Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > INTERNACIONAL

Apoio dentro e fora do Brasil levou à libertação de repórter

11/03/2011 na edição 632


O Estado de S. Paulo, 11/3


Depoimento de Andrei Netto


‘Sentir o vento após 8 dias é indescritível’


Após oito dias em uma cela, sozinho e incomunicável, sem contato com a luz do sol, pedi para falar com o oficial responsável pela instalação militar para onde havia sido levado. Queria, pela milésima vez, perguntar o que aconteceria comigo, se poderia falar com o embaixador brasileiro, quando seria libertado. Com o rosto parcialmente coberto, o oficial do comando me disse: ‘Esqueça isso, você não vai falar com embaixador nenhum e só sairá daqui quando toda violência na Líbia tiver terminado’.


Eu e o repórter Ghaith Abdul-Ahad, do jornal britânico The Guardian, preso comigo no dia 2, permanecemos em celas separadas. Eu ficava numa sala ampla, mas isolado por barras de ferro. O único momento em que sofri maus tratos físicos nas mãos das forças de Muamar Kadafi foi no instante da prisão, na cidade de Sabratha, oeste da Líbia. Levei uma coronhada de um miliciano e o golpe me deixou tonto por alguns minutos. Tive também problemas de audição ao longo do dia. Mas, fora isso, não houve violência física.


O que, sim, eu sofri ao longo dos últimos oito dias foi um flagelo psicológico por estar incomunicável. Todas as pontes que se pode estabelecer com o mundo foram cortadas. Não sabia onde estava, nem quando sairia. Não tinha condição de fazer contato com nenhuma autoridade, muito menos de convencer líbios a avisar uma embaixada – do Brasil, da Grã-Bretanha, do Iraque (país de Abdul-Ahad). Nem podia conversar, pois não falo árabe.


Foram oito dias de um vazio de informação apavorante. Não seria capaz de descrever a carga de estresse que isso provoca.


Fui levado ontem, vendado, da prisão para uma casa no centro da capital e entregue ao embaixador do Brasil, George Ney de Souza Fernandes, sob uma condição: minha imediata saída da Líbia. Os líbios deixaram isso muito claro. Não era minha intenção deixar a Líbia neste momento. O que eu queria era continuar trabalhando aqui em Trípoli com a autorização do governo. Aparentemente, isso não seria possível. Então eu aceitei a condição e devo deixar a Líbia hoje pela manhã. Fui abrigado na residência do embaixador, onde devo passar a noite. Amanhã, devo pegar um voo pela manhã para Dubai e, em seguida, Paris, onde vivo com minha namorada. Meu estado de espírito… Ontem foi a primeira vez que senti o vento soprando no meu rosto depois de oito dias. Foi indescritível.


Momento da prisão. Entre terça-feira e quarta-feira, eu e Abdul-Ahad tentamos bolar um plano para chegar a Trípoli. Era esse nosso objetivo. Mas a cidade está cercada por um anel militar que a protege dos insurgentes, repleto de postos de controle. Para conseguirmos chegar à capital, precisaríamos da ajuda de pessoas comuns, que poderiam evitar essas barreiras. Sabíamos que, se fôssemos parados, acabaríamos presos.


Na quarta-feira à noite fizemos uma tentativa saindo da cidade de Sabratha, passando por Zawiya para chegar até Trípoli. Era algo delicado, porque Sabratha era uma cidade pró-Kadafi. Nos aproximamos da periferia de Zawiya e, no último posto de controle antes da cidade, vimos que nosso plano estava falhando. Havíamos passado duas vezes por uma barreira menor e isso despertara suspeitas. Abortamos a iniciativa e, naquele momento, só tínhamos uma opção: voltar para Sabratha, controlada por Kadafi.


Fomos à cidade para passar a noite. No dia anterior, havíamos nos abrigado em uma fazenda ali perto. Uma vez no centro de Sabratha, eu e Ghaith tivemos um diálogo muito transparente. Um disse para o outro: o risco de sermos traídos ou flagrados aqui é grande. Duas horas depois, chegaram os milicianos.


Não sabemos como nos acharam. Podemos ter sido traídos pelo dono da casa que estava nos hospedando ou por um amigo dele, que depois soubemos que era miliciano. Ou então porque o celular do embaixador brasileiro está sendo monitorado. É possível que, depois de uma conversa com o diplomata, o governo líbio tenha rastreado meu celular até uma área onde nós deveríamos estar. Naquela noite, o homem que nos hospedava nos expulsou de lá.


