Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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ENTRE ASPAS >

Artur Xexéo

22/06/2005 na edição 334


‘Nas muitas entrevistas, nos muito depoimentos, nas muitas declarações que o deputado Roberto Jefferson tem dado ultimamente, ele costuma se orgulhar de ser parlamentar ‘desde o governo do presidente Figueiredo’. Não é pouca coisa mesmo. Ao mesmo tempo, que currículo parlamentar o deputado Roberto Jefferson construiu esse tempo todo? Em que grande projeto o deputado se envolveu? Que dívida o Brasil tem com um sujeito que há tanto tempo é parlamentar?


Embora seja parlamentar ‘desde o governo do presidente Figueiredo’, Roberto Jefferson nunca foi de aparecer muito na imprensa. Dava a impressão de preferir trabalhar nos bastidores, na sombra. Teve seus 15 minutos de fama no crepúsculo do presidente Collor. Era da tropa de choque, um daqueles a quem Collor, certamente, passaria um cheque em branco. Inacreditavelmente sobreviveu ao período Collor e voltou, sempre como parlamentar, a agir nos bastidores, na sombra.


Em seu novo período de destaque na mídia, Roberto Jefferson não consegue esconder a satisfação pela atenção que desperta. Há dois dias, estava no ‘Roda-viva’! O mesmo programa que já entrevistou alguns dos mais importantes políticos brasileiros abriu espaço para o Roberto Jefferson!! O parlamentar bufava de tanto orgulho. Com pose de estadista – canastrão, como já denunciou Augusto Boal – fingia que quer passar o Brasil a limpo denunciando o escândalo do mensalão. Agora, me explica, que diferença faz ganhar R$ 30 mil por mês do PT para ser um aliado fiel ou ganhar R$ 4 milhões de uma vez só como já confessou Roberto Jefferson, ‘parlamentar desde o governo do presidente Figueiredo’? É esse o novo arauto da moralidade? Estou pronto para ouvir todas as denúncias do parlamentar Roberto Jefferson. Mas há lugares mais adequados que a arena do ‘Roda-viva’. Um tribunal, por exemplo.


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A crise política tem abafado a crise cultural, que se mostra mais viva do que nunca. O cancelamento do Projeto Pixinguinha por falta de aporte financeiro do Governo não é um escândalo das proporções do mensalão, mas é um escândalo. Mais escandalosa ainda é a declaração do secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira, sobre o episódio: ‘Só conseguimos pagar as despesas fixas e ações como o ano do Brasil na França, para impedir que paguemos um mico histórico. Do jeito que está, a existência do ministério não se justifica. Já empenhamos 92% do orçamento de 2005. O que está acontecendo com o Pixinguinha vai estender-se a tudo o que fazemos.’ Em outras palavras, tá ruim, mas vai ficar pior.


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Ainda dentro da crise cultural, alguns dos principais museus do país estão fechados há mais de dois meses pela greve de seus funcionários. O Rio já não viu as últimas exposições do Paço Imperial e do Museu Nacional de Belas Artes e está ameaçado de não ver as próximas, entre elas, a retrospectiva de Henry Moore (programada para o Paço), sem dúvida, a exposição mais importante do ano. O ministro Gilberto Gil costuma se orgulhar de sua política de museus. Mas, vem cá, para que serve uma política de museus quando a política do governo mantém os museus fechados?


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Junho já está acabando e, até agora, o Teatro Municipal não anunciou sua programação para o segundo semestre de 2005. Tudo indica que a programação de julho, se é que vai haver programação em julho, será feita na base do improviso.


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Há algo de estranho acontecendo com o preço dos ingressos da Rede Municipal de Teatros. Nas salas administradas pela Prefeitura, sempre se cobrou o ingresso mais barato do teatro carioca. Além do preço de R$ 1 cobrado no último domingo de cada mês, uma peça em cartaz em teatro do município custava sempre R$ 10 ou, no máximo, R$ 15. Mas vocês já viram quanto está custando o ingresso de ‘As absorventes’, em cartaz no Teatro Glória? R$ 20! ‘No conjugado’, no Espaço Cultural Sérgio Porto, também custa R$ 20!! E ‘Os adoráveis sem-vergonhas’, no Café Pequeno, sai por R$ 25!!! São preços mais caros que nos teatros do CCBB ou nos teatros do Espaço Sesc.


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Como todo mundo sabe, eu não vejo mais novelas. Mas dona Candoca vê para mim. E, ultimamente, a septuagenária espectadora anda encasquetada com o comportamento de Creusa, a personagem de Juliana Paes em ‘América’. Creusa banca a carola, mas está sempre mostrando sua lingerie vermelha para os peões de Boiadeiros. É aí que dona Candoca se indaga: ninguém na casa de Neuta ainda descobriu as peças íntimas de Creusa. Sendo assim, onde Creusa lava sua lingerie?’



Silvana de Freitas


‘Fonteles diz que livrou Lula de investigação ‘, copyright Folha de S. Paulo, 22/06/05


‘O procurador-geral da República, Claudio Fonteles, disse que livrou o presidente Lula da investigação que abriu na semana passada para esclarecer as acusações feitas pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson, em entrevistas à Folha.


Fonteles disse que decidiu não envolver Lula na apuração nem notificá-lo para que desse explicações porque, nas entrevistas, o próprio Jefferson o havia isentado de responsabilidade.


