5 mil títulos sob as marcas Ediouro, Agir, Relume-Dumará e Prestígio, com temas de ficção e comportamento. Fundada em 1965, a também carioca Nova Fronteira acumula mais de 2 mil títulos em seu catálogo, reunindo grandes clássicos da literatura brasileira e mundial.


‘A aquisição se justifica para aproveitar os pontos fortes de ambas as empresas nas áreas comercial, de distribuição, de logística e de marketing’, afirmou o presidente da Ediouro, Jorge Carneiro.


A negociação durou cerca de dois meses e, segundo fontes do mercado, as editoras Record e Rocco chegaram a apresentar propostas para levar a metade da Nova Fronteira. A parte adquirida pela Ediouro pertencia à D&PP, do ex-presidente do Banco Central (BC) Armínio Fraga. A outra metade da Nova Fronteira continua nas mãos da família Lacerda.


Segundo analistas, com a troca de um sócio investidor por outro que é do ramo, a Nova Fronteira sairá ganhando. É que a Nova Fronteira não tem parque industrial, uma vantagem competitiva da Ediouro. Além disso, um dos principais custos de produção do mercado editorial, que é o papel de impressão, poderá ser reduzido com as compras conjuntas das editoras de um volume maior. Também o fato de a Ediouro ter um dos melhores sistemas de distribuição do País deve contribuir para o fortalecimento das companhias.


A Nova Fronteira informa que as duas empresas manterão independência na área editorial no que se refere às suas marcas, catálogos e estruturas. ‘O principal objetivo é o melhor aproveitamento de oportunidades na edição de livros’, informa o comunicado da empresa.


Na opinião do presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Oswaldo Siciliano, as recentes transações entre empresas do setor editorial são positivas e só irão fortalecer as companhias. ‘A atividade editorial não difere em nada das demais. Sem capital, não é possível se desenvolver num país onde o juro é algo estarrecedor.’


TENDÊNCIA


Analistas do mercado editorial dizem que a tendência de consolidação das empresas do setor é mundial e que agora está desembarcando no Brasil. Preocupado com esse movimento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) acaba de divulgar uma radiografia do setor traçada por Fábio Sá Earp e George Koornis, técnicos do Grupo de Pesquisa em Economia do Entretenimento do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).


Segundo Earp, a necessidade mais urgente do Brasil no mercado editorial é estudar e reorientar a produção, distribuição e o consumo do setor para se obter, em um prazo razoável, uma economia do livro compatível com a escala da economia do País.


De toda forma, enquanto o governo se articula para dar musculatura ao setor com linhas de crédito específicas, os negócios continuam sendo alinhavados. Comenta-se no mercado que a Random House, um dos maiores grupos editoriais americanos, estaria interessado na compra da editora Record.’



 


Ubiratan Brasil


‘Anos blindados ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 15/06/05


‘Em 1979, quando o governo militar ensaiava uma distensão lenta e progressiva, mas ainda sua sombra censora pairava sobre a sociedade brasileira, o jornalista e professor Adauto Novaes aproveitou uma brecha e, sob o patrocínio de um órgão governamental, a Funarte, convidou 16 pensadores para avaliar a produção cultural da década que se encerrava. Apesar da dificuldade de se analisar um período que, além de não ter o recuo necessário de tempo para ser alvo de um exame minucioso, ainda estava submetido à irracionalidade da ditadura militar, o convite resultou em 25 ensaios que formaram cinco volumes sobre música, literatura, teatro, televisão e cinema.


‘Desde então, esses livrinhos passaram a ser tão disputados por estudantes e pensadores que percebemos a utilidade de republicá-los’, afirma Heloisa Buarque de Hollanda, uma entre aqueles 16 pesquisadores. Dona da editora Aeroplano, ela relança a obra em parceria com a editora Senac Rio. Anos 70: ainda sob a Tempestade (486 págs., R$ 65) traz o mesmos textos escritos no calor do hora, mas acrescidos de comentários atualizados. Somente o artigo de José Carlos Avellar foi atualizado em 1986, por opção do autor. Heloisa relembra a aventura que foi a publicação dos livros. ‘Todos escreveram em ritmo jornalístico durante quatro meses e o Adauto reunia os autores como se fosse uma conspiração. Mas era necessário, pois todos discutiam seu trabalho com os demais: era uma avaliação conjuntural.’


Apesar de alguns artigos terem ficado datados em alguns momentos (o que é até corrigido pelos próprios autores nos textos de abertura recentemente escritos), Adauto Novaes reforça a importância que os livros ostentam ainda hoje. Afinal, além do declínio da ditadura, ‘neles lemos o começo da mais radical das transições culturais do País, dois movimentos – fim da ditadura e transição cultural – que devem ser pensados na sua particularidade’, escreve ele na introdução.


De fato, Heloisa conta que a década de 1970, ao contrário da sua antecessora, é a que menos reúne material de pesquisa por conta da pressão da censura, o que obrigou muitos autores a produzir clandestinamente seus trabalhos. Daí a importância, por exemplo, de se aprofundar textos como o bem-humorado O Minuto e o Milênio ou Por Favor, Professor, uma Década de cada Vez, em que José Miguel Wisnik traz uma crítica severa à grande divisão da música popular brasileira entre o industrial, graças ao aumento do número de gravadoras, e o artesanal, que compreende os criadores de uma obra marcadamente individualizada. Coloca em cada lado, portanto, Roberto Carlos e Chico Buarque.