No instante em que os milicianos pró-Kadafi nos prenderam, fomos informados de que não tínhamos o visto de permanência em território líbio. Por trás dessa questão burocrática, havia a clara intenção de impedir que nós, jornalistas, mostrássemos ao mundo a realidade de uma área em disputa entre o governo de Kadafi e rebeldes, como era o oeste da Líbia.



 


 


O Estado de S. Paulo, 11/3


Apoio dentro e fora do Brasil leva à libertação


A libertação do jornalista Andrei Netto pelas autoridades militares da Líbia ocorreu após uma série de iniciativas que resultaram na formação de uma rede de informações e alertas pelo mundo todo, que se somaram aos esforços diplomáticos dos governos do Brasil e da Líbia.


O Estado perdera contato direto com o jornalista na quarta-feira, dia 2. Mas até o domingo de carnaval, dia 6, vinha tendo informações por terceiros sobre o paradeiro de seu enviado. Nesse dia, aquelas informações começaram a rarear, tornaram-se contraditórias e se interromperam. A partir daí, o jornal, que até então acreditava na retomada do contato e agia com cautela, decidiu contactar oficialmente as diplomacias brasileira e líbia e organismos jornalísticos e humanitários do mundo todo.


O Itamaraty foi contactado por meio do ministro interino, Ruy Nogueira. O chanceler Antonio Patriota, em viagem à Índia, também foi informado. A presidente Dilma Rousseff, informada do episódio, passou a acompanhar seus desdobramentos e determinou providências ao Itamaraty e à Embaixada do Brasil em Trípoli (leia nesta página).


Na segunda-feira, a direção do jornal procurou o embaixador da Líbia no Brasil, Salem Omar al-Zubaidi, que se encarregou de enviar à Líbia cópias dos documentos do jornalista, fornecidas pelo jornal. O Estado também procurou o Fórum Mundial de Editores, por meio do seu representante no Brasil, o jornalista Marcelo Rech, do Grupo RBS. A partir daí, centenas de editores e correspondentes no mundo todo foram informados do desaparecimento do jornalista na Líbia.


A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), fez chegar à embaixada líbia carta na qual seu presidente, Fernando Rodrigues, do Grupo Folha, pede ‘que o governo da Líbia tome todas as providências necessárias para informar a localização do repórter Andrei Netto, assim como providenciar sua eventual liberação no caso de estar detido pelo exercício da profissão de jornalista’.


Rede de apoio. A partir do instante em que a redação perdeu contato com seu enviado, jornalistas brasileiros na região passaram a ajudar com informações – entre eles o enviado da Folha de S. Paulo, Samy Adghirni, e a correspondente de O Globo, Déborah Berlinck, além de Lourival Sant’Anna, também do Estado.


A operação contou ainda com o esforço de agências humanitárias, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha – que fez contatos com o Crescente Vermelho, seu equivalente no mundo muçulmano. O pesquisador brasileiro de tecnologia de novas mídias Rosenthal Calmon Alves, da Universidade do Texas, EUA, enviou nota ao International News Safety Institute pedindo ajuda. Giancarlo Summa, do Centro de Informação da ONU no Rio, contactou os escritórios do organismo em Genebra e Nova York.


‘Não há dúvida de que, somada aos esforços diplomáticos de Brasil e Líbia, toda essa rede de informações e alertas que se formou mundialmente foi decisiva na libertação do jornalista’, disse o diretor de Conteúdo do Estado, Ricardo Gandour. ‘Mais uma mostra da importância, para a liberdade, do livre fluxo das informações.’


Da embaixada da Líbia o jornal recebeu, em resposta aos seus pedidos, nota segundo a qual Netto havia sido detido ‘por ter entrado ilegalmente pela fronteira com a Tunísia’. A argumentação do governo líbio era que a prisão havia ocorrido ‘pelo motivo de proteção do repórter, visto a grande preocupação do governo com a segurança da mídia estrangeira’.


Antes disso, a Comissão de Relações Exteriores do Senado, por meio dos senadores Paulo Paim (PT-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP), havia enviado nota de protesto contra a prisão de Netto ao embaixador líbio.


Depois de anunciada a libertação, a família do jornalista se disse ‘tocada pelo engajamento de todos’ e agradeceu ‘à diplomacia do governo brasileiro e suas instituições’, além de organismos internacionais e jornalistas, ‘que seguiram em contato constante com nossa família e mobilizados com o caso’.