Depois que um repórter insistiu na questão, indagando se não seria o caso, mesmo assim, de pedir informações a Lula, Fonteles disse: ‘Quem julga, quem investiga não é você, sou eu.’


Os alvos da investigação da Procuradoria são o suposto pagamento de ‘mensalão’ e a transferência de R$ 4 milhões do PT para o PTB.


Fonteles revelou que pedira explicações não só a deputados mas também a ministros citados por Jefferson. Disse que já recebeu explicações de Antonio Palocci e de outros políticos, sem citar quais, e que o prazo para as respostas se encerra na segunda.’



Marco Aurélio Weissheimer


‘O silêncio tucano e uma possível lição’, copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 22/06/05


‘Na entrevista ao Roda Viva, Roberto Jefferson denunciou, entre outras coisas, a existência de caixa-dois na campanha de FHC. Tucanos destacaram gravidade das outras denúncias, mas silenciaram sobre esta. Entre silêncios e escolhas, Jefferson talvez tenha algo a nos ensinar.


‘Que conversa é essa? Estou estranhando tudo isso. Parece que estamos num convento de freiras. Pensei que fôssemos discutir aqui financiamento de campanhas políticas. Vocês sabem disso tudo que estão me perguntando’. As declarações do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) causaram um visível constrangimento entre os jornalistas que participaram do programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de segunda-feira. De repente, de modo inesperado, Jefferson diz que o ex-banqueiro José Eduardo Andrade Vieira (e futuro ministro), do falecido Bamerindus, foi um dos financiadores ‘por dentro e por fora’ da primeira campanha de Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Tinha caixa dois sim senhor e vocês sabem disso, disse o petebista em tom desafiador aos jornalistas. O apresentador do programa, Paulo Markun, chamou o intervalo e na volta nenhum jornalista quis tocar no assunto, apesar do desafio de Jefferson e da provocação ao chamá-los de freiras.


Provocado por Jefferson e movido pelo famoso espírito investigativo da profissão, algum jornalista poderia ter perguntado: deputado, o senhor disse que o PTB passou dinheiro para o PSDB pelo caixa dois; quanto foi passado? quando isso ocorreu precisamente? quem eram os operadores desse repasse; qual era a origem do dinheiro? As perguntas não foram feitas, apesar de o deputado insistir que estava disponível para falar sobre o assunto.


Enfim, a denúncia sobre a existência de caixa dois na campanha de FHC passou praticamente batida na cobertura da mídia, no dia seguinte ao programa. A Agência Estado fez uma rápida referência ao tema no final de uma matéria sobre o Roda Viva. Menos contida, a Agência Reuters destacou no título de uma matéria que ‘Jefferson admite que repassou verbas ilegais ao PSDB’. E reproduz outro trecho da fala do petebista: ‘num primeiro momento, houve repasse do PTB para o PSDB na campanha do presidente Fernando Henrique. Uma parte foi declarada’. A outra parte, segundo ele, não foi declarada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ao ser indagado se estava fazendo uma denúncia, o entrevistado foi didaticamente claro: ‘Eu estou afirmando a você’. ‘Mais tarde, segundo ele, o PSDB destinou dinheiro ao PTB sem registro na Justiça Eleitoral’, lembrou nesta terça-feira a Folha de São Paulo.


Selecionando acusações e gravidades


Estranhamente, ninguém quis mais falar sobre o assunto. Nesta terça-feira, o site oficial do PSDB fez uma abordagem curiosa sobre a entrevista. Em uma nota intitulada ‘Nova entrevista traz mais detalhes sobre o mensalão’, a Agência Tucana dá total credibilidade ao entrevistado dizendo que ‘as declarações do deputado Roberto Jefferson no programa Roda Viva apresentado pela TV Cultura reafirmaram as relações espúrias entre o PT e a base aliada’. O deputado Alberto Goldman (SP) diz que ‘além de confirmar as denúncias que já haviam sido feitas, ele trouxe mais detalhes sobre os esquemas de corrupção’. De fato, trouxe, como, por exemplo, a denúncia sobre a existência de um caixa dois na primeira campanha de FHC. Goldman e a Agência Tucana silenciam sobre esse tema, selecionando estrategicamente aquilo a que querem emprestar credibilidade. Na mesma linha, o tucano mineiro Rafael Guerra afirma que as acusações de Jéferson são ‘da maior gravidade’. Quais acusações? Guerra também escolhe as que interessam ao seu partido e silencia sobre o resto.


Coube ao presidente nacional do PSDB, senador Eduardo Azeredo (MG), comentar a denúncia de Jefferson. ‘Não tenho conhecimento. Essa é mais uma lamentável tentativa de desviar o foco. O PSDB nada tem a temer e já respondeu quando foi acusado injustamente pelo PT’, afirmou, acrescentando que todas as contas do partido foram aprovadas pela Justiça Eleitoral. ‘Na posição de réu, Jefferson partiu para o ataque. Cabe à Comissão de Ética da Câmara apurar tudo’ disse ainda Azeredo. Ou seja, o PSDB deve chegar a um acordo sobre se as denúncias do ex-presidente nacional do PTB são críveis ou não. Se todas devem ser investigadas, ou só algumas? Ou se só valem aquelas feitas ao PT e a outros partidos?


O silêncio dos inocentes?