Se o mercado da música prosperava, apesar do vazio cultural imposto pela censura (o que fazia os protestos surgirem cifrados na letra das canções), o do cinema era praticamente tomado pela pornochanchada que, como observa Avellar, nascera de um tipo de pressão da censura e de um tipo de solicitação do público. A resistência, porém, estava presente tanto no florescimento do cinema alternativo como em obras que filtravam a realidade. É o caso de Toda Nudez Será Castigada, dirigido por Arnaldo Jabor em 1973 a partir da peça de Nelson Rodrigues: ‘Ele viu na peça de Rodrigues a perfeita representação do que se passava então no País: uma tentativa de dissimular a desordem e o desespero dos seres humanos sob o pretexto de manter a boa educação.’


Também as artes cênicas obrigavam-se a fugir da opressão militar e uma das soluções, como aponta no livro Mariângela Alves de Lima, crítica do Estado, era explorar situações caseiras para falar sobre uma conjuntura maior. Em Trate-me, Leão, o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone aparentemente fala de sua própria esquina para, na verdade, lamentar o isolamento, a ignorância e a sensação de desamparo que marcava os jovens do período pós-64: crianças mal informadas, sem história e sem objetivos.


O mesmo objetivo tinham alguns escritores em atuação na década, como Antônio Callado que, com Bar D. Juan, de 1971, buscava contar a História, testemunhar, colar-se ao real imediato. Já a televisão era marcada pela consolidação da Rede Globo, que tanto se tornou porta-voz do milagre econômico como abrigava figuras como Chacrinha que, ao atender o ‘povão’, chocava os padrões estéticos da empresa. ‘Eram as contradições de uma década provocadora’, completa Heloisa.’



PLÁGIO DE COELHO


Eduardo Simões


‘‘A fama não dá direito ao plágio’, diz colombiana’, copyright Folha de S. Paulo, 14/06/05


‘A psicóloga colombiana Gloria Hurtado ainda não decidiu se vai abrir um processo contra o escritor Paulo Coelho, a quem acusa de ter plagiado uma de suas colunas. No dia 3/6, numa reportagem do jornal colombiano ‘El País’, onde há 30 anos assina a coluna ‘Revolturas’, Hurtado disse que Coelho copiou seu artigo de 21/1/ 2003, na coluna ‘Alquimista’, publicada no dia 3/4 deste ano no semanário ‘El Espectador’, também da Colômbia.


O texto de Hurtado chama-se ‘Cerrando Círculos’ (fechando círculos), e o de Coelho, ‘Cerrar un Ciclo’ (fechar um ciclo). ‘Toda a coluna é um plágio. Não sei o que farei. Devo levar a público que existem roubos intelectuais’, disse Hurtado em entrevista por telefone à Folha, ontem.


A coluna do ‘El Espectador’ também foi reproduzida no Brasil pelo jornal ‘O Globo’, do dia 22/ 8/2004. Nela, Coelho explica que, há alguns anos, seu escritório enviara a leitores uma cópia da coluna com o título de ‘O Ciclo da Alegria’. Mas que, ao abrir sua caixa de correspondência, viu que pediam o texto ‘As Etapas de Paulo Coelho’. ‘Como nunca tinha escrito algo semelhante, fui procurar na internet, e descobri que era um título diferente para o tal ‘Encerrando Ciclos’. Descobri também que durante muitos anos mandamos sempre a coluna errada para os leitores, que na verdade queriam o texto abaixo’, explicou o escritor na coluna do semanário, ressaltando que, infelizmente, não havia originalmente escrito o texto, mas que, ao adaptá-lo, sentia-se no direito de reivindicar parte da autoria.


Logo nos dois primeiros parágrafos, por exemplo, o brasileiro fala da importância de ‘pôr fim a um ciclo, fechar portas, concluir capítulos’, indagando em seguida: ‘Fui despedido do trabalho?’, ‘terminei uma relação?’ etc. Hurtado começa com ‘ou fechando portas. Ou encerrando capítulos (…) Terminou seu trabalho? Acabou sua relação?’.


A primeira reação de Hurtado foi de surpresa boa, até que ela sentiu que havia sido um abuso da parte de Coelho, primeiro por acreditar que, porque fazia algumas mudanças, poderia reivindicar sua autoria. Depois, por saber que não era uma coluna dele e não esclarecer. Segundo a psicóloga, um professor de jornalismo da Colômbia, Javier Darío Restrepo, avaliou a conduta de Coelho como injustiça, corrupção profissional e engano. ‘A fama não dá direito ao plágio. Qualquer um pode tomar emprestado uma idéia. Mas é diferente falar de autoria. Isso é delito.’ O escritor brasileiro, que está em viagem de divulgação de seu mais recente livro, não foi encontrado pela reportagem até a conclusão desta edição. Seu editor no Brasil, Paulo Rocco, preferiu não comentar o assunto.’


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