AUXÍLIO VITAL


Abraji


Entidade que promove o jornalismo investigativo fez chegar à embaixada líbia carta na qual seu presidente pede ‘que o governo da Líbia tome todas as providências necessárias para informar a localização do repórter Andrei Netto’


Fórum Mundial de Editores


Entidade informou centenas de editores e correspondentes no mundo sobre o desaparecimento do jornalista na Líbia


Comitê Internacional da Cruz Vermelha


Foi encarregada de fazer os contatos com o Crescente Vermelho, seu equivalente no mundo muçulmano


Jornais


Por meio de seus contatos na Líbia, os jornais ‘O Globo’, ‘Folha de S. Paulo’ e o britânico ‘The Guardian’ auxiliaram com a apuração de informações e o envio de detalhes da situação de Netto ao Brasil




 


 


O Estado de S. Paulo, 11/3


Repórter do ‘Guardian’ continua preso


O governo líbio confirmou ontem que o repórter Ghaith Abdul-Ahad, do jornal britânico ‘The Guardian’, está preso no preso no país. O jornalista entrou na Líbia vindo da Tunísia, juntamente com o correspondente do ‘Estado’, Andrei Netto, libertado ontem. Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, outros sete repórteres estão desaparecidos na Líbia.


A entidade internacional registrou 12 detenções de profissionais da área desde o começo da revolta no país, no dia 15 de fevereiro.


Uma equipe da emissora britânica BBC foi espancada e torturada na segunda-feira por forças de segurança ligadas ao ditador Muamar Kadafi. Repórter, cinegrafista e produtor contaram que ficaram detidos por 21 horas e conseguiram deixar a Líbia depois de libertados.


De nacionalidade iraquiana, Abdul-Ahad, não contaria com apoio diplomático da Grã-Bretanha para sua libertação. Depois de entrar na Líbia pela fronteira oeste, o repórter estabeleceu o último contato com o Guardian no domingo, quando chegou ao veículo o último recado de seu jornalista. Segundo o jornal, ele estava nas imediações de Zawiya quando mandou a mensagem.


O repórter do Estado Andrei Netto contou que quando as últimas informações de Abdul-Ahad chegaram ao Guardian ambos já haviam sido presos. A detenção ocorrera quatro dias antes, em Sabratha.


O Guardian afirmou que entrou em contato com autoridades líbias e britânicas para garantir e libertação, o bem-estar e a segurança de seu repórter, que atua no jornal desde 2004 e já passou longos períodos – e ganhou vários prêmios – como correspondente do jornal na Somália, Sudão, Iraque e Afeganistão relatando o sofrimento de populações em regiões de conflito.


Abusos. Os três jornalistas da BBC detidos na segunda-feira – Chris Cobb-Smith, Feras Killani e Goktay Koraltan – contaram que foram agredidos com socos e submetidos a uma ‘falsa execução’. Eles acabaram presos enquanto tentavam contornar o cerco a Zawiya e acabaram levados a um acampamento em Trípoli, onde foram algemados e encapuzados antes que os espancamentos começassem.


Cobb-Smith contou que um dos agentes, que estava à paisana, apontou uma submetralhadora ao pescoço de todos e, quando chegou a sua vez, o líbio disparou a arma. ‘As balas zumbiram no meu ouvido. Os soldados riam.’


‘Jornalistas correm grandes riscos para garantir que um retrato fiel do que ocorre em zonas de conflito emerja. Têm um papel extremamente importante para trazer à luz violações’, declarou ontem a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pilay, que condenou a detenção e ‘possível tortura’ da equipe da BBC.


Profissionais líbios. O Comitê para a Proteção aos Jornalistas afirmou ontem que sete jornalistas que vivem em Trípoli estão desaparecidos. Atef al-Atrash sumiu depois de falar à Al-Jazira em Benghazi. Segundo a entidade, os outros desaparecidos são o blogueiro Mohamed al-Sahim, o cartunista Mohamed al-Amin, o editor Idris al-Mismar, o diretor do Sindicato dos Jornalistas da Líbia, Salma al-Shaab e o correspondente Suad al-Turabouls.


CERCO À LIBERDADE DE IMPRENSA


The Guardian:


O repórter Ghaith Abdul-Ahad, que trabalha para o diário britânico desde 2004, ainda está preso na Líbia. Ele foi detido em Zawiya juntamente com o enviado especial do ‘Estado’ Andrei Netto. O diário está em contato com as autoridades líbias para obter a libertação do jornalista iraquiano.