Se cabe à Comissão de Ética ou à CPI apurar tudo, como disse o presidente do PSDB, que sejam apuradas todas as denúncias de Jefferson. O primeiro problema é a, até aqui, ausência de provas além do testemunho do dito cujo. O segundo, e não menos sério, é que a postura do denunciante, que decidiu ‘sublimar o mandato’, atira para todos os lados e denuncia o que chama de hipocrisia geral da classe política e da mídia. É uma postura desestabilizadora. Todos sabem disso que estou falando, repetiu ele várias vezes. Em alguns momentos, os jornalistas ficaram visivelmente constrangidos, sem saber direito o que fazer e o que perguntar. Jefferson também referiu o episódio da votação, no Congresso, da possibilidade de reeleição de Fernando Henrique, quando também ocorreram denúncias de compras de votos. Nenhuma pergunta também sobre isso. Silêncio. Para os tucanos, obviamente, todas essas denúncias são absurdas e caluniosas. Ou, dito de outro modo, todas as denúncias de Jefferson são graves e devem ser investigadas, com exceção daquelas dirigidas ao ninho tucano. Simples, assim.


Essa postura ficou exemplificada de modo marcante também no site Primeira Leitura, ligado ao PSDB. O texto sobre a participação de Jefferson no Roda Viva simplesmente omitiu a referência às transações entre PTB e PSDB, mencionadas pelo deputado carioca. ‘A frase mais bombástica referiu-se ao tamanho do esquema de corrupção no governo Lula. Segundo o presidente licenciado do PTB, ‘é muito maior do que o esquema PC’, que seria amador na comparação com o montado pelo PT’, afirmou o Primeira Leitura. Nenhuma palavra sobre a disposição do entrevistado, recusada pelos jornalistas, de falar sobre um suposto caixa dois na campanha eleitoral de FHC, ou sobre a votação da reeleição. O silêncio dos inocentes, ou dos conventos, como talvez preferisse dizer Jefferson. Nada de novo, exatamente. Hipocrisia, cinismo, manipulação de informações. A vida real é assim, todos vocês sabem disso, repetiu lá pelas tantas Roberto Jefferson aos jornalistas. Se é assim, será que esse episódio todo tem algo a ensinar para aqueles que insistem em tentar construir uma verdadeira democracia no Brasil?


Uma possível e incômoda conclusão


Roberto Jefferson já serviu a vários senhores neste país, mas sempre a mesma classe. É um homem de direita, convicto, e não faz nenhuma questão de esconder isso. Agora, é também uma verdadeira caixa-preta, disposta a denunciar a hipocrisia e o cinismo geral, inclusive o próprio. As repercussões seletivas e silêncios sobre o conteúdo de sua entrevista dizem muito sobre aquilo mesmo que está denunciando. É um depoimento para ser visto e revisto, não apenas pelo que diz como também pelos silêncios e escolhas de ênfases que provoca. Silêncios e escolhas que podem ser muito reveladores acerca da natureza do pacto de poder que faz do Brasil um país para muitos poucos.


Entre as conclusões possíveis de todo esse episódio, aqui fica uma sugestão: nenhum projeto político que se pretenda genuinamente democrático pode (ou talvez seria mais apropriado dizer ‘deve’?) depender de um Roberto Jefferson para se sustentar. O mundo de hipocrisia e cinismo em que ele sempre viveu e que agora denuncia é auto-destrutivo. Até pode ter êxito no curto prazo, mas a fatura final é salgada e quem paga o preço é o povo, a idéia de democracia e da política como uma atividade necessária para emprestar sentido à vida. Não é difícil prever qual seria o comentário de Jefferson a essa sugestão de conclusão: ‘que conversa é essa? Parece que estamos num convento de freiras. Vocês todos sabem como tudo isso funciona’. Bem, se é assim, que cada um reflita sobre suas escolhas e silêncios, então, e assuma a responsabilidade por isso.’



Rodrigo Morais


‘Testemunha diz que mentiu à ‘Veja’ ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 22/06/05


‘VAIVÉM: O ex-presidente do IRB Lídio Duarte disse ontem à Polícia Federal que mentiu à Veja. Ele relatara à revista a cobrança de uma mesada de R$ 400 mil por parte do deputado Roberto Jefferson. O emissário da cobrança teria sido o empresário Henrique Brandão, dono da corretora Assurê. Ontem, Duarte foi ouvido pelo delegado Luís Flávio Zampronha, na PF do Rio . No primeiro depoimento, ele negara a existência da entrevista. Como a revista apresentou à polícia uma fita com a gravação do diálogo telefônico entre ele e um repórter, Duarte foi chamado à PF para novo depoimento. Dessa vez, admitiu ter conversado com o repórter, mas alegou não saber que se tratava de uma entrevista. Ele não tinha conhecimento de que estava sendo gravado. Com o recuo de Duarte, a PF perde uma de suas principais provas testemunhais no inquérito que investiga corrupção no IRB. Zampronha cogitou indiciar Duarte por falso testemunho, mas, como ele se retratou, isso não deve acontecer.’



Eduardo Kattah


‘Ex-secretária denuncia ameaça e confirma que Valério operava mesada ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 22/06/05


‘A ex-secretária Fernanda Karina Ramos Somaggio voltou a acusar seu ex-patrão, o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, sócio da SMPB Publicidade e DNA Propaganda, de Belo Horizonte, de levar malas de dinheiro para reuniões políticas em Brasília. Karina fez a denúncia ao Jornal Nacional, da Rede Globo. Na semana passada, em depoimento à PF, ela desmentira as declarações prestadas à revista IstoÉ Dinheiro.