BBC:


Três jornalistas da BBC – Chris Cobb-Smith, Feras Killani e Goktay Koraltan – foram detidos na segunda-feira em Zawiya, agredidos com socos e submetidos a uma ‘falsa execução’.


Repórteres líbios:


Segundo Comitê para a Proteção dos Jornalistas, 12 profissionais foram detidos na Líbia desde o início dos protestos, em 15 de fevereiro, e ainda há 7 repórteres líbios desaparecidos.


Al-Jazira:


Tevê por satélite do Catar informou que seu sinal sofreu interferências no final do mês passado e acusou o regime de Muamar Kadafi pelo ocorrido.




 


 


O Estado de S. Paulo, 11/3


Maria Golovnina – Reuters


Regime líbio organiza Tour para jornalistas


Em uma cidadezinha pacata perto do município líbio de Zawiya, onde os rebeldes travam uma batalha cada vez mais dura contra as tropas do governo, uma sensação de inquietude paira no ar por trás da fachada de tranquilidade.


Os jornalistas estrangeiros em Trípoli, impedidos pelo governo de chegar a Zawiya e a outros locais em confronto, foram levados na quarta-feira a Janzour, cerca de 40 quilômetros a leste de Zawiya, numa viagem oficial destinada a mostrar a normalidade da vida no dia a dia.


Com a chegada do grupo, os lojistas rapidamente expunham os retratos de Muamar Kadafi e a bandeira verde da Líbia. Os pedestres paravam para cantar músicas elogiando o líder líbio.


Os ‘guias’ oficiais observavam enquanto os jornalistas entrevistavam a população local no centro de Janzour, onde as lojas seguiam bem abastecidas e as fachadas das casas não exibiam nenhum grafite anti-Kadafi, como ocorre em outras áreas onde há mais rebeldes.


‘O povo líbio não pode viver sem Kadafi’, disse o professor Ayman Oun, enquanto outro homem colocava uma foto do líder líbio na frente de uma loja. ‘Ele vai nos proteger. Ele é excelente. Ele nos deu muitas coisas’, disse Oun.


Mas, por trás das cenas do cotidiano, alguns moradores não conseguiam esconder a ansiedade.


Um jovem apareceu na janela de um ônibus público enquanto o veículo aguardava o sinal abrir e disse rapidamente: ‘Meu tio está em Zawiya. Ele ainda está lá. A situação está ruim, muito ruim.’ Ele fechou o punho e disse à Reuters: ‘A Líbia ficará livre’.


Obter informações sobre Zawiya tem ficado cada vez mais difícil. As linhas telefônicas da cidade foram cortadas. O governo nega o uso de força militar contra civis e diz que está combatendo uma insurgência da Al-Qaeda no país.


O governo disse aos jornalistas estrangeiros convidados para ir a Trípoli no final de fevereiro que eles poderiam trabalhar com liberdade. Mas a movimentação dos repórteres tem se tornado cada vez mais restrita. Os que tentaram ir para Zawiya e para outros lugares de forma independente foram detidos.


Reduto rebelde perto de Trípoli, a cidade de Zawiya está localizada a apenas uma hora de carro para o oeste. Ela fica perto de uma refinaria de petróleo e tem importância estratégica. O Exército agora aperta o cerco contra o último bolsão de resistência rebelde no centro de Zawiya.






O Estado de S. Paulo, 11/3


Senado convida Andrei Netto para falar sobre detenção na Líbia


O correspondente internacional do Estado, Andrei Netto, que ficou detido oito dias na Líbia, foi convidado pela Comissão de Direitos Humanos do Senado para falar sobre a experiência que viveu naquele país. O autor do convite, o senador Paulo Paim (PT-RS), presidente da Comissão, afirma que o relato de Netto será muito positivo para mostrar aos brasileiros a ‘real’ situação da Líbia.


Netto é correspondente do Estado em Paris e estava na Líbia cobrindo os confrontos entre rebeldes e forças do regime de Muamar Kadafi quando foi preso nos arredores de Trípoli. O jornalista foi libertado nesta quinta, 10, e deve deixar a Líbia até a sexta.


O repórter ficou incomunicável por oito dias. Ele foi preso na quarta-feira junto de Ghaith Abdul-Ahad, jornalista iraquiano enviado do diário britânico The Guardian. Netto está abrigado na casa do embaixador brasileiro na Líbia, George Ney Fernandes, enquanto aguarda o voo que o levará para Paris.


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