Ela disse no início da noite ao Estado que confirmará todas as declarações se for chamada a depor nas investigações sobre o mensalão. Karina relatou encontros suspeitos do ex-patrão com dirigentes petistas, principalmente com o tesoureiro Delúbio Soares e com o secretário-geral Sílvio Pereira. Segundo ela, Marcos Valério também tinha comunicação direta com o ex-ministro José Dirceu.


Segundo seu advogado, Rui Pimenta, no mesmo dia em que as entrevistas foram veiculadas, Karina foi abordada na rua por um motoqueiro, que ameaçou seqüestrar sua filha de 11 anos se ela confirmasse as declarações à Polícia Federal. Karina contou que ficou ‘com muito medo’. No depoimento à PF, então, resolver negar tudo.


A ex-secretária disse que decidiu confirmar a versão inicial depois de ser orientada por seu novo advogado. Pimenta assumiu o caso na sexta-feira, substituindo Leandro Macedo Poli. ‘Hoje eu tenho um advogado para o qual eu contei tudo. Exatamente tudo que eu sabia e ele disse que eu não tinha motivo para mentir nem para deixar de falar’, disse. ‘Eu precisava de uma pessoa para me dar um norte. Eu estava perdida e meu advogado (anterior) também’.


MOTIVAÇÃO


Karina, que se manteve reclusa desde a divulgação das entrevistas, afirmou que havia sido orientada por seu advogado a não falar com ninguém. Ontem, ela agradeceu a ajuda da imprensa para ‘limpar toda essa sujeira’ e contou que resolveu falar por se sentir indignada com o que viu. ‘A gente vive num país em que metade da população passa fome. Não é justo, eu não acho justo as pessoas roubarem o nosso dinheiro. O dinheiro é nosso, somos nós que pagamos. Sabe, eu acho que o brasileiro tem de aprender a cobrar.’


PROCESSO


Karina está sendo processada por Marcos Valério, por suposta tentativa de extorsão. Ela julga que o processo é uma forma de intimidação e rebateu a acusação: ‘Não tem nada verdadeiro. Eu nunca liguei para ninguém, eu nunca pedi nada para ninguém. Mesmo porque eu trabalho, eu sou digna, não preciso disso’, enfatizou.


Karina disse estranhar a rapidez com que a ação impetrada por Marcos Valério tramitou na Justiça mineira. ‘Em termos de Brasil, foi extremamente rápido. Em menos de um mês já estava nas mãos do juiz.’


Na sexta-feira, Marcos Valério a acusou de ‘delito de furto qualificado, sob a modalidade de abuso da confiança’. Na petição encaminhada à 6.ª Vara Criminal de Belo Horizonte, o advogado Paulo Sérgio Abreu e Silva solicitou que a Justiça requisite à PF cópias da agenda e do depoimento prestado pela ex-secretária.


Ele alega que um documento estampado na reportagem da IstoÉ Dinheiro a respeito do pagamento feito ao ex-ministro das Comunicações Pimenta da Veiga é uma ‘prova inconteste’ de furto, pois teria sido ‘subtraído pela denunciada dos arquivos da SMPB’.


Na entrevista à revista, Karina disse que a SMPB pagou R$ 150 mil ao ex-ministro. Pimenta da Veiga confirmou que prestava serviços advocatícios à empresa e que recebeu parcelas de R$ 75 mil em pagamento.


Demonstrando tranqüilidade, Karina disse que está tentando retomar sua vida normal. Desde a divulgação das entrevistas, ela não compareceu ao trabalho, na empresa Gesol Geologia e Sondagens, no bairro Olhos D água, onde trabalha como secretária.


Nesse período, ela se manteve reclusa em casa, com o marido e a filha, que só ontem voltou a freqüentar a escola. Durante esses dias, ela diz ter sido apoiada pelos ‘amigos de verdade’.’



O Globo


‘Ex-secretária confirma malas de dinheiro’, copyright O Globo, 22/06/05


‘Fernanda Karina Ramos Somaggio, ex-secretária do publicitário Marcos Valério, confirmou ao ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo, as denúncias contra integrantes do governo e do PT e as ampliou, dizendo que seu ex-patrão, acusado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB) de ser o homem que levou malas de dinheiro para o PTB, conversou algumas vezes com o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, e que falava quase diariamente com o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e com o secretário-geral do partido, Sílvio Pereira.


– Confirmo que vi várias negociações na agência entre o senhor Marcos (Valério), o senhor Delúbio (Soares) e o senhor Sílvio Pereira – disse ela ao ‘Jornal Nacional’. Ela confirmou ontem as informações que negara em depoimento à Polícia Federal sobre o papel do publicitário no suposto esquema do mensalão. Fernanda Karina disse que, por ter sido ameaçada por um motociclista na rua, depois de publicada sua denúncia na ‘IstoÉ Dinheiro’, teve medo e recuou. Por orientação de seu novo advogado, disse ontem, resolveu confirmar o que dissera à revista.


Fernanda Karina disse que Marcos Valério, antes de se reunir com Delúbio e Sílvio Pereira, pegava dinheiro no departamento financeiro da agência SMP&B, da qual ele é sócio.


– Quando ele (Marcos Valério) saía para as reuniões, antes de sair ele passava no andar de baixo, no departamento financeiro, e saía com a mala. Eu acredito que tinha dinheiro (na mala). (Ele levava para reuniões) Com o pessoal do PT. Eu sabia que o dinheiro ia para Brasília, e eles distribuíam lá, mas para quem, quando e onde, ele não falava. Era entre eles.


Perguntada se achava que o dinheiro se destinava ao pagamento do mensalão, Fernanda Karina disse achar que sim.


– E quem faria essa entrega do dinheiro? – perguntou o repórter do ‘Jornal Nacional’.


– O senhor Delúbio.


A ex-secretária reafirmou o que dissera sobre o uso de avião do Banco Rural por parte de Delúbio. Contou que o publicitário mantinha contato com o então chefe da Casa Civil, José Dirceu. Segundo ela, os encontros com a cúpula do PT eram em hotéis em Brasília e em São Paulo, e que o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) também se encontrava com Valério. E reafirmou a relação do publicitário com o ex-ministro Pimenta da Veiga (governo Fernando Henrique) e com o irmão do ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto (governo Lula).


Proteção paraa ex-secretária


A agência SMP&B negou as acusações. Marcos Valério informou que só se manifestará em juízo. A assessoria de Anderson Adauto informou que a agência do publicitário fez um planejamento para a campanha dele à Prefeitura de Uberaba e que seu irmão esteve na agência para discutir o projeto. Já Pimenta Veiga informou que prestou serviço à SMP&B um ano depois de ter deixado o Ministério das Comunicações. Delúbio Soares e Sílvio Pereira não comentaram a entrevista. Dirceu não foi encontrado por sua assessoria. João Paulo Cunha disse que o publicitário prestou serviço para a campanha do deputado à presidência da Câmara. O Banco Rural informou que o avião nunca foi usado por Delúbio Soares.


Depois da entrevista da ex-secretária à TV Globo, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) pediu e o presidente da CPI, Delcídio Amaral (PT-MS), concordou que a comissão encaminhe ofício ao Ministério da Justiça pedindo que ela e sua família entrem no programa de proteção a testemunhas. A comissão pode antecipar seu depoimento.’



***


‘Fonteles livra Lula de apuração sobre mensalão’, copyright O Globo, 22/06/05


‘O procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, decidiu livrar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva da investigação sobre o pagamento de mensalão a deputados da base aliada. A uma semana de deixar o cargo, Fonteles disse não ver motivos para incluir Lula entre as autoridades investigadas porque o próprio Roberto Jefferson (PTB-RJ), autor da denúncia, já eximiu o presidente de culpa.


– O presidente foi excluído pelo próprio Roberto Jefferson – argumentou Fonteles.


Perguntado se o simples fato de Jefferson ter dito que avisara a Lula sobre a existência do mensalão não seria motivo para pedir esclarecimentos ao presidente, o procurador-geral respondeu:


– Quem julga, quem investiga não é você, sou eu. O Ministério Público é que conduz a investigação.


Fonteles começou a investigar o suposto pagamento de mensalão na semana passada. O primeiro passo foi enviar pedidos de esclarecimento a deputados e ministros citados na entrevista em que Jefferson denunciou o suposto esquema, destinado a arregimentar parlamentares para a base do governo em troca de pagamentos mensais.


Segundo o procurador-geral, o prazo para o envio das respostas termina na segunda-feira. Parte das autoridades intimadas já começou a devolver os questionários. Dos ministros, o primeiro a enviar as respostas foi o da Fazenda, Antonio Palocci.


Comissão aprova novo procurador em sabatina


O ofício do ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, foi remetido ontem ao procurador-geral. No documento, ele confirma ter ouvido, por duas vezes, relatos de Jefferson sobre a existência do mensalão. Um deles foi num encontro com Lula no Palácio do Planalto e o outro, durante uma viagem com o deputado entre o Rio e Belo Horizonte. No ofício a Fonteles, Mares Guia desmente Jefferson ao dizer que não viu Lula chorar após ouvir o deputado petebista contar sobre o mensalão.


No Senado, o subprocurador-geral da República Antônio Fernando de Souza, indicado por Lula para suceder a Fonteles, passou sem problemas ontem pela sabatina da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Após responder às perguntas dos parlamentares, Antônio Fernando teve o nome aprovado por 20 votos a um. Antes de assumir a cadeira, o subprocurador ainda precisará passar pelo crivo do plenário, em data a ser marcada.’



O Estado de S. Paulo


‘‘Financial Times’ avalia que escândalo enfraqueceu Lula e sua base de apoio ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 21/06/05


‘Era de se esperar que o Partido dos Trabalhadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passasse o ano comemorando, em grande estilo, seus 25 anos de existência, afirmou o jornal britânico Financial Times, em sua edição de ontem. Em vez disso, diz o jornal, Lula e o partido, cada um a seu modo, passaram a semana mergulhados em reuniões de emergência para discutir uma solução ao escândalo de corrupção que desfechou a maior crise desde que eles assumiram o poder, em 2003.


No título, a reportagem usa uma expressão do jargão político americano para exprimir a incapacidade do governo em resolver a crise – ‘Lula faces lame-duck presidency in Brazil crisis’. ‘Lame-duck’ (pato manco, na tradução literal) é aplicada a mandatários que estão politicamente enfraquecidos (Cambridge International Dictionary of Idioms) ou que, em razão dos problemas políticos, optam por não se candidatar à reeleição (www.dictionary.com).


O FT relata que um homem-chave na coalizão de governo foi acusado de comandar esquema para arrancar comissões de empresas estatais e, por sua vez, acusou o PT de pagar parlamentares em troca de apoio.


O FT explica aos leitores ingleses que José Dirceu era um dos mais influentes ministros de Lula, mas foi acusado de conhecer o suposto esquema de pagamento aos deputados. Sua saída do governo, diz o jornal, foi decidida num contexto em que ele continuará ajudando a administração Lula à distância.


Segundo o FT, mesmo que as denúncias sejam falsas e a equipe econômica consiga se manter intacta, o governo e sua coalizão (que vai da extrema-esquerda à centro-direita, diz o jornal) se enfraqueceriam consideravelmente. Segundo o FT, as últimas pesquisas ainda apontam o favoritismo de Lula em 2006. Mas o senador Cristovam Buarque (PT-DF) disse ao jornal que se Lula se reeleger terá menos parlamentares do PT no Congresso.’



GOVERNO LULA


Patrícia Villalba


‘‘Governo em crise, cultura paralisada’’, copyright O Estado de S. Paulo, 22/06/05


‘Mal a programação do Ano Brasil na França chegou ao seu ápice – o show que vai reunir diversos artistas brasileiros na Praça da Bastilha, no dia 13 de julho -, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, já prepara a todo vapor o Ano do Brasil na Alemanha. Combinação perfeita com a Copa do Mundo, no ano que vem, o evento vai fazer um apanhado da produção cultural brasileira contemporânea, grande parte dela ligada ao futebol. Nesta entrevista, Gil dá em primeira mão ao Estado os detalhes já acertados com a Alemanha. Fala também sobre o cinema brasileiro, seu assunto mais recorrente, lamenta que a crise política esteja atrapalhando a liberação das verbas do orçamento do MinC e fica com os olhos marejados ao desmentir os boatos de que estaria de saída do cargo. ‘Eu quero ficar’, garante.


O que o sr. pode adiantar sobre o Ano do Brasil na Alemanha?


É a Copa da Cultura. No ano passado, eu fiz uma reunião na Embaixada brasileira em Berlim, com representantes de setores esportivos e culturais da Alemanha. Apresentamos, li a idéia de uma programação brasileira que aconteceria durante a Copa e um pouco antes dela. O projeto está caminhando, com o secretário Sérgio Sá Leitão em contato permanente com eles. Vamos entrar agora na fase de apreciação de projetos. Queremos levar dança, música, teatro, cinema, literatura e associar o máximo possível a dimensão esportiva à produção cultural brasileira. Além disso, a Alemanha também se interessou em fazer uma presença no Brasil neste período. E, para 2008, estamos preparando uma programação para a Espanha.


Há quem chame, de um jeito malicioso, o Ano Brasil na França de ‘Ano da Bahia na França’.


Não, imagine, que Ano da Bahia na França… Até agora, foi a Amazônia, Cícero Dias, que é Pernambucano, a Maria Rita, o Tom Zé, que é mais baiano do que paulista, e vários outros. Se fosse depender do Ano Brasil na França, coitadinha da Bahia. Aliás no meu ministério, a Bahia não tem tido nenhum privilégio. Faço questão disso. Ainda que o senador Antonio Carlos Magalhães me considere da ‘cota baiana’ no ministério. Aliás, ele deveria vigiar um pouco mais o partido dele. O site do PFL me deu o Troféu Crueldade, por supostamente usar verba do ministério para decorar o meu gabinete. É uma vergonha que um site de um partido do porte do PFL faça isso. Olha aí, senador, olho no seu partido.


A crise política pela qual passa o governo está atrapalhando o processo de liberação das verbas do MinC?


Não sei até que ponto a gente é capaz de avaliar uma coisa tão específica.


É que as atenções parecem estar todas voltadas para a crise.


Então, tenho impressão que sim. Qual é a razão pela qual os governos geralmente evitam CPIs e etc? Exatamente por causa da paralisação.


Como o sr. tem visto o episódio?


É assim mesmo, faz parte da vida política. Coisas que vão desde a responsabilidade republicana legítima até uma gama enorme de interesses, como a campanha eleitoral e a conseqüência de um homem do povo ter sido eleito presidente.


O sr. concorda com a avaliação de que o modelo das leis de incentivo caminha para a fadiga?


Até agora, não acreditamos que a lei tenha feito mais mal do que bem. Acho que ela vem suprindo uma deficiência de orçamento que os governos federal e estaduais têm. E se a gente consegue associar cada vez mais a renúncia fiscal à política pública, os malefícios vão diminuindo. A questão é aperfeiçoar o imperfeito. E é o que tem se tentado.


Até no caso do cinema, da Lei do Audiovisual? O sr. acha que é possível o Brasil chegar a uma situação em que o cinema não dependa mais do governo?


Possível é. Vai depender de como caminhamos para isso. O fato de que a gente esteja tentando encontrar fontes de recursos no mercado para financiar a atividade cinematográfica – na produção, na distribuição e na exibição – é um exemplo disso. A criação de fundos específicos para o audiovisual e de linhas especiais de crédito vão no sentido de tentar fazer com que o cinema e o audiovisual se tornem atividades auto-sustentáveis.


O ‘choque de capitalismo’ que o sr. julga necessário para o cinema nacional causou burburinho entre os cineastas.


É isso que acabo de explicar.


O s representantes do ‘cinemão’ entendem que seria o Estado abandonando o cinema às regras do mercado.


Como uma mãe abandona um filho que aprende a andar. Ela deixa de segurar na mão do menino. Foi isso que eu quis dizer. Por que o Estado vai ter de passar a vida inteira subsidiando uma atividade que é de mercado? Há os projetos de desenvolvimento de talentos, de formação de público, que requerem subsídios. Para essas áreas devemos fazer políticas públicas diferenciadas. Agora, o chamado cinema do PIB tem de estar no PIB, né? Quando a gente pensa no fato de que nos últimos três anos, menos da metade dos cento e poucos filmes produzidos no País foi exibida, a autocrítica é inevitável. Os recursos, sejam públicos ou privados, estão sendo preferencialmente empregados na produção. E produzem-se filmes que não são distribuídos. Uma crítica que é feita ao setor de produção é que ele se contenta com a auto-remuneração. Dos orçamentos, sobra pouco para a promoção e distribuição dos filmes.


Como o sr. recebe os boatos de que vai deixar o ministério?


Dizem isso, né? Por irresponsabilidade, para criar frisson, porque querem abrigar intrigas. Tem gente legitimamente insatisfeita comigo e gente legitimamente satisfeita comigo. O cargo é do presidente, não vou ficar agarrado a ele como um carrapato. Posso sair na hora em que quiser, mas não estou pensando nisso.


O reconhecimento internacional como músico tem ajudado no trabalho no Ministério?


Ah, muito. Ainda na reunião dos 70 ministros da Cultura em Madri. A foto que saiu nos jornais mais importantes era da ministra espanhola e do ministro do Brasil. E não é por outra razão senão pelo fato de que eu sou um pop star. É claro que se o processo sinérgico não fosse completo, se o trabalho do ministro não estivesse num patamar de respeitabilidade e produtividade suficiente, não se reverteria nesta sinergia com o artista. Poderia tudo estar dando errado, mas não está dando errado não.


Na sua indicação, houve quem duvidasse da sua capacidade de gestão.


Achavam que eu não tinha gosto, coragem ou talento para não ser ministro. Mas eu tenho uma noção e um gosto geral pela coisa, além de um empenho danado de me fazer presente no que é possível ser. Montei uma equipe competente, de secretários venturosos. Por isso que eu digo que é uma bobagem que eu não quero ficar. Eu quero ficar. E uma das coisas que quero deixar como marca é lealdade e a solidariedade ao presidente Lula. Só saio de lá se ele quiser.’



***


‘Sabatinando o ministro ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 22/06/05


‘Lobão, cantor e compositor – Qual é a posição do MinC em relação ao jabá, o mensalão da música, cobrado nas rádios?


Precisa ser ressalvado aqui o fato de que vem sendo praticado nos últimos tempos o que eles chamam de ‘promoção musical’, através das verbas de promoção. São absolutamente legítimas, pagamentos pela execução, feitos legitimamente. Uma coisa que poderia ser feita para proteger os setores desprotegidos, aqueles que não têm dinheiro para pagar ou que não são contemplados por esse mercado da radiofonia, é entre outras políticas, criar cotas de repertórios marginais.


Leona Cavalli, atriz – O que mudou na cultura na sua gestão?


É muito vasto. Conseguimos sensível melhoria na atuação da Funarte e a Secretaria de Articulação está implantando o Sistema Nacional de Cultura. No audiovisual, apoiamos 90 festivais, fizemos o projeto DOC-TV e Revelando os Brasis é um projeto interessantíssimo de estímulo a criatividade e de talentos locais, de municípios com menos de 20 mil habitantes. Também assinamos acordos de cooperação audiovisual com a Alemanha, Argentina, Austrália, Espanha e França. Temos mais de 200 Pontos de Cultura, instalados ou em fase de instalação. E também o Ano Brasil na França, com pelo menos R$ 30 milhões investidos em projetos que contemplam todas as áreas. Há ainda a criação do Centro Internacional de Indústrias Criativas que está sendo objeto de uma mobilização ampla no mundo inteiro. Pode não parecer nada, mas é muita coisa.


João Marcello Bôscoli, produtor musical – Como o sr. acha que será o mercado de música no futuro?


O mercado de música é extraordinariamente dinâmico. Agora, as gravadoras e editoras estão mobilizadas para abastecer essa interface nova, da música com a telefonia, os ringtones. Isso sem falar no MP3. O que nos traz questões sobre os novos modelos de negócio. E, por outro lado, questões políticas de educação e inclusão, no campo digital. Há toda situação socioeconômica que reflete na questão da música como mercado. Quanto mais acesso aos computadores e à banda larga, mais você terá um país amplamente ligado, acessível e acessado. O futuro aponta para isso.


Sandra Perez e Paulo Tatit, músicos da Palavra Cantada – Considerando que vivemos numa cultura essencialmente urbana, moderna e fortemente influenciada pela cultura americana, como se explica o número cada vez maior de grupos tão tradicionais, de congadas, maracatu, capoeira, etc.?


É tudo duas mãos. É globalização e localização. Local é palavra. Quanto mais cresce a globalização, cresce a dimensão local, que fica mais abastecida de novos meios e técnicas de comunicação. Então, o local pode aparecer fortemente com o global.


Rappin Hood, rapper – Você vê paralelo entre o que foi a Tropicália e o que é hip hop hoje, como movimentos revolucionários?


A gente pode dizer que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas a gente pode dizer também que uma coisa é a mesma coisa, outra coisa é a mesma coisa. A Tropicália abordou a inversão e tradição, tomando partido pela inversão, tentando deslocar a tradição para que ela viesse correr em leitos abertos pela inovação. Com outras abordagens ou usando ainda residuais lingüísticos da época do tropicalismo, o hip hop vem retrabalhando essas coisas.


Moacyr Scliar, escritor – Qual é a herança do tropicalismo?


O tropicalismo foi o último movimento moderno e o primeiro movimento pós-moderno. Ele tratava de alavancar uma complementação de modernização da vida cultural brasileira, mas já operava no plano da fragmentação. ‘O tempo explode e as migalhas caem todas sobre Copacabana’, fechando a Semana de 22 e abrindo a Semana de 2022.


Yacoff Sarkovas, consultor de patrocínio empresarial – A chamada retomada do cinema brasileiro é financiada pela Lei do Audiovisual, que permite ao menos 124% de dedução fiscal. Por que o Ministério da Cultura mantém um instrumento de financiamento público tão perdulário, injusto e ineficaz?


Porque ainda não se conseguiu dispor de outro. Claro que há uma perversão da lei, mas descontinuá-la subitamente provocaria um colapso na produção. Portanto, achamos que há margem de correção nesse mecanismo. Eu prefiro assim. Outro ministro poderia chegar a simplesmente acabar com a lei. O Sarkovas tem toda a razão. Mas Roma não se fez em um dia e não sou eu que vou fazer.


Fernando Meirelles, cineasta – Quando o sr. vai lançar um novo disco?


Vai ser um disco de samba. Tenho pelo menos oito sambas escolhidos, que eu venho cultivando em casa. Estou tratando disso, à la João Gilberto. Quando eu vou gravá-los, não sei. Tem um samba novo, A Máquina de Ritmo, e deve ter outros.


Fernanda Young, escritora – Sendo um homem tão íntegro, o senhor não se sente em nenhum momento constrangido em participar da ‘instituição governo’, que muitas vezes nos parece tão patética?


Fernanda, a minha integridade é feita de dois. Sou filho de uma mãe e de um pai, as energias da minha vida são produzidas por um sol e uma lua, eu vivo a minha vida nas minhas noites e nos meus dias, tenho ao meu redor o bem e o mal e tenho dentro de mim o bem e o mal. Além do mais eu aprendi na cartilha da tolerância, no dar a outra face. O meu mandamento principal é o não julgueis. Então, eu não julgo. Vou para o meio dos políticos, dos empresários e dos poetas e trato todos de maneira igual. Escolhi ser assim.


Roberto Farias, cineasta – O cinema nacional precisa de mais recursos ou é necessário aplicá-los melhor?


As duas coisas. Quanto mais você aplica, maior a produtividade. Agora, vamos argumentar que o cinema sempre será uma área frágil e desprotegida e que o governo terá de tratá-lo com privilégios. Tudo bem. Mas sem a perspectiva de que a criança vá andar com as suas próprias pernas, enquanto George Lucas está por aí fazendo US$ 2 bilhões com cinema bom? O Brasil precisa de uma indústria criativa de cinema. Se os cineastas não acham isso, problema deles.


Zé Celso Martinez Corrêa, dramaturgo – O Grupo Silvio Santos deve iniciar as obras de seu shopping, o que vai impedir o Teatro Oficina de seguir com Os Sertões. Aguardamos o tombamento do prédio pelo Iphan. Na urgência da situação, o ministro entraria em cena?


O ministério já vem ajudando muito. O Iphan está colado no Zé Celso há um ano e meio tentando garantir seu espaço. Mas é evidente que eu posso intermediar esse diálogo, até porque são duas pessoas que eu prezo. A última vez que estive com o Silvio Santos ele me deu um beijo na boca.’



PRÊMIO CABOT


O Globo


‘Míriam Leitão é premiada nos EUA’, copyright O Globo, 22/06/05


‘A colunista Míriam Leitão, do GLOBO, ganhou o prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade Columbia, um dos mais tradicionais do jornalismo. Criado em 1938, o Cabot Prize é concedido a jornalistas dos Estados Unidos e da América Latina que tenham contribuído para o entendimento entre as Américas e para a defesa da liberdade de imprensa. Segundo Rosental Calmon Alves, professor de Jornalismo da Universidade do Texas e membro do conselho que aprovou os vencedores este ano, o prêmio é uma consagração à carreira de um jornalista.


– O prêmio não é para uma cobertura ou reportagem específica. O júri ficou impressionado com as matérias da Míriam e com seu talento multimídia. Ela trabalha muito bem em veículos diferentes como o jornal, a TV e o rádio. Além disso, demonstra uma preocupação social muito importante – elogia Rosental.


O correspondente da ‘Newsweek’ no Brasil, Mac Margolis, que indicou o nome da colunista para o Cabot Prize, afirma que Míriam Leitão contribuiu para tornar a informação econômica mais acessível:


– Ela escreve de forma clara e atraente, tornando compreensíveis aos leigos assuntos complexos.


Emocionada, a jornalista disse que o prêmio é um estímulo à sua persistência na defesa de causas sociais.


– É um momento em que se olha para trás e se vê que valeu a pena enfrentar todas as dificuldades. Estou muito feliz – diz.


O prêmio será entregue num jantar de gala na Universidade de Columbia em 20 de outubro. A jornalista ganhará U$ 5 mil. O GLOBO receberá uma placa de bronze. Do GLOBO, já venceram o Cabot Prize os jornalistas Roberto Marinho e Herbert Moses.’